Capítulo 3

Quarenta minutos foi o tempo necessário para que todos os agentes da equipe Alfa estivessem reunidos na sala. Ninguém emitia som algum, o que era muito estranho, pois em geral fazemos muito barulho quando estamos juntos. A equipe era composta por: mim, o líder; Date Masamune, o cara das festas – responsável pelo equipamento; Sasuke Sarutobi, um rapaz descolado e gênio de ideias – responsável pelas estratégias; Keiji Maeda, um cara que só dorme e o pouco tempo acordado fica contando piadas – responsável pela elaboração de mapas; Saika Magoichi, a tigresa assustadora, como todos a chamam – responsável pela munição; Motonari Mori, o senhor certinho – responsável pela documentação e criptografia; Motochika Chosokabe, um mano sarcástico e que adora chamar atenção e é envolvido com todo tipo de tráfico absurdo – responsável pelo armamento; e finalmente Ishida Mitsunari, um cara assustador que quase nunca abre a boca ou emite algum som – responsável pela execução silenciosa. E quase me esqueço dele: Ieyasu Tokugawa, o jovem estagiário – responsável por disfarces e atualização de informações.

Olhei para Keiji, para ver como estava e ele simplesmente dormia como sempre. Mas tive certeza de que já sabia de tudo e estava apenas disfarçando.

O Grande Oyakata-sama entrou na sala.

- Silêncio, por favor – ele ordenou. Era óbvio que aquela ordem não era necessária, mas era um hábito sua chegada no meio de tamanho falatório. Mas como já devem ter percebido: tudo naquele dia estava estranho – Ordenei esta reunião para lhes revelar que Toyotomi Hideyoshi foi assassinado nesta madrugada.

Finalmente as vozes ressuscitaram! Foi uma explosão de queixas e "Como? Quando? Onde? Por que?" que não era possível distinguir as vozes. Oyakata-sama apenas fez sinal com as mãos para que se acalmassem e todos voltaram a ficar em silêncio.

- Essas são as perguntas que VOCÊS terão que investigar. Por isso reuni-vos aqui.

- Me intriga saber que o Yukimura nos certificou de que o Ministro estava em ótimas mãos... – Ishida falou e eu senti vontade de voar em seu pescoço.

- Sim, ele havia nos dito que a melhor equipe de soldados ficara responsável por sua segurança – Motonari completou. Ele era como um colega nerd de classe que soltava suas críticas sem querer parecer "chato", mas sempre era chato. Tenho certeza de que em seus tempos de escola ele costumava fazer coisas como "perguntar ao professor sobre o trabalho que ele havia passado quando todos os demais alunos haviam esquecido do mesmo".

- Mas até a melhor equipe do mundo, sendo formada por humanos, pode ser falha – por incrível que pareça aquele comentário fora dirigido por Ieyasu. Pela primeira vez na vida senti-me grato a ele.

- Você está certo Tokugawa – disse Oyakata-sama – E como Yukimura me alertou: devemos lembrar de que a última Avaliação Mundial de Qualidade foi feita em 2010, e desde então, não tivemos mais como saber sobre outras Companhias que possivelmente estivessem crescendo no mercado.

- Isso me parece uma mera desculpa... – disse Ishida.

- Cale a boca e deixe o chefe falar! – Motochika reclamou. Chosokabe era alto, de cabelos brancos arrepiados, que amava cigarros e palavrões. Ele me assustava às vezes com sua postura de "chefe de boca", mas suas intenções sempre eram as melhores. Ele também poderia parecer um tio legal que ninguém sabe sobre sua vida, mas que nunca se esquece de dar presentes aos sobrinhos; apenas de ninguém saber a origem de toda sua fortuna.

- Agradecido, Motochika – disse o chefe.

- Disponha – o tio da grana acenou.

- Pois bem: vamos nos reunir para investigar isso e apurar os fatos. Alguma pergunta?

Todos levantaram a mão. Surpreendi-me ao perceber que também levantara minha mão sem perceber. Foram longos minutos de debates sobre possíveis causas, perguntas como "O senhor acredita que possa ter algo a ver com Oda Nabunaga?" e respostas como "Ainda não podemos afirmar nada, Saika". Quando finalmente todas as dúvidas foram tiradas sobre nossas próximas ações, Date, Saika e eu estávamos indo para Callsincity, o luxuoso bairro onde Hideyoshi dormia com sua família. Os demais foram verificar outras coisas.

A perícia já estava no local, demarcando os cômodos com suas costumeiras faixas amarelas. Sacos plásticos foram distribuídos a todos os agentes, para isolarmos nossas digitais. De longe pude reconhecer algumas pessoas como o Chefe da Criminalística, Hisahide Matsunaga e o Legista Hōjō Ujimasa.

- Oh, chegaram finalmente – Hisahide aproximou-se tristemente e necessitando urgentemente de algumas horas de sono – A perícia já coletou as evidências e o senhor Ujimasa atestou a causa da morte como sendo "morte por envenenamento".

- Como sabem que foi homicídio? – perguntou Date.

- Simples: o senhor Hideyoshi nunca iria fazer algo assim... Não depois de lutar tanto para conseguir a posse do cargo de Ministro. Além disso, sua passagem no exército nos mostra que seu espírito militar prefere morrer em combate do que fora deste.

- Então é mais uma questão de paz de espírito do que qualquer outra coisa – Date cochichou para mim.

- E esse povo todo? São conhecidos? – Chosokabe perguntou apontando o cigarro para a equipe da criminalística. Saika olhou incrédula pra ele – Que foi? Meu professor da academia me atormentou muito sobre esse quesito: "Sempre desconfie de todos numa investigação de homicídio" – e deu uma tragada para cobrir o rosto de fumaça.

- Desculpe senhor Chosokabe, mas não pode fumar no local do crime – avisou Matsunaga.

- Mas você não disse que já tinham coletado tudo? Ah, ok, ok. Parei! – disse o grandão em meio a todos os olhares de repreensão.

- Bom, e vocês já possuem alguma ideia do possível suspeito? – perguntei ignorando Chosokabe.

- Não, ainda não pudermos apurar nada. Mas um fato interessantíssimo chegou a nossos ouvidos e creio que ajudará nas investigações.

- O que? – todos nós perguntamos em uníssono.

- Faz três dias que a família Hideyoshi começou a receber inúmeras mensagens de ameaças.

- Como assim? – questionei incrédulo – Como ninguém deu queixa sobre isso? Como souberam disso?

- A mulher dele foi quem nos revelou. Não deram queixa antes porque acreditaram ser blefes para causar pânico e pressão sobre Toyotomi. Além disso, eles não queriam dar alarme falso caso caísse na boca do povo. A candidatura de Toyotomi fora baseada na ideia de "Segurança e tranquilidade a todos os cidadãos". Se boatos sobre ameaças a família Hideyoshi vazassem, tudo estaria perdido para ele.

- Bom, isso é. Mas ainda acho que eles foram irresponsáveis não dando queixa sobre isso – conclui este último comentário e segui Matsunaga adentro do imóvel. Era majestoso e de muito bom gosto. Havia uma paz emanando naquele ambiente, que me deixava tranquilo. Uma tristeza subitamente tomou conta de mim: aquele homem não merecia esse fim trágico. Então não pude deixar de pensar na família Hideyoshi. Como estariam lidando com isso tudo?

Matsunaga passou todas as hipóteses para nós e explicou tudo que a perícia havia apurado; o que não era muita coisa. Deixei Date, Saika e Chosokabe ouvindo o resto da explicação e pedi a um policial muito jovem que me levasse até a família Hideyoshi. Confesso que a resposta me deixou um pouco atordoado:

- A família dele está em Ozasko, num chalé nas montanhas.

- E estão sob alguma proteção? – tratei logo de perguntar.

- Sim, senhor. Amanhã os soldados estarão trazendo-os de volta.

- Certo. Então não há ninguém como testemunha por aqui...

- Na verdade há senhor.

- Que?

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Subi aos pulos para o sótão. Entrei no quarto arejado, revestido de papel de parede florido, colcha de lã azul e retratos de gatos. A um canto, olhando pela pequenina janela, havia uma senhora sentada numa cadeira de balanço. Aproximei-me para visualizar seu rosto: ela era extremamente idosa e tinha o olhar perdido no infinito. Seus cabelos prateados estavam presos em um coque impecável, mostrando que ela era bem cuidada.

- Senhora Hideyoshi? – perguntei com cautela. Ela se quer piscou. Por instantes achei que estivesse mudo, mas continuei. – Senhora Hideyoshi? – ainda silêncio.

- Não adianta senhor Yukimura – disse o jovem policial parado na porta – Ela realmente não fala nada...

Olhei para a senhora por mais alguns segundos: ela continuava sem piscar. Levantei-me decido e passei pelo policial na porta ignorando-o. Cheguei até Matsunaga e gritei:

- Por que diabos ninguém me avisou que havia uma testemunha?

- O que? – Matsunaga e pareceu surpreso. Date, Saika e Chosokabe olharam de mim para Matsunaga, tentando entender.

- A senhora Hideyoshi, Hisahide! A mãe de Toyotomi!

- Ora, não falamos dela porque é uma testemunha inútil. Ela não fala nada há décadas e faz tratamento psiquiátrico com o Doutor Imagawa Yoshimoto.

- Ela é SIM uma testemunha importante! Mesmo sem falar, ela pode nos dizer algo!

- Ele tem razão – Saika finalmente falara algo – Qualquer criatura é tida como testemunha. Até animais de estimação servem como testemunhas. Por que não uma senhora?

- Hunf, estou dizendo que é inútil – alegou Matsunaga – Ela mal respira, quanto mais vê as coisas. Só continua viva porque o senhor Toyotomi tinha grande coração.

- Não me interessa isso, Hisahide! Vamos interrogar a senhora Hideyoshi!

Saí outra vez decidido e os três agentes vieram atrás de mim.

- E como pretende fazer isso, cara? – Date perguntou preocupado.

- Ainda não sei, mas farei isso de qualquer forma possível – respondi.

- Tem certeza que ela é muda? Porque já vi muita gente se fingir de muda pra não se meter em encrenca – Motochika perguntou inocentemente. Todos nós paramos repentinamente e encaramos Chosokabe.

- O que foi que você disse? – questionei.

- É cara. Já interroguei muita gente que se fingia de mudo. Fomos descobrir quando trouxemos um especialista em libras e a pessoa não soube se comunicar – Chosokabe riu da própria história, mas Date, Saika e eu permanecemos encarando-o – Que foi? Disse alguma coisa errada de novo?

- Não Motochika! – exclamei – Isso é uma hipótese realmente boa!

- O único problema é descobrirmos COMO descobrir se ela fala ou não... – comentou Saika com decepção.

- Pena que é uma senhora, porque conheço métodos de tortura realmente eficazes! Mais eficazes que uma poção mágica da verdade! – Motochika exclamou batendo com o punho na própria mão. Date sentiu um calafrio imaginando as inimagináveis formas de tortura de Chosokabe, mas Saika pareceu se tocar de algo.

- É claro! Poção mágica da verdade! – ela disse para si mesma.

- Ah, fala sério! – Date indignou-se – Você mais do que ninguém deveria saber que essas coisas não existem!

- Mas é claro que existem, Date! – finalmente eu havia entendido a ideia de Saika.

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Date e Chosokabe permaneceram no lugar e Saika e eu voltamos para a SiSe. Saika sentou-se no banco da frente antes que eu pudesse dizer "sente-se". Fiz uma careta ao vê-la sentar-se no lugar da minha mulher e imaginar como esta reagiria com o cheiro de outra mulher no meu carro. Quando Saika perguntou o que eu tinha por causa da careta, desconsertei e disse que era apenas dor de barriga.

Entramos no prédio e o bat-mordomo veio nos atender. Dispensei-o como de costume e segui pelo caminho que dava para o laboratório químico. Mas Saika entrou na minha frente, pós as mãos em meus ombros para me parar e me encarou cara a cara:

- Está doido? Não podemos entrar assim, direto!

- Por que não?

- Esqueceu que estamos atrás de uma substância proibida?

- Se fosse proibida não teríamos no nosso laboratório!

- Só existe uma quantidade mínima que é usada apenas para comparação de amostras. Além disso, corremos o risco de desperdiçar o mínimo que temos em uma hipótese que pode ser falha.

Apesar de relutar, tive que concordar.

- Então o que faremos? – perguntei.

- Vamos ter que pegar de outro lugar.

- O que você quer dizer com "pegar" ? – perguntei já sabendo a resposta.

- Roubar é claro! Mas temos que confiar essa tarefa a alguém de extrema confiança e que teremos certeza de que não abrirá o bico. Ninguém pode saber que estamos fazendo isso! Nem o próprio Oyakata-sama.

Comecei a pensar nas inúmeras pessoas que poderiam dar conta disso: Sasuke era um deles. Mas como Saika havia dito: ninguém poderia saber disso, pois correríamos o risco de perder tudo. No final, somente UMA pessoa ficou na minha lista. E isso me apavorou por inteiro.

- Sei quem pode nos ajudar – disse por fim. Saika me encarou esperando a resposta e eu soltei o nome. A princípio sua face se contorceu numa expressão de máximo choque. Mas então, ela não encontrou alternativa a não ser concordar. Pedi para que esperasse enquanto fazia a ligação para a pessoa. O telefone chamou, chamou. E finalmente alguém atendeu.

- Oi? Querida? Eu não disse que ligaria mais tarde...?

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