Eu tento me acalmar mas o panico vai se espalhando por mim. A minha equipe de preparação chega, estão todos animados e eu não entendo o porque. Flavius, Venia, Octavia parecem muito mais saldáveis agora, as perucas e os batons coloridos voltaram e me sinto melhor com isso. Enquanto eles me deixam com uma aparência apresentável, ouço eles agradecem por dar um fim em Coin. Eu não digo nada, e então eles voltam a falar sobre a nova moda.

- Por que vocês ainda estão aqui? - pergunto depois de algum tempo e todos ficam em silêncio. - Quero dizer, os jogos já acabaram, tudo acabou. Então por que vocês ainda cuidam de mim? Por que ainda se importam em me deixar bonita?

- Por que nós nos importamos com você, Katniss. Você não virou as costas pra gente. - diz Octavia um pouco baixo.

- Nós nos apegamos a você. Sentimos que somos uma equipe, com jogos ou não. Estou certo, não? - continua Flavius passando uma espécie de creme em minha mão.

- Claro sim - respondo sincera -, mas eu só queria entender. Acho que nenhuma equipe continua com os vitoriosos.

- Acho que você não é qualquer vitoriosa. - diz Venia pondo um fim no assunto.

Quando desço tenho a sensação de que estou indo para mais um jogo, mas me lembro que é apenas um discurso e logo estarei em casa novamente. Olho em volta e vejo Peeta num terno alinhado e Haymitch com os cabelos penteados.

- Está tudo bem pra você ir? - repito a pergunta pela milésima vez.

- Já disse que sim. Estou bem. - ouço a mesma responda de Peeta pela milésima vez também.

- Acho que está tudo pronto, vamos? - a voz histérica de Effie invade a sala e todos partem rumo à Capital.

O trem para na estação e há pessoas esperando por nós. Não sei se fico feliz ou não com isso, mas decido não me importar.

- É como uma festa? - pergunto um pouco irônica.

- Suponho que sim. - diz Haymitch entendendo muito bem o que eu queria dizer -, mas a sua participação vai ser rápida, como já disse no 12.

Assim que estamos fora da estação, caminho pela primeira vez pela Capital. É estranho. Todas as outras vezes que estive aqui, estava cercada por seguranças, estava apenas para os jogos ou com a missão de matar Snow. Mas agora não há nada disso, estou caminhando tranquilamente pela rua e nada me impede de fazer o contrário. Me sinto livre apesar das lembranças ruins.

- Katniss, você vai ficar sentada na frente e vamos chama-lá quando for necessário. O discurso está aqui - uma mulher baixinha me entrega uma folha que contem o texto -, e é isso. Agora pode ir ao seu lugar.

Há uma multidão sob um palco enorme no centro da cidade, bem em frente a mansão de Snow. Solto um riso debochado, me perguntando se aquilo foi planejado para me afetar e me fazer chorar lá em cima. Mas não vou me importar, vou falar as palavras que estão no papel (que felizmente não são muitas) e depois voltar ao meu distrito.

Várias pessoas sobem ao palco, clamadas pela multidão empolgada. Até que chega minha vez. Solto um suspiro antes de levantar da minha cadeira, e abro um sorriso; tenho que ser forte diante dessas pessoas.

- Povo de Panem - começo. - Hoje podemos suspirar aliviados, não há mais guerras em nosso pais, não há mais poder, somos um povo livre.

"Vamos poder escolher quem vai nos representar, vamos ter poder sobre o nosso pais amado - meus olhos estão vagando pela multidão até que localizo minha mãe, e um pouco atrás dela, Gale. Ao ver eles sinto um peso no coração, mas continuo lendo. - Nós lutamos e isso é o nosso premio. Liberdade - penso no que senti quando descemos do trem.

"Não nos sacrificaremos mais, não vamos entregar nossas crianças e não vamos mais ter o castigo que nos perseguia a anos. Todas as mortes - sinto minha voz falhar -, não foram em vão, estamos aqui hoje e é isso que importa. Estamos vivos para ver a nossa e nova Panem, a Panem que todos nós construímos."

A multidão aplaude e vejo lágrimas no rosto de algumas pessoas. Aquilo também balançou comigo e sinto que estou prestes a chorar. Então desço o mais rápido possível dali e entro direto no aerodeslizador que esperava ali perto para a viajem de volta. Ninguém parece perceber já que ouço gritos e aplausos do lado de fora. Sento-me em um dos bancos esperando o peso no coração passar. Lembro-me dos rostos de Gale e de minha mãe. Pensar nisso não ajuda, então procuro me acalmar.

Logo depois de mim, Peeta entrou e se sentou em um dos bancos, sem dizer nada. Fico inquieta com o silêncio e acabo o quebrando.

- Você está bem?

- Eu é que pergunto. Como você está?

- Me agarrando ao pensamento de que logo vou estar no meu distrito.

Ele não diz mais nada. Depois de algum tempo todos se juntaram a nós e começamos a voar. Dou uma olhada pela janela e percebo que estou muito feliz de deixar a Capital mais uma vez.