Capítulo 3: Verdade
Passaram duas semanas desde que Seto Kaiba e Joey Wheeler tinham começado a namorar secretamente. Os dois continuavam a ver-se diariamente e não tinham tido muita dificuldade em esconder a sua relação. Seto encorajava Mokuba a aproveitar o Verão e ir à praia com Yugi e os outros, enquanto ele e Joey permaneciam na mansão, podendo namorar à vontade.
Apesar de não querer contar sobre a relação de ambos a ninguém, Seto não tivera grande escolha e revelara ao seu terapeuta, Hiro Molomaka, o que se passava entre ele e Joey. Hiro começara a estranhar o comportamento de Seto, que já não falava tão abertamente, pois tinha medo de se descuidar e revelar o seu romance com Joey. O terapeuta percebera que Seto lhe estava a esconder algo e avisara-o de que assim, sem abertura para falarem sobre tudo, seria difícil avançarem na recuperação de Seto. Depois de falar com Joey sobre o caso, Joey aconselhara-o a contar a verdade ao terapeuta, para bem do próprio Seto.
"Seto Kaiba, agora compreendo as reticências que tem tido em falar sobre certos assuntos que lhe têm passado pela cabeça. Compreendo que emocionalmente lhe esteja a fazer bem esta relação, mas na verdade, não é aconselhável." dissera Hiro. "Você está numa fase bastante delicada. A última coisa com que se devia preocupar agora seria com romances e coisas do género. Poderão trazer-lhe problemas."
"Mas eu sinto-me muito feliz com o Joey. Antes… sentia-me muito mais perdido. Tinha já o Joey como amigo e o Mokuba é meu irmão, mas agora sinto-me… protegido e feliz, mesmo sem a minha memória." dissera Seto. "Não vou abdicar disso."
"Como queira. Mas tenha cuidado. De qualquer das maneiras, não se deve sentir inibido de falar de tudo o que sente. Temos de trabalhar com tudo para chegarmos à nossa meta, para que você recupere totalmente a memória. Os estímulos emocionais que está a receber agora talvez possam ajudar, quem sabe." dissera Hiro.
As sessões com o terapeuta continuavam a ser praticamente diárias e Seto ia fazendo progressos, apesar de mínimos. Lembrara-se de ter defrontado Maximillion Pegasus, de ter rasgado o Blue Eyes White Dragon do avô de Yugi, da grande abertura da Kaiba Land, do seu duelo com Alister, entre outras coisas. Porém, as memórias que queria recuperar mais depressa eram aquelas que envolviam Joey e Mokuba e, por alguma razão, essas eram memórias que quase nunca conseguia vislumbrar.
Joey, apesar de estar feliz por estar com Seto, como nunca pensara que poderia estar, sentia-se dividido. Por um lado, ficava feliz quando Seto se lembrava de mais algum pormenor, mas também receoso de que ele se lembrasse de alguma das discussões graves que tinham tido no passado e tivesse de lhe revelar a verdade, de que nunca tinham sido amigos. Joey ficava feliz por ver Seto a recuperar a pouco e pouco, mas tinha medo do dia em que ele recuperasse totalmente a memória e o deixasse.
"Estou a ser egoísta. Não posso desejar que o Seto não recupere a memória. Não. Eu gosto dele e por isso quero o melhor para ele. E o melhor para ele é recuperar a memória, mesmo que depois, tudo o que vivemos… tudo isto… não passe de um sonho." pensou Joey.
Com a recuperação das memórias de Seto, nos duelos que fizera e sobre a empresa Kaiba Corporation, Mokuba e Joey tinham acabado por dizer a Seto que ele não era um simples trabalhador na empresa, mas sim o presidente. Tinham argumentado que não lhe tinham dito antes porque queriam que ele se lembrasse mais de tudo e que seria demasiada pressão para si.
"Talvez tenham razão, mas mais uma vez escondem-me coisas e mentem-me." dissera Seto, olhando para o irmão e para o namorado. "Não devem fazer isso. Não é suposto eu confiar em vocês?"
"Nós compreendemos o que dizes, mas só te queríamos proteger." dissera Mokuba.
"É verdade, Seto." dissera Joey. "Era apenas para te proteger."
"Mas eu prefiro que me digam a verdade. Mesmo que seja difícil, digam-me a verdade. É o melhor que têm a fazer." dissera Seto.
Mokuba e Joey tinham trocado um olhar, mas não tinham adiantado mais nada a Seto. Mokuba sabia agora que o apoio de Joey era indispensável e que o irmão ficaria abalado se soubesse que afinal eles não tinham sido amigos. Joey sabia o mesmo, pelo que continuaram com a farsa de Joey ser o melhor amigo de Seto. E, sem Mokuba saber, Joey e Seto continuavam com o namoro secreto.
Memórias Esquecidas
Seto e Joey estavam sentados à beira da piscina, vestindo apenas os calções de banho, azuis no caso de Seto e verdes no caso de Joey. Ambos estavam com os pés na água e estavam a conversar. O sol brilhava no céu e a tarde estava bastante agradável.
"Se queres que te diga a verdade, não me apetece nem um pouco que o Yugi e os outros venham até aqui hoje." disse Seto.
"Porquê? Pensei que simpatizavas com eles…"
"Não é que tenha algo contra eles. Têm sido simpáticos nas vezes em que estamos juntos, apesar do Tristan se mostrar sempre um pouco estranho quando está perto de mim. Acho que não confia muito em mim." disse Seto. "Mas já me disseste que nem sempre fui muito simpático para eles, por isso eu compreendo a atitude dele."
"Então, se até gostas deles, porque é que não querias que eles viessem aqui? O Mokuba fez questão de os convidar. Daqui a pouco, devem estar a chegar."
"A verdade é que o que me apetecia neste momento era atirar-te para dentro da piscina e saltar lá para dentro eu também. E passarmos a tarde a beijarmo-nos e a fazer outras coisas, sem o Mokuba e os outros por perto." disse Seto, encarando Joey. "É isso."
Joey sorriu ao namorado e agarrou-lhe numa das mãos.
"Assim, já percebo. Também me apetecia fazer o que estás a dizer, mas a verdade é que precisas de conviver com mais pessoas." disse Joey. "Portanto, noutra altura temos tempo para fazermos tudo o que nos apetecer, quando o Mokuba não estiver na mansão e os outros também não."
"Se achas que tenho de conviver com mais pessoas, talvez estivesse na altura de tu e o Mokuba deixarem de insistir comigo para não sair da mansão." disse Seto. "Não achas?"
"Eu… bem… talvez tenhas razão." admitiu Joey. "Mas tu sabes que apenas queremos que estejas sempre na mansão para te protegermos."
"Acho que já chega de ser super protegido." disse Seto. "Talvez essa vossa super protecção ainda esteja a atrasar mais a recuperação da minha memória."
Joey não disse nada, pois agora pensava que talvez Seto tivesse razão, mas a ideia de Seto sair e ser abordado por pessoas que lhe poderiam dizer algo que o fizesse ficar confuso, não lhe agradava. Sem falar que era conhecido que Seto Kaiba e Joey Wheeler não se davam bem. Nas últimas semanas, os jornais tinham apresentado notícias sobre as idas frequentes de Joey à mansão, apesar de agora já ninguém se importar com isso. De qualquer maneira, seria complicado se alguém se aproximasse de Seto e lhe perguntasse porque estava junto de Joey, se não gostavam um do outro no passado.
"O que é que eu diria ao Seto?" perguntou-se Joey. "Ele iria fazer perguntas. Mas o que iria eu responder? Iria mentir-lhe e inventar uma desculpa, talvez dizendo que a pessoa estava enganada? Ou diria a verdade? Esta mentira está a tornar-se numa bola de neve, mas agora que estou junto do Seto, não posso arriscar-me a contar-lhe que nunca fomos amigos. Posso perder o amor dele quando ele recuperar a memória… mas não antes. Não antes…"
Pouco depois, Mokuba surgiu vindo da mansão, com Yugi, Téa e Tristan, que tinham acabado de chegar, atrás de si. Os amigos traziam consigo toalhas, pois Mokuba combinara especialmente um dia na piscina. Ao chegarem perto de Seto e Joey, Joey apressou-se a largar a mão de Seto, antes que os outros se apercebessem disso. Yugi e os outros cumprimentaram Joey e Seto.
"Está uma tarde óptima para uns mergulhos numa piscina." disse Tristan, despindo a sua t-shirt. "Foi uma óptima ideia teres-nos convidado para vir aqui, Mokuba."
"Claro que foi boa ideia." disse Mokuba, sorrindo. "Assim, vamos divertir-nos imenso. O Seto precisa de companhia e isto faz-lhe bem."
"Não fales como se fosses um médico que sabe o que prescrever ao seu paciente, Mokuba." disse Seto, levantando-se. "Mas hum… é agradável poder ter a vossa companhia."
Yugi e Téa sorriram a Seto, enquanto Tristan lhe lançou um olhar de alguma desconfiança. Habituara-se ao Seto Kaiba arrogante e esperava ver aquela personalidade surgir a qualquer momento. Tristan continuava a não entender como é que Joey agora se tornara tão amigo de Seto, quando antigamente eram inimigos.
Pouco depois, todos saltaram para a piscina. Seto decidiu nadar, mas Joey começou a atirar-lhe água, o que o desconcentrou. Seto acabou retaliar, atirando água de volta Joey e em poucos segundos todos estavam envolvidos numa batalha aquática. Quando acalmaram, Mokuba foi buscar uma bola e divertiram-se a lançá-lo uns aos outros.
Quando saíram da água, estenderam as toalhas sobre a relva e ficaram a apanhar sol. Seto lançou um olhar a Joey, que tinha colocado uns óculos de sol e se encontrava deitado de costas na sua toalha azul.
"Ele é lindo. Se o Yugi e os outros não estivessem aqui neste momento, arrastava o Joey até ao meu quarto… hum, até podia inventar alguma desculpa para o afastar dos outros." pensou Seto. Depois abanou a cabeça. "Não, é melhor eu não fazer isso. Seria arriscar demasiado. Tenho de ser paciente. Amanhã já não os teremos por aqui e eu e o Joey podemos aproveitar para estarmos sozinhos."
"Então Kaiba, tens tido progressos na recuperação da tua memória?" perguntou Yugi.
"Alguns, mas ainda falta lembrar-me de muitas coisas. Tenho muitas lacunas na minha memória." respondeu Seto.
"Com o tempo, hás-de acabar por te lembrar de tudo ou quase tudo." disse Téa. "É apenas uma questão de tempo."
"O pior é que depois voltas a ter aquele feitio que tinhas antes e ninguém te consegue aturar, por seres mal dispostos e nos tratares com pouca simpatia." disse Tristan.
Téa deu-lhe uma cotovelada, para o calar. Mokuba tinha pedido a todos para alinharem na mentira de que Joey era amigo de Seto e não falarem muito de que Seto não costumava ser muito simpático. Seto abanou a cabeça.
"Não sei o que as memórias me trarão." disse Seto. "Mas se vocês não tiverem feito nada que me tenha aborrecido, não teria razão para não vos tratar bem."
"Nunca te fizemos mal e não nos tratavas bem na mesma." disse Tristan, o que lhe valeu outra cotovelada de Téa. "Ei, pára com isso! Não estou a dizer mentira nenhuma."
"Eu prefiro que sejam sinceros comigo." disse Seto, a todos. "Do que estarem a ocultar-me as coisas. Tristan, prometo que, mesmo que eu fosse como fosse, agora vejo as coisas de maneira diferente. E como disse, se não tiver alguma razão para não vos tratar bem, então serão tratados com todo o respeito."
Tristan não pareceu muito convencido, mas também não disse nada. Joey olhou para Seto.
"Ele pensa que quando recuperar a memória, como viveu semanas sem se lembrar, vai tentar encaixar as memórias na vivência que tem agora. Será? Será que consegue mesmo? Será que, mesmo que recupere a memória, se se lembra do que nós passámos, não me vai odiar?" perguntou-se Joey. "Será que continuará a gostar de mim?"
Alguns minutos depois, Tristan queixou-se por não haver por ali nada que pudesse comer. Joey também estava a ficar com um pouco de fome, mas tinha-se contido de falar nesse facto, pois estava mais interessado em ir falando com os amigos, enquanto lançava olhares a Seto.
"Eu vou pedir ao cozinheiro para nos preparar sandes e sumos." disse Seto, levantando-se da sua toalha. "Depois trago-os… hum, mas não sei se consigo trazer tudo sozinho. Joey, importas-te de me ajudar?"
Joey percebeu a ideia de Seto e acenou afirmativamente, levantando-se também da sua toalha. Os dois caminharam até chegarem dentro da mansão e, quando já estavam fora da vista dos outros, Seto agarrou Joey pela cintura e beijou-o. O beijo não durou muito tempo, porque Joey o quebrou.
"Seto, é melhor não. Aqui no corredor, alguém nos pode ver." disse Joey.
"Não quero saber. Quero é estar contigo e beijar-te e…"
"Ei, eu também quero o mesmo, mas não podemos ser descuidados." disse Joey. "Se os outros aparecerem e nos virem, já viste o que vão pensar? Ou se aparece algum dos teus empregados? Ainda iam contar tudo aos jornais sobre nós."
"Joey, eu gosto de ti. Eu sei que combinámos não contar a ninguém que estamos juntos, para evitar problemas, mas eu tenho quase a certeza absoluta que o Mokuba não se irá opor ao nosso relacionamento. Ele é meu irmão e quer que eu esteja feliz. Tu és boa pessoa. Ele não tem motivos para não concordar."
"Não é bem assim e tu sabes disso." argumentou Joey. "Nós somos dois rapazes, o que já só por si gera complicações na cabeça da maioria das pessoas e o Mokuba ainda é uma criança, o que o deixará mais confuso ainda. Além de que tu não recuperaste a tua memória. Tu sabes que pensarão que eu me estou a aproveitar da situação. Tu és rico e tudo…"
"Pensarão que estás a dar o golpe do baú? Sim, talvez pensem, mas se o Mokuba aceitasse, por mim, os outros que se danassem. Não me interessava a opinião deles para nada."
Joey tentou não sorrir, para não encorajar Seto na ideia de revelarem que estavam a namorar, mas a atitude daquele Seto sem memória não podia ser mais diferente da atitude que o Seto normal teria. Esse Seto não iria, com certeza, querer revelar a ninguém que estaria a namorar com alguém tão simples como Joey. Não quereria a imprensa a saber disso, a inventar teorias e a pôr em risco os negócios da empresa com publicidade negativa. Seto Kaiba não se preocuparia com a opinião dos outros pessoalmente, mas os interesses profissionais eram outra coisa completamente diferente.
"Seto, para já, é melhor continuarmos como estamos. Continuamos a namorar em segredo, está bem?" perguntou Joey.
"Pronto, está bem. Se é o que queres… mas vai ser difícil eu aguentar-me mais não sei quanto tempo junto dos outros sem te poder beijar ou abraçar-te."
Seto puxou Joey novamente para si e beijou-o mais uma vez. Nesse momento, Yugi surgiu, vindo da piscina, para ir à casa de banho. Ao vê-los a beijarem-se, parou. Seto e Joey não estavam a prestar qualquer atenção à sua volta e Yugi não estava propriamente ao lado deles, pelo que a sua presença não foi notada. Yugi engoliu em seco e voltou a sair para o jardim. Parou perto de uma árvore, que tapava a vista dos outros que estavam na piscina.
"Não pode ser… o Joey e o Kaiba, a beijarem-se?" perguntou-se Yugi, chocado. "Como é possível? Eles detestavam-se. Bom, depois o Kaiba perdeu a memória e o Joey tem-se feito por passar pelo seu melhor amigo, mas mesmo assim… terei de falar com o Joey. Ele tem de me contar o que se passa realmente. O que é que lhe passou pela cabeça para se envolver com o Kaiba? Ainda por cima, ele não tendo a sua memória?"
Yugi hesitou, tentando decidir se devia confrontar Joey e Seto de imediato ou mais tarde. Acabou por decidir voltar para dentro da mansão, mas quando entrou no corredor, Seto e Joey já não estavam à vista.
"Pronto, assim falarei com eles mais tarde." pensou Yugi. "Mas não à frente dos outros, por isso, fica para amanhã. Mas teremos mesmo de ter uma conversa. É melhor falar primeiro com o Joey e depois, dependendo do que ele disser, saberei se devo falar também com o Kaiba ou não."
Depois de ir à casa de banho, Yugi voltou para junto dos outros. Uns minutos mais tarde, Seto e Joey apareceram, com dois tabuleiros com sandes e sumos, que pousaram numa mesa que havia no jardim. Todos se levantaram e se serviram de comida e bebida.
"Estas sandes estão óptimas." disse Tristan. "Mas estava a ver que nunca mais voltavam com elas."
"Tivemos de esperar que as fizessem." disse Seto. "Foi por isso que demorámos mais tempo."
"E porque andavam por ali aos beijos." pensou Yugi.
Memórias Esquecidas
No dia seguinte, Yugi foi até ao apartamento de Joey, para ter uma conversa com ele. Joey deixou-o entrar e sentaram-se os dois na sala, que estava parcamente mobilada, mas mesmo assim limpa e arrumada, graças ao esforço de Joey, já que o seu pai era pouco cuidadoso com a limpeza ou mesmo com o trabalho que tinha e mantinha apenas por um fio, já que por vezes aparecia bêbado para trabalhar.
"Então Yugi, porque é que vieste aqui tão cedo?" perguntou Joey. "Não tínhamos combinado nada, pois não?"
"Não, não tínhamos, mas vim aqui porque precisamos de falar de algo bastante grave."
"Passou-se alguma coisa, Yugi?" perguntou Joey, ficando preocupado. "Diz-me."
"O que aconteceu não foi comigo, mas sim, aconteceu algo e tu sabes o que é."
"Hum… não sei o que queres dizer, Yugi." disse Joey, confuso.
"Ok, então vou ser directo. Vi-te ontem aos beijos com o Kaiba no corredor da mansão." disse Yugi. "O que é que tu tens a dizer-me sobre isso?"
Joey empalideceu rapidamente, enquanto o amigo o continuava a olhá-lo, à espera de uma resposta.
"Então, Joey? Eu acabei por não falar contigo ou com o Kaiba ontem, mas vim aqui de propósito para termos esta conversa." disse Yugi. "Explica-me o que eu vi. O que é que se passa entre ti e o Kaiba?"
Joey estava dividido entre mentir ou dizer a verdade. Não esperava que alguém tivesse descoberto que havia algo entre ele e Seto, mas Yugi vira-os.
"O Yugi é o meu melhor amigo." pensou Joey. "Esteve sempre aqui para me apoiar no que eu precisava. Tenho-lhe escondido que eu e o Seto namoramos e provavelmente o Yugi não vai aprovar, mas estou cansado de não poder dizer a ninguém. Eu sei que fui eu que quis manter o segredo, mas não poder nem sequer falar com uma única pessoa sobre o que se passa na minha vida não tem sido fácil. Devo contar-lhe a verdade. Não quero perder a amizade do Yugi por lhe ocultar as coisas ou lhe mentir."
"Joey, então, não dizes nada?" perguntou Yugi.
"Pronto, Yugi, tu viste-me a beijar o Seto, porque eu e ele estamos a namorar." explicou Joey. "Não era suposto ninguém descobrir, mas como já sabes, não vale a pena negar."
"Tu e o Seto Kaiba a namorarem… é… quase inimaginável." disse Yugi. "Ou era, até ontem. Como é que isto foi acontecer, Joey?"
"Eu e ele começámos a passar tanto tempo juntos que… acabei por me apaixonar por ele. E ele apaixonou-se por mim. Não há maneira de explicar bem as coisas. Os sentimentos não são fáceis de descrever, mas gosto do Seto e ele gosta de mim."
"Joey, tu e o Kaiba nunca se deram bem. Aliás, o Kaiba nunca se deu propriamente bem com ninguém a não ser com o Mokuba e neste momento, o Kaiba não tem a sua memória completa."
"Eu sei disso tudo, Yugi. Eu sei que ele não é o mesmo Seto Kaiba do costume, sei que ele não tem a sua memória e até sei que estás a pensar dizer-me que é como se me estivesse a aproveitar da situação, mas o Seto também gosta de mim. Não o estou a forçar a nada."
"Eu percebi que não estavas, pelo beijo que vocês estavam a dar. Além de que eu te conheço, Joey. Não és má pessoa e se estás com o Kaiba agora, é porque gostas mesmo dele. Eu podia ficar feliz por vocês, mas na realidade a situação deixa-me preocupado, por causa de ambos."
Joey suspirou e não disse nada, pelo que Yugi prosseguiu.
"Não é sensato vocês estarem a namorar. Compreendo que gostem um do outro, mas há aqui situações que têm de ser avaliadas. O Kaiba com quem namoras agora e de quem gostas, na realidade, não existe. Tu conseguirias apaixonar-te pelo Seto Kaiba a que estamos habituados? Aquele Seto Kaiba frio e que dizia mal de ti?"
"Não, na verdade não, porque ele me trataria mal e nem me deixaria aproximar dele, mas…"
"E achas que o Seto Kaiba, se tivesse a sua memória, se apaixonaria por ti?"
"Não, mas…"
"Joey, estás a viver uma fantasia. Tu és meu amigo e eu preocupo-me. Não te quero ver sofrer, mas é melhor parares com isto agora." disse Yugi. "Tu gostas da ilusão de uma pessoa. Aquele não é o verdadeiro Seto Kaiba. E ele gosta de ti, mas tu também não foste verdadeiro com ele."
"Eu gosto dele. É o que importa."
"Joey, tu aproximaste-te dele como se fosses o melhor amigo dele, gaste-lhe a confiança e o amor, mas tens-lhe mentido, muitas vezes, de certeza. Até nós, eu, o Tristan e a Téa, que passamos pouco tempo junto do Kaiba tivemos de lhe mentir por vezes, dizendo que éramos mais ou menos amigos dele, quanto mais tu, que estás constantemente com ele." disse Yugi. "Tens de pensar que o Kaiba vai acabar por recuperar a memória e quando isso acontecer, acaba tudo entre vocês. É melhor seres tu a terminar tudo, já, porque senão vais sofrer muito mais."
Joey levantou-se e começou a andar pela sala, enquanto Yugi o seguia com o olhar.
"Yugi, eu já pensei muitas vezes em tudo o que disseste. Já me passaram imensas coisas pela cabeça. Eu sei que não devia estar a namorar com o Kaiba. Nem me devia ter aproximado dele quando ele perdeu a memória. Mas a verdade é que me aproximei e me apaixonei e mesmo que no futuro venha a sofrer, eu queria aproveitar todo o tempo que ainda tenho para estar com ele." disse Joey. "Eu sei que é estúpido da minha parte, mas é o que sinto."
Yugi suspirou, abanando a cabeça.
"Não te consigo convencer, pois não, Joey? Eu percebo que gostes muito dele, mas… enfim, tu é que sabes o que queres fazer com a tua vida. Mas quando o Kaiba recuperar a memória…"
"Eu tenho a esperança de que, quando o Seto recuperar a memória, se lembre de tudo o que passámos juntos e assim talvez, apenas talvez, ele continue comigo e possamos ser felizes."
"A esperança é a última a morrer." disse Yugi. "Pronto, tu és meu amigo e eu apoio-te, apesar de achar que te vais magoar. Mas, se de qualquer maneira, se queres que o Kaiba continue contigo, mesmo depois de recuperar a memória, então tens agora de lhe contar a toda a verdade. Fala-lhe de todas as mentiras que lhe disseste. Abre-te com ele. Porque, se o Kaiba recupera a memória e se lembra das mentiras que lhe disseste, mesmo que goste de ti, não te perdoa."
Joey voltou a sentar-se, encarando o amigo.
"Mas e se eu lhe contar as mentiras que disse e o Seto se afastar de mim?" perguntou Joey.
"Joey, ouve, eu sei que é uma situação complicada, mas nunca nada prospera com mentiras. Se queres mesmo que a vossa relação resulte, tem de ter como base a verdade e a confiança. Ele confia em ti e pode ficar abalado por lhe teres mentido, mas tens de lhe contar a verdade. O amor é importante, mas quando é cultivado com mentiras, não dura. Lembra-te disso."
Quando, pouco depois, Yugi se foi embora, Joey tomou uma decisão.
Memórias Esquecidas
Joey bateu à porta da biblioteca da mansão dos irmãos Kaiba. A voz de Seto mandou entrar. Joey entrou e fechou a porta atrás de si. Seto, que estava sentado num dos sofás a ler um livro, pousou-o e levantou-se, sorrindo a Joey.
"Joey, estava mesmo à tua espera." disse Seto, aproximando-se do namorado. "Já começava a sentir a tua falta."
Antes que Joey pudesse dizer alguma coisa, Seto puxou-o para si e beijou-o. Joey deixou-se envolver pelo beijo. Um momento de felicidade, antes do momento da verdade. Depois de quebrarem o beijo, a expressão de Joey tornou-se séria.
"Seto, temos de ter uma conversa." disse Joey. "Vamos sentar-nos."
Seto e Joey sentaram-se lado a lado no sofá e olharam-se olhos nos olhos.
"O que se passa, Joey?" perguntou Seto. "Estás preocupado com alguma coisa? Eu posso ajudar-te?"
"Peço-te que me oiças, Seto." disse Joey. "E quero que te lembres de uma coisa. Os meus sentimentos por ti são verdadeiros."
Seto sorriu-lhe.
"Eu sei. Os meus também são."
"A nossa conversa é mesmo importante Seto, por isso, lembra-te realmente que gosto mesmo de ti. Mesmo muito." disse Joey.
"Já tinha percebido isso. Estás nervoso e a falar de sentimentos. Vá, não me digas que me vais pedir em casamento?"
Seto riu-se de seguida e Joey não conseguiu evitar rir-se também. Depois lembrou-se que tinha de ir directo ao assunto e ser sério nisso. E no fundo da sua mente, uma vozinha disse-lhe que era pena o Seto com memória não se rir ou fazer rir ninguém, mas Joey afastou essa mesma voz.
"Seto, eu quis relembrar-te que gosto muito de ti, porque fiz algo que não devia. Menti-te e mais do que uma vez." disse Joey. "Seto, eu gosto muito de ti, mas nem sempre foi assim. A minha primeira mentira para contigo, quando perdeste a memória, foi dizer-te que eu era o teu melhor amigo. Isso não é verdade, Seto."
"Então o que és em relação a mim? Ou o que eras, melhor dizendo?"
"Nós não nos dávamos bem, Seto. Não sei se rivais seria bem o termo, mas não éramos definitivamente amigos."
"Ou seja, nunca foste o meu melhor amigo, nem sequer meu amigo… mas tu falaste-me de várias coisas sobre a nossa amizade." disse Seto. "Mentiste-me em tudo?"
"Quase tudo, Seto. Desculpa. Tu é que me fazias perguntas. Há quanto tempo éramos amigos e mais isto e aquilo. Eu tinha de inventar desculpas e mais mentiras."
"Porquê? Porque é que fizeste isso?" perguntou Seto, com um olhar duro.
"Quando eu te vim ver, juntamente com os outros, já sabia que estavas amnésico. E tu tinhas sido sempre mau para mim, Seto. Portanto, eu queria ser mau para ti também, mentindo-te. E menti-te, dizendo que era o teu melhor amigo." explicou Joey. "O Mokuba praticamente obrigou-me a continuar com a farsa e por isso fiz o meu papel, passando pelo teu melhor amigo."
Seto levantou-se do sofá. Estava visivelmente zangado.
"Quer dizer, tu mentiste-me e o Mokuba também? E claro, o Yugi e os outros também. Todos me mentiram."
"Seto, por favor, ouve-me." pediu Joey, levantando-se também. "Eu sei que não devia ter mentido, mas eu queria enganar-te no momento em que disse que era teu melhor amigo. Queria deixar-te apenas confuso, como uma mini-vingança pessoal. Não esperava vir a desempenhar o papel de teu melhor amigo. Foi para teu próprio bem."
"Como é que mentires-me foi para meu próprio bem?" perguntou Seto, zangado.
"Seto, vou dizer-te toda a verdade. Tu, Seto Kaiba, eras a pessoa mais fria que eu conhecia. Só te preocupavas com o Mokuba. Afastavas todas as pessoas de ti, com a tua ambição e maus modos. Não tinhas amigos, Seto. Nenhuns. Nem um único. E depois daquela minha mentira, o Mokuba quis que eu continuasse a fingir ser teu amigo, para não ter sentires só. Percebes? Foi apenas para te poupar à angústia de pensares… de chegares mesmo à conclusão de que não tinhas amigos."
Seto não disse nada, cruzando apenas os braços. Agora, fazia lembrar o Seto a que Joey estava acostumado antes dele perder a memória.
"Devias ter-me contado a verdade. Tu e o Mokuba." disse Seto. "Estivemos juntos dias e dias e continuaste com esta farsa."
"Seto, desculpa. Eu sei que te menti, mas não era minha intenção magoar-te de nenhuma maneira. Eu comecei a gostar de estar contigo. Já não fazia nada por obrigação e sim porque gostava da tua companhia, Seto. E apaixonei-me por ti. Tudo o que passámos nestas últimas semanas é verdade e não uma mentira."
"Não? É sim. Tu mentiste-me desde o início." disse Seto. "Eu confiei em ti e tu mentiste-te sempre."
"Estou a contar-te a verdade agora. Não o fiz mais cedo… porque tinha receio da tua reacção."
"Eu já não te conheço." disse Seto. "Não tenho a minha memória e tudo o que me disseste nestas últimas semanas era mentira. Até arranjaste fotografias connosco juntos. Falsas, claro."
"Eram fotomontagens…"
"Mentiras, mentiras e mais mentiras!" exclamou Seto, furioso. "Joey, não te conheço realmente. Afinal, a pessoa de quem eu gosto mente-te… apaixonei-me por um Joey que afinal não sei se é mesmo verdadeiro ou uma completa farsa."
"Eu sou o Joey de sempre. Desculpa se te menti, mas apenas menti sobre já sermos amigos. O que sinto por ti é real."
"Ai sim? E como é não sei se é tudo uma mentira também?" perguntou Seto. "Quiseste que mantivéssemos tudo em segredo, até do Mokuba. Como é que sei se tu não estás mesmo a tentar dar o golpe do baú?"
"Seto! Isso não é verdade. Tu podes estar zangado comigo, mas tu sabes que eu não sou assim."
"Não, graças às mentiras que tu disseste, eu já não tenho a certeza de nada."
"Seto… eu sou o Joey de sempre. Chamo-me Joey Wheeler. Não éramos amigos, mas agora estamos apaixonados um pelo outro. Vivo num pequeno apartamento com o meu pai. Por vezes, ele embebedasse e… bate-me ou gasta imenso dinheiro no jogo. Já tive de trabalhar em vários lugares para pagar as dividas que ele faz." disse Joey. "Sou temperamental e, mesmo que agora duvides disso, prezo muito a amizade. Este sou eu, Joey Wheeler. E eu gosto de ti. Tu também gostas de mim, Seto. Por favor, desculpa-me e…"
"Chega! Vai-te embora, Joey."
"Seto…"
Nesse momento, Seto sentiu uma forte dor de cabeça. Agarrou a cabeça com as mãos. Joey aproximou-se rapidamente e agarrou-o. Seto estava a lembrar-se de mais uma das suas memórias. Ele e Joey, a discutir. Primeiro num local, depois noutro. Ocasiões diferentes, mas palavras azedas de qualquer maneira. Quando aquela dor de cabeça passou, Seto abriu os olhos.
"Estás bem, Seto?" perguntou Joey, preocupado.
"Afasta-te de mim." disse Seto, encarando Joey.
Joey engoliu em seco, mas afastou-se. Seto respirou fundo.
"Tive mais um fragmento da minha memória. Dois, aliás. Nós, a discutirmos." disse Seto. "Joey, já sei que eu não era a melhor das pessoas, mas tu mentiste-me, quando eu confiava em ti. Por favor, vai-te embora. Eu preciso de ficar sozinho."
"Eu… posso ligar-te mais tarde?"
"Não. Se eu quiser falar contigo, eu ligo-te. Vai-te embora agora."
Joey sentiu-se bastante triste, mas fez como lhe foi mandado e saiu rapidamente da biblioteca, abandonando de seguida a mansão. Seto voltou a sentar-se e ficou pensativo durante vários minutos.
"Ele mentiu-me. Disse que era o meu melhor amigo e afinal era tudo mentira. E continuou sempre a mentir. Diz que gosta de mim… mas já não sei… já não sei se isso é verdade ou mais uma das suas mentiras." pensou Seto.
Alguns minutos mais tarde, bateram à porta da biblioteca. Seto deixou-se ficar silencioso. Voltaram a bater, mas Seto não se mexeu. A porta abriu-se e Mokuba entrou na biblioteca. Percebeu de imediato que algo se passava com o irmão. Aproximou-se dele.
"Seto, o que se passa?" perguntou Mokuba.
"Tu és um mentiroso, tal como o Joey." disse Seto, encarando o irmão. "Vocês enganaram-me e agora, exijo a verdade toda."
"Seto, do que é que estás a falar?"
"O Joey não é, nem nunca foi o meu melhor amigo. Ele contou-me a verdade. E tu sabias de tudo."
"Seto…"
"Não digas que foi para o meu próprio bem. Agora, quero saber tudo sobre a minha vida. De onde é que vimos? Somos mesmo irmãos? E as memórias que tenho tido da empresa? Como é que eu me tornei presidente? Conta-me toda a verdade."
Mokuba engoliu em seco, mas acabou por contar a Seto sobre a passagem de ambos pelo orfanato, sobre a sua adopção por Gozaburu Kaiba, sobre a tomada de posse de Seto na empresa, sobre a ascensão no mundo dos duelos, sobre a sua rivalidade com Yugi, sobre o seu comportamento com as pessoas em geral.
"E é esta a história da tua vida. Da nossa vida." disse Mokuba.
"Muito bem, agora vou ter de pensar. É muita informação para eu processar." disse Seto. "Deixa-me sozinho."
"Seto, não fiques aborrecido com o Joey. Ele preocupa-se mesmo contigo. Eu sei que sim."
"Sabes? Pois eu já não sei nada. Queres saber uma coisa, Mokuba? Eu apaixonei-me pelo Joey e começámos a namorar às escondidas."
"O quê?" perguntou Mokuba, surpreendido. "Vocês…"
"Sim, mas afinal ele mentiu-me e já não sei se alguma vez gostou realmente de mim. Achei que devias saber, porque eu também não quero esconder nada de ninguém, nem mentir." disse Seto. "Agora, deixa-me sozinho."
Mokuba saiu da biblioteca, ainda chocado.
"O meu irmão e o Joey estavam a namorar? E agora o Joey contou ao Seto que nunca tinham sido amigos e o Seto ficou em dúvida… eu tenho de falar com o Joey."
Memórias Esquecidas
Passou-se uma semana. Joey não voltou à mansão, pois Seto não o queria ver. Seto, apesar de sentir muito a falta de Joey, continuava em dúvida sobre os sentimentos de Joey por ele. Mokuba tinha-se encontrado com Joey e tinham falado. Joey contara-lhe tudo e Mokuba, reconhecendo que Joey gostava mesmo do irmão, tinha dito que tentaria ajudá-lo.
Nessa tarde, Seto estava sentado numa cadeira na varanda da mansão. O sol brilhava no céu. Seto remexeu. sem grande entusiasmo, num deck de cartas, mas depressa se aborreceu e deixou o deck de lado. Mokuba apareceu e sentou-se numa cadeira ao lado de Seto.
"Seto, isto não pode continuar assim." disse Mokuba.
"Mokuba, és meu irmão e por isso continuo a falar contigo e não te afasto, mas pára de tentar falar do Joey."
"Não posso, Seto. O Joey está a sofrer e tu também estás. Eu sei que não te devíamos ter mentido, mas foi com a melhor das intenções."
"De boas intenções, está o inferno cheio."
"Seto… podes até não perdoar o Joey, mas garanto-te e digo-te com toda a certeza que ele está mesmo apaixonado por ti." disse Mokuba.
Seto encarou o irmão.
"Não podes ter a certeza disso."
"Tenho a certeza absoluta." disse Mokuba. "E, mesmo que seja no fundo do coração, tu também tens."
Seto não disse nada, mas sentiu o coração bater mais depressa. Depois, mais algumas memórias inundaram-lhe a mente.
Memórias Esquecidas
Tinham passado quase dois meses desde que Joey revelara a Seto que lhe tinha mentido. Desde essa altura, os dois não se tinham voltado a encontrar, apesar dos esforços de Mokuba para que isso acontecesse. No dia anterior, Joey tinha recebido uma chamada no seu telemóvel. Era Seto. Fizera-lhe apenas uma pergunta.
"Ainda estás apaixonado por mim?" perguntara Seto.
"Sim. Como no dia em que te contei a verdade." respondera Joey.
De seguida, Seto desligara a chamada. Joey sentira-se bastante mal. Porque lhe ligara Seto, se não pretendia dizer mais nada? Apenas para o aborrecer? Para o humilhar?
Agora, na tarde do dia actual, alguém batia à porta do apartamento de Joey. Joey, que estava na sala a ver televisão, apesar de não estar interessado no que se passava naquele programa em particular, levantou-se e foi abrir a porta. Deparou-se com Seto Kaiba, olhando para ele.
"Olá… Seto…" disse Joey.
"Olá, Wheeler."
Joey ficou surpreendido ao ouvir o seu sobrenome vindo dos lábios de Seto. Seto tratara-o sempre pelo primeiro nome. Depois lembrou-se que já não eram chegados, pelo que era natural que ele não o tratasse pelo primeiro nome. No entanto, de seguida reparou também que Seto voltara a vestir os seus casacos compridos.
"Posso entrar ou vais deixar-me aqui parado à porta?" perguntou Seto, num tom algo áspero.
"Ah, hum, claro, entra."
Joey deixou Seto entrar, levou-o até à sala e indicou-lhe para se sentar.
"Não quero sentar-me." disse Seto, encarando Joey. "Joey Wheeler, recuperei a minha memória na totalidade."
"Oh… estou a ver…" disse Joey. "Isso é bom para ti. Fico contente."
"Vou directo ao assunto que me trouxe aqui. Além de te dizer que recuperei a memória, vim aqui fazer outra coisa." disse Seto. "Liguei-te ontem, para obter uma resposta de ti."
"Se eu continuava a gostar de ti… e desligaste a chamada de seguida…"
"Sim, é verdade. Recuperei totalmente a memória ontem e precisava da tua resposta, para poder tomar uma atitude."
Sem mais dizer, Seto puxou Joey pela cintura e de seguida beijou-o de forma dominante. Joey deixou-se envolver no beijo e acabou por entrelaçar os braços à volta do pescoço de Seto, aprofundando o beijo. Quando se separaram, estavam os dois ofegantes…
"Seto…"
"Agora que recuperei a memória, ainda soa um pouco estranho ouvir o meu nome vindo dos teus lábios, apesar de me lembrar de tudo o que se passou quando estive sem a minha memória." disse Seto. "Wheeler… não, Joey, eu também gosto de ti."
"Eu pensei…"
"Eu sei que estivemos separados nestes dois meses, mas eu estava magoado e como é que eu podia tomar uma decisão sem ter as minhas memórias? Não queria precipitar-me. Agora que já as tenho, posso tomar decisões com toda a certeza." disse Seto. "A minha primeira decisão é que quero ficar contigo."
"Tens a certeza?"
"Não é o que queres também?"
"Sim! Claro que sim! Só não quero que te arrependas no futuro…"
"Bom, há-de haver momentos em que provavelmente pensarei que estaria louco quando disse que queria ficar contigo, mas ao que parece isso acontece com todos os casais quando se zangam, mas depois fazem as pazes." disse Seto, olhando Joey olhos nos olhos. "Joey, sou sincero contigo. Se quiseres ficar comigo, não será fácil, porque sabes como eu sou. Eu, Seto Kaiba, com as minhas memórias. Mas eu tentarei fazer um esforço para mudar. Se tu tiveres paciência comigo…"
Joey calou-o com um beijo, dando a sua resposta. Teria toda a paciência do mundo com Seto, porque o amava. Mesmo que houvessem momentos complicados, se estivessem juntos e gostassem um do outro, iriam ultrapassá-los. De seguida, Joey puxou Seto para o seu quarto.
Memórias Esquecidas
Joey e Seto estavam deitados na cama de Joey, com apenas um lençol branco por cima deles. Joey tinha-se abraçado ao namorado.
"A imprensa vai cair em cima de nós como cães raivosos, mas havemos de sobreviver e a Kaiba Corporation também." disse Seto, passando uma mão pelos cabelos loiros de Joey. "Gosto do teu cabelo."
"Ai sim?"
"Aliás, gosto de tudo em ti."
"Bom, não esperava ter um Seto com memória e tão simpático." disse Joey. "Estou a gostar."
"Sabes, perder a memória foi complicado. Mas comecei do zero e fui aprendendo a ser melhor pessoa, a ser tolerante, mais simpático… tirando as partes das mentiras que me disseram e que fizeram com que eu tivesse uma atitude parecida à habitual. Mas apesar de tudo, viver as coisas sem ter o peso das memórias más do meu passado ou da rigidez do presente, ajudaram-me a ser uma pessoa melhor." disse Seto. "E mesmo com mentiras, tu também me ajudaste."
"Nunca mais te mentirei. Juro, Seto."
"Espero que cumpras a tua promessa." disse Seto.
"Sabes Seto, se é para ficares cada vez mais simpático e agradável, devias perder a memória mais vezes."
Joey riu-se e Seto sorriu, beijando de seguida o namorado. Agora que tinha as suas memórias de volta, Seto Kaiba tinha de novo as rédeas da sua vida nas mãos. E estar com Joey era agora uma das prioridades. Apesar das contrariedades que poderiam ter no futuro, agora nada importava. Seto tinha aprendido a viver num mundo difícil e a travar batalhas complicadas. E agora, tinha aprendido a amar. Não abriria mão disso. Nunca, fosse porque razão fosse. Com Joey, criara novas memórias e no futuro, criaria muitas mais. Memórias inesquecíveis.
E assim termina a história. Espero que tenham gostado e até uma próxima história!
