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Capítulo III
-Kako- (Passado)
Ouviu o algo irritante toque, sinal esperado por todos os habitantes do orfanato. Suspirando, pegou no seu caderno imensamente escrito, onde tinha estado a matutar sobre uma complicada operação momentos antes, e pô-lo por baixo do braço, dobrando-o ligeiramente. Passou a mão pela secretária, apanhando o lápis que nela jazia, colocando-o dentro de um livro, não querendo perder o número da página onde estava.
Caminhou para fora da sala, não sem antes se despedir do seu sensei, ouvindo o barulho do recreio a aproximar-se à medida que a porta principal estava mais perto. Ultrapassou-a, sentindo a brisa da tarde atingir a sua face cansada, e espreguiçou-se momentaneamente, antes de pousar os seus pertences num banco já algo cheio com outros. Observou sem muito interesse a sempre presente animação do pátio e, já por hábito, colocou as mãos magras nos bolsos vazios, rumando em direcção ao seu canto solitário.
Mas cedo se apercebeu que o seu canto já não se encontrava tão solitário assim.
Aproximou-se lentamente do pequeno monte, subindo-o pé ante pé, olhando sempre para a pequena rapariga que ocupava uma porção do banco castanho. Estava igual ao dia anterior, exceptuando a cor do vestido e das fitas que seguravam o seu ruivo cabelo, que tombava alinhado sobre os seus ombros, tal e qual uma cascata de águas acobreadas que pingava ao sabor do vento.
Caminhou cautelosamente, ainda não habituado àquela súbita mudança que ela havia arrastado consigo. Sempre se dera bem sozinho; raras eram as vezes em que falara com alguém da sua idade mais do que treze segundos. Tão raras eram essas oportunidades que havia dois por cento e meio de chance de acontecerem. Sabia-o bem. Tinha-o calculado.
Então, por que é que ela insistia em alterar a sua estatística?
Assim que se encontrou a cerca de cinco metros dela, viu a sua bonita face voltar-se na sua direcção, e ela seguiu-o com o olhar até ele se sentar mesmo ao seu lado, apesar de os seus olhos nada verem. Ryuuzaki logo se apercebeu que ela tomava partido dos seus outros sentidos, provavelmente muito mais apurados do que os seus, para poder observar o mundo à sua volta. Sentiu-a reprimir-se um pouco, apertando a sempre presente cerúlea almofada contra si, quase como se se tivesse apercebido do olhar atento dele, que não conseguia evitar analisar tudo o que via.
- Ryuu-chan.
Não era uma pergunta. Era uma certeza.
Ryuuzaki fez um subtil barulho com a garganta, apenas para confirmar que era ele que ali estava. Ao receber aquele som, Suzu sorriu, parecendo feliz por o voltar a encontrar. Diminuiu um pouco a força com que agarrava a almofada azul, ajeitando-se ligeiramente no banco. Fitou a paisagem à sua frente, sentindo a brisa levantar os seus cabelos acobreados. O seu companheiro, por outro lado, apoiava as suas magras mãos nos joelhos, encontrando-se numa das estranhas posições pelas quais já era conhecido no orfanato.
- Ryuu-chan... – repetiu Suzu, voltando a aconchegar a almofada em forma de flor contra si. – Como foi o teu dia?
- Igual a qualquer outro – respondeu Ryuuzaki, suspirando logo a seguir. Caiu então o silêncio sobre eles. Suzu balançava os seus pés como habitual, enquanto que o outro rapaz apenas observava o horizonte em frente a si. Olhou para o lado, fitando a ruiva com uma expressão ligeiramente triste. Aquele era um dos seus defeitos: não conseguia manter uma conversa mínima, as suas respostas curtas e algo frias acabavam sempre por arruinar o ambiente. Mas nunca isso o tinha afectado muito. No entanto, por alguma razão que desconhecia, não queria que acontecesse o mesmo com ela, pois não conseguia vê-la sem ser sorrindo.
- E o teu? – perguntou após um longo momento de reflexão.
- Hum? – A cabeça de Suzu voltou-se para os seus pés, como que se aquela fosse a melhor posição para o ouvir.
- O teu dia... Como foi? – inquiriu, voltando o seu olhar para ela. Viu algo como um tímido sorriso espreitar pelos seus lábios, à medida que deixou de fitar o solo e se voltou para cima.
- Fiz tanta coisa hoje! A Tanaka-san tem estado a tomar conta de mim desde que cheguei aqui. Mostrou-me os sítios mais importantes e apresentou-me a alguns professores. Depois, como ainda não comecei as aulas, fiquei na cozinha com ela, a ajudá-la no que podia. Ela contou-me imensas coisas enquanto fazia o almoço, e... – A voz de Suzu ressoava tal como sinos, a entoação subindo e descendo com a excitação. Ainda balançava os seus pequenos pés, rindo-se por vezes, quando se lembrava de algo divertido que a sua ama havia partilhado consigo. Ryuuzaki apenas escutava; parecendo que não, isso era um grande passo para ele.
Suzu continuava o seu longo discurso que se assemelhava a um monólogo. Contou como se tinha instalado rapidamente, uma vez que não trazia muita bagagem; como os professores a tinham acolhido calorosamente, apesar de ter chegado tão de repente e sem aviso prévio; como Tanaka, uma das mais antigas amas, tinha tomado um papel algo maternal, cuidando dela a todos os minutos; e como tinha sido por causa dessa mesma ama que ela tinha tido a oportunidade de conhecer Ryuuzaki.
- Foi ela que me deu o chupa-chupa naquele dia. E foi por causa dele que tomei coragem para falar contigo – esclareceu, sorrindo logo depois, olhos fixos no horizonte em frente a si. Ryuuzaki, por outro lado, apenas a observava de lado, o seu polegar junto aos lábios algo frios. Suzu voltou a apertar a almofada, e ambos sentiram um fresco vento levantar-se momentaneamente antes de se acalmar, abanando algumas das folhas das frondosas cerejeiras que tentavam impingir alguma da sua beleza naquele local recheado de habitantes com sombrios passados.
- Ne, Ryuu-chan – começou a ruiva rapariga, quebrando o novo silêncio que se tinha instalado. – Também há cerejeiras na parte da frente do orfanato, não há?
Ryuuzaki desviou o olhar, observando atentamente a entrada do seu lar. Apesar de ainda não estarem em flor, havia várias cerejeiras que seguiam o carreiro que ligava à pesada porta de entrada, cujas folhas ofereciam uma vastidão de sombra para proteger as frágeis e brilhantes cabeças dos órfãos. Na verdade, só agora se tinha apercebido de que havia dois carreiros igualmente cobertos por aquelas árvores: um que acabara de analisar, e outro que dava para as traseiras do orfanato.
- Hai... – respondeu vagamente, pouco perplexo com aquela descoberta.
- Souka... – Por algum estranho motivo, Suzu parecia ter encontrado algum júbilo naquele facto. – Já me tinha apercebido que havia algumas na parte de trás pouco depois de ter chegado. Mas precisava de verificar que havia outras na parte da frente.
- Porquê? – perguntou Ryuuzaki face ao que tinha acabado de ouvir. A sua companheira demorou algum tempo a responder.
- Okaa-san wa... A minha mãe sempre me disse que as cerejeiras simbolizam uma vida passageira, por causa do pouco tempo que as flores duram. Havia uma mesmo em frente à nossa casa. Quando chegava a altura das flores desabrocharem, ela pegava em mim e punha-me mesmo por baixo dela. "Kirei desu ne?", dizia. Depois, sentia-a agachar-se, enquanto pegava nalgumas flores e as colocava na minha mão. "A vida é curta, por isso tens de dar o teu melhor para desabrochares da forma mais bela possível!...". Aconselhava-me isso todos os anos – Suzu parou de falar por alguns momentos, suspirando e olhando para os seus pés. – Acho que, quando alguém chega aqui, a vontade de viver é pouca, uma vez que somos órfãos... Mas as cerejeiras estão ali, e desabrocham uma vez por ano, lembrando-nos que não devemos desperdiçar a nossa vida não a vivendo. Senão, a nossa flor acabará por murchar antes do tempo, e isso acaba por ser um grande desperdício... Ne?
Sorriu tristemente, levantando o olhar, apertando a almofada cerúlea com mais força do que nunca. Ryuuzaki nada disse, absorvendo apenas aquelas palavras frescas, que lhe recordavam a primeira vez que tinha pisado o solo daquele local. Lembrava-se vividamente de como se tinha sentido: a ideia de viver num sítio desconhecido, com pessoas desconhecidas e com um futuro desconhecido, se não incerto, haviam-no aterrorizado profundamente. Tinha a certeza de que nunca esqueceria aqueles sentimentos de abandono e extrema confusão que o tinham assolado por diversos meses.
No entanto, aprendera a lidar com o medo. De nada adiantava deixá-lo tomar posse da sua mente, quando sabia que podia ser mais forte do que isso. Lutava constantemente contra ele, até ser capaz de o dominar na sua totalidade. Uma missão árdua, mas que correra melhor do que esperara. Talvez, no seu íntimo, quisesse afastar aquela cor escura, impedindo-a de tingir a sua flor para que ela pudesse florescer, não para se tornar a mais bela, mas simplesmente para não ser a mais hedionda.
- Ano... Kimi wa... – começou o rapaz, antes de ser interrompido pelo toque que chamava todos para dentro. Suspirou, adiando a sua pergunta para o próximo dia. Podia esperar para saber mais acerca do passado de Suzu. E, assim, tinha mais uma razão para a ver no dia seguinte. Pegou novamente na sua mão, ajudando-a a descer e levando-a de novo para o edifício.
Por alguma razão, sentia uma insaciável vontade de comer cerejas.
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Escrevi isto numa noite em que estava febril, por isso não está assim nada de especial. ^^'
Ah, e o pormenor das cerejeiras é verdade; no Japão há esse simbolismo.
