- STAR HURRICANE!

Um enorme furacão carregado de energia branca apareceu no ar, crescendo a um ritmo alucinante.

- Meu Deus é gigantesco! O que é isto? – exclamou Rei com os cabelos a abanar furiosamente, afastando-se do fenómeno que vinha dirigida a elas.

- Vai colidir com a barreira! A Minako, rápido! – gritou Makoto atirando-se para cima da amiga incosciente.

Minako, que ainda estava caída no chão, foi protegida pelos corpos de Makoto e Rei. O furacão embateu na barreira e, com um estrondo ensurdecedor, dissipou-a no ar.

Rei olhou para o ramo de uma árvore ali próxima e viu na penumbra da noite uma silhueta feminina de cabelos enormes a ondular, no que restava da brisa do furacão. Apesar de estar quase completamente coberta pelas trevas, conseguia distinguir uma pose graciosa.

- Neptuno? – chamou ainda confusa com tudo aquilo.

- O que se passa…? – perguntou Minako recuperando gradualmente a consciência.

A guerreira envolta pelas trevas tocou no seu peito, e uma luz branca banhou as três amigas, envolvendo-as com um estranho poder.

Subitamente, as suas canetas de transformação apareceram no ar, indo parar às suas mãos. As esferas no topo das canetas tremeluziam em sintonia com a luz branca emana da guerreira.

Makoto olhou para o lado e viu nas mãos de Minako o Cristal de Vénus, que brilhava de uma cor alaranjada. Nas suas próprias mãos, o Cristal de Júpiter faiscava de uma luz esverdeada. Nas mãos de Rei, o Cristal de Marte expelia uma luz como labaredas de fogo, de um tom avermelhado.

- Eu sinto...

- … o poder ….

- …a voltar para nós! – terminou Rei elevando a sua caneta de transformação renovada. - MARS CRYSTAL POWER…

- VENUS CRYSTAL POWER…

- JUPITER CRYSTAL POWER…

- MAKE UP!!

*

Esmeralda levava Usagi amarada e voava pelos céus de Tóquio a alta velocidade.

- Larga-me!! O que fizeste com elas?! LARGA-ME! – berrava, tentando dar pontapés na mulher.

- Largava-te com prazer para caíres ao chão e te esborrachares sua idiota! – exclamou Esmeralda apertando o braço de Usagi. - Onde é a tua casa?! Não me enganes outra vez senão os teus amigos sofrem as consequências….

Usagi tinha os pensamentos bloqueados por não saber do paradeiro de Mamoru e da situação das suas amigas, não sabia o que fazer.

- Não te atrevas a fazer-lhes mal! – ameaçou-a num misto de tristeza e raiva.

- Se as queres voltar a ver, e aquele conquistador barato também, – disse num tom de superioridade – aconselho-te a dares-me o teu Ginzuishou.

Não tinha nada a perder, o Ginzuishou estava sem qualquer poder e a vida de todos aqueles que ela amava estavam em jogo. Apontou finalmente o caminho para sua casa.

- É ali. Se pousarmos na varanda eu…

- Ah ah ah ah ah – interrompeu Esmeralda com o seu riso irritante. - Mais um truque? Tenho uma ideia melhor. PODER NEGRO FULMINANTE!

Um trovão negro saiu disparado da sua mão, atingindo em cheio o telhado da casa arrebentando-o por completo.

- MÃE! PAI! SHINGO! – berrou desesperada, caindo do braço de Esmeralda, indo aterrar com violência em cima dos detritos.

Esmeralda pousou nos escombros enquanto Usagi corria para o quarto dos pais. Retirou o seu brinco negro, que imediatamente reagiu e apontou para o cofre no meio do entulho.

- Mãe… Pai…! – exclamou preocupada, enquanto segurava a cabeça da mãe, que estava caída no chão. Felizmente apenas estavam atordoados e apresentavam alguns cortes.

- O que se passou? Estás bem? – perguntava a sua mãe atordoada.

- Não se preocupem comigo… O Shingo? – perguntou, com um sorriso de alivio mergulhado em lágrimas.

- Ele… ele tinha ido sair com uns amigos, acho que ainda não voltou… - informou o seu pai ao lado, sonolento. Apresentava um corte grande na cabeça, razão pela qual estava com sangue na cara.

- PAI!! – gritou em pânico tentando socorrer os dois pais, sendo interrompida por um riso gélido que a fez voltar para trás.

Esmeralda segurava um medalhão em forma de coração, que tinha sido retirado do cofre. Deixou-o cair ao chão, e com toda a força que tinha, calcou-o com os saltos das suas botas. O medalhão imediatamente rachou, desfazendo-se em pedaços. Imediatamente o Ginzuishou surgiu, absorvendo todos os restos.

O cristal estava baço e sem brilho, tal como Usagi o tinha visto pela última vez.

Esmeralda baixou-se para lhe pegar, mas este dera-lhe um choque violento.

- RAIOS! – gritou, segurando a mão aleijada. Apontou para o céu escuro, de onde uma coluna de poder negro surgira em direcção ao cristal, fazendo tremer a casa.

Usagi gritou como nunca tinha gritado antes, agarrando o seu coração. Uma dor imensa invadiu-lhe o corpo, há medida que o cristal era banhado por aquele forte poder. Momentos depois o Ginzuishou estava completamente enegrecido, e Usagi caiu no chão sem forças.

- Tantos problemas no passado para consegui-lo. E foi tão fácil! – exclamou com olhar de louca, pegando finalmente na gema. – A primeira parte da missão na Ásia foi concluída, matem-nos. – ordenou enquanto atirava duas pedras para o chão, apontando para Usagi e os pais.

Imediatamente as duas pedras faiscaram e sob um clarão tomaram formas humanas. Dois homens surgiram. O primeiro, aparentemente o mais jovem, tinha o cabelo loiro e curto, estava vestido com uma farda cinzenta. O segundo e mais velho, também loiro, tinha o cabelo comprido apanhado, também vestido com a mesma farda.

- Jedite! Zoisite! – exclamou Usagi reconhecendo os generais com os quais lutara quando desperata como guerreira pela primeira vez.

Ostentavam uma lua negra invertida, seguida de uma estrela negra de quatro pontas. Entretanto, Esmeralda estalara os dedos e desaparecera com o Cristal.

Os dois generais fizeram vénia e voltaram-se para Usagi e os seus pais, com o olhar vazio.

- O que se passa? Que fazem aqui…? – perguntou aflita, tentando recompor-se da dor, mas não obteve resposta. Ao invés, recebeu um ataque que os atirou contra a parede. - PÁREM – suplicou, protegendo os pais com o seu corpo, enquanto Zoisite se preparava para lhes dirigir outro ataque.

- MIAUUUU! – Luna apareceu vinda do piso de baixo, e saltou para as costas de Zoisite espetando-lhe profundamente as garras, que uivou de dor.

- Animal impertinente! – exclamou Jedite ajudando o amigo, mandando um campo de forças a Luna, que caiu inanimada contra a parede. Esticou novamente a mão e retirou um punhal do uniforme.

- PÁREM POR FAVOR! – berrou Usagi tapando a cara com as mãos.

- SPARKLING WIDE PRESSURE!

- MARS, FLAME SNIPER!

- VENUS LOVE ME CHAIN!

Um disco de raios atingiu Zoisite enquanto que uma seta flamejante fez Jedite cair. Uma corrente amarela de envergia envolveu Luna e puxou-a em direcção a três figuras femininas.

- Segunda das quatro Sailors protectoras da princesa do Milénio de Prata, guerreira das chamas e da luta, protegida pelo planeta Marte, meu guardião. Sailor Marte!

- Terceira das quatro Sailors protectoras da princesa do Milénio de Prata, guerreira dos raios e da natureza, protegida pelo planeta Júpiter, meu guardião. Sailor Júpiter!

- Líder das guerreiras protectoras da princesa Serenity, guerreira da luz e da beleza, protegida pelo planeta Vénus, meu guardião. Sailor Vénus!

As três guerreiras estavam do lado oposto ao de Usagi e os seus pais, acabadas de subir as escadas repletas de destroços.

- Parecem mais poderosas desde o nosso último encontro... Mas adivinhem! Nós também! – exlamou Zoisite elevando a mão no ar. - DARK BARR…

- Outra barreira não! – zangou-se Júpiter fazendo sair uma antena da sua tiara, rodopiando rapidamente. JUPITER, OAK EVOLUTION!

Centenas de folhas de carvalho carregadas de energia colidiram com o ataque de Zoisite, desfazendo-o.

Os dois generais começaram uma furiosa ofensiva, dirigindo ataques poderosos repetidamente. Enquanto lutavam, Jedite esquivou-se e dirigiu-se a Usagi. Voltou a pegar no punhal que deixara cair.

- É o teu fim princesa. – disse num tom determinado.

- Porque fazem isto? Vocês estão ao serviço do Endymion, não entendo porq… - soluçava, colocando-se à frente dos corpos desmaiados dos pais.

- O teu discursozinho emotivo não vai funcionar desta vez! – gritou o general, esfaqueando Usagi no peito com toda a sua força.

- BUNNY, NÃO!!! – gritaram as Sailors tentando defender-se de Jedite, ao observar aquela cena.

Para surpresa de todos, o punhal desfez-se em pó assim que tocou na pele de Usagi.

- Maldita protecção! – berrou Jedite furioso. Usagi estava em surpresa e ao mesmo tempo em choque, não esperava que aquilo acontecesse.

- Temos que os matar! – exclamou Marte ainda com o coração a palpitar.

- Assim não vamos conseguir. Ele não pára! – gritou Vénus ao desviar-se de uma esfera de poder negro atirada por Zoisite.

- Temos que unir os nossos poderes, ele é forte demais. É preciso parar os ataques para podermos unir-nos! – bradou Júpiter ofegantes, após contra-atacar pela enésima vez.

- Já sei como os parar! BURNING… - gritou, desenhando um círculo de fogo no ar. - MANDALA!

Os arcos de fogo atingiram uma escora de madeira que ainda estava presa a uma réstia de tecto, fazendo-a cair com um grande estrondo entre elas e Zoisite.

- Agora! – gritou, fazendo aparecer uma ofuda com caracteres japoneses. - Rin, Pyo, Tou, Sha, Kai, Jin, Retsu, Zai, Zen! FIRE SOUL… BIRD! uma chama de fogo engoliu o encanto, transformando-se numa ave celestial ardente.

- Meu guardião Júpiter, trás a tempestade, as nuvens os trovões! – invocou, ao que uma antena se ergueu da sua tiara. - SUPREME THUNDER!

- VENUS LOVE AND BEAUTY SHOCK!

O coração do ataque de Vénus foi engolido pela ave de fogo, que por sua vez estava rodeada de raios eléctricos, criando um efeito majestoso.

O ataque arrebentou a escora de madeira que os separava e atingiu os dois generais quando estes se preparavam para atacar Usagi de novo.

No momento do impacto, uma enorme explosão expeliu-as todas para o pátio, deixando a casa em destroços. Os corpos dos generais transformaram-se em duas pedras, desaparecendo de seguida.

- Estão todos bem? A Usagi? – perguntou Vénus atordoada após ter caído violentamente, segurando Luna nos braços.

Usagi encontrava-se mais à frente, junto dos seus pais desmaiados.

- Estão a respirar. – acalmou Usagi confusa, tirando a fuligem da cara.

- E tu estás bem? – perguntou Júpiter preocupada.

- A-acho que sim… Quando fui projectada consegui agarrar-me ao ramo da árvore – disse apontando para a árvore com os ramos partidos que se encontrava ao lado deles, agora cheia de destroços da casa. – P-por favor chamem uma ambulância, os meus pais devem ter algo partido.

Entretanto, dezenas de vizinhos e curiosos estavam a juntar-se na rua após ouvir o som da explosão. Nesse momento, chegou um carro transportando Shingo, o irmão de Usagi, juntamente com os amigos.

- A MINHA CASA!!! – exclamou desmaiando de seguida.

*

-Ainda não caí em mim. – exclamou Minako sentada junto ao templo.

- É verdade. A casa da Usagi foi completamente destruída… - suspirou Makoto colocando um penso no cotovelo ferido de Minako.

- E não se esqueçam do meu templo. O pátio está todo destruído como podem ver! - disse Rei apontando para o chão, que estava num estado deplorável. - E no parque há árvores, terra, flores e bancos arrancados… - murmurou, sentando-se de seguida com as amigas. - Mas isso nem é o mais grave…

- O Mamoru desapareceu após lutar com a Esmeralda. Os pais da Usagi estão feridos…

- E a Luna também não está nada bem. Para não falar no Artemis que nunca mais apareceu em casa. – lembrou Minako com cara preocupada, olhando para o relógio de pulso. - Por falar nisso, está na hora de visitar a Usagi no hospital.

Sairam do templo e dirigiram-se para o hospital distrital de Juuban e subiram para o quarto onde se encontrava a família Tsukino. Truparam à porta mas não receberam nenhum sinal de volta. Decidiram entrar devagarinho.

O quarto estava pintado de branco, um branco triste e deprimente típico dos hospitais. O sol estava tímido naquele dia, ainda por cima o quarto apenas tinha uma janela voltada para norte, fazendo com que a luz fosse ainda mais fraca.

Os pais de Usagi estavam encamados e esta encontrava-se numa cadeira a olhar pela janela.

- Usagi? – chamou Minako baixinho, voltando a trupar.

Usagi voltou-se para trás e deu um sorriso triste.

- Entrem meninas. Eles estão a dormir, a enfermeira deu-lhes uma injecção. – disse Usagi olhando para os pais deitados.

- Como estás? – perguntou Rei colocando o ramo de flores que tinham trazido numa jarra vazia.

- Uns arranhões e uns cortes... – disse-lhes mostrando as ligaduras no braço. – Mas apesar de tudo… não estou nada bem. – fungou, ao referindo-se ao seu namorado.

- Eu sei… - compadeceu Makoto colocando o braço pelos seus ombros. - Vais ver que o Mamoru está bem.

- Não sabes isso... Eu só queria sentir o alívio de saber que ele está bem, como senti ontem quando me foram salvar e vi que estavam vivas…

- Tens que ter esperança… - encorajou-a Minako sem jeito.

- Não consigo ter esperança! – gritou-lhes, começando a chorar.

- Basta! – replicou Rei zangada, batendo com a jarra na mesa. - Nem sempre tudo é sobre ti e o Mamoru!

Todas ficaram atónitas e em silêncio, fitando a amiga num misto de medo e espanto.

- Desde sempre a nossa missão é proteger-te como princesa da Lua e nossa amigas que és, mas tu nunca nos facilitas as coisas. Esse sentimento de impotência que estás a sentir é o que todas nós sentimos constantemente! Ainda ontem te tentamos proteger da Esmeralda ao correr para o parque, e tu simplesmente fugiste de nós e foste enfiar-te e na cova do lobo! Como achas que nos sentimos também Usagi? Achas que é fácil tentar proteger alguém que nos ignora sempre que o seu namorado está em apuros? – perguntou, sentindo um enorme dor na garganta à medida que dizia o seu desabafo. – Sempre que um inimigo novo aparece, todas nós perdemos algo, todas nós deixamos de ter uma vida normal! Já pensaste que também somos como tu, e sentimos medo e tristeza? Não podes estar sempre a lamentar-te, tens que ter força e procurar uma solução invés de chorares sempre pelos cantos. – acabou, passando a manga da camisola pelos olhos molhados.

- Rei… - murmurou Makoto num misto de compreensão e de surpresa.

Usagi olhou fixamente para a amiga em silêncio. O ambiente ficou pesado mas passados uns segundos Usagi repetiu o gesto da amiga e limpou as lágrimas.

- Tens razão. Não posso estar sempre a pensar nos problemas, agora tenho que lutar para descobrir o Mamoru. Não posso lamentar-me! – exclamou esboçando um sorriso decidido.

- É esse o espírito! – alegrou-se Minako sorrindo também.

- Mas há algo que eu vos quero perguntar… Como se conseguiram transformar?

- Foi estranho… O campo de força estava quase a esmagar-nos, mas um furacão enorme carregado de energia simplesmente destrui-o. – explicou Makoto coçando a cabeça.

- Um furacão carregado de energia? Como? Assim sem mais nem menos?

- Não sabemos nada, simplesmente apareceu. Logo de seguida os cristais das nossas canetas de transformação ganharam um brilho forte.

- Foi aí que nos tentamos transformar. – completou Minako levantando o dedo. - E felizmente conseguimos.

- Esperem! – interrompeu Rei com um ar pensativo. - Agora que falam nisso, eu penso que vi a Neptuno quando o furacão apareceu! Só pode ter sido ela a manda-lo!

- Mas a Neptuno não tem ataques de ar, ela é a guerreira das águas profundas. – corrigiu Makoto.

- Ai.. – suspirou Minako bebendo um gole de sumo destinado aos pacientes. - Agora é que a Ami nos fazia falta para descobrir este mistério.

Usagi olhou para o relógio da parede.

- Bem, ainda temos montes de coisas para discutir…

- Como por exemplo o facto da Esmeralda estar viva. – interrompeu Minako.

- … mas tenho que ir buscar a Luna ao veterinário. – disse, levantando-se do sofá a custo.

- Deixa-te estar, nós vamos. Fica aqui com os teus pais. – ofereceu-se Makoto olhando com ternura para os Tsukino.

- Obrigada meninas… Estou estafada. – agradeceu, voltando a sentar-se com satisfação. - A Luna não pode entrar no hospital, será que alguma de vocês não pode ficar com ela esta noite?

- Eu fico! –prontificou-se Minako. - Assim sinto menos a falta do vadio do Artemis, quando ele chegar vamos ter uma conversa...

- Bem, então até manhã!

Todas se despediram, saindo do quarto. Logo de seguida entrou uma enfermeira gordinha e com aspecto caricato

- Zenhorr e Zenhorra Tsukino, vou administrrrar-lhes um zedativo para passarem melhor a noite ztá bem? – perguntou com um forte sotaque francês, enquanto preparava uma injecção.

- Quê?! – exclamou Usagi aflita. – Mas quando esteve aqui há 20 minutos não lhes deu já um?

- Dei-lhes um anti-inflamatórrrio menina... Elez ztão um pouco tontinhoz por causa da medicazão toda, mas não estão zedadoz. – ilucidou-a, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Usagi continuou a fita-la com descrença. – Ai! Vozê não ztá com boa cara, tome um bombom! – exclamou, tirando um doce da sua bata e enfiando-o de surpresa na boca de Usagi. - Vou administrarrr o sedativo, com licença! – concluiu apressada.

- Não é necessário. - falou o pai de Usagi abrindo os olhos subitamente.

- Não queremos dormir já. - disse a mãe abrindo também os olhos. - Tens muito o que explicar.

*

O percurso do hospital ao veterinário implicava passar pela rua da casa os Tsukino. Enquanto caminhavam, deparavam-se com imensos cartazes publicitários. Afixados em postes e em muros.

- Argh! Já estou farta de ver publicidade a este concerto! – exclamou Rei zangada.

- Concerto? – perguntou Makoto curiosa, visto que costumava ignorar os cartazes publicitários.

- Oh por favor Makoto! Em que planeta vives? – suspirou Minako dirigindo-se para uma parede com um cartaz em que se lia:
"Mega Concerto de Célia! A estrela internacional visita Tóquio para um concerto do seu mais recente álbum de originais 'Crystal Fixation' "

- A Célia vem cá?! Ela não participou naquele filme, o Pitanic? Ah, como gostava de ser actriz… – disse Makoto sonhando.

- Mas ela pouco participou em filmes, é cantora. Eu adoro a canção dela "Your Hips Lie"! – exclamou Rei participando do entusiasmo de Makoto.

- Não te fazia fã dela! – observou Minako estranhando a reacção da amiga, que não costumava deixar-se levar por celebridades. - Sinceramente não aprecio pessoas que fazem música e cinema ao mesmo tempo. Ou se dedicam a uma coisa ou a outra. – disse, fazendo um um ar superior e voltando a caminhar.

- Hum.. Será que estou a notar uma pontinha de inveja no teu tom de voz Minako?

- Eeeu?!! – exclamou Minako, detendo depois a sua marcha. Tinham chegado à casa dos Tuskino. Ou pelo menos o que restava dela. - Nem acredito que somos responsáveis por pelo menos metade disto! – admirou-se, referindo-se à explosão que os seus ataques haviam causado, que destruiu o que restava do piso de cima após a ofensiva de Esmeralda.

- Os nossos poderes aumentaram consideravelmente... – observou Rei ficando também surpreendida pela dimensão dos estragos que causaram.

- Pois, estou mesmo a ver a Neptuno a conseguir aumentar os nossos poderes.

- Minako, já disse que aquela podia não ser a Neptuno, tu estavas desmaiada, nem a viste! – exclamou Rei irritada pela teimosia da amiga.

- Então seria quem? A princesa de Inglaterra ou o Pai Natal? Tu própria disseste que ela era muito parecida com a Nept… A Makoto? – perguntou, ao notar a ausência da amiga.

Makoto tinha entrado no pátio da casa de Usagi, e segurava na mão um objecto circular.

- Makoto… O que e isso? – perguntou Rei apreensiva, pois o objecto parecia-lhe estranhamente familiar.

Makoto olhou-as um pouco incrédula e abriu a mão. Lá dentro encontrava-se um alfinete dourado. No seu centro existia uma estrela de quatro pontas rosa seguida de uma meia lua branca voltada para cima. De lado, coincidindo com os pontos cardeais, estavam pequenas esferas de diferentes cores, simbolizando as Sailor Senshi guardiãs. Depois de um silêncio em que todas fitavam atónitas o objecto, Makoto finalmente disse o que todas pensavam.

- Isto é… é quase igual ao primeiro alfinete de transformação da Usagi.

- Não pode ser…

- Mas ele tinha sido destruído… não foi? – perguntou Minako retoricamente, estando ciente que aquele alfinete tinha sido destruído há anos atrás.

- E a Luna não pode falar, quanto mais fazer um novo…

- Reparem. - observou Rei pegando nele. - Tem uma estrela de quatro pontas no lugar do círculo cor-de-rosa. Não está chamuscado ou arranhado, ou seja, isso quer dizer que ele foi posto aqui depois da explosão.

- Não vale a pena pensar nisso agora, temos que avisar a Usagi! – exclamou Minako contente, pois isto significava que a amiga talvez já se pudesse transformar e defender.

Voltaram rapidamente para o hospital, emocionadas por trazer finalmente boas notícias. Truparam à porta do quarto e entraram novamente. Depararam-se com Usagi sentada entre as duas camas dos pais, com estes perfeitamente acordados.

Usagi estava com os olhos muito vermelhos e brilhantes, mas parecia contente. A sua mãe estava com uma cara de choro, e o pai com um ar de incrédulo.

- Hã… - murmurou Makoto constrangida. - Desculpem a invasão, mas precisávamos de falar com a Usagi.

- Podem falar aqui. – disse o pai de Usagi num tom severo. - Já sabemos de tudo.

- Tudo? Tudo o quê? – tentou disfarçar Minako, esboçando um sorriso amarelo.

- Tudo tudo. – olhou-as Usagi num tom aliviado. - Ouviram a nossa conversa de há bocado.

- Vocês podiam ter confiado em nós, como foi possível manterem isto em segredo todos estes anos?! – exclamou D Ikuko enxugando as lágrimas.

- Sra. Tsukino… - começou Makoto, dando um passo em frente. Nunca tivera a experiência de revelar a sua identidade a ninguém, mas já havia preparado este discurso há muito tempo. - Não era uma questão de confiar, sabe... Se o inimigo tomasse conhecimento de que alguém conhecia as nossas identidades, poderia por a vida dessa pessoa em risco. As consequências eram muito perigosas…

- Nós também nunca contamos nada aos nossos familiares… - confessou Minako tentando reforçar o ponto de vista de Makoto.

- Mesmo assim. - soluçou a mãe de Usagi. – Custa-me tanto saber que não somos os verdadeiros pais da nossa filha, e que ela veio… da Lua não é? – perguntou, esperando obter confirmação para aquilo que lhe parecia um absurdo.

- Isso não é bem assim. -observou Rei intervindo pela primeira vez. – Nós somos a reencarnação das guerreiras que protegeram em tempos a lua, mas continuamos a ser… terrestres. Geneticamente vocês são os pais verdadeiros dela. – concluiu, esperando confortar a mulher chorosa. Olharam todos para ela com um ar muito surpreendido. - O que foi?! – perguntou irritada. - Não é só a Ami que sabe destas coisas!

- Mas há coisas que eu quero esclarecer. - interrompeu o pai, começando a lembrar-se de algumas coisas que não batiam certo. – Agora que sabemos a verdade, essas magias que nos fizeram parece que estão a perder o efeito. Quem são na verdade a Chibi-usa e a Chibichibi?!

- Tchi… Agora é que a Usagi fica em sarilhos! – murmurou Minako divertida ao ouvido de Makoto.

- Bem… - suspirou Usagi coçando a cabeça, pensando como havia de contar os factos complicados ao seu pai. - A Chibichibi era na verdade uma semente de estrela que uma navegante boa lançou, porque sabia que ia ficar má, e então essa semente de estrela reencarnou numa pessoa, para me guiar e aumentar os meus poderes de forma a eu combater o seu lado mau e transformá-lo em bom de novo, erh… Entendes…? – explicou, perdendo-se pelo meio.

- Oh sim, sim, sim, estou a ver… - menti, não tendo entendido nada. – Mas e a Chibi-Usa? Eu agora lembro-me que ela usou aquele boneco esquisito parecido com a Luna para nos hipnotizar! – relembrou-se, sendo que todos os encantamentos realizados para os iludir haviam-se quebrado assim que Usagi lhes contara a verdade. – Vês Ikuko? Eu bem disse que era estranho ela ser da nossa família, ninguém tem cabelo cor de rosa do meu lado.

- Agora é que ela fica MESMO em sarilhos! – segredou novamente Minako, ansiando pela explicação da amiga.

- Pois… A Chibi-Usa é tipo… É muito complicado explicar, não ias entender os detalhes, e agora vocês têm que descançar! – esquivou-se, sentindo a sua cara vermelha.

- Não é assim tão complicado explicares que ela é tua filha! – disse Rei entusiasmada, fazendo uma cara de inocente.

- O QUÊ???? – gritaram ambos os pais. - QUANDO é que isso aconteceu?!

- Calma! – exclamou Buny corada, tentando acalma-los, ao mesmo tempo que deitou um olhar furioso à amiga. – Eu… eu ainda não a tive! Ela é a minha futura filha! Ela só vai nascer no futuro, tinha é voltado para o passado para lutar connosco e…

- Isto não pode estar a acontecer…! – suspirou a sua mão, deitando-se para trás com uma dor de cabeça. - Futuras filhas que se encontram com futuras mães que não sabem que vão ter filhas, que por sua vez conhecem as mães antes de existirem… Oh, isto é tudo tão estranho e confuso.

- Futura ou não isso não interessa! Quem foi o rapaz que te desgraçou?! – gritou o pai de Usagi furioso, com uma veia a pulsar perigosamente na testa.

- Desgraçou? Quando a tiver já sou casada! – ripostou, não sabendo se havia de sentir vergonha ou fúria.

- Foi o Mamoru Chiba, vocês até o conhecem! – respondeu Rei novamente, com um sorriso de orelha a orelha.

- Argh não te metas! – gritou Usagi corando ainda mais. - Eu já tenho 21 anos! Não sou propriamente… hã… uma criança!

- Ai meu Deus! – exclamou D. Ikuko, tapando a cara com as mãos.

- Já estás é desgraçada desde os 16 anos! – gracejou Rei mais uma vez.

- Rei! – exclamou Makoto tapando a boca da amiga.

- BUNNY TSUKINO! Quero falar com esse rapaz! – espumou de raiva o pai.

Todos ficaram calados. Rei que se ria com vontade ficara também com cara apreensiva.

- E que ele… - explicou Usagi enquanto o seu sorriso desaparecia. - Ele desapareceu ontem.

- Ah… - murmurou o pai ficando novamente mais calmo e corado. - Falamos depois então. Mas não penses que isto acabou aqui, hã?

- A vossa casa ficou num péssimo estado. – interrompeu Makoto numa tentativa de mudar de assunto.

- Mas está tudo no seguro, e o piso de baixo não foi afectado. – explicou D. Ikuko. – Perdemos algumas coisas, mas todas as recordações e objectos mais importantes para nós estavam na sala do piso de baixo.

- Podem ficar no templo durante as obras de restauração. – prontificou-se Rei tentando ser prestável. - Temos quartos de sobra.

- Obrigada Rei. – agradeceu Usagi ainda amuada pelas graças que a amiga tinha dito. - Mas eu… não me sinto segura lá depois de tudo o que aconteceu, não me quero estar sempre a lembrar de tudo outra vez…

- Tudo bem, eu entendo. – compreendeu, sorrindo ligeiramente.

- Se quiserem podem ficar no meu apartamento. – ofereceu Makoto denotando-se um pouco de entusiasmo na voz. - Tenho um quarto de hóspedes e… e sofás-cama!

- A sério? Não te importas? É que somos quatro… - reforçou Usagi, lembrando-a do seu irmão.

- Claro que não! Vou adorar ter companhia!

- O que achas pai?

- Hum… O seguro cobre o arranjo da casa, mas não nos paga o hotel durante o tempo de arranjo. Mediante as opções que temos sou capaz de aceitar essa oferta! O que achas querida?

- Sim, como queriam... – suspirou a mãe de Usagi, ainda atordoada com tudo aquilo.

- Então está decidido. Se não te importares vais ter hóspedes Makoto!

- Obrigado Makoto. – agradeceu o pai, um pouco envergonhado por estar a aceitar ajuda de uma rapariga que poderia ser sua filha. – Mas é só até as obras de reparação acabarem. Pelas minhas contas deve demorar uns… 4 meses! – exclamou, ficando aflito quando se apercebeu do tempo que ia ficar hóspede.

- Não se preocupe Sr. Tsukino. Podem ficar lá o tempo que for preciso!

- Eu até oferecia a minha casa…- balbuciou Minako envergonhada, sorrindo timidamente. - Mas a não ser que alguém durma na banheira não há espaço para todos.

Todos se riram, quebrando um pouco o ambiente pesado que se fizera sentir à minutos atrás. Usagi olhou para as amigas, sentindo que faltava algo.

- Ò Minako… – disse, com um ar curioso. - A Luna?

As três deixaram rapidamente o quarto e correram até ao veterinário não querendo admitir que se tinham esquecido de ir buscar a gata.