Capítulo II

QUASE dois anos depois, Bella estava em um luxuoso café de Londres, esperando a chegada de sua amiga Vanessa.

Seus pensamentos estavam muito longe dali, centrados no Edward. Perguntava-se como iriam celebrar o segundo aniversário daquele primeiro encontro. Procurando um celeiro abandonado em meio da neve? Não, essa não seria boa idéia, pensou, sorrindo para si mesma. Ao Edward não gostava do frio e tinha pouca tolerância para os inconvenientes.

— Sinto chegar tarde —se desculpou uma magra ruiva de olhos castanhos, deixando uma câmara fotográfica sobre a mesa.

— Não tem importância.

— Querida, se deixar que te siga crescendo o cabelo —disse Vanessa então, assinalando a juba marrom que quase lhe chegava à cintura — as pessoas vão pensar que quer ser Rapunzel.

— Como? —exclamou Bella, surpreendida.

— Rapunzel, já sabe, a do conto de fadas. A que trancaram em uma torre e que deixou o cabelo comprido para usá-lo como escada —riu sua amiga. — Desgraçadamente para ela, não foi um príncipe azul o que subiu pela escada a resgatá-la... a não ser a bruxa. Advirto-lhe isso.

Bella soltou uma gargalhada. Estava acostumada à forma de ver a vida de sua sofisticada amiga. Filha de um famoso artista, Vanessa tinha sobrevivido a uma infância boêmia e instável para converter-se em uma fotógrafa de êxito. Mas seguia tendo cicatrizes infligidas por uns pais que tinham vivido vistas tempestuosas.

— Que tal seu príncipe azul? — brincou Vanessa, depois de pedir um café.

— Edward está muito bem. Muito ocupado, é obvio, mas me chama todos os dias quando está fora do país...

— Seu celular é o equivalente a uma cadeia —brincou sua amiga. — Acredito recordar que, se o desligar, pede-te explicações por triplicado.

— Não, mulher, o que acontece é ele que gosta de saber onde estou. Preocupa-se comigo —replicou Bella. — Sabe que, dentro de dez dias, Edward e eu teremos estado juntos por dois anos?

— Ah, que bom. O homem que não se compromete jamais está procurando uma medalha de ouro. Poderia te dedicar a escrever colunas de fofoca... mas, claro, o mundo teria que saber que existe e, infelizmente, é um segredo bem escondido.

— Edward não suporta a atenção dos meios de comunicação e sabe que tampouco eu gosto. Estou contente de permanecer na sombra —murmurou Bella, dizendo a si mesmo, por costume, que o tempo que tinha para desfrutar com o Edward seria tempo perdido se devia compartilhá-lo com os jornalistas. — Agora mesmo, estou tentando encontrar uma forma especial de celebrar nosso aniversário...

— Edward não fez nenhum esforço por celebrá-lo o ano passado, não é verdade?

— Não se lembrava de que levávamos um ano juntos. Deveria havê-lo recordado...

— E o que disse quando o recordou?

— Nada.

— Então, deixa que te dê um conselho —suspirou Vanessa. — Se quer seguir com o Edward Cullen, resista ao desejo de celebrar seu segundo aniversário.

— Por quê?

— Lhe recordar que levam juntos dois anos poderia fazer soprar o frio vento da mudança.

— O que tenta dizer? —exclamou Bella, angustiada.

Vanessa apertou os lábios.

— Olhe, eu acredito que está perdendo o tempo com esse homem. Nem sequer se incomodou em aparecer no dia que lhe deram o prêmio na escola de desenho.

— Porque seu vôo tinha chegado com atraso.

— Não me diga? Não é isso, Bella. É que não tem interesse em sua vida, a menos que lhe afete diretamente.

— Edward não é um artista nem tem nada que ver com a moda. Não espero que se interesse pelas bolsas que desenho...

— Por que não? Isso é o que faria qualquer um —a interrompeu sua amiga. — Não a apresentou a ninguém, nem a sua família, nem a seus amigos... Se te levar a algum lugar, tem que ser um onde não lhe incomodem os paparazzi e onde ninguém possa vê-lo contigo. Vive sua vida e tem a ti em uma jaula. Por que não te enfrenta com a verdade, Bella? É sua amante e...

— Isso não é verdade! Edward não me mantém. Eu não aceito seu dinheiro —a interrompeu Bella. — Bom, vivo em seu apartamento, mas pagamento todos meus gastos e não aceito presentes caros.

— Mas não é o que você pense, é o que pensa ele e como te trata...

— Edward me trata muito bem, Vanessa.

Sua amiga deixou escapar um suspiro.

— Como não vai tratar te bem? Estas louca por ele e Edward sabe disso e o utiliza. Mas deixou bem clara as regras desde o começo...

— Não, nunca houve regras. Não sou sua amante... nunca serei sua amante —a interrompeu Bella, apertando os lábios.

— Falou do futuro? Amor, casamento, filhos?

Ela fez uma careta.

— Querida, tem direito a perguntar onde vai sua relação —lhe aconselhou Vanessa, antes de mudar de assunto.

Depois, Bella não recordava do que tinham falado. Recordava ter sorrido muito para lhe deixar claro a sua amiga que não se sentia ofendida por seus comentários. Mas, na realidade, tinham-lhe feito mal... e lhe haviam dado que pensar. Umas horas antes, sentia-se feliz com sua vida e agora...

Vanessa não entendia as limitações que ela simplesmente aceitava sem discutir. Por amor.

Mas se via obrigada a reconhecer que o que havia dito era verdade. Não era uma opinião, era uma recontagem dos fatos.

Edward nunca a tinha levado a Grécia, até sabendo que ela queria visitar de novo esse país. Embora sua única irmã, Rosalie, estava casada com um inglês e vivia em Londres, nunca a tinha apresentado. Bella se dizia a si mesmo que, com o tempo, as coisas mudariam. Mas não tinha sido assim.

Também convenceu a si mesmo de que era irrelevante que Edward não a apresentasse a seus amigos, mas a verdade era que nunca lhe tinha dado opção.

Também era verdade que ele jamais tinha falado do futuro... ao menos, não de um futuro longínquo. Faziam planos de mês em mês porque isso era tudo o que lhe permitia sua avultada agenda. Nunca tinha mencionado o matrimônio ou os filhos. Quanto ao amor, estava acostumado a fazer comentários irônicos a respeito e Bella tentava evitar o tema.

Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto entrava no apartamento de cobertura que se converteu em seu lar. Edward não aceitava nenhum compromisso, mas isso não significava que fosse sua amante. Ou sim? Por natureza, Edward Cullen era um homem reservado e precavido...

Então outra dúvida a assaltou: como podia dizer que viviam juntos? Na realidade, ele seguia usando um duplex que tinha em Londres. Havia-lhe dito que era necessário porque estava mais perto de seu escritório. Além disso, seus parentes se alojavam ali quando estavam de visita em Londres. Mas Bella nunca o tinha visto.

De repente, via as bases de sua felicidade desaparecer como a areia banhada pelas ondas. Adorava Edward. Tinha acreditado que sua relação era maravilhosa, mas a franca opinião de Vanessa começava a destroçar essa confiança.

Como tinha podido estar tão cega?, perguntou-se. Seria possível que, como o duplex, ela só fosse um objeto útil para o Edward? Um objeto sexual.

O telefone começou a soar então e, depois de um momento de vacilação, Bella respondeu.

— Por que tem o celular desligado? Onde estava?

Era Edward, naturalmente.

— Tomando um café com a Vanessa... me esqueci de ligá-lo.

— Chegarei amanhã, às oito. Me conte algo.

É obvio, estaria tomando um café entre reunião e reunião e necessitava que ela preenchesse esse tempo livre. Estivesse no país que estivesse, chamava-a por telefone e esperava que Bella o entretivesse com seu bate-papo. Nunca lhe contava nada desagradável, nunca falava mal de ninguém, ela fazia favores a todo mundo, via tudo pelo lado positivo... E sempre lhe ocorriam coisas que comentar.

Mas aquele dia tinha a mente em branco.

— Do que quer falar?

— Me diga algo... que a roupa se corta para fomentar o negócio dos produtos dietéticos, as propriedades aditivas do chocolate, que dia faz, que inclusive os dias de chuva podem ser divertidos, as pessoas tão encantadoras que encontraste no vestíbulo, na rua, na loja... Estou acostumado a que me conte essas coisas.

Bella ficou rubra. Acreditava que era uma charlatona? O que via nela? Custou-lhe muito, mas conseguiu falar como se não passasse nada... enquanto se olhava ao espelho do corredor. A imagem que lhe devolvia era pouco aduladora. Como um homem como Edward podia estar interessado em uma mulher como ela?

«Pára, pára, pára», dizia-lhe uma vozinha. Decidida, deu-se a volta, jurando-se a si mesmo que a depressão não a levaria a geladeira.

Na Suíça, Edward pendurou o telefone com o cenho franzido. Bella parecia desgostosa. E ela nunca estava desgostosa. Justamente o contrário, era uma garota sempre alegre, sempre disposta a ver o lado positivo das coisas. Quando lhe acontecia algo, sempre o contava... Que problema podia ter?

Embora não sabia, Bella desfrutava de um discreto amparo vinte e quatro horas ao dia. Edward, como tantas pessoas de sua posição, tinha recebido ameaças. Preocupado porque ela se convertesse em objetivo, Edward tinha contratado uma equipe de profissionais para que velassem por sua segurança. Tinha pensado dizer-lhe mas temia que os guarda-costas a assustassem. Ela era tão amistosa, tão simpática com todo mundo, tão ingênua... Não queria mudar isso e decidiu que era melhor não contar-lhe. Por um momento, pensou perguntar à equipe de segurança onde tinha estado e com quem. Mas não, isso seria aproveitar-se da situação. Não tinha nenhum direito a fazê-lo.

Mesmo assim, que Bella lhe tivesse dado causa de ansiedade pela primeira vez fez que se voltasse para os executivos com gesto frio e cortante.

Bella sempre se arrumava para o Edward. Enquanto olhava em seu armário, dividiu-o mentalmente em três coleções de roupa: das três, só podia usar uma em qualquer momento. A primeira tinha desfrutado de um breve período de vida depois de uma dieta rigorosa, a segunda era a que tinha comprado quando voltou a engordar. A terceira era roupa longa, que podia vestir em qualquer ocasião sem temor de parecer muito «gordinha».

Enquanto tirava um vestido do cabide a cabeça começou a lhe dar voltas e teve que agarrar-se à porta do armário para não perder o equilíbrio. Não era a primeira vez que lhe passava, mas pensou que era devido a um resfriado que tinha sofrido uns meses antes e que não tinha podido curar de todo. Sem dúvida era isso e não gostava de perder o tempo indo ao médico.

Em uma hora, Edward estaria de novo com ela e se negava a atormentar-se com os comentários de Vanessa. Sua amiga só tinha querido pô-la em guarda porque estava preocupada, mas Bella sabia que Vanessa tinha tido várias relações mal sucedidas e que desconfiava dos homens em geral. Além disso, ela não conhecia o Edward, não sabia quão maravilhoso era.

Edward tentava afastar-se de certo tipo de imprensa e fazia todo o possível por manter sua vida privada em segredo. Não era fácil que Bella se zangasse, mas o tinha feito ao ler artigos que utilizavam velhas fotos e velhas histórias para seguir descrevendo ao Edward Cullen como um mulherengo frio e sem coração que, além disso, mostrava-se desumano nos negócios. Teria lido Vanessa esses artigos?

Enquanto se escovava o cabelo, pensava no homem que ela conhecia: generoso, forte, apaixonado... tudo o que tinha sonhado sempre.

As viagens turísticas o aborreciam, levava-a porque Bella adorava. Embora não gostava absolutamente, a tinha levado a Roma, a Paris e a um montão de cidades fabulosas para que pudesse explorar sua paixão pela história em sua companhia. Quando se sentia desanimada, assustada ou deprimida, ele estava a seu lado. Amava-o com toda sua alma por muitas razões. E seu lado mau? Não, não queria pensar nisso. Não queria arruinar sua felicidade.

Edward a chamou do aeroporto.

— Estou contando os segundos —lhe disse Bella.

Chamou-a da limusine quando ficou retido em um engarrafamento.

— Não posso suportar mais...

— Sabe quanto te senti falta? —perguntou Edward em sua última chamada enquanto entrava no elevador para subir ao apartamento de cobertura.

Para então, Bella estava nervosa. A porta se abriu e, ao vê-lo... deixou de pensar. Tremiam-lhe tanto os joelhos, que se apoiou na parede para estabilizar-se. Tudo em Edward a emocionava. Do ângulo orgulhoso de sua cabeça até a largura de seus ombros, suas pernas, tudo nele era espetacularmente masculino.

Era muito bonito e só tinha que entrar pela porta para que seu coração ameaçasse detendo-se.

Edward fechou a porta com o pé e a tomou entre seus braços. Por um segundo, Bella se perdeu na felicidade de tocá-lo, de cheirá-lo.

— Edward...

— Se pudesse viajar comigo, passaríamos mais tempo juntos —disse ele, com voz rouca. — Pensa. Poderia deixar suas tarefas artísticas estacionadas durante um tempo.

E perder sua independência... isso estava fora da questão.

— Não posso.

Contente de ter plantado outra semente, Edward a esmagou contra a parede. Ela sucumbiu ao atrativo de sua boca com o mesmo ardor que teria empregado em uma situação de vida ou morte. Sabia de maravilha, era como algo aditivo sem o que não poderia viver. Ele a pegou pela cintura, levantando-a para apertá-la descaradamente contra sua ereção.

— OH... —gemeu Bella, derretendo-se como o mel ao calor do sol.

Esmagada contra o corpo masculino, afastou a cara para procurar oxigênio quando recordou que tinha esquecido lhe recordar um ritual importante.

— O celular...

Edward ficou tenso.

— Ou o celular ou eu —lhe recordou ela.

Com uma mão, Edward tirou o celular da jaqueta e o jogou sobre a mesa do corredor. Logo, voltou a procurar sua boca com ânsia devoradora.

— Dessa vez, não vamos fazer no corredor.

Enjoada pela paixão, Bella só pôde assentir.

Decidido, Edward, pegou-a pela mão para levá-la ao quarto.

— Eu deixei o celular, assim terá que me compensar adequadamente, pethi mou.

Ela tinha as pernas trêmulas. O brilho sexual em seus olhos a aprisionava como uma cadeia. Uma cega onda de desejo a percorreu inteira.

Edward a olhou com ardente satisfação enquanto baixava o zíper do vestido azul turquesa, deixando ao descoberto o sutiã e a calcinha.

— É soberba —murmurou, com voz rouca de paixão.

Logo, tomando-a nos braços, depositou-a sobre a cama, seu carismático sorriso iluminando um rosto pelo geral sério.

— Não te mova.

— Não penso ir a nenhum lugar —murmurou Bella, seus olhos cravados nele como se tivesse um ímã enquanto ele tirava a jaqueta.

Era um homem fora de série. Alto, forte e incrivelmente bonito, emanava a força e a sensualidade de um predador. Bella sentia como se tivesse mariposas no estômago... e, entretanto, de uma vez, devia lutar contra a vergonha de estar deitada em uma cama, em roupa íntima, diante dele.

Não a tinham educado de uma forma liberal, mas quando Edward chegou a sua vida não só tinha atirado o livro das regras, tinha-o queimado.

Era importante para ele?, perguntou-se. Ou era algo temporal, algo que abandonaria sem olhar atrás quando se cansasse?

— Pensa em mim quando está fora de Londres? —perguntou-lhe.

Edward se deitou ao seu lado enquanto desabotoava sua camisa.

— Depois de duas semanas sem sexo? Esta semana pensei em ti ao menos uma vez por minuto —respondeu ele, rindo.

Bella ficou rubra. Mas o comentário não gostou absolutamente.

— Não me referia a isso.

Ele a apertou contra seu peito, com típica arrogância masculina.

— Não faça a um grego pergunta desse tipo. É minha amante, claro que penso em ti.

Quando começou a beijá-la, todas as dúvidas desapareceram desatou-se um incêndio entre suas pernas e uma onda de desejo a consumiu ao sentir o peso de seu corpo. Duas semanas sem o Edward eram como toda uma vida. Embora duvidava de seu amor por ela, não podia evitar refugiar-se em sua paixão. Suas peritas carícias a faziam gemer e, quando utilizou os dentes e a língua, começou a apertar-se contra ele sem pensar em nada mais.

Seu coração pulsava a toda velocidade, o ar logo que chegava a seus pulmões. A elementar masculinidade do Edward era irresistível. Ele sabia perfeitamente o que a excitava e, quando encontrou o casulo escondido entre seus cachos, com seus dedos peritos a levou ao topo de desejo ainda mais desesperador.

— Assim é como te imagino —murmurou, com crua satisfação. — Enlouquecida pelo prazer que te dou.

Enterrou-se nela com força e, delirante de desejo, Bella o recebeu, contraindo os músculos para não deixá-lo ir. Sua necessidade dele era dolorosamente intensa. Sua paixão a enlouquecia até o limite, mas logo começou a cair, a cair... até chegar a um estado de agitação que não tinha nada que ver com a sensação de felicidade que experimentava outras vezes. Seu corpo estava satisfeito, mas suas emoções não. Sem dar-se conta, seus olhos se encheram de lágrimas.

Bella afastou o cabelo de seu rosto.

— O que te passa?

— Nada —respondeu Bella. — Não sei por que estou chorando.

Ele a acariciou, pensativo. Se tivesse paciência, contaria-lhe o que acontecia. Bella era incapaz de lhe guardar um segredo.

— Sinto muito... suponho que me pus emotiva pensando em nosso aniversário — murmurou ela pouco depois.

— Que aniversário?

— Não sabe que dentro de uns dias fará dois anos que estamos juntos? —sorriu Bella, levantando a cabeça. — Quero que o celebremos.

Dois anos? Edward tentou dissimular sua reação ante a notícia. Tanto tempo levava com o Bella? Dois anos? Alguns casamentos não duravam tanto. Quando se tinha convertido em algo permanente? colocou-se na rotina de sua vida sem que se desse conta...

A vida de Bella estava tão imbricada na sua como as folhas de hera em uma árvore. Não era uma analogia muito inspirada, mas... Quando foi a última vez que se deitou com outra mulher? Dois anos. Tinha-lhe sido completamente fiel. Reconhecer isso fez que apertasse os dentes. Inexplicavelmente, infiltrou-se em sua liberdade como um exército invisível, condicionando sua vida de uma forma que lhe resultava completamente alheia. A surpresa o esfriou, como se estivesse na presença do inimigo.

— Eu não gosto de celebrar meus aniversários com mulheres —disse com os olhos brilhantes. — Eu não gosto dessas coisas sentimentais.

Bella ficou sem respiração. Não queria acreditar que Vanessa tinha tido razão, mas...

— Para mim é especial que tenha sido parte de minha vida durante tanto tempo.

Edward se encolheu de ombros.

— Passamos bem juntos e te aprecio no que vale, mas não acredito que seja apropriado celebrar aniversários. Não somos noivos.

Bella se sentiu como alguém parado em uma via quando o trem se aproximava a toda velocidade. Essas palavras esmagavam todos seus sonhos, todas suas ilusões.

De um salto, ele se levantou da cama para ir ao banheiro. Bella ficou deitada, atônita, com o coração partido. Diante de seus olhos, o homem que amava se converteu em um estranho aterrador de olhos frios e tom cortante.

Nervosa, levantou-se para vestir a bata azul que havia sobre uma cadeira, mas teve que voltar a sentar-se na cama porque a cabeça lhe dava voltas. Era esse estúpido enjôo outra vez. Possivelmente tivesse uma infecção de ouvido...

«Aprecio-te no que vale». O que significava isso? Que tinha calculado seu valor em termos de conveniência? Não, ele não era um homem sentimental e tampouco lhe importava ferir seus sentimentos, aparentemente. Devia estar muito seguro de sua relação para lhe proibir celebrar um aniversário. Mordendo os lábios, Bella amarrou o cinto da bata. Mas uma fúria desconhecida para ela começava a emergir em seu coração por causa da humilhante resposta.

Por outro lado, no banheiro, Edward se apoiava na parede da ducha, deixando que a água caísse sobre seu corpo. Normalmente, ficava na cama com Bella depois de fazer amor. Tomado por surpresa, tinha atuado sem tato algum. Furioso consigo mesmo, teria se encalacrado a golpes com a parede... Sua relação era quase perfeita. Bella nunca lhe exigia nada e não parecia ter mais ambição na vida que fazê-lo feliz. E o fazia de maravilha, teve que reconhecer. Não queria perdê-la, mas o que podia fazer com uma amante que não sabia que o era? Uma amante que queria celebrar aniversários como se fosse uma esposa.

Edward fez uma careta. O que lhe estava passando?

Provavelmente, raciocinou, sua amiga Vanessa fosse a responsável por aquela mudança. Era ela quem tinha destruído sua alegria? Quem se não? Bella lhe tinha repetido alguma vez os ácidos comentários de sua amiga sobre os homens. E tinha a impressão de que Vanessa o fritaria em azeite fervendo se tivesse oportunidade.

Que subestimasse sua relação com Bella o tirava de gonzo. Ele se sentia orgulhoso de como a tratava. Cuidava dela e era uma mulher feliz. Por que? Porque ele a mantinha afastada da dura realidade da vida. Inclusive conseguia que seus sonhos se fizessem realidade. Embora ela não o suspeitava, dezoito meses antes tinha usado suas influências para que entrasse em um curso de desenho na universidade. Graças a ele, tinha começado a desenhar bolsas que, em sua opinião, nenhuma mulher sensata deveria comprar. Recordou então a bolsa em forma de tomate... Mas o assunto era que Bella estava contente com sua vida... ou, ao menos, tinha-o estado até que a serpente entrou no paraíso.

Estava secando-se com a toalha quando Bella entrou no banheiro.

— Se não podermos celebrar aniversários, o que podemos celebrar? —perguntou-lhe, muito séria.

Edward ficou parado com a toalha na mão, as gotas de água enredando-se no pêlo escuro de seu torso. Não tinha esperado um segundo assalto. O primeiro o tinha tomado por surpresa.

— Não sei o que...

Bella se deu conta de que tinha um nó na garganta, um nó que crescia a cada segundo.

— Uma vez me disse que nada permanece igual, que tudo deve progredir —lhe recordou. — Disse que as coisas que permanecem estáticas morrem. Entretanto, nos dois últimos anos nós não mudamos absolutamente nada.

Nesse momento, Edward decidiu que devia guardar-se suas palavras para si mesmo.

Bella falava com o coração. Queria entender o que estava passando entre eles, precisava saber o que eram um para o outro.

— O que passa então, Edward? Onde vai nossa relação?

Que Bella submetesse a tal interrogatório exasperou ao Edward. Mas, decidido a cortar o mal pela raiz, atraiu-a para si e procurou sua boca com tal ansiedade, que a deixou tremendo, desconcertada.

— Vamos à cama? —murmurou.

Ela ficou pálida, como se a tivesse esbofeteado. Aparentemente, Edward acreditava que era muito fácil distraí-la.

— Essa é a resposta? Quero sentir que sou parte de sua vida, não só alguém com quem te deita...

Ele abriu os braços, suspirando.

— Mas é parte de minha vida!

— Se isso for verdade, por que não conheço seus amigos? Envergonha-te de mim?

— Quando estamos juntos, prefiro te ter para mim sozinho, pethi mou. Não vou pedir desculpas por isso —respondeu Edward. — Te Acalme. Está-te pondo nervosa...

— Não estou nervosa. Simplesmente, estamos tendo uma discussão —replicou ela, procurando dentro de si a tranqüilidade que fazia falta.

— Não penso discutir contigo.

— Outra coisa mais que te nega a fazer?

Nesse momento, começou a soar o telefone e Bella se alegrou da interrupção.

— Diga ao Edward que fique... —ouviu a voz da Elyssa.

— Um momento, por favor.

Se Rosalie não encontrava Edward no celular, não tinha nenhum problema em chamar o apartamento de cobertura. Os Cullen estavam muito unidos desde que seus pais morreram, quando Rosalie era uma adolescente, e ainda se apoiava muito em seu irmão. Mas não parecia saber quem era Bella, porque sempre lhe falava como se fosse alguma empregada.

Edward tomou o telefone.

— Sim? —murmurou. Mas olhava a Bella. Estava furioso com ela. Por que queria danificar o que havia entre eles? O diálogo telefônico continuou em grego. Bella entendia algo porque levava vários meses estudando esse idioma para lhe fazer uma surpresa. Rosalie estava lhe recordando a seu irmão que dava uma festa em sua casa a semana seguinte.

É obvio, Edward não a convidaria a essa festa. Ele não tinha pressa por incluí-la em seu círculo familiar ou de amizades. Era porque só a utilizava para o sexo?

Sexo fácil, sem complicações, com uma mulher que tinha sido o suficientemente tola para entregar-se desde o começo. Como ia queixar-se se Edward nunca lhe tinha prometido nada e não lhe tinha exigido promessa alguma?

Angustiada, Bella se afastou. Tinha vontades de chorar, mas não queria fazê-lo diante dele.

Entretanto, não podia deixar de lhe dar voltas à situação. Edward era um homem muito apaixonado, com um desejo insaciável. Mas lhe interessava mais seu trabalho que o prazer e uma mulher que exigia pouco era uma necessidade para ele. Sem dúvida, o tinha posto em bandeja. Não lhe exigia nada, não lhe montava uma cena quando chegava tarde, tinha aceito um papel secundário em sua vida...

Por que? Porque Edward era tudo o que ela não era, o que não seria nunca. Não tinha um problema de auto-estima, simplesmente não podia ignorar o fato de que Edward Cullen a superava em todos os sentidos. Era muito bonito, sofisticado, rico, o produto de um mundo privilegiado. Se chovia durante um dia do verão, por exemplo, levava-a em seu avião particular a alguma praia ensolarada. Tinha a capacidade de mudar as circunstâncias a seu desejo. Tinha recebido uma educação superior e era uma pessoa muito inteligente, um perfeccionista obsessivo, raramente satisfeito com os resultados, por melhor que fossem.

O que tinha ela que oferecer, em comparação? Estudos primários, uma família de classe média, uma inteligência normal e um físico também normal. Como se tinha atrevido a sonhar que algum dia Edward Cullen se apaixonaria por ela? Como tinha podido acreditar que um dia ia casar-se com um homem assim? Entretanto, tinha sonhado precisamente isso. Amava ao Edward, amava-o com todo seu coração, de forma obsessiva. E, desde o começo, esse tinha sido o problema. Amava-o tanto, que era incapaz de usar o sentido comum para controlar sua relação com um homem tão impressionante.

Bella levantou o queixo, orgulhosa. Possivelmente Edward estivesse satisfeito com sua relação, mas ela não. Ela queria uma relação com futuro. Ficava doente só de pensar em lhe dizer adeus, mas se para ele era só uma companheira de cama ocasional, teria que fazê-lo.

Custasse o que custasse.

Por outro lado, não teria eleito o pior momento para mencionar um tema que para o Edward era controvertido? Provavelmente a palavra «aniversário» o horrorizasse. Provavelmente estava tirando as coisas de gonzo, provavelmente só se estava deixando levar pelas palavras de Vanessa...

Ali estava, discutindo com o Edward pela primeira vez desde que se conheceram naquela estrada solitária, pondo em perigo sua relação. Bella teve que apertar os punhos para conter as lágrimas. O que lhe passava? Sentia tantas emoções dentro dela, que não podia conter... Nervosa, respirou profundamente, tentando recuperar a tranqüilidade que tinha sido sempre parte de sua natureza.

— Bella... —Edward entrou no salão de cueca e a encontrou frente à janela. Aproximando-se de duas pernadas, tomou seu rosto entre as mãos. — Você gostaria de ir à festa de minha irmã a semana que vem?

Atônita, ela levantou o olhar.

— Diz a sério? Claro que eu gostaria de ir!

Ao ver o brilho de felicidade em seus olhos castanhos e esse sorriso tão generoso que iluminava sua cara, Edward se alegrou. Fazia bem. Um fim de semana em Paris teria comprometido seus princípios no que se referia a aniversários. Que Rosalie apenas fosse a fixar-se em Bella entre tantos convidados era irrelevante. Não havia razão para que não fosse à festa, mas não tinha intenção de converter esse convite em um costume.

Algum dia, para cumprir com sua obrigação como herdeiro da família Cullen, teria um herdeiro. Por isso, devia fazer uma distinção clara entre sua vida pública e sua vida privada. E ser discreto. A Bella doeria, naturalmente, mas quanto mais tempo fizesse parte de sua vida, mais difícil lhe resultaria separar-se dele e mais facilmente se acostumaria a aceitar as inevitáveis restrições, pensou Edward, decidido.

Com o coração acelerado, Bella apoiou a cabeça em seu peito. Sentia-se como uma tola por sua falta de fé. Evidentemente, deveria ter falado antes com ele. Possivelmente Edward só necessitava um empurrãozinho na direção adequada.

— E agora... —disse ele, levantando seu rosto com um dedo. Seu olhar escuro a excitava. Excitou-se inclusive antes de que beijasse seus lábios abertos com um ânsia devastadora, antes de que a tomasse nos braços para levá-la de volta ao dormitório.