Criem Suas Crianças Bem
A primeira vez que alguém se refere a suas mamães com aquela palavra, você tem cinco anos.
Quando Mamãe sai do trabalho na faculdade – ela ensina pessoas sobre livros – e apanha você na escola, ela pergunta por que você parece tão triste. Você chuta suas perninhas (Mamãe diz que você foi agraciado com os genes de altura da Mama, seja lá o que isso signifique) contra o banco do carro, ignorando o filme no DVD portátil na parte de trás da van.
Você pergunta a ela o que a palavra significa.
Você reconhece o olhar nos olhos de sua Mamãe e sabe que ela está com raiva. Às vezes ela lhe lança aquele olhar, quando você esquece de pegar seus brinquedos ou diz não para ela quando ela avisa que é hora de ir para cama. Outras vezes aquele olhar é para Mama, quando dedos estão voando em sinais muito rápidos para que você entenda. De qualquer maneira, o olhar nos lindos olhos castanhos de Mamãe nunca dura muito tempo.
Naquele dia, o olhar dura até você chegar em casa, e Mamãe e Mama estão sentadas no sofá, e Mama o segura em seu colo.
"Mama? Você e Mamãe estão com raiva de mim?" você pergunta.
"Não, Levi," ela faz o sinal, beijando sua testa. Ela parece cansada; Mama trabalha como professora de música especial em uma escola para crianças surdas, e você sabe que ela ama o que faz, mas pode ser "exaustivo", Mamãe disse uma vez.
"Levi," Mamãe diz para você, fazendo sinais para Mama. "Quem disse essa palavra para você hoje?"
Mama cutuca sua Mamãe. "Que palavra?" ela faz o sinal.
Você consegue ouvir os sinais de Mamãe, e vagarosamente, os dedos dela soletram no ar.
S-a-p-a-t-õ-e-s.
Joey Casone disse aquela palavra no playgroud na hora do lanche, então você diz isso às suas mães. Ele disse que você tinha uma Mamãe e uma Mama porque elas eram sapatões, e isso era nojento. Que você precisava tomar cuidado ou seria nojento como elas. E quando você disse isso a sua professora, Sra. Hamilton, ela apenas disse que você deveria ignorar, e que era melhor se acostumar a ouvir aquela palavra, e outras.
Mama fez um barulho engraçado e parecia com raiva, e você estava com medo, porque você deveria ter feito algo errado. E depois você passa para o colo de Mamãe quando Mama começa a andar de um lado para o outro, fazendo sinais furiosamente, e você ainda não é tão bom ao entendê-la quando ela faz sinais – ou quando fala – muito rápido, mas você acha que entende as letras A, C, L, U muito bem.
"Mama gosta muito dessas letras," Mamãe sussurra no seu ouvido, beliscando sua bochecha, e depois, fazendo cócegas em sua barriga.
Você ri, e ela o coloca no chão dando um tapinha no seu bumbum – você afasta a mão dela porque você tem cinco anos, e não mais um bebê – então ela diz que você pode brincar até o jantar.
Você não pode evitar, senão espiar pela porta alguns minutos depois, e ver sua Mamãe segurando Mama no colo, balançando-a enquanto ela chora, como ela faz com você tarde da noite quando você tem pesadelos. E Mama não fala muito mais, porque ela não percebe o quão alta sua voz pode ser, mas você sabe que Mamãe não se importa porque Mama mantêm a voz baixa quando diz "Eu te amo, eu te amo," de novo e de novo no ouvido de sua Mamãe.
Mama soa um pouco rouca, mas a voz dela ainda é bonita, você pensa, quando volta a brincar com os soldadinhos.
Quando você tem onze anos, Mama e Mamãe acham que você já está velho suficiente para voltar sozinho, você e sua irmã mais nova, Amélia, da escola, mas você tem certeza de que a permissão está prestes a ser revogada, quando entra em casa com o braço em volta de uma Amélia soluçante, e a boca de Mama cai quando vê seu olho roxo.
Mamãe pega Amélia no colo e a leva para o quarto, para acalma-la; você começa a sentar no sofá, quase agachado, enquanto Mama faz sinais irritados em sua direção.
Você pode ser pouco mais alto que ela, mesmo aos onze anos, mas ela é a Mama e pode dar medo até em Deus quando fica brava suficiente.
"Violência nunca é a resposta, Levi." Ela diz, e fala algumas das palavras acompanhadas com sinais. Você sabe que ela freqüenta a terapia da fala desde que perdeu a audição, para que possa continuar a usar a voz de vez em quando.
Ela não canta mais, mas ela fez CDs para você (seu "pequeno homem" ela dizia no CD) e para Amelia ("menininha") quando tinha 19 anos e as coisas começaram a piorar.
No CD, Mama canta algumas músicas, lhe dá algumas "palavras de sabedoria" como ela as chama. Ela até lê alguns livros infantis e histórias de ninar entre uma música e outra.
Nem Mamãe ou Mama sabem que você e Amélia colocaram os CDs nos seus iPods; e que às vezes você o escuta quando todos estão dormindo. Agora você sabe que Mama tem uma voz linda, e você tem uma espécie de raiva de quem decidiu que ela não pode cantar mais.
Ou ouvir.
Mas Mama ainda está em sua palestra, e Mamãe ainda não voltou do quarto de Amélia, então você sabe que isso é ruim. Você apenas senta lá sem falar nada e a deixa castiga-lo por um mês por brigar com Jason.
Assim que Mamãe volta para a sala, Mama faz a pergunta que você não quer responder.
"Levi, querido, por que você bateu no Jason?"
Você olha para ela e pode ter onze anos de idade, mas tudo o que você quer fazer é chorar, e o olhar de frustração no rosto dela é substituído pela preocupação quando uma lagrima rola por sua bochecha.
Mas você range os dentes e olha diretamente nos olhos dela, enquanto fala devagar.
Você não vai fazer os sinais. Você não pode fazer isso com ela. As palavras são ruins o suficiente.
Talvez se ela não puder ouvir, não doa tanto.
"Ele a chamou de surda retardada, Mãe."
Você vai para o quarto de Amélia brincar com ela antes do jantar, e logo ela está rindo de novo e esquece o que aconteceu no dia, esquece de que viu você brigar com um cara pelo menos meio metro mais alto e duas vezes mais pesado que você.
Quando você sai do quarto para ir ao banheiro, você vê Mamãe no sofá com Mama no colo, balançando-as e cantando para Mama enquanto ela chora.
A voz de Mamãe é bonita também.
Dói saber que Mama não pode ouvi-la, que não era capaz de ouvir há 14 anos.
Mais tarde naquela noite, você escuta através dos fones de ouvido Mama cantando I Dream A Dream, e você odeia Deus.
Quando você ouve a voz dela dizendo "Eu amo você, meu pequeno homem", você não se importa se tem onze anos e se é um menino. Você afunda a cabeça no travesseiro, e você chora.
Amélia tinha 14 anos de idade quando cantou seu primeiro solo em um recital de coral. Você, Mamãe e sua irmã estão rindo de Mama, que está armada para o recital com uma câmera de vídeo, uma câmera digital e um gravador de voz. Mama apenas mostra a língua para todos vocês e faz sinais para mostrar que ela tem que ter certeza de que todos os recitais de Amélia sejam registrados, de modo que ela tenha material suficiente para fazer uma biografia.
Mamãe revira os olhos e puxa Mama para um beijo enquanto você e Amélia fazem sinais de nojo com as mãos, sorrindo.
Mama e Mamãe estão muito orgulhosas quando Amélia sobe ao palco, e sim, você pode brigar com sua irmã mais nova – muito – porque fala sério, você tem 16 e ela é irritante, mas no minuto em que ela abre a boca, a sua cai aberta – porque ela soa exatamente como Mama.
Mamãe chora por causa disso. Mama chora porque os olhos de Amélia estão nela o tempo todo, enquanto ela faz os sinais acompanhando as palavras do Journey.
Quando ela canta a ultima palavra – Fielmente – você percebe que Mama e Mamãe estão com os dedos entrelaçados, os objetos eletrônicos esquecidos no colo de Mama.
Dois anos depois, você está nervoso enquanto senta no palco; você olha para a audiência até que seus olhos encontram os castanhos de Mamãe, e ela sorri para você, fazendo um movimento que claramente diz "Pare de brincar com o chapéu". Você sorri, mas para.
Tia Brittany e tia Santana estão sorrindo para você, mesmo que tia Santana tente parecer entediada. Mas você a conhece.
Amélia acena para você, sentada ao lado de Mama, que lhe dá um sinal positivo com os polegares com a mais nova câmera de vídeo da família. Ela diz que é apenas porque seus avôs não puderam estar lá, mas você também pegou ela fazendo sinais para Mamãe, que diziam que seria preciso ter vídeos de sua juventude para quando você decidisse se candidatar a presidente.
"E agora, senhoras e senhores, por favor, uma salva de palmas, ao representante da classe de 2036, nosso Valedictoriano, Levi Nathaniel Berry-Fabray."
Os aplausos foram leves, mas você sorriu quando tia Santana assobiou alto. O sorriso se esvaiu quando você tomou seu lugar atrás do pódio, e você olhou para seus colegas, para aqueles, que muitas vezes, o atormentaram nos dezoito anos de sua vida.
Você não os vê, no entanto. Você vê sua família.
Você limpa a garganta, saindo do pódio e se movendo para a esquerda, fazendo os sinais enquanto começa seu discurso.
"Enquanto nos formamos hoje, sentimos como se fossemos heróis. Temos feito o que nos propuseram a fazer em nossa educação precoce, e sentimos agora como se estivéssemos no topo do mundo, começando a tomar os passos necessários para uma melhor educação, em direção a o que quer que a vida nos traga."
Você pausa, e mais uma vez, seus olhos se concentram em sua família.
"Mas eu quero falar um pouco sobre outros heróis. Os heróis que vieram antes de nós, os heróis que nos trouxeram até onde estamos hoje, os heróis que eu espero, moldaram nosso futuro. Eu quero falar sobre os meus heróis." Você respira fundo.
"Eu quero falar sobre minha mãe, Quinn, e sua esposa, minha mãe, Rachel."
Houve um suspiro audível de algumas pessoas na platéia, mas você não se importa. Tia Brittany pegou a câmera de Mama porque ela já estava chorando; Tia Santana tirou a câmera da mão dela porque estava filmando de cabeça para baixo.
"Nossos pais podem nos ensinar muitas coisas, lições de vida valiosas que eu espero, carreguemos conosco para sempre, e que possamos passá-las para as próximas gerações. Quando eu tiver meus filhos, eu quero que eles saibam o que Mamãe me ensinou: que se deixar ser fraco, não significa que você não seja forte. Que a verdadeira coragem é defender o que é certo, mesmo quando os outros tentam te colocar para baixo. Que não é quem você ama, contanto que você ame essa pessoa com todo seu coração, não importa o que disserem sobre você."
Mamãe está sorrindo para você, as lagrimas escorrendo pelo rosto, seu braço em volta da cintura de Mama, abraçando-a apertado. A cabeça dela está descansando no ombro de Mamãe, e o olhar em seu rosto está tão cheio de orgulho que você quer descer do palco e abraça-la.
"Quando eu tiver meus filhos, quero ensina-los o que minha Mama me ensinou: que é sempre em sua maior tragédia que você encontra sua maior força. Que você não tem que falar, ou mesmo ter uma voz, para ser ouvido, e que você não tem que ser capaz de ouvir, para realmente escutar. Que às vezes o som mais bonito do mundo é o silêncio de um beijo compartilhado com quem você ama."
Outros estão chorando, agora, até tia Santana, e você faz uma nota mental para provoca-la no jantar mais tarde.
Você está chorando também, mas isso não importa.
"Mamãe, Mama... vocês são minhas heroínas. Não importa o que aconteceu, no importa as crueldades que a vida jogou em vocês, vocês as enfrentaram juntas, e nunca pararam de cuidar uma da outra. Eu amo você Mamãe," você diz, "Eu amo você, Mama," você faz o sinal. "Obrigado por serem minhas mães. Obrigado por me amarem. Eu estou muito orgulhoso por ser seu filho."
Você olha novamente para seus colegas, que sempre tiraram sarro de sua família pouco tradicional. "Eu espero que todos vocês tenham um herói em suas vidas como eu tive. E se não tiverem, apenas lembrem: quando você sair deste auditório, você tem a chance de sere o herói de alguém. Parabéns, pessoal, nós conseguimos."
Você nem mesmo ouve os aplausos desta vez, enquanto senta novamente.
Mais tarde naquela noite, você agradece aos seus outros heróis.
A tia Santana que espancou cada pessoa que se atravesse a tirar sarro de sua Mama, quando ela começou a perder a audição.
A tia Brittany, que comprou dez patos de pelúcia e levou-os aos hospital quando você teve que tirar sua amídala – aos doze anos – apenas porque não sabia de qual você ia gostar mais.
A Amélia, por entender quão difícil pode ser às vezes ter mães gays, mas que teimosamente falava sobre suas mamães em toda chance que tinha.
Por agora, porém, tudo o que você vê são dois rostos brilhantes da platéia, olhando para você com amor.
Você tem sido o pequeno homem delas por dezoito anos. Quando você finalmente descer daquele palco, você vai ser só um homem, mas nunca vai esquecer como se tornou um.
FIM.
História curtinha como eu disse, e eu chorei mesmo nesse último capítulo porque a TPM estava no auge (até parei na metade). Essa história na minha percepção foi perfeita apesar de ser incomum, porque é claro que nós não queremos ver a Rachel sofrer. E o trabalho e preocupação da autora em passar as emoções dos personagens é simplesmente maravilhoso, e estou orgulhosa de mim mesma por essa tradução. Continuem acompanhando minhas outras fanfics, e obrigada pelos Reviews! Depois desse super Angst, resolvi traduzir uma One-Shot (Faberry, claaaro) de super comédia, cujo nome é Reunificação, deem uma passada no meu perfil. Beijos!
N.T. No fim do discurso eu gritaria: CHUUUUUUUUUUUUUPA!
