Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens pertencem a Saint Seiya e a ele todos os direitos são reservados. No entanto, A personagem Oksana é de minha autoria e peço-lhes respeito.A música Incidental chama-se "Desconhecida", de Márcia Freire, Composição: Michael Shepstone/Christian de Walden/Stephen/Steve Deutsch/Carlo Toro Montoro-vs. Claudio Rabello
Capítulo II- A ponta do Iceberg
A confusão era eminente. Explicar este tipo de deslize ao mestre, não era tarefa fácil. Um tentou defender o outro, até que Alexei interrompeu o amigo e absorveu toda a culpa, dizendo tê-lo feito jurar silêncio. Era isto, ou a verdade. E a verdade prejudicaria gravemente o companheiro. E Nádya era a responsável pela descoberta, por dar falta de sua pupila mais de uma vez durante a pausa dos treinos e investigar o fato. A amazona seria devidamente punida e os dois aprendizes teriam treinos mais árduos, sem tempo para pausas.
Obviamente que tais providências não foram suficientes para separar os dois irmãos por completo. Dias depois, Oksana já se aventurava a visitá-lo novamente, desta feita com maior cautela e menor freqüência. Mas ao aparecer a eles novamente, Isaac assustou-se com o que viu. A bela moça estava repleta de ferimentos, hematomas e até mesmo queimaduras. Implacável Nádya... Rigidez era pouco; crueldade era a palavra.
A partir daqueles dias, Isaac passou a olhar os dois parentes com certa admiração pela coragem de arriscarem-se um pelo outro. Hiyoga poderia não ser o melhor exemplo de aprendiz, mas jamais pensara em desistir dos seus próprios ideais. Encarava aquela fase apenas como uma superação de obstáculos. Isto era, no mínimo, admirável.
Isaac não tornou a ver o belo rosto por traz da máscara. Achava-a maluca e com falaa de senso, mas era inegável que lhe fosse bastante atraente e intrigante. Desviava o pensamento sempre que se pegava divagando sobre isso e jamais admitiria tal fato. Tudo o que ele não queria, era se envolver. Já Oksana, com o tempo criou certa confiança no amigo do irmão, apesar de sua aparente superficialidade. Sabia que aquela aspereza e rigidez eram sua carcaça protetora, portanto não dava atenção a tais fatores.
Numa tarde, Isaac estava sozinho observando algumas geleiras quando a viu surgir como o vento, esbaforida como se estivesse em fuga.
- Garoto, pode me fazer um favor?
Irritado, virou as costas a ela, seguindo para o vilarejo.
- Já estou bastante encrencado por sua causa.
- Só precisa dar um recado a Hiyoga!
- Vá embora, sua maluca! Dê o recado a ele mesmo.
- Quer que eu fale mais alto, para que mais alguém nos escute, pirralho?!
"Tenho a vida
Tenho a imaginação
Não
estou em tuas mãos"
Com aquele grito, conquistara a irritação máxima do rapaz, que imediatamente virou-se e a arrastou para uma parede de gelo, lançando-lhe um olhar furioso.
- O que você pensa que está fazendo?!
Oksana ignorou a força que ele lhe fazia no braço e prosseguiu.
- Diga a Alexei que o amo.
- O quê?!
- Eu não disse que amo você, disse que amo o meu irmão.
Ele a solta ainda mais furioso e um tanto sem graça.
- Pois então diga a ele você mesma!
- Não posso. Além disso não há tempo.
- Não há tempo de quê?
- Não importa! Diga que dirá isso a ele e o deixo em paz.
Isaac suspira pesadamente, dando-se por vencido.
- Está bem, Oksana. Agora suma daqui.
De costas, aguardou alguns segundos para que ela partisse de uma vez. Ao voltar-se, porém, deu de cara com seus olhos verdes.
- Valeu, pirralho.
Por instinto, ele cobre os próprios olhos, como se aquilo fosse capaz de apagar o rosto dela de sua memória de uma vez por todas.
- Coloca logo esta máscara, não tenho interesse em lutar com você.
- Eu sei, mas essa coisa me incomoda muito.
Isaac sentiu o toque da mão dela a descobrir-lhe os olhos e só então percebeu o quão próximo estava seu rosto ainda sem a máscara, oferecendo-lhe o sorriso mais sensual e inconveniente que já vira.
- Sabe, eu não mordo, se você não quiser...
"Tente então me descobrir
E depois assumir
Parte do
meu coração
Seja o meu desejo"
Antes que pudesse responder ou se afastar, a jovem já o tinha beijado suavemente nos lábios. Quando ela enfim pretendia afastar-se, foi ele quem a prendeu pela cintura, ofegante e confuso. Seguindo seus próprios instintos, encostou-a na parede gelada e provou de sua boca com intensidade e cobiça. Aquele beijo resumia o misto de irritação e desejo que ela lhe causava e caía-lhe como um desabafo enlouquecido. Sentiu-se triunfante ao notá-la tão ofegante quanto ele, mas achou-se tolo por cair naquela armadilha tão comum e desvencilhou-se em seguida.
- Satisfeita? Agora pode dizer à suas amigas que já beijou um pivete idiota.
- Mais idiota do que imaginava... Está sempre olhando apenas pra ponta do iceberg, não é, garoto? – desta feita é Oksana que está irritada. – Seu ego te impede de ir além da superfície sempre, ou só de vez em quando? Porque se for sempre, é assim que vai perder a armadura de Cisne para meu irmão, que você acha tão fraco.
A neve impediu-o de ver para qual direção exata ela correra. Sua voz não saía, apesar do ímpeto de responder-lhe a altura. Voltou ao vilarejo sentindo-se ridículo. Era a primera vez que uma crítica o irritava verdadeiramente. Ao chegar próximo a cabana ainda bufava de raiva. Foi Alexei quem primeiro o viu e o abordou.
- Temos que ajudar algumas pessoas, a tempestade derrubou muitos telhados hoje à noite. Você vem comigo?
O amigo parece não ouvir, e continua andando.
- Está tudo bem, Isaac?
- Não enche.
- Tudo bem, assim chega lá e fica tão ranzinza quanto o Krystal.
- Ao menos a armadura de Cisne será minha.
- Isso nós veremos. Mas não sabia que importava tanto.
- Sabe que sempre importou.
Eles seguem para as casas prejudicadas e começam a ajudar a recomposição das mesmas. O silêncio entre os dois ainda dura muito tempo, até que novamente encontram-se afastados de ouvidos alheios.
- Qual é o problema da tua irmã, hein?
Hiyoga não contém o riso.
- Agora entendi porque está assim.
- Ela pensa que virei pombo correio, só pode ser! Que tipo de idiota ela pensa que eu sou?!
- O que foi que ela disse, Isaac?
- É patético, sabia?! Se ela quer dizer o que sente, por que não diz ela mesma?
Hiyoga sobressalta-se, como se ouvisse uma notícia ruim.
- O que foi que ela disse, Isaac?!
- Que te ama ou alguma bobagem assim.
- Pra onde ela foi?!- Hiyoga estava pálido.
- Eu sei lá pra onde ela foi!
- Pra que direção ela seguiu, Isaac? Rápido!
- Não sei, acho que foi por ali! Que importa?!
Hiyoga largou as ferramentas e o segurou pelo braço, antes de sair correndo, arrastando o amigo com ele.
- Me mostre onde foi que você a viu pela última vez!
- Vocês dois são loucos! Mais ou menos por ali, eu já disse!
Isaac não entendia mais nada. Que urgência era aquela em encontrar a maluca da irmã dele?
- Tomara que não seja tarde demais...
- Tarde demais pra quê, Hiyoga?
Foi quando avistaram a primeira trilha rubra e Yacob empalideceu.
- Eu sabia! Da última vez, disse a mesma coisa!
Hiyoga soltou o braço do amigo e seguiu a trilha em silêncio. Mas o que ele queria dizer com "da última vez?" – pensava o outro. Estavam nervosos, cada qual a seu modo. Avistaram-na enfim, os pulsos em sangue e com uma espécie de bastão afiado em punho tentando abrir uma grossa camada congelada no chão. Ao perceber a presença dos dois, tentou fugir. O irmão em desespero, alcançou-a e segurou-lhe pelos braços enquanto chamava pelo amigo.
"Oh não! Eu não sou como pensas
Sou e não
sou uma desconhecida
Quando enganam as aparências
Sou e
não sou uma desconhecida"
- Me Solta!
- Isaac, me ajuda a estancar o pulso dela!
Chocado, suas ações tornavam-se lentas. Não conseguia desgrudar os olhos das lágrimas que escorriam pela face da mulher. Era uma sensação tão desconfortante e assustadora, que ele perdeu a fala e suas pernas pareciam coladas ao chão.
- Já falei pra me soltar! Eu não agüento mais isso! Será que dá pra me respeitar, garoto?!
Hiyoga soltou a irmã apenas após o amigo ter conseguido enfaixar-lhe os pulsos com parte do tecido de sua calça, o que demorou muito mais que o necessário, por conta do nervosismo dele.
- Você é que precisa se respeitar, Oksana! Por quê foi fazer essa besteira outra vez?!
- Não é da sua conta!
- Mas é claro que é da conta dele!
- O que esse idiota ta fazendo aqui?
- Se diz que se importa tanto com ele, porque age como se não desse a mínima?!
- Cala boca, fedelho! Você não sabe de nada!
- Oksana, fica calma. Vamos conversar.
- Tira esse moleque daqui! Eu não suporto nem olhar pra cara dele!
"Sonhe o meu sonho
Esteja lá quando eu chegar
E o
mundo eu ponho a teus pés
Porque eu sou muito mais
Sou
quinhentas de uma vez
Seja o meu desejo"
- Vem aqui, vamos conversar.
Hiyoga afastou-se com a irmã. Apesar da raiva, Isaac respeitou-os e apenas esperou. Pôde ver a loira se debater ainda mais até finalmente recostar-se no ombro do irmão, onde chorou copiosamente por muito tempo. Depois conversaram brevemente, antes que ela recolocasse a máscara e partisse na direção oposta. Hiyoga retornou em silêncio, um tanto sem jeito e melancólico.
- Vamos voltar. Desculpe por isso.
- Como é que eu ia saber que ela...?
- Tudo bem, deixa pra lá.
- Isso tudo é porque ela não quer lutar?
- Mais ou menos.
Continuaram caminhando e o loiro não parecia disposto a conversar. Mas o amigo insistiu com o olhar, pois estava atordoado demais para contentar-se com aquela resposta.
- Parece que outra aprendiz morreu nos treinos hoje. Ela não sabe lidar muito bem com isso. Eram muito amigas e... Isso vem acontecendo com freqüência. E ela não é o que podemos chamar de conformada, você sabe.
- Bom, mas então por que ela não...
- Já tentou e quase foi morta por isso. Ao contrário, acabou sendo a causa de outras mortes. A Nádya conhece bem o ponto fraco dela e gosta de provocar.
- Ela não devia entregar os pontos assim...
- Ela acha que se morrer, as outras terão mais chances.
- Só podia ter teu sangue, pra ser idiota assim.
- Hum.
Dali em diante, voltaram em silêncio. No final, era Isaac quem ficara pensativo. Pensava sobre o que ela dissera... Sobre a ponta do iceberg. Sobre julgar sem precedentes. Sobre aquele estranho beijo. Aquela raiva... E aquele estranho e suicida autruísmo. Afinal de contas, quem era aquela moça?! Que tipo de mulher era aquela? E mais... que tipo de sentimento era aquele, que o fazia sentir-se tolo e infantil?
Meses depois, Jacó, um menino da aldeia com quem fizeram amizade, chegou apavorado, e o segurou pelo braço para que o seguisse.
- Isaac, a irmã do Hiyoga tá caída lá fora e eu não consigo achar ele! Vem, depressa!!!
Corremos até a direção apontada pelo garoto. Com as vestes de amazona rasgadas, usava um longo capuz e parecia ter dificuldade em respirar por traz da máscara.
- Os soldados da Nádya... Não posso deixar que me alcancem... Nunca mais...
Ela estava bastante fraca e atordoada. Sua voz era um sussurro e um ferimento em sua perna não parava de sangrar, apesar do frio.
- Jacó, não diga a mais ninguém que a viu aqui, entendeu?! Vá pra casa e depois eu encontro com Hiyoga.
- Está bem.
Retirei sua máscara assim que Jacó se foi. Algumas lágrimas estavam presas em seus olhos e tive certeza do motivo de sua fuga. Aqueles canalhas iriam pagar, agora tudo fazia sentido. Afaguei seu rosto e a ajudei a se levantar. Apoiei seu braço em meu ombro e verifiquei se alguém ali nos conhecia. Por sorte não.
- Há um lugar que você pode ficar esta noite. Mas precisamos correr se quisermos despistar os cavaleiros de Nádya. Acha que consegue?
- Claro que sim, pivete.
- Ótimo, então vamos.
"Oh não! Eu não sou como pensas
Sou e não
sou uma desconhecida
Oh não! Eu não sou como
pensas
Sou e não sou uma desconhecida, quando enganam as
aparências..."
CONTINUA...
