Capítulo 03

Elizabeth não compareceu ao County General no dia seguinte, nem no subsequente, o que levava Robert a crer que ela estivera séria em suas palavras. Isso não era bom, perder uma cirurgiã talentosa como ela por uma briga inútil devido ao orgulho, certamente não melhorava a situação em que o Chefe Administrativo se encontrava. Ela tinha que voltar, e ele precisava fazer alguma coisa urgentemente.

A primeira tentativa foi, como de praxe, ordenar à recepcionista do Centro Cirúrgico que entrasse em contato com a cirurgiã por telefone, ameaçando-a perda da vaga de atendente. Diferente das vezes anteriores, Elizabeth deixou claro que não trabalhava mais lá e que não voltaria. Nesse momento surgiu a verdadeira preocupação. E se tudo que ela disse fosse verdade? Então era bom mesmo que fosse, assim ficaria bem longe dele e pararia de perturba-lo com a lembrança de sua mera existência.

Não, esse pensamento era infantil, estava mais uma vez sendo um idiota com ela. Se realmente a queria, por que essa incapacidade de tomar certas atitudes? Estava com medo de que exatamente? De reunir toda sua coragem e ser rejeitado mais uma vez? Não, não iria acabar assim, ela não daria a palavra final desta vez. Resolvido, Robert recorreu ao Doutor Donald Anspaugh, diretor do hospital:

- Donald, Temos um problema - falou entrando na sala do colega sem nenhuma cerimônia.

- Então temos dois problemas - o outro respondeu irritado, enquanto olhava uma planilha, que logo jogava sobre a mesa com raiva. - Soube que você está cobrindo as consultas cirúrgicas na Emergência hoje.

- Eu sou o Chefe de Cirurgia, é parte do trabalho que você me deu - respondeu o óbvio, ainda que soubesse a real intenção por detrais das palavras.

- Não enquanto está em recuperação. Você não vai operar e sequer tratar os pacientes até estar completamente recuperado e isso é para o seu próprio bem e do hospital. Temos que evitar processos - Anspaugh foi decisivo. - Agora me traga Corday aqui. Por que diabos ela ainda não foi cobrir a Emergência?

- Esse é o problema que vim lhe falar. Aparentemente Elizabeth se acha boa demais para trabalhar conosco e não pretende retornar - Robert falava com indiferença, como se o fato sequer o afetasse minimamente.

- O que você fez? Traga ela aqui de volta! Não podemos ficar sem pessoal! Se ela quer se demitir, que cumpra o contrato e fique até termos um substituto!

- Não ouviu o que eu disse? Ela não vem - ele repetia com calma, já se perguntando se o colega seria tão burro.

Donald não dirigiu mais a palavra. Pegou o telefone e mandou a recepção discar para a casa da Doutora Corday. Quando ela atendeu, foi necessário pedir diversas vezes, em nome do Centro Cirúrgico e da Emergência, além de apelar pela vida dos pacientes que estavam nas mãos do Doutor Romano, a quem ele frisou algumas vezes estar incapaz. Terminou pedindo desculpas por qualquer transtorno causado pelo Chefe Administrativo e agradecendo. Apenas então voltou-se para o outro médico:

- Ela está vindo. Seja lá o que tenha acontecido, resolva seus problemas com ela. Eu não quero nem saber o que foi, mas esse hospital não pode ser dar o luxo de perder outro bom cirurgião depois que você não foi capaz de manter Peter Benton.

- Mais alguma coisa? - Robert perguntou irritado, dando a conversa por encerrada.

- Sim, tem mais uma coisa - Anspaugh moveu os papéis sobre a mesa, retirando uma carta já aberta e a estendendo. - Quando encontrar Corday, entregue-a isso. É sua função enquanto Chefe comunicar.

- O que é isso? - Perguntou movendo a carta até encontrar o brasão da polícia, uma vez que parecia ser algo sério.

- Feche a porta, precisamos conversar sobre a investigação do caso do "Anjo da Morte", envolvendo Corday.

Minutos depois, Romano deixou a sala, dirigindo-se para o Centro Cirúrgico. Iria se ocupar em observar as operações alheias, talvez dar uma passada na Emergência, ver como Kerry Weaver estava conduzindo aquele chiqueiro junto aos pseudo-doutores. A quem queria enganar? Estava mesmo era preocupado que Elizabeth estava retornando e iria encontra-lo no exato mesmo lugar, ainda se encaixando em todas as críticas que fizera, sendo a mesma pessoa, e isso o enfurecia tanto quanto não poder usar o braço esquerdo.

- Kerry! Matando muitos pacientes, eu presumo - disse chegando na Emergência.

- Bom, presumiu errado - respondeu Doutora Weaver, andando com pressa pela recepção enquanto ia para o quadro de pacientes fazer alterações. - Estamos cheios, então, se quiser alguma coisa fale rápido.

- Não posso passar aqui para ver a minha boa amiga lésbica? Devíamos sair para assistir futebol qualquer dias desses, ou luta-livre feminina, você quem escolhe - ele a seguia, falando sem se importar em estar ofendendo.

- Robert, o que você quer? - Ela começava a perder a paciência, como sempre fazia quando a estereotipava pela orientação sexual.

- Diga às suas crianças que, se tiverem alguma crítica a fazer quanto ao meu atendimento, venham à mim, em vez de ficar falando ao ouvido de Anspaugh, fui claro? - Ele finalmente ficava sério e mostrava suas intenções.

- Do que está falando? - Kerry sequer entendia ao que aquela conversa se referia.

Mas a resposta não veio. Robert fitava a entrada das ambulâncias na Emergência, mais precisamente Elizabeth Corday, que acabava de chegar. Simplesmente deu as costas para a outra médica e rumou para os elevadores, retornando ao Centro Cirúrgico antes que pudesse ser visto. Agora que ela estava lá, cuidaria dos traumas que chegassem e, talvez, não precisassem se encontrar tão cedo.

As horas foram se passando, e o serviço administrativo seguia chato. Era uma reunião com a diretoria, outra reunião orçamentária, depois analisar diversas tabelas, pedidos de equipamentos, material e despesa com pessoal. Diante de tarefas tão entediantes, questionava o motivo de ter aceitado esse trabalho, mas aí se lembrava que o fez apenas para ter o poder de ver o mundo queimar. Parecia sem sentido, quando se dava conta de que estaria distante de uma sala de cirurgia por ainda muito tempo, que era incapaz de efetuar movimentos básicos com os dedos, pior ainda com o punho e cotovelo. A mão esquerda não parecia servir para mais nada, então por que ainda se submetia a isso?

Quando se deu conta do tempo, estava preso em mais um seminário de Morbidity and Mortality (M&M). Tratava de algo sobre um paciente com alguma doença qualquer e que não foi atendido da maneira adequada. Mas a atenção de Robert estava longe dali. Enquanto fingia se concentrar na palestra e nas perguntas dos colegas, sua atenção ocasionalmente se voltava para a médica sentada do outro lado, na ponta mais distante da mesma fileira, Doutora Corday. Ela, por outro lado, parecia estar atenta, com aquele belo rosto voltado para a apresentação, abaixando-o apenas em alguns momentos para olhar os papéis em sua mesa, as vezes mordendo o fundo da caneta que segurava.

Mas por que ele estava olhando? E por que estava reparando nesse tipo de detalhe desnecessário? Não bastasse saber como ela prendia o cabelo, ou o perfume que usava, agora notava outros pequenos detalhes? Precisava fazer sexo, isso sim, pois estava ficando besta demais por uma única mulher.

A reunião acabou e logo todos os médicos deixaram o auditório, seguindo para seus turnos muito atarefados, cheios de pacientes e procedimentos importantes para realizar. Todos, exceto Robert, que retornava para sua sala, para sua vida e mediocridade à qual estava condenado sem o talento da cirurgia.

Mal a porta se fechara, tornava a ser aberta:

- Anspaugh me disse para te dar uma chance.

E lá estava Elizabeth Corday, mais uma vez entrando em sua sala, como se o acaso já não tivesse brincado o suficiente na última semana. Robert respirou fundo, indo sentar-se à sua mesa, o único lugar do qual poderia exercer superioridade. Teria que medir muito bem as palavras que pretendia usar, mais do que era de costume fazer, pois se tornara quase uma necessidade manter a médica naquele hospital. Disse finalmente:

- Achei que não te veria mais.

- Bem, aqui estou, não graças a você, mas à insistência de outras pessoas e ao baixo orçamento do hospital - ela respondeu com um pouco de sarcasmo, enquanto fechava a porta após sua passagem.

- Não vai mais embora? - Era a pergunta que realmente queria saber, mesmo que sentisse apreensão pela resposta.

- Não foi desta vez que conseguiu me abater, Robert - falava com tranquilidade e firmeza ao mesmo tempo. - Eu vou ficar, mas não será por você. Apenas porque preciso do dinheiro e Ella de estabilidade. Mas eu não quero mais horas extras e quero ser deixada em paz durante os meus procedimentos.

- Considere feito - cedia com tanta facilidade àqueles pedidos, nem ao menos considerava que estivesse efetuando uma troca justa se fosse com o intuito de mantê-la no County. - Mais alguma coisa?

- Não, eu vou voltar para a Emergência e terminar de limpar a sua bagunça - continuava a ser agressiva.

- Antes de ir - ele pegou a carta que fora entregue por Anspaugh e a ofereceu à cirurgiã. - Você vai querer ler isso.

O olhar dela percorreu da carta até o homem que a estendia, muito desconfiada. Mesmo que não a agradasse, pegou o envelope pela ponta e o virou para ler o remetente antes de abrir. Era do Departamento de Polícia de Chicago, endereçada à diretoria do County General. Respirou fundo, imaginando do que poderia se tratar e ergueu os olhos para Robert, preocupada, antes de pegar a carta com as mãos trêmulas para ler.

Ainda nas primeiras linhas, Elizabeth sentiu o corpo pesar e acabou por sentar-se, a respiração ofegante. Quando terminou, olhou mais uma vez para o Chefe Administrativo, abriu a boca para falar, mas nada saía, e tornava a observar a carta, sem ser capaz de dizer mais nada. Esfregou o rosto com as mãos, nervosa, balançando-se, numa vontade imensa de chorar de raiva. Robert percebeu isso, ao que falou:

- Achei que iria ficar feliz. Todas as acusações contra você foram retiradas, o inquérito foi arquivado e os incidentes classificados como intercorrências aceitáveis para a medicina. Sua ficha está limpa.

- Não é o bastante! - Ela gritou, exaltando-se. - Foi Babcock! Foi ele quem estava matando meus pacientes! Eu tenho tudo reunido, tudo documentado, ele esteve em cada uma das minhas cirurgias em que os idosos morreram!

- Isso ainda não significa que tenha sido ele quem os matou e você sabe disso - Robert não se alterava, sabia que deveria conduzir o diálogo com calma e cuidado antes que a mulher fizesse uma loucura.

- Mas foi ele! Só pode ter sido! - Elizabeth insistia.

- Eu sei, você já me falou isso antes e eu te defendi contra os advogados do hospital e o Conselho de Diretoria. Eu também recomendei a Anspaugh o afastamento de Babcock por mais de uma vez, mas eles não têm interesse em promover uma caça às bruxas e encontrar um culpado. Foi decidido que o caso será abafado como se nunca houvesse existido. Lamento, mas está fora do meu alcance.

A tristeza, ou pior, a derrota estava estampada em toda a face de Elizabeth quando ela o olhou. Por instantes, ela era capaz de sentir que ele estava sendo sincero em tentar ajuda-la. De fato, lembrava que, desde o começo das investigações, ele fora o único que jamais duvidara dela e fizera todo o possível para provar a inocência. Balançou a cabeça, passando as costas da mão sob o nariz e pôs-se de pé.

- Obrigada - disse com a voz um pouco embargada, ainda sem olha-lo, e deu as costas, indo para a porta.

- Espere.

E foi muito, muito a contra-gosto que ele fez esse pedido, pois não poderia permitir que ela fosse embora de novo. Havia uma chance, mínima, de ele haver conseguido uma brecha para agir e fazer algo de relevante, e iria aproveitar a confiança que ela o depositava. Elizabeth permaneceu, voltando-se mais uma vez para ele, que se levantava e andava até ela lentamente, enquanto calculava o que dizer.

- Eu não quero que você vá embora - começou. - Também não quero que deixe o County General.

- Mas nunca fez nada por isso - o atacou, mas logo mudou de ideia quanto a forma de encarar a situação. Não valia a pena brigar. Suspirou - Bom, isso não importa mais, eu estou aqui e vou ficar enquanto me for interessante.

- Não - ele se aproximava ainda mais, o que fazia com que ela recuasse um pouco, até se encostar contra a parede. - Nunca mais deixe o hospital.

Tocou-a de leve no pulso, subindo com os dedos pelo braço até o ombro. Elizabeth se moveu como se pretendesse fugir, mas ele a puxou de volta para o mesmo local. Egomaníaco, controlador, já fora chamado de muitas palavras, por muitas pessoas, mas estava longe de começar a se importar. Agora, tudo que queria era exatamente exercer essa vontade sobre o alvo de seu desejo. Não, talvez não fosse correto pensar nela como um objeto, pois era mais do que isso, de uma forma que faltava palavras e compreensão para descrever.

- Pare… - Ela pediu com a voz baixa.

E ele parou, mas não porque ela queria. Soltou-a por alguns instantes, o suficiente para trancar a porta e fechar as persianas da mesma, mas então voltou-se para a mulher que não se movera um centímetro.

- Você sabe que eu quero que fique, é por isso que foge? - Perguntou, tocando-a mais uma vez no ombro.

Sem esperar uma resposta, beijou-a. Elizabeth tentou fugir, empurrou-o, porém ele era mais forte e usava o peso do corpo para segurá-la contra a parede mais uma vez. Como ela não correspondesse, deslizou os lábios ao pescoço e se manteve ali, sentindo o cheiro, a fragrância daquele corpo feminino, enquanto o beijava. Quanto mais ela lutava, mais força ele aplicava, agarrando um dos pulsos dela e apertando a um ponto que certamente causaria dor, somente para que permanecesse sob controle.

Por que estava fazendo isso? Tomando-a a força, beijando contra a vontade? Talvez fizesse apenas porque podia, tinha condições físicas para tal. Ela havia permitido uma vez, faria com que permitisse a segunda. Ou não fosse nada disso, mas apenas uma necessidade latente de possuí-la, pois aquele fora o melhor momento de sua vida desde que perdera o braço.

Mas não poderia ser assim. E foi num lapso de consciência e auto-controle que ele parou, permitindo assim que Elizabeth deixasse a sala correndo e sem dizer mais uma única palavra. Novamente, ele fora um idiota, fizera uma besteira sem tamanho, e, provavelmente, estragara tudo que construíra.

Nunca soubera lidar muito bem com mulheres, talvez fosse por isso que detestava tanto as lésbicas, ou que assediasse sexualmente qualquer médica, residente ou interna, que se aproximasse. Simplesmente não sabia trabalhar com elas e era mais fácil ser mau do que se dar o trabalho de aprender a escuta-las. Era muito diferente quando uma mulher não estava interessada nele, mais precisamente no dinheiro, encontrava-se perdido quanto a forma de proceder. E fazia as coisas de forma errada, como na primeira vez que convidara Elizabeth para sair, e continuava fazendo até agora.

Não foi atrás dela. Em verdade, acreditava que agora não haveria mais volta em seus atos e que estava acabada qualquer chance de desenvolver um relacionamento extra-profissional com a cirurgiã. Assim, reduziu-se a crer que o mal estava concretizado, retornando aos seus afazeres do trabalho.

Uma ou duas horas se passaram, o movimento no County estava leve. Entre uma sala de cirurgia e outra, Romano começava a se perguntar onde estaria Elizabeth, pois não a via em lugar algum. Perguntou na recepção, mas também não sabiam, bem como na Emergência. Mandou que a bipassem, mas também não houve resposta, ela não apareceu. Havia ainda uma possibilidade, que ele preferiu averiguar sozinho. Ela tivera seu tempo de descanso, agora era hora de voltar ao serviço.

Robert pegou o elevador para o terraço escrevendo em sua mente tudo o que diria. Estava indo procura-la devido ao trabalho, e não era mais do que trabalho. Não tinha qualquer relação com o fato dele querer saber onde e como ela estava. Não, não tinha, ou era o que ele queria acreditar, que não a estava seguindo.

Chegou no terraço, sob aquele céu frio e nublado de Chicago e logo avistou de longe os cachos loiros dançando ao vento. Aproximou-se, até chegar ao para-peito, ficando ao lado dela. Elizabeth não saiu de onde estava, mas ele podia ver em seu semblante que algo a incomodava e que estava triste.

- Era para ser a minha escolha - ela começou a falar, a voz exibia toda a frustração que sentia. - Você não tinha nenhum direito.

- Não - foi a resposta que pôde dar.

- Isso é uma espécie de jogo pra você? - A resposta monossilábica a irritara, esperava muito mais do que um discurso e recebia uma simples confirmação. - Que poder fazer o que quiser, quando quiser, me causar todo o tipo de dano e sair bem?

- Quando você decidir parar de brincar, isto vai parar de ser um jogo - para ele era fácil falar desta forma, pois, de seu lado, estava tudo muito bem decidido e articulado. Faltava apenas uma escolha da parte dela.

- Tem noção do mal que me causou? - Ela moveu-se inquieta, abaixando o rosto e cobrindo-o com a mão, como se precisasse de um tempo para respirar. - Não há nem seis meses que enterrei o meu marido, eu tenho uma filha pequena para cuidar. Eu tenho uma história que você precisa respeitar.

- E eu não respeitei? - Agora era a vez dele de se alterar. - Eu praticamente morava na Europa e decidi ficar aqui em Chicago apenas por sua causa! Esperei você estar disponível novamente, esperei voltar para os Estados Unidos e estar pronta, e agora quer dizer que não te dei seu tempo? Tem razão, eu não deveria ter dado, deveria ter te sequestrado na igreja antes de ter a chance de se casar.

- Se você se importa tanto, por que não demonstra? - E finalmente reunia coragem e voltava para ele. Seus olhos azuis estavam tão tristes que o faziam imaginar se começaria a chorar a qualquer momento.

- Lizzie - ele também voltou-se para ela. - Como eu poderia demonstrar mais do que ter ficado te esperando todo esse tempo?

Para essa pergunta jamais haveria uma resposta. Ele estivera ao lado dela em diversos momentos conturbados, a ajudara em inúmeras situações e o mesmo poderia ser dito dela para com ele. No final do dia, ela era a única pessoa no County General que não desejava vê-lo morto, possivelmente a única capaz de enfrenta-lo, e, com toda a certeza, a única que ele desejava ver no dia seguinte.

- Você ainda o ama? - Robert perguntou, quebrando o silêncio.

- Mark? Acho que nunca poderei deixar de ama-lo - ela respondeu com um sorriso que partia-lhe o coração.

- Bom, nunca deve deixar mesmo - as palavras saíam como pedaços de vidro, rasgando a garganta. - E eu respeito isso.

- Obrigada - finalmente Elizabeth parecia mais tranquila, ele alcançara seu intento com algum sucesso. - Não estou dizendo para ser como eu quero ou fazer o que eu quero. Estou dizendo o único termo em que aceito qualquer coisa nesse momento, que é se você puder respeitar o meu tempo.

Isso deveria ser uma brincadeira de muito mal-gosto do destino, era como entregar um presente e dizer para nunca abrir a caixa e só observar. Tratava-se de um exercício mental para o qual ele se perguntava se estaria pronto. Ela parecera muito disposta da primeira vez, disposta demais para quem ainda se considerava em período de luto. Isso o incomodava, pois passara uma mensagem totalmente diferente da que transmitia agora. Ele não queria dramas, nem problemas, ou ter que competir com um homem morto. Sua vida já estava suficientemente ruim sem tudo isso. Ou deveria admitir de uma vez para si mesmo que estava gostando de toda esta confusão que arranjara para si, encarando-a como um investimento a longo prazo, ou uma terapia para ocupar seu tempo. Talvez fosse a hora de fazer uma tomografia e checar seu cérebro, pois esse devia ter sido o motivo que levou Greene a aceitar essa mulher tão complicada.

- Você mudou - ela disse subitamente, um sorriso misterioso nos lábios, enquanto voltava mais uma vez a debruçar-se, colocando os cotovelos sobre o para-peito. - Não muito, mais um pouquinho. Quando eu cheguei aqui, não hesitou em me punir por não aceitar aquele encontro no almoço. Mas depois, passou a fazer coisas por mim que poucas pessoas fariam. E eu reconheço e admiro isso.

- Pessoas não mudam de verdade - ele falou de forma seca.

- Não - era preciso concordar. - Porém, sob certas adversidades, pessoas podem mostrar faces de si que mantêm ocultas.

Foi um diagnóstico tão exato que chegou a assusta-lo. Parecia que ela o conhecia por uma vida inteira e expunha assim o seu lado mais frágil. Ele não gostava disso, o fazia se sentir desprotegido. A dureza, a falta de trato humano, o preconceito, eram apenas formas de auto-proteção de uma pessoa fraca. E Elizabeth sabia disso, bem como de que era capaz de trazer o seu melhor à tona.

- Podemos tornar aquele almoço um jantar e deixar para "discutir meu futuro" mais tarde, que tal? Eu saio em duas horas, se meu chefe deixar - a naturalidade com a qual ela falava era impressionante e, em verdade, estava disposta a dar uma segunda chance, pois um almoço no Doc Maggo's era uma idéia tão fraca para um primeiro encontro que não servia para conquistar nem uma interna.

- Ele vai deixar, se você voltar para o Centro Cirúrgico e terminar suas pendências em tempo - ainda era quem mandava.

- Me pegue em casa às nove - mas era ela quem comandava a situação.

Robert pegou a mão dela e a apertou. Não precisava da Doutora Corday naquele momento ou em qualquer outro, mas apenas de Elizabeth, da mulher que se tornada uma figura indispensável em sua vida.

O turno de Elizabeth acabou, juntamente com todas as tarefas que precisava resolver antes de poder ir embora. Tomou apenas um banho rápido no hospital, deixaria para se arrumar devidamente depois. Pegou o metrô e logo estava em casa. Combinou com a babá para que a esperasse até voltar do jantar, e foi abrir o guarda-roupa.

Se sentia como uma adolescente, o que era no mínimo idiota para alguém com sua experiência de vida. Estava apenas indo a um encontro com Robert, o mesmo Robert com o qual trabalhava há anos, que a via todos os dias vestida em scrubs, coberta de sangue ou de coisa pior. E ainda assim a deixava nervosa.

Tomou outro banho, um mais lento, tendo o cuidado de tirar todo o cheiro de hospital. Secou os cabelos, refez os cachos com os dedos para que ficassem mais bonitos e com forma. Se maquiou, colocou jóias e passou o mesmo perfume que usava todos os dias para trabalhar, já tendo se tornado sua marca.

Sobre a cama estavam alguns vestidos, porém, o que mais lhe chamava atenção era um preto. O mesmo a lembrava de alguns comentários, quando pretendera comparecer ao Baile de Gala dos Cirurgiões no natal, alguns anos atrás, e Robert a dissera que um vestido preto serviria, embora preferisse algo mais curto e decotado. Tempos depois, o diálogo fizera parte de seu relatório sobre assédio. Não teve dúvidas de que essa era a opção perfeita de roupa.

Estava dando os toques finais no batom quando o celular tocou e uma mensagem foi recebida. Foi até a janela para ter certeza, constatando um sedam preto que se encontrava estacionado em sua calçada. Pegou a bolsa e desceu para a sala de estar, se despediu da filha e saiu de casa.

Robert já a esperava, parado ao lado do carro com a porta do carona aberta, apenas esperando por ela.

- Tem certeza que não prefere que eu dirija? - Perguntou se deixando conduzir para dentro do veículo.

- Eu poderia operar uma laparotomia exploratória e você me pergunta de dirigir? - Ele a questionou também entrando no carro. - A propósito - acrescentou olhando-a de cima a baixo -, boa escolha.

Mas fora a seleção dele que não poderia ter sido mais perfeita. Há anos atrás, estivera procurando um residente em cirurgia na Europa para financiar, objetivando criar uma espécie de escravo no County General para entretê-lo. Quando chegou em suas mãos o currículo da exímia cirurgiã britânica, apenas aceitou financia-la por se tratar de uma mulher bem nascida e muito atraente, mantendo outras metas ocultas por detrás da proposta. Jamais imaginara a forma como os fatos se desenrolaram. E agradecia em seu íntimo pelos acontecimentos terem caminhado nesta direção.

N.A.: Eu gosto de ver Eizabeth estabelecendo limites (não que ela tenha muitos...), e gosto mais ainda de colocar Robert em situações nas quais ele não tem poder (acho que nisso estou com os roteiristas de ER). Então foi interessante começar com uma cena na qual ele tenta fazer com que ela retorne, mas tudo de uma forma muito indireta (digna dele). Sobre o M&M, cara, eu realmente consigo visualizar essa cena, e tiro por ter estudado com minha namorada. De novo, eu vejo Robert como alguém que faria todas as vontades de Elizabeth só para mantê-la no hospital, (especialmente depois da cena em que ela retorna da Inglaterra e o encontra acidentado). E finalmente o caso do "Anjo da Morte"! Uma outra raiva pessoal minha é não ter sido concluído no seriado o caso de Babcock! (Fui só eu que rezei para Robert chegar de voadora nele, na cena em que Robert aparta a briga de Elizabeth e Babcock na UTI com Ella?). Então eu tentei explicar como eu acredito que teria se passado, pois, se foi abandonada essa história, certamente o caso foi arquivado. E aí o filho-da-puta do Robert se aproveita de toda a situação para chegar na Lizzie (eu achei que ele fosse fazer isso quando ela o contou que o câncer de Mark tinha voltado, mas ele superou minhas expectativas sendo muito, muito legal, e dando mais motivos para que depois ela ficasse com ele!). Eu não acredito que Robert a estupraria, mas, na visão dele, ele se deixou levar a mais pelo impulso do momento. Acho sim isso possível (não disse "certo"), a julgar por ele ser impulsivo (vide quebrar a janela do trauma um do ER). E depois de tudo ainda consegue ser "cutie"! Não acho estranho ela ter proposto a ideia do jantar, na verdade eu esperaria isso dela, pois Elizabeth não se importa com padrões de gênero e, pensando bem, você está lá, sozinha, chega seu best friend, que mal há em dar? Eu me casei com minha best. Defendo que os melhores amigos geram os melhores namorados. No lugar dela, eu teria dado uma chance (o sexo foi bom, conta a favor!). Para finalizar, eu não deixei a história do vestido preto morrer! E muito dessa cena eu me baseei em mim mesma, pois sei que me sentiria dessa forma e que não há problema em um pouco de nervosismo. Ok, agora encerrando de verdade, eu fico me perguntando como foi isso de "vou financiar uma cirurgiã gostosa da Inglaterra", pois pra mim é "WTF?" demais e nunca foi explicado. Espero que gostem. :)