II
"If I didn't like you, I wouldn't love you"

Ela estava sentada ao lado do noivo, onde deveria estar, os cabelos caindo pelos ombros nus, exibindo o seu sorriso perfeito, o vestido longo, azul claro, acendendo seus olhos anis. Ela estava linda, como deveria ser e como sempre seria.

Todos a admiravam, observando a sua silhueta perfeita, em que qualquer veste cairia bem; suas bochechas rosadas, o vermelho acentuado com o blush , e as maçãs do rosto perfeitas, brancas como o leite, sob a maquilagem leve, que a deixava ainda mais notável; seus lábios... os lábios rosados permaneceram puros, sem tinta e, ainda assim, exatamente perfeitos; os orbes contornados pelos cílios escurecidos, claros como faróis numa noite de penumbra. E tudo era escuro se comparado a ela. Todos a admiravam, pensando numa única palavra para descrevê-la completamente assim: perfeita.

Narcissa Black era perfeita.

Em todos os sentidos, de todas as formas. Não havia nada nela que pecasse em sua beleza estonteante. Narcissa se movia como se andasse sobre as águas, os movimentos lentos, delicados como ela, e cumprimentava a todos com o seu sorriso solar, brilhando unicamente na festa em que ela - e só ela – era o centro de tudo e de todos.

Mas apenas para mim ela era o Sol.

Quando apareci, minha Cissy não me olhou nos olhos. Não me aproximei muito, mas eu a via de onde estava – e, por um segundo, jurei que ela me avistara. Mas não me viu, não verdadeiramente. Ela parecia temerosa, o que estranhei. Narcissa, minha querida e brava Narcissa, estava com medo?

Enquanto eu a seguia com os olhos, da mesa em que me sentara, estrategicamente localizada aos fundos, onde poucos poderiam me notar, compreendia-a como nenhum outro, porque eu sabia o que havia de errado com ela.

Narcissa Black era excessivamente perfeita.

Ela andava de um para outro lado do salão, ostentando toda a sua riqueza, sua pureza e beleza quase inimagináveis, mas eu sabia que ela buscava um defeito – um mísero, insignificante e pequeno, qualquer defeito. Cissy não queria ser perfeita a todo o tempo, mas era.

Ela era perfeita, exatamente como deveria ser. Ela era a imagem da boneca de porcelana, com seus grandes olhos claros e o rosto branco de cerâmica, frágil e delicado, pintado de vermelho em vários tons e trajando vestidos de fitas, laços e babados.

Grandes olhos claros e vazios. Tão perfeita que não poderia ser feliz.

Mas eu a amava, mais que todos e qualquer um. Mais que o noivo estúpido, cego e ambicioso que sua família lhe arranjara, um medíocre Malfoy. Eu a via como ele nunca seria capaz de enxergá-la: ele a punha num pedestal para mostrá-la, apresentá-la como sua esposa perfeita, mulher perfeita, mãe perfeita.

Ele a condenaria a tudo de que Narcissa tentava escapar. Lucius Malfoy usaria aquela palavra contra ela para todo o resto de suas vidas, sem nem ao menos perceber que a feria ao invés de acariciar.

Ele não a merecia como eu. Ele não a amava como eu. Mas era mais nobre, poderoso e influente. Ele era o marido perfeito. Ou o que pensavam que isso significava.

Levantei-me, incapaz de suportar um minuto qualquer daquilo. Eles a levavam para o abate – e ela seria sacrificada linda, sorrindo os raios de sol, dissimuladamente.

"Você prometeu, James."

Era a sua voz nos meus pensamentos, que me assombrava como nenhuma outra. E eu sabia que não poderia abandoná-la agora, que deveria estar com ela até o último momento – porque seria a minha última chance de vê-la como mulher, livre daquela máscara que tentava comprar. Uma das muitas que ainda viriam... e, então, eu jamais reconheceria o rosto pelo qual me apaixonei.

Caminhei até a varanda do salão e inspirei o ar profundamente, lutando contra mim mesmo. O que eu não daria para tocar o fruto proibido e salvá-lo da sua perdição? Eu... Eu seria capaz de me perder? Eu sacrificaria tudo por um amor impossível? Eu mudaria o meu mundo e abandonaria todos os outros? Eu a tornaria tudo o que eu tenho?

"Potter."

Era o seu cumprimento no dia em que me deixaria. Não me virei. Não suportaria o seu olhar.

"Prefere que eu já a chame de Malfoy?"

Eu não esperava demonstrar tanto desprezo naquelas palavras, mas foi inevitável. Ainda assim, ela flutuou – sim, porque os seus pés não tocavam o chão imundo: ela era demais para aquela terra, era um mundo, o meu mundo – para o lado, observando o horizonte, onde o sol se punha, escurecendo gradativamente, como nós.

"Chame-me do que quiser."

Suas palavras diziam menos que o seu silêncio. Eu sabia lê-la até mesmo quando não tencionava me falar nada. Narcissa era o mundo que eu conhecia e apreciava. Observei-a por algum tempo e, então, arrastei uma de minhas mãos até a sua, pousada no balaústre, e entrelacei nossos dedos, num ímpeto desesperado de tê-la, por mais um segundo que fosse, só para mim.

"Cissy," ela segurou a minha mão com força, respondendo ao meu aperto, o seu sorriso falhando por um momento, e eu soube que Narcissa seria muito mais minha do que qualquer dia poderia ser dele. Ela seria sempre minha Narcissa verdadeira, "minha".

Cissy sorriu e deixou sua cabeça pousar no meu ombro, de leve. Eu queria abraçá-la, mas não poderia com os olhos de Lucius Malfoy espalhados por todos os lugares daquele maldito salão. Eu queria levá-la dali, tê-la em meus braços e livrá-la do sacrifício que estava para fazer. Eu estava disposto a tudo.

"Venha", minha voz falhou e, de repente, pareci febril, as idéias fervendo dentro dos meus pensamentos, "Venha comigo, Cissy."

Ela afastou a cabeça e me olhou: pela primeira vez em toda a minha vida, seus olhos não estavam claros, mas escuros como a treva mais profunda, perigosamente misteriosa.

"Aonde, James?" O seu brilho desaparecera e restou apenas a porcelana opaca, misturada com a tinta que moldava a sua face, criando um sorriso e forjando palavras. Os faróis se apagavam e a escuridão tomava conta de tudo, de mim e, principalmente, dela. "A que lugar nós iríamos agora?"

"Qualquer um", respondi, de prontidão, "Qualquer um em que possamos ser nós dois. Em que você não precise usar nada disso" – e eu toquei uma de suas bochechas, borrando de leve o blush vermelho, "e onde ninguém te force a ser o que você não é."

Por alguns instantes, restou apenas o silêncio, que ecoava, quase sem som as minhas palavras. Narcissa me observou e, então, riu. Parecia que ria de mim e do que eu havia dito, mas, no fundo, eu sei que ela ria de nós.

Riu por algum tempo, secamente, quase sem vontade, para só depois se conter. Ela tirou um pequeno espelho da bolsa que trazia e olhou-se nele, arrumando o estrago que eu fizera em sua maquilagem.

"Você não entende, não é mesmo, Potter?"

Novamente, ela punha aquele pequeno empecilho entre nós. Mas, para ela, nossos nomes não eram pequenos obstáculos que nós poderíamos facilmente contornar. Eles eram muros intransponíveis, indestrutíveis, que jamais seriam derrubados.

"Eu estou tentando ser quem eu sou."

Era mentira. Palavras tão obviamente mentirosas que ela nem ao menos ousou me olhar nos olhos, porque sabia que eu podia lê-la, mesmo quando forjava suas verdades.

"Verdade?"

Caminhei até estar exatamente às suas costas e segurei o pequeno espelho circular em suas mãos. Podia ver um de seus olhos refletido ali, o pedaço do céu maculado pelos traços escuros pintados, como cercas que foram construídas não para me manter do lado de fora, mas para conservá-la do lado de dentro. Intocável.

"E o que você vê?" Narcissa tentou se livrar de mim, mas eu a segurei contra o meu corpo com o outro braço. Repeti a pergunta e ela não respondeu. Conseguiria? Não poderia me controlar nem mesmo se quisesse: "O que você vê? Você vê Cissy? Ou você vê Black?"

Ela se desvencilhou dos meus braços e se afastou alguns passos, me olhando com raiva, ofendida. Eu podia ver a umidade no canto dos seus olhos e me arrependi instantaneamente. Mas ela precisava ouvir aquilo e precisava ouvir mais.

"Eu sou o único que te ama pelos seus defeitos e não só por seus detalhes!"

"Mentira!", Narcissa pareceu desesperada, mais do que em qualquer outro momento em que já a vira. Ela nunca me pareceu tão frágil e vulnerável, mas seus olhos queimavam como brasa. "Mentira! Você não passa de um..."

Não completou a frase. Nem eu. Nunca. Eu não queria dizer adeus, mas minha querida Cissy estava ferida. E, como qualquer animal ferido, ela fugiu de mim. Foi como se estivesse escapando por entre meus dedos, mas eu não me importei que se fosse: ela sempre voltava.

Porque eu a amava.

Mas naquela noite foi diferente. Narcissa não fugiu de mim – ela correu para o seu noivo. E eles se casaram. Eu observei a cerimônia como um condenado e a vi partir da minha vida. Minha Narcissa se tornou Malfoy. Ela partia para a sua lua de mel e para a sua noite de núpcias, enquanto me deixava para trás.

Enquanto descia os degraus até o carro que a levaria para a vida que ela escolheu, uma vida sem Cissy, olhou sobre o ombro e me viu, afastado de todos, nas sombras da varanda, observando-a partir para sempre. Olhou para mim como quem olha para algo que faz parte de um passado distante, melhor, mas que não é nada mais que um bonito passado.

Ela nos matava.

Mas sorri quando ela atirou o bouquet para trás, para mim, e eu o peguei em mãos, observando as flores que ela havia escolhido: narcisos.

Minha querida Cissy me deixava as flores... flores como ela, e eu só poderia esperar que aquilo fosse uma promessa. Ela prometia voltar para mim e guardar momentos dela que seriam só meus, eternamente.

Momentos meus e dela.


N/A:
falha minha! Preciso agradecer a revisão da Giuli Miadi Black, que foi a única pessoa que betou a fic realmente gostando do casal. Brigadão, flor! Nem sei o que eu faria se você não tivesse me falado que estava bom, afinal, eu esperava fazer algo que pessoas que apóiam JN gostassem. E ainda tem mais dois capítulos e um epílogo, pessoal. Hope you like it.