― Tudo bem. Pode falar em português, normal. Não se preocupe. ― pediu ele, com um leve sorriso, que foi o bastante para fazê-la tremer de incredulidade. Estar ali, tão próxima dele, quase podendo tocá-lo, era algo tão irreal e ao mesmo tempo tão maravilhoso que ela já não tinha idéia do que estava acontecendo com as suas emoções. Só sabia que seu coração estava apertado de uma forma dolorosa e surreal e que não havia mais ar suficiente naquele quarto para fazê-la voltar a respirar.

― É que... Eu só não consigo entender o porquê de você me trazer até aqui, enquanto centenas de pessoas estão esperando por você neste exato momento. ― disse ela, a voz fraca e engasgada, cada palavra pronunciada com cuidado e sinceridade.

― Eu imagino que seja uma situação ruim você esperar tanto tempo para conhecer um ídolo e ele simplesmente não ser aquilo que você esperava que ele fosse. ― murmurou ele, a voz rouca e cansada, enquanto falava em um tom lento, carregado por aquele sotaque enrolado que não diminuía em nada a perfeição de cada palavra que ele dizia. ― Eu não estava me sentindo totalmente... sociável. E eu não queria que os meus problemas ficassem evidentes justamente em um dia que eu deveria animar as pessoas.

― Eu não sei o que te deixou assim, e também não sei se é educado da minha parte perguntar algo sobre isso, mas você não precisa estar sempre perfeito para os outros. Todos nós temos nossos dias ruins. ― murmurou ela, se controlando para não levantar e abraçá-lo.

― Quando você aceita esse estilo de vida é como se você assinasse um contrato ao mesmo tempo, consentindo com um termo de perfeição eterna. ―disse ele, os olhos claros desviaram, deixando um ar entristecido e pensativo em seu rosto. Gabs observou cada detalhe do pescoço dele que estava levemente curvado e deixou seus olhos se perderem em tudo aquilo que estava diante dela. E tudo o que ela conseguia pensar era que ele estava cumprindo o tal contrato com muita facilidade, porque ele era a perfeição eterna em todos os sentidos. ― Eu estou com vários problemas na minha vida pessoal, e isso está atingindo o meu trabalho e as pessoas ao meu redor. E eu não quero que isso continue. Algumas pessoas já perceberam isso em mim. E se eu fosse para o hotel hoje, isso ia ficar mais do que evidente. E eu sinto muito que isso tenha refletido em você. Não era pra você estar aqui, eu nunca quis que as coisas chegassem a isso...

― Não! ― ela gritou, fazendo-o pular de susto. Ela tentou controlar o tom de voz para não parecer tão agressiva e voltou a falar. ― Por favor, você não tem do que se desculpar, sério! Por favor, eu não quero que você se culpe pelo que aconteceu...

― Mas foi minha culpa. E eu também...

― Só que isso não importa agora! ― cortou ela, na tentativa de fazê-lo parar de usar aquela voz rouca e triste que estava quase rasgando o seu coração. ― Eu estou bem! Não aconteceu nada demais. Você não tem com o que se preocupar.

― Já que eu não posso me desculpar posso pelo menos te dar uma carona? ― perguntou ele, derrotado, os olhos claros fixos no rosto dela, fazendo-a corar como nunca.

― Tudo bem. ― murmurou ela, antes de tentar voltar a respirar.


O carro estava mergulhado no mais profundo e tenso silêncio. Gabs não gostava do silêncio. Era o momento em que seus pensamentos viajavam para os lugares mais absurdos que existiam em sua mente e perdiam-se por lá, deixando-a cada vez mais confusa. Ela olhou discretamente para as mãos que seguravam o volante com força, deixando algumas manchas claras nos nós de seus dedos. Ele parecia igualmente nervoso. Mas talvez por motivos diferentes. Obviamente. Ela não ousou continuar a trajetória das mãos para os braços fortes estendidos.

― Como você sabe falar o português tão bem? ― perguntou ela, quebrando a quietude da trajetória.

― Minha irmã, Kenzie, morou no Brasil por um tempo. Eu vinha visitá-la de vez em quando, então ela começou a me ensinar o português. ― respondeu ele, respirando aliviado por ela finalmente ter acabado com aquele silêncio incômodo. ― Ela ficou aqui em São Paulo. Mas agora ela já voltou para o Texas.

Ela ficou sem reação. Simplesmente não conseguia pensar em nenhuma palavra naquele momento. Ele estivera ali, várias vezes, tão perto dela, e ela nunca soubera! Aquilo era tão...!

― Você está bem? ― perguntou ele, preocupado, tocando no ombro dela em um gesto impulsivo, sem nem se dar conta. Mas só aquele simples toque já fez com que ela sentisse sua pele ferver e congelar ao mesmo tempo. Ela voltou a sentir-se sem ar nos pulmões e simplesmente ficou ali, parada, sem saber o que fazer, apenas sentindo a mão dele em seu ombro e lutando contra cada fibra do seu corpo para não gritar como louca e fazê-lo capotar aquele carro.

― Eu... eu... estou bem. ― ela conseguiu dizer, a voz engasgada, como se alguém estivesse segurando a sua garganta com força, impedindo que seu coração pulasse e saísse por ali.

― Tem certeza? ― insistiu ele, ainda com a mão próxima a ela. ― Se você não estiver bem nós podemos voltar para o hospital, sem problema.

― Não! Não se preocupe, eu estou bem. ― respondeu ela, tentando ignorar o toque dele. Gabs desviou os olhos e observou o hotel, agora bem próximo deles. Mas algo estava diferente ali. Havia centenas de pessoas amontoadas na calçada e carros engavetados bem em frente ao hotel. Todos estavam gritando e se atropelando, com pesados aparelhos e fios contornando seus pés pó todos os lados. ― Jensen! ― ela se virou para ele, indicando o tumulto em frente ao hotel. Era tão estranho dizer o nome dele, para ele, chamar por ele.

― Isso não parece nada bom. ― murmurou ele, pegando seus óculos escuros que estavam presos em sua camiseta e colocando-os rapidamente.

― Concordo... ― disse ela, observando o rosto perfeito dele que parecia mais sexy do que nunca agora depois que ele colocara os óculos. ― Acha que estão esperando por você? ― perguntou ela, preocupada.

― Ou talvez estejam esperando por você. ― falou ele, nervoso, voltando-se para ela.

Os pensamentos dela se embaralharam novamente. Era como se uma onda de idéias confusas estivesse batendo contra a sua cabeça. Ela sabia o que aquela expressão no rosto dele significava. Ela sabia o que aquela multidão estava fazendo ali. E sabia também o que aconteceria quando eles chegassem ao hotel. Foi então que passou pela sua cabeça a idéia mais doida que já tivera em sua vida. E antes mesmo que pudesse reformulá-la, ela saltou de seus pensamentos direto para sua boca.

― Nós podemos ir para outro lugar!

Ela queria se bater pelo resto de sua vida depois de ter dito aquilo. Mas antes que começasse a se castigar, ela esperou pela resposta dele. Ele sorriu, ainda nervoso, mas fora o sorriso mais perfeito que ela já tivera o prazer de ver. Foi então que ele tivera a reação mais inesperada de todas, que ultrapassou qualquer loucura que ele cometera durante aquela tarde inteira.

― Eu estava prestes a te pedir isso.