III. A PROFECIA, A CALORMÂNIA E A FRIEZA DO REI

Elizabeth acordou na manhã seguinte com algumas batidas na porta da cabine e um Edmund sorridente avisando que logo chegariam em Nárnia. A garota levantou-se rapidamente e calçou as botas, logo após dirigindo-se a uma bacia cheia de água e lavando o rosto. Assim que atingiu a proa, pôde perceber o alvoroço em que se encontrava o navio. Pela primeira vez conseguiu visualizar que os dois Reis realmente haviam dito a verdade: não se via homens no navio, como marinheiros comuns, haviam inúmeras outras criaturas exercendo tal papel. Castores, leopardos, águias e até mesmo alguns centauros estavam a bordo do navio. Elizabeth parou onde estava e limitou-se a ficar observando essa cena curiosa, porém foi interrompida pelo Rei mais novo.

- Mais algumas horas e chegamos - ele exclamou, sorridente, arrancando um sorriso de retribuição da garota - já viu os golfinhos? Estão nadando lado a lado do Navio há algumas horas.

- Não vi. Onde estão? - ela perguntou curiosa.

Edmundo apontou um extremidade do navio, para onde ela saiu correndo. Porém, tropeçou em alguma coisa que não conseguiu identificar e quase caiu, sendo amparada por dois braços fortes.

- Por Aslam, não consegue olhar por onde anda? - Peter ralhou secamente com a garota, soltando-a logo em seguida e caminhando em direção ao irmão mais novo. Elizabeth ficou parada no mesmo lugar alguns segundos, sentindo-se envergonhada e perguntando-se porquê o Rei mais velho parecia sempre estar de mal humor.

- Ele está tendo um momento difícil, sabe - um castor com uma voz feminina disse a ela - está tentando a todo custo evitar uma guerra e isso o desgasta demais.

- Entendo. Mas não sou eu quem está causando tal guerra, portanto não justifica o modo como me tratou - ela respondeu, teimosamente.

- És uma garota de espírito, senhorita - a castora disse, arrancando um sorriso de Elizabeth.

- Não precisa me chamar assim, só Elizabeth basta. E qual o seu nome?

- Pode me chamar de Mrs. Beaver.

- Mas diga-me, Mrs. Beaver - a garota continuou - que guerra o Rei está tentando evitar?

A castora indicou um pequeno barril para que Elizabeth sentasse, e sentou-se ao seu lado, no chão.

- Tudo começou há alguns anos - Mrs. Beaver começou, olhando para o horizonte - na primeira primavera após a coroação dos Quatro Grandes, Aslam interpretou uma profecia, tão antiga quanto a que previa o governo dos dois filhos de Adão e as duas filhas de Eva, que dizia que o Grande estaria destinado a uma jovem de igual valor e posição, e que somente da união dos dois o legado de Adão e Eva se perpetuaria em Nárnia.

- E quem seria o Grande? - Elizabeth perguntou, curiosa.

- High King Peter, é claro - a castora respondeu, como se fosse óbvio - imagine só, desde que essa profecia tornou-se conhecida por todos, inúmeros Reis e Rainhas vieram a Nárnia alegar que suas filhas, netas e sobrinhas seriam a tal jovem de igual valor e posição. Nárnia é provavelmente a terra mais rica em cultura, fauna e flora desse mundo, por isso outros reinos constantemente tentam usar a desculpa da profecia para tentar uma aliança. E isso tem deixado o Rei desgostoso.

Elizabeth ponderou por alguns momentos, perguntando-se se esse era o motivo pelo qual o High King demonstrava tanta frieza para com ela. Perguntava-se se ele pensava que ela era mais alguma dessas garotas sem nada além de roupas e jóias na cabeça, tentando a todo custo tornar-se a High Queen. Sacudiu a cabeça.

- Mas, Mrs. Beaver, onde a guerra se encaixa nessa história?

- Se você não me interrompesse o tempo inteiro eu já teria lhe dito! - a castora ralhou, fazendo a garota corar e se desculpar - Dois meses atrás o príncipe calormano Rabadash ofereceu uma nobre como esposa ao High King. Ele declinou mais esta oferta e o príncipe não pareceu gostar muito. Veja bem, Nárnia e Calormânia são rivais desde que me lembro, e o Rei ainda desconfia de que Rabadash tenha intenções de tomar a Rainha Susan como esposa.

- Formando aliança com Nárnia de qualquer jeito - Elizabeth concluiu.

- Exatamente - Mrs. Beaver concordou.

- Aí está você! - Edmund gritou, ao avistar a garota e a castora.

- Aqui estou! - Elizabeth brincou. Era engraçado, mas parecia que já conhecia o jovem rei há muito tempo, como se fossem irmãos. Então permitia-se brincar com ele.

- Dormiu bem? - ele perguntou, cortês.

- Muito bem, alteza - a garota respondeu - a Mrs. Beaver estava me contando histórias muito interessantes sobre Nárnia.

- É mesmo? - ele perguntou - que histórias?

- Basicamente me inteirando dos fatos e conflitos de Nárnia com os países vizinhos.

Ele balançou a cabeça positivamente e a convidou para tomar café da manhã. Ela agradeceu com empolgação, pois seu estômago já estava, como dizia seu avô, "colado nas tripas" de tanta fome. Ficou impressionada com a variedade de comida que havia a bordo do navio. Frutas, pães e queijos de inúmeros tipos estavam na dispensa. Apesar de apenas uma pequena porção ser destinada a cada tripulante, a porção conferida à Elizabeth a deixou satisfeita.

A garota não pôde deixar de notar, pelo canto do olho, que durante toda a refeição o Rei mais velho não tirava os olhos dela. Permitiu-se olhar algumas vezes diretamente a ele, só para ver se ele desviava o olhar, mas surpreendia-se ao ver que ele sustentava seu olhar até o momento em que ela desistia e voltava a encarar o seu prato. Ele a olhava como se a estudasse, prestava atenção à todos os movimentos da garota. Estava intrigado com ela, com suas maneiras, com o lugar de onde tinha vindo. Odiava admitir, mas queria mais do que tudo saber mais sobre ela, a curiosidade era tanta que quase lhe doía a cabeça. Também não pôde deixar de notar que ela era bonita. Muito bonita, o rei pensou. Estranhou também o fato de, apesar de apenas um dia de convívio, já conhecer todos os traços do rosto dela, como se já a visse há muito tempo. Como se já a conhecesse há muito tempo.

A garota por sua vez sentia um leve puxão no umbigo toda vez que voltava a olhar nos olhos azuis do rei, e não sabia o motivo. Pelo menos não por enquanto.