Capítulo Segundo – Ninguém precisa estar tão sozinho assim

Severus amava a rotina durante o ano letivo. Amava as conversas com Harry depois de todos já estarem em suas camas. Amava as provocações entre eles. Só que às vezes se sentia um velho patético agarrando-se a seu único amigo.

Nunca fora um homem dado a confidências. Depois da conversa estranhamente pessoal que tivera com Harry no primeiro dia de aula, Severus sentia-se incomodado. De certa forma, vulnerável e um pouco tolo por tudo que dissera. Felizmente, Harry também não parecia propenso a fazer novos desabafos e com o tempo Severus conseguiu esquecer a sensação incômoda.

Reassumiram naturalmente a rotina dos anos anteriores. Quem chegava primeiro encomendava o chá. Depois conversavam um pouco, falavam de qualquer coisa. De política à história, dos alunos ao quadribol. De algum novo feito de um dos afilhados de Harry – e ele os tinha aos montes – à fofocas mais ou menos maliciosas sobres os professores e funcionários de Hogwarts. Muitas vezes apenas trabalhavam lado a lado e Severus implicava com a generosidade com a qual Harry corrigia os trabalhos. Outras vezes, Severus fingia estar mergulhado em algum livro ou trabalho enquanto via Harry responder cartas. Eram muitas e vinham de todos os lados e tipos de pessoas. Eram de fãs, ou pedidos de ajuda, ou declarações apaixonadas, ou apenas notícias de seus muitos amigos.

Nos anos entre o final da guerra e sua volta a Hogwarts, Severus correra mundo. Fizera poucos, mas interessantes amigos. Em sua maioria, bruxos ou bruxas profundamente cultos. Por isso era com um orgulho quase infantil que respondia as cartas que recebia deles. Harry não parecia notar essa pequena tolice, mas Severus sentia-se menos esquecido pelo mundo. Menos patético perto de Harry.

Em alguns finais de semana, Harry costumava sair. Ia a Londres ou a Hogsmeade encontrar-se com algum amigo. Algumas vezes convidava Severus, que raramente o acompanhava. Outras vezes reunia um pequeno grupo de professores. Mas havia as noites que ele não comentava com Severus aonde ia.

Nessas noites, Severus tentava não imaginar o que poderia estar acontecendo. Mas desde o início das aulas, invariavelmente lembrava-se dos comentários de Harry sobre envolvimentos casuais e o banheiro da academia de aurores. Nessas noites, Severus patrulhava os corredores de Hogwarts com afinco e era particularmente rigoroso com algum infeliz casal de namorado que fosse apanhado. Em especial no banheiro dos monitores.

No princípio Severus tentou dizer a si mesmo que isso não tinha nada de errado, que Harry era seu amigo e era ridículo sentir-se tão possessivo em relação a um amigo.

Depois tentou se convencer de que era atração. Harry era interessante. Nada de errado em sentir atração por um amigo. Contando que não atrapalhasse o melhor relacionamento que tivera com outra pessoa desde que Lily se afastara.

Então a comparação de seus sentimentos em relação a Lily e Harry se impunha, mas Severus ainda conseguia negar o óbvio.

Durante a semana eles riam juntos. Conversavam e, apesar do desejo cada vez mais latente, Severus ainda se satisfazia com a amizade de Harry. Mas então vinham os sábados, e Severus voltava a patrulhar os corredores.

Em um desses sábados, o último de novembro, Severus estava fazendo a ronda com um humor capaz de assustar um troll. Era o quarto final de semana seguido que Harry saía sem dizer nem aonde nem com quem ia.

No caminho para conferir o banheiro dos monitores, passou pelo saguão principal e encontrou Harry chegando.

-Isso são horas, Potter? – Severus quis morder a língua. Soara exatamente como um amante enciumado.

-Boa noite para você também, Severus.

Harry parecia cansado e triste. Sua resposta educada lembrava o estilo de Lupin de um jeito que não agradou Severus em nada.

-Parece que a noite não foi proveitosa.

-Severus, eu estou realmente cansado. Não estou conseguindo adivinhar qual o seu problema. Pode ser um pouco mais claro?

-Não tenho problema nenhum, seu impertinente. Se a saída de hoje não foi boa, isso não quer dizer que eu tenha algum problema.

-Escuta aqui...

O barulho de algo se quebrando no andar de cima interrompeu o que já estava prestes a se tornar uma discussão.

Moveram-se com sincronia perfeita. Em segundos estavam na porta da sala de onde viera o barulho. Harry fez um feitiço simples e eles podiam ouvir com clareza a conversa na sala.

-Já consertei tudo. – A voz era de um garoto no final da adolescência.

-Oh, Merlin! E se nos ouviram? – Agora quem falava era uma garota.

-Não se preocupe, eu vi o Snape se afastando daqui já faz um tempo.

-Vamos embora, Angelus. Tenho medo só de pensar se ele pega a gente de novo.

Angelus Goldman e Lisa Carson. Severus devia ter previsto. Esses dois deviam ter mais hormônios que o resto da escola toda junto.

Viu Harry abafar uma risada e apontar para si próprio e para a curva no corredor. Ambos sabiam que daquele lado havia outra porta que dava para os fundos da sala. Severus assentiu.

Harry foi até a porta dos fundos e sacudiu a maçaneta como se ela estivesse emperrada. Foi o que bastou para os dois adolescentes correrem para a saída principal e encontrarem Severus esperando, com um olhar frio e os braços cruzados.

Eles ainda nem haviam parado de gaguejar quando Harry surgiu a suas costas.

-Boa noite, meninos.

-Professor...

-Diretor, nós...

Severus interrompeu as tentativas de explicação:

-Vocês foram apanhados fora de seus dormitórios novamente. Acredito que seja a segunda vez essa semana.

-Sim, senhor.

Pelo menos os dois jovens não tentavam negar. Apenas abaixaram as cabeças. Nem Severus nem Harry acreditavam que estivessem remotamente arrependidos, ou que não fariam a mesma coisa na primeira oportunidade.

Severus conhecia Harry bem o suficiente para saber que por trás da expressão séria, o jovem professor estava morrendo de vontade de rir.

-Professor Potter?

-Sim, Diretor?

-Estou certo em acreditar que o senhor possa se encarregar para que o senhor Goldman cumpra detenções todas as noites até o feriado de Natal?

-Perfeitamente, Diretor.

-Senhorita Carson, terei uma conversa com o Professor Longbottom pela manhã. Tenho certeza que ele vai apreciar uma dose extra de energia para cuidar de suas plantas até o final do mês.

-Sim, senhor Diretor.

Agora sim os dois jovens delinqüentes aparentavam um pouco de arrependimento real.

Harry despachou-os, cortando a diversão de Severus:

-Agora vão, meninos. Direto para seus dormitórios.

Eles haviam dado apenas três passos quando Severus deu o último golpe.

-A propósito... Vinte pontos a menos para Gryffindor. E vinte a menos para Slytherin, senhor Goldman.

Carson gemeu baixinho enquanto Goldman praguejou entre os dentes. Todo mundo sabia que o Diretor detestava tirar ponto de Slytherin e era quase certo que o culpado dessa perda de pontos teria sérios problemas em breve.

Quando ficaram a sós, a diversão de Harry se evaporou e ele se despediu formalmente:

-Boa noite, Severus. Com sua licença, eu vou me retirar.

-Espere, Harry.

-Qual o problema, Severus?

-Escute, nós começamos a conversa com o pé esquerdo.

Harry limitou-se a cruzar os braços e olhar para Severus com as sobrancelhas arqueadas.

-Está certo. EU comecei a conversa de forma errada. Não precisa ficar convencido demais por isso – acrescentou ao ver Harry dar um leve sorriso.

-Tudo bem.

-Vamos recomeçar. Harry, como foi sua noite?

-Uma porcaria.

-Tão ruim assim?

-Pior.

-Uma xícara de chá ajudaria? – Severus se repreendeu mentalmente. Estava agindo como uma avó intrometida. Primeiro um amante ciumento, agora uma velha coroca. Devia estar ficando louco.

Um sorriso mais amplo de Harry interrompeu seus pensamentos.

-Não, Severus, obrigado.

-Então sou eu quem pede licença e deseja boa noite.

Antes que Severus se afastasse, Harry acrescentou:

-Mas eu tenho uma garrafa daquele vinho português que você gosta.

-Harry eu não quero impor minh...

-Severus, um pouco de companhia vai me fazer bem. A menos, é claro que você esteja cansado.

Severus cedeu:

-Vamos pelo vinho então, Professor Potter.

-Pelo vinho, Diretor Snape.

Andaram lado a lado em direção aos aposentos de Harry.

Severus pensava na ironia disso quando Harry perguntou:

-Você se divertiu muito, não?

Severus conseguiu manter a seriedade:

-Privilégios do cargo.

-As caras dos dois foram muito engraçadas. Achei que eles iam ter uma síncope quando você anunciou castigos até o Natal.

-Pela Harpa de Morgana! Goldman e Carson têm uma energia inacreditável.

Harry abriu a porta de sua saleta particular e entrou.

-Eles estão apaixonados.

-Eu deveria fazer Pomfrey examiná-los. –Severus seguiu Harry, fechando a porta atrás deles - Eles devem ter algum distúrbio hormonal.

-Sente-se e pare de implicar com os garotos.

Harry serviu o vinho, sentou-se de frente para Severus e brindou:

-Às diversões do cargo, às noites infernais e aos namoros entre alunos de Slytherin e de Gryffindor.

-Ahá! Esse é o ponto então.

-Exatamente. Eu não me lembro de nenhum enquanto estava na escola.

-Vi apenas um enquanto era professor e não durou nem uma semana.

-Estamos progredindo, Severus. Precisamos estar progredindo.

-Então um brinde aos namoros entre slytherins e gryffindors e também às poucas, mas salutares diversões inerentes ao cargo de Diretor.

-Não brinda a minha noite ruim?

-Não.

-Mesmo assim, saúde.

-Saúde.

Harry virou o vinho de um único trago e serviu-se de mais. Não era típico dele.

-Foi tão ruim assim que pretende ficar bêbado?

-Eu sou um imbecil.

-Abençoado Merlin! Eu venho dizendo isso há anos. Até que enfim você concorda comigo.

-Idiota. – Harry xingou, mas estava rindo com a cabeça apoiada no espaldar da poltrona, numa atitude tão típica que Severus sentiu-se confortável pela primeira vez na noite.

Harry olhou o fogo por uns instantes antes de falar, como se comentasse o tempo:

-Fui pra cama com Seamus.

Severus não soube o que responder a uma declaração direta dessas. A súbita vontade de sacudir Harry até que ele confessasse que era mentira foi um o sinal definitivo do que Severus vinha valentemente tentando não enxergar. Estava apaixonado por Harry.

Sufocou qualquer sentimento. Era muita ironia repetir com Harry a mesma história que ele vivera com Lily. Dessa vez ele não podia se permitir afundar na dor. Queria sair dali, mas o choque da revelação não o deixava se mover.

Harry, aparentemente, tomou seu silêncio como incentivo a continuar:

-A gente se encontrou em Londres. Na casa do Ron. Ele terminou com Dean e ... aconteceu.

-Sexo casual, Potter. Achei que não tivesse nada contra. – Severus tinha de se calar e sair dali. Deixar Potter com sua culpa de bom moço se ferrar sozinho. Mas seu corpo não obedecia. Que merda de masoquista ele era para poder ficar ali, ouvindo Potter dizer aquelas coisas.

-Não tenho. Mas é que...

Harry fechou os olhos, os cenhos franzidos com se sentisse dor. E Severus se perguntou o quanto ele já teria bebido antes de voltar para o castelo.

-Vá dormir, Potter. Amanhã isso passa.

O olhar ferido que recebeu surpreendeu Severus.

-Eu sei que passa. Desculpe. Eu não devia te incomodar com isso.

O vinho, ainda intacto no copo de Severus, nunca lhe pareceu tão pouco desejável. Tomou um gole e levantou-se, determinado a fugir dali. Ele se recusava a ser o confidente das aventuras românticas de Harry. Mas não segurou a boca e perguntou o que desejava saber:

-Está apaixonado por Finnigan?

-Não.

-Ele está por você?

-Definitivamente não.

-Então pare com isso. São adultos, livres. Aconteceu.

-Ele ainda gosta do Dean.

-Potter, eu realmente não compreendo os complexos vínculos de lealdade gryffindor. Eu não sei qual o problema.

-Eu também não sei qual é o problema. Talvez eu só esteja cansado. Tem razão. Não foi nada demais.

-Vá dormir. Boa noite.

No seu próprio quarto, Severus serviu-se de uma dose farta de uísque de fogo e brindou sozinho:

-Ao amor entre slytherins e gryffindors, à uma noite de merda e a ... a todos os brindes solitários.

Continua...