A cabeça dela está pousada sobre o seu colo, o cabelo solto derramando-se sobre a sua coxa, as sobrancelhas delicadas franzidas em concentração ao acompanhar a transmissão da rádio. Erwin consegue sentir o seu próprio interesse alternando entre o aparelho, o rosto dela, a dezena de outras coisas que tem na sua mente e que a todo o momento precisa lembrar-se - ou precisa esquecer-se. Mostra-lhe um meio sorriso quando ela eleva a mão para lhe tocar na cara distraidamente, como se quisesse tornar o gesto num hábito por alguma razão que Erwin prefere não compreender. Pensa em Schaumann, sobre a ameaça que ele agora representa. A mente já está a formar a mesma conclusão que elaborou naquela noite com Mandl. É só o método que ele precisa...

- E se os desembarques não tivessem falhado? - pergunta-lhe Lilian, abanando a cabeça. - Consegues imaginar.

Grunhe uma resposta que não é nem uma coisa nem outra, tentando recuperar o pensamento que ela interrompera, ficando irritado quando este lhe foge de alcance. Bem, a Normandia fora um sucesso pelo menos; algo por que ficar grato. Os jornais têm estado ocupados a impingir uma mentira atrás da outra sobre o assunto, mas parece a Erwin que ninguém na Personalhauptamt tenha sido enganado por um único segundo sobre a falsa cobertura. Vira o pânico começar a crescer atrás de muitos pares de olhos durante as últimas duas semanas. Sem dúvida irá dificultar mais as coisas com o avanço do tempo, o desespero impelindo as pessoas a agir de formas inesperadas. Mas, Erwin supõe, não irá demorar muito agora - com o Rubicão atravessado para o começo do fim - e ainda assim, continuará a ser tempo demais.

Não devia estar a pensar em qualquer uma daquelas coisas agora, não com ela na sala. Não com quem ele é suposto ser. Subitamente, a presença dela não é mais a distracção que ele se convencera anteriormente ser. Seria tudo mais fácil se ela se fosse simplesmente embora. Poderia passar o resto da noite sozinho, sendo nenhum dos Erwins, perdendo-se em trabalho.

- Devias ir fazer-nos café - diz-lhe, bocejando quando as notícias são substituídas por música no rádio. - E algo para comer.

Lilian resfolega. - Se achas que venho aqui para me escravizar na tua cozinha, estás redondamente enganado - diz ela. - Não achas mesmo que preparo o meu próprio café em casa, achas?

- Pensei que gostavas - diz Erwin. - Fingires seres pobre comigo.

- Há um limite de quão longe estou disposta a levar esse jogo - informa-lo ela, sorrindo de forma ligeiramente perversa pelo ar de desagrado dele; ela gosta deste género de coisa, Erwin sabe, este estranho medir de forças de poder entre eles. - Receio que a ombreira da tua cozinha seja esse limite. Já é mau o suficiente ter de fazer o jantar ao Wolfgang sempre que ele está em casa.

- Ainda posso sonhar, não posso? - pergunta-lhe ele. - Que me servisses na cozinha tão bem como no quarto.

Ela levanta o olhar para ele e dá um estalinho com a língua, afastando a mão dele. - És terrível - diz. - Não sei porque continuo a vir aqui.

Erwin escarnece, fechando a mão gentilmente à volta do pulso dela, um trilho de beijos até ao braço que a faz sorrir. - E no entanto - murmura ele - o teu marido pode ter as refeições que cozinhas. Quero a tua cona só para mim.

Ela tenta atirar a mão atrás para o esbofetear, mas o punho à volta do pulso aperta de imediato. Ele sorri quando a puxa até ela ficar de joelhos, sentando-a no seu colo. Ela está a tentar não sorrir quando ele a puxa para um beijo. É mais fácil agora, dá-lhe o que ela quer e ela vai-se embora. Assim que estiverem no calor do momento, ele pode perder-se por um momento, não terá de pensar.

- És mesmo terrível - murmura ela, gemendo quando ele lhe beija o pescoço. - Mas pronto... redimes-te com outras qualidades...

Erwin acabara de descer a mão sob o vestido de Lilian quando uma pancada ressoa na porta, rápida e cortante. A sua mente salta para o revolver escondido no quarto, mas regressa quando ele agarra Lilian pela cintura e a transfere para o sofá; ela começa a arranjar o cabelo de imediato.

- Quem achas que é? - pergunta-lhe ela, ligeiramente em pânico quando ele encolhe os ombros; Erwin gostaria de lhe dizer que Wolfgang aparecer aqui seria a menor das suas preocupações.

- Espera aqui - ordena-lhe, atravessando o apartamento até à porta e abrindo-la, a raiva disparando de imediato quando vê o Judeu do outro lado.

- O que é que estás a fazer aqui? - pergunta-lhe Erwin, devolvendo o olhar desafiador dele; faz algo ressurgir à superfície, coisas do passado, coisas que não têm qualquer utilidade agora.

- Concordámos em trabalho regular - diz o Judeu após um momento de hesitação. - Já se passou quase um mês. Como é que isso é suposto ser regular, caralho?

As palavras fazem Erwin regressar àquela noite; estava sobre o corpo de Mandl, a voz mais firme que a mão que segurara o cigarro, mantendo a conversa casual apesar do tema mórbido. Como beber chá à tarde com a mãe, conversa educada, a luz atravessando o padrão de rede da janela da sala de estar. Mas é o Erwin errado, e este é o momento errado.

- Eu disse-te que não podia garantir nada disso - atira ao homem, achando ser a melhor forma de o fazer ir embora. - Também te disse que demoraria um tempo até voltar a precisar de ti. Agora, pergunto-me que parte dessas duas frases não percebeste.

O homem fica prostrado à entrada, parecendo demasiado irado para conseguir falar. Óptimo, pensa Erwin. Só precisa de mais um pequeno empurrão.

- Foste tu que disseste que não eras um idiota - continua, recordando-se como isso parecera ser a coisa que o homem considerava mais insultuosa. - Não demorei muito a perceber a tua falta de escolaridade, mas achei que até alguém como tu não iria confundir instruções tão simples.

O Judeu continua fixar Erwin e a ranger os dentes; a personificação de fúria. Parece prestes a cuspir todos os palavrões que conhece, mas nem uma palavra sai, e Erwin pressupõem que ele ainda está mais zangado por isso.

- Vais ser contactado quando fores preciso - declara Erwin de forma simples, começando a fechar a porta para pôr o rapaz a mexer. - Peço-te que não voltes aqui de novo sem as minhas ordens.

- Quem era, querido? - pergunta Lilian, a preocupação ainda a trespassar o fino véu de indiferença da voz.

- Ninguém - diz ele, devolvendo a brusquidão de Holtz ao discurso; uma transição mais fácil do que pensara que seria. - Só alguém a pedir indicações.

- Oh - suspira ela e pára de arranjar o cabelo quando ele regressa para a sala. - Bastante irritante. Mas suponho que seja melhor do que a alternativa.

Erwin resmunga, inclinando-se nas costas do sofá, deixando-la pairar à volta e sobre ele. Pára atrás dele, envolvendo os braços à volta da cintura dele, mão a tocar na parte da frente das calças dele quando ela se empoleira em bicos dos pés para lhe sussurrar ao ouvido.

- Hoje - diz ela - a minha cona é toda tua.

Tudo o que tem é um segundo para se sentir mal, como se isto fosse a última coisa que ele quer fazer, antes de se voltar e forçar um sorriso largo a crescer nos lábios. Agarra nela e começa a empurrá-la para o quarto; ela guincha e ri quando ele a levanta para o seu colo com as pernas à volta da sua cintura, só se calando quando ele a atira para a cama. Trepa para cima dela e beija-a, quase lhe rasgando o vestido quando lho despe. Ela está mais excitada, já húmida entre as pernas, como se a ideia de ser apanhada a tenha entusiasmado.

Hoje pela primeira vez, Erwin mal consegue aguentar a forma como Holtz fornica, como monta a pessoa com quem está e investe contra ela quase cegamente, como um animal no cio. Costumava ser um refúgio, um momento vazio aqui e ali - ou tão vazio quanto qualquer momento possa ser para alguém como ele. Nunca foi bom o suficiente para Erwin se perder no momento por completo, começar a usar palavras que não devia, a emitir sons que não devia, mas seja qual for o prazer que encontrara nisto antes, parece que desapareceu por completo agora. Deseja que pudesse ser diferente, quer inclinar-se e beijar Lilian suavemente, deslizar os dedos entre as pernas dela e ver o alto do seu prazer. Mas ela gosta de Holtz por uma razão, pelo seu discurso rude, pela forma como a fode quase como se fosse em parte um castigo. E Erwin concede-lhe; há pouco mais que possa fazer.

Ela lava-se depois - pelo menos um alívio que não haverão surpresas, como a situação insuportável de Darlett - e quando se veste, usa o espelho em cima do lavatório de Erwin para arranjar o cabelo de novo. Erwin observa-la e fuma um cigarro, grunhindo uma despedida quando ela se inclina para o beijar antes de sair. Depois, o apartamento parece vazio; felizmente e intoleravelmente.

Veste-se, evitando as calças do uniforme ainda que não tenha essa intenção, e senta-se à escrivaninha. Retira a máquina de escrever e começa a trabalhar, dactilografando o começo do seu relatório sobre Schaumann, mas pára ao fim de algumas frases. Não consegue aguentar este sentimento. Não sabe o que é, mas não o suporta.

Erwin guarda a máquina de escrever e olha fixamente a parede à sua frente, tentando pensar, lembrando-se de demasiado, de forma demasiado vívida. Tira uma folha de papel e uma caneta, quer escrever tudo mas há demasiado: relva sob os pés descalços no jardim, o cheio de tabaco de cachimbo do escritório do pai, os segredos partilhados após o pôr do sol atrás do quartel. Para controlar a enxurrada, Erwin pega na caneta. A ponta paira sobre a página enquanto as imagens continuam a surgir, o velho moinho à beira-rio, a capa de cabedal de Shakespeare, as marchas matinais.

Erwin Smith, escreve ele por fim, e depois Smith, Erwin. Então só Erwin, só Erwin repetido até ao fim da página.