1º Mês
(Londres, 15 de agosto de 2008, sexta-feira)
"Sinto muito, Harry, mas acho que Malfoy tem razão quanto ao quarto de hóspedes" Hermione falou como se pesasse cada palavra antes de falar. "Vocês têm que viver como um casal, ou pelo menos passar essa impressão. Por outro lado, também não acho que seja correto que você durma no sofá, mas..." ela lançou um olhar de esguelha para o marido, que desviou os olhos para o próprio prato.
Os três estavam almoçando juntos naquela tarde, algo difícil de acontecer ultimamente, pois já não conseguiam conciliar os horários de almoço. Hermione dificilmente cumpria um horário fixo no escritório de advocacia e Harry dependia de outras pessoas cobrirem sua ausência no trabalho. Ron era o único que podia se dar ao luxo de fazer o horário que bem entendesse. Como proprietário de uma loja de brinquedos, seus funcionários é que tinham que se virar para cobrir sua ausência.
Harry suspirou, limpando a boca com um guardanapo.
"Pode falar o que está pensando, Mione. Estou cansado demais para discutir hoje".
Hermione continuou mastigando o lábio inferior como se relutasse em falar, portanto Ron se adiantou, ainda que relutantemente:
"Ela acha que vocês deviam dividir a cama, se quiserem levar isso a diante".
"Não vai acontecer" Harry garantiu, se jogando contra o encosto da cadeira. "Nem se Malfoy se dignasse a oferecer meio centímetro de sua cama, eu não aceitaria. Prefiro ficar travado das costas a dormir com aquela doninha. Além do mais, não é como se alguém fosse colocar uma câmera no nosso quarto, é? Tudo o que temos que fazer é mentir a respeito".
"Concordo totalmente" Ron balançou a cabeça com veemência.
"Você não está usando a sua aliança?" Hermione comentou e Harry praguejou.
"Esqueci completamente da aliança! De qualquer jeito, vou ter que passar em casa hoje pra pegar mais algumas coisas".
"E como você pretende explica-la para o pessoal da Commetic?" Ron perguntou sem se preocupar em engolir antes.
Harry deu de ombros.
"Não pretendo usar no serviço. Ninguém precisa ficar sabendo disso. Aliás, gostaria que vocês também não comentassem com ninguém".
"Com certeza" Ron concordou, solidário.
Hermione abriu a boca para argumentar, porém pareceu desistir e também suspirou, afastando o prato.
"Tudo bem. Como quiser" ela terminou de beber seu suco. "Mas não acho que vocês estejam levando isso tão a sério quanto deveriam, se realmente querem convencer o juiz".
"Relaxa, Mione" Ron abanou a mão como se dispersasse todas as preocupações da namorada com o simples gesto. "Harry sabe o que está fazendo, não sabe?"
Harry desviou os olhos para a janela. Queria estar mais seguro quanto àquilo, mas a verdade era que começava a se questionar se realmente valeria o esforço. Fazia apenas três dias que havia se mudado para o apartamento de Malfoy e eles tinham evitado se falar mais que o necessário - ou mesmo se ver mais que o estritamente necessário. Quando Harry chegava, Malfoy já estava trancafiado no próprio quarto e dificilmente saia de lá, a não ser para breves empreitadas à cozinha, ou para atender à porta para o entregador de fast food. Harry também não se aventurava além do seu breve percurso sala-banheiro-sala-cozinha. Passava a maior parte do seu tempo trabalhando em seu notebook, assistindo televisão, ou fazendo ambas as coisas ao mesmo tempo. Mas já sentia falta de seu próprio apartamento, seus amigos, sua privacidade... sua vida de solteiro, por falta de uma melhor definição. E pensar que ainda havia seis meses pela frente...
"Tenho que ir" Harry anunciou após checar o relógio e já ia tirar a carteira do bolso quando Ron balançou a cabeça.
"Deixa comigo, sócio. Hoje eu estou pagando".
Harry agradeceu e se despediu de seus amigos, que lhe desejaram sorte. Ele sequer prestou atenção no caminho de volta ao trabalho, seus pensamentos embalados pelo sacolejo suave do metrô. Assim que pôs os pés no prédio, entretanto, tropeçou numa caixa e teria caído no chão se não tivesse se apoiado num suporte de banner logo ao lado, derrubando o banner em si.
"Ahh sinto muito, Harry! Você está bem?" disse uma voz feminina enquanto duas mãos delicadas pousavam cuidadosamente sobre suas costas apoiadoramente.
"Estou bem, estou bem" Harry se apressou em dizer, arrumando os óculos e tentando não pensar em quantas pessoas teriam assistido sua entrada desastrosa. Nem que a única pessoa que com certeza assistira era Cho Chang, a garota mais cobiçada da Commetic. Ele arrumou os óculos e estendeu a mão para arrumar o banner, porém Chang o impediu com um gesto curto e eficiente.
"Não se preocupe com isso. Eddie acabou de estacionar a van logo em frente e já vai carregar. Sinto muito, não devia ter mandado deixarem as coisas bem na entrada, mas achei que o carro já estava à nossa espera. Tem certeza que não se machucou?"
"Absoluta. Não se preocupe" Harry assegurou e Cho segurou seus ombros enquanto o encarava por alguns segundos a mais, como se quisesse garantir que ele estava falando a verdade. Harry segurou a respiração por alguns instantes. Os cabelos de Cho estavam mais curtos do que da última vez que a vira e os olhos castanho-escuros brilhantes faziam contraste com o tom claro de sua pele. Ela usava uma franja levemente caída nos olhos puxados, que lhe emprestava um ar de inocência, e exibia suas curvas com elegância, nunca vulgar. Além de tudo, era muito competente, simpática e atenciosa. Tudo isso fazia com que ela fosse um assunto recorrente, principalmente entre a parte masculina da empresa. Ou pelo menos costumava ser, até desaparecer seis meses atrás.
"Cho?" Eddie Carmichael interrompeu a inspeção da garota. "Já está tudo aqui?"
"Ah... Sim, está" a garota finalmente libertou Harry, olhando ao redor. "Achei melhor levarmos os impressos também, para garantir".
"É sempre bom" Carmichael lançou um olhar desconfiado para Harry antes de se abaixar para pegar a primeira caixa. "Pode esperar na van, se quiser".
"Ora essa! Sou uma mulher, não sou feita de açúcar" ela agarrou alguns itens mais leves e Harry saiu do transe em que se encontrava.
"Vocês querem ajuda?" perguntou, sem esperar por uma resposta.
Ignorando os protestos de Chang e a visível contrariedade de Carmichael, Harry ajudou a levar o material de propaganda até o automóvel e dispensou os agradecimentos e desculpas da garota educadamente.
"Ei" disse Harry, percebendo que não tinha sido nada educado. "Não sabia que você tinha voltado. Como você está?"
Os olhos de Cho se encheram d'água e seu sorriso foi trêmulo.
"Estou... indo. Um passo de cada vez, sabe".
"Cho!" veio o chamado de Eddie na van e Cho se sobressaltou.
"Sinto muito, Harry. Temos que ir. Outra hora conversamos, está bem?" ela praticamente gritou a última frase, já dentro da van, enquanto passava o sinto de segurança e Eddie saiu cantando os pneus.
"Aí garoto! Quem diria, heim? Fazendo uma média com o pessoal da vitrine, ou só com uma pessoa em especial?" disse uma voz zombeteira com um conhecido sotaque irlandês.
"Só estava ajudando, Seamus" Harry enfiou as mãos nos bolsos e voltou a fazer seu caminho até sua sala. Na Commetic, a empresa de publicidade na qual Harry trabalhava desde que se formara em Engenharia Eletrônica, uma das primeiras coisas que ensinavam aos novos funcionários é que existiam os "Manequins", também conhecidos como o "pessoal da vitrine" e os "Geeks". O pessoal da vitrine era responsável pela elaboração e venda das ideias aos clientes, normalmente formados em Comunicação, Marketing ou Publicidade. Já os Geeks eram os desenvolvedores das ideias, aqueles que falavam a linguagem dos computadores e transformavam esquemas e rabiscos em imagens, animações e vídeos publicitários. Estes tinham as mais diversas formações e habilidades tecnológicas. Como Seamus Finnigan, que era um sujeito baixo, magro, sardento, branquelo, de cabelos cor de palha e era formado em Arquitetura, com especialização em Engenharia de Software.
"E a estratégia, pelo jeito, funcionou!" Seamus comemorou, se esforçando para acompanhar os passos largos do colega. "Chang estava se derretendo toda para o seu lado, chefe".
Harry era Supervisor de Equipe do Departamento de Animações e detestava ser chamado de chefe, porém já havia desistido de tentar fazer com que sua equipe perdesse o hábito.
"Não seja ridículo, ela só estava sendo atenciosa. Como sempre" Harry retrucou. "Além do mais, não faz nem um ano que... você sabe".
Cho havia perdido o noivo num acidente de carro alguns meses atrás. Diziam que eles estavam juntos desde o colegial. Ela tinha ficado tão abalada que se afastara durante algum tempo e, depois de ter tentado voltar a trabalhar durante alguns meses, decidiu pedir transferência para a filial de Dublin.
"Ela não me pareceu estar de luto ainda" Seamus disse. E então, numa voz esganiçada e com rápidas piscadelas, caricaturou: "A gente se fala depois, gostosão"
"Seamus! Mais respeito! Eu nem sabia que ela estava de volta!"
"Não sabia?" Seamus parou subitamente em frente a Harry, forçando-o a parar também. "Em que mundo você vive, chefe?" ele olhou para ambos os lados do corredor antes de fofocar. "Ninguém achava que ela voltaria, sabe? Ouvi dizer que ela tem parentes em Dublin e que não suportava mais ficar aqui, porque tudo fazia com que ela se lembrasse do falecido. Mas pelo jeito já está muito bem curada e de olho num substituto. Quem sabe não foi por sua causa que voltou, afinal?"
"Cala a boca" Harry ralhou, também olhando para ambos os lados. "Mesmo se isso fosse verdade, o que ela iria querer com um Geek quando ela poderia ter Carmichael ou qualquer outro Manequim? Basta ela estalar os dedos e a população masculina da Commetic se ajoelha aos pés dela".
"E você espera que eu entenda como funciona a cabeça das mulheres só porque pretendo morar com uma?" Seamus espalmou as mãos em autodefesa. "Namoro Katie há oito anos e juro que não estou nem perto de descobrir. Eu só sei o que vi. E o que vi foi a Chang dando mole pra você. Além disso, você não é um Geek qualquer, chefe".
"Claro" Harry falou sarcástico, desistindo de argumentar. Abriu a porta para o escritório que dividia com Seamus e os outros quatro rapazes sob sua supervisão e deu espaço para o amigo entrar. Porém, antes que Seamus desse mais um passo, Harry apontou um dedo ameaçador para ele. "Mantenha o bico calado sobre esse assunto. Se eu ouvir alguém comentando alguma coisa do tipo, vou saber que foi você, entendeu?"
"Da minha boca não sai nada" Seamus concordou veementemente. "Mas se mais alguém viu o que eu vi, não me surpreenderia se até o final do dia você recebesse um convite para o próprio casamento! Ah, hoje fui ver um apartamento em Chelsea..." Seamus mudou de assunto com facilidade assim que pisou no escritório e Harry suspirou, agradecido. "Claro que não se compara ao seu apartamento, mas até que é bem espaçoso. Acho que Katie gostou, apesar de que nunca sei dizer com certeza..."
-oOo-
Felizmente, não chegou até Harry nenhum convite de casamento nem qualquer comentário sobre o assunto até o final do dia e ele provavelmente teria esquecido o acontecimento, não fosse o fato de estar trabalhando numa animação cujo personagem principal era uma garota curiosamente parecida com Cho Chang.
A diretora em pessoa incumbira o gerente da Divisão de Tecnologia de cuidar para que Harry não excedesse seu horário na empresa, portanto Harry saiu antes que Wood aparecesse. Minerva McGonagall certa vez o encontrara em seu escritório depois das oito da noite e lhe passara um sermão sobre respeitar sua jornada de trabalho e sindicatos perseguidores, dizendo que não podia arcar com horas extras no momento nem com ações trabalhistas no futuro. Quando Harry tentara argumentar que aquela não era sua intenção, a diretora o cortara e o expulsara de seu escritório energicamente. Desde então, Harry levava seu notebook de casa para o trabalho todos os dias, devidamente escondido dentro de sua mochila.
Mergulhado que estava nos próprios pensamentos, Harry teve um sobressalto dentro do metrô ao perceber que estava fazendo o caminho para seu próprio apartamento. Em seguida se lembrou que era para lá mesmo que pretendia ir para pegar alguns de seus pertences e relaxou, relacionando mentalmente tudo o que precisava levar para o apartamento de Malfoy e tentando imaginar se haveria espaço em seu armário de banheiro apertado.
-oOo-
(16 de agosto, sábado)
Harry acordou com a claridade do dia e esfregou os olhos embaçados, sentindo uma leve coceira na mente, como se estivesse se esquecendo de algo muito importante. Já passava das oito horas, mas era sábado, portanto não tinha que ir trabalhar... De repente a realização o atingiu como um trem e ele se sentou na cama, desperto. Estava em sua cama, em seu apartamento. Aquela fora sua melhor noite de sono em quatro dias!
Voltou a se jogar na cama, virando para o lado oposto à janela e sorrindo consigo mesmo.
Não chegou a pegar no sono novamente, mas aproveitou alguns minutos de pura preguiça antes de finalmente se levantar e tomar um banho demorado. Havia arrumado suas coisas na noite anterior, porém se encontrara relutante em ir para o apartamento de Malfoy tão cedo numa sexta-feira à noite.
Com o pretexto de acabar com os alimentos perecíveis que deixara para trás, Harry cozinhara seu jantar. Prometera para si mesmo que passaria no supermercado no fim de semana, pois preferia mil vezes comer comida caseira do que junk food. Afinal, a senhora que limpava diariamente o apartamento de Malfoy não parecia ter muito o que fazer. Além disso, Harry não gostava do ar esnobe dela, que, aliás, parecia ser característica básica para os frequentadores daquele prédio. Exceto pelo porteiro, que se mostrara uma pessoa bastante decente e simpática, no final.
Após o jantar, enquanto assistia à TV, saciado e sonolento, Harry se convenceu de que não haveria mal algum em passar a noite no seu apartamento, na sua cama confortável e assim o fez. Não tinha sequer se lembrado do notebook pela primeira vez desde... Bem, desde a noite do seu casamento.
Não se arrependeu na manhã seguinte, com o bom humor que a noite bem dormida lhe proporcionara. Fez ovos fritos com bacon para o café da manhã e tomou seu chá lendo o jornal que pegara emprestado do vizinho no hall, como era de seu costume, uma vez que o homem não se levantava antes das dez horas.
Já passava das dez quando Harry finalmente pegou um táxi com sua velha mochila nas costas. Inicialmente planejara levar mais roupas para a casa de Malfoy, mas mudara de ideia e levava apenas o essencial. Afinal, um pretexto para passar novamente em casa seria muito bem-vindo no futuro.
Abandonou o táxi em frente a um supermercado que ficava a duas quadras do apartamento de Malfoy, percurso que fez a pé alguns minutos depois carregado de sacolas. O dia estava cinzento, como de costume, mas estava fresco.
Harry teve alguma dificuldade na hora de abrir a porta do apartamento, carregando todas aquelas sacolas e empurrou a porta com o pé para fechá-la. Usou um pouco mais de força do que deveria, pois a porta bateu com estrondo. O barulho assustou Malfoy, que aparentemente estivera cochilando no sofá maior com a televisão ligada.
"Ficou com inveja da minha cama, foi?" Harry provocou enquanto fazia seu caminho até a cozinha. "Eu troco com você num segundo".
Após uma breve espiada em sua direção, Malfoy grunhiu e passou os dedos pelos cabelos para penteá-los, permanecendo de costas para ele.
Harry deixou as sacolas de compras na bancada da cozinha e respirou aliviado quando viu que as gavetas e armários estavam bem equipados com guardanapos, um avental e alguns utensílios básicos, apesar de seu dono não aparentar utilizá-los com frequência, se é que utilizava. Quando voltou para deixar a mochila na sala, encontrou Malfoy deitado novamente no sofá com o rosto virado de encontro ao assento para evitar a luz da grande janela de vidro atrás da televisão. A cortina, que costumava ficar fechada, estava aberta revelando o tráfego da avenida abaixo e dos prédios próximos.
Franzindo o cenho, Harry voltou para a cozinha sem nenhuma palavra. Já passava das onze horas da manhã e ele precisaria de algum tempo para preparar seu almoço, portanto não deveria desperdiça-lo tentando entender o que se passava na cabeça de seu anfitrião para que ele deixasse o conforto de seu quarto para assistir televisão na sala. Afinal, o apartamento era dele.
Já tinha colocado a carne e as batatas no forno quando Malfoy apareceu na porta da cozinha, de braços cruzados e cara de poucos amigos.
"Posso saber aonde você esteve a noite toda?" perguntou, de má vontade.
Harry parou de lavar as verduras para encará-lo, com a súbita realização de que nem sequer se importara em avisar Malfoy que passaria a noite fora. Não que Malfoy se importasse, é claro, mas se fosse Harry no lugar dele, talvez até se preocupasse caso Malfoy não aparecesse nem desse notícias. Seria isso, então? Seria possível que Malfoy havia se preocupado? Que adormecera na sala esperando ele chegar? Que arregaçara as cortinas para ter algum vislumbre da rua da frente durante a madrugada insone? Ele estava com olheiras, agora que Harry parara para reparar, mas não tinha reparado muito no outro nos dias anteriores para ter certeza se que as olheiras já não estavam lá antes.
Harry riu das próprias conjecturas e voltou às suas tarefas. Malfoy também riria dele se verbalizasse seus pensamentos. Provavelmente tinha perdido a noite de sono pensando em mais regras de convivência para adicionar à lista além de 'comunicar quaisquer mudanças na rotina'.
"Passei a noite no meu apartamento. Desculpa, eu devia ter avisado. Mas não foi planejado, eu simplesmente... Estou tão acostumado a viver sozinho que sequer pensei em avisar".
Porém, longe de ficar feliz com a explicação, Malfoy se remexeu, parecendo um tanto inquieto. Outro olhar para Malfoy revelou certa contrariedade, a testa vincada enquanto ele parecia engasgado com alguma coisa.
"O que foi?" Harry perguntou. "Não vai acontecer de novo, ok? Eu me comprometo a avisar se for passar a noite fora, novamente". Afinal, eles já tinham trocado números de telefone para aquele tipo de eventualidade. Malfoy poderia ter ligado para perguntar aonde estava, se tivesse realmente se importado. Ele possivelmente só estava procurando um motivo para implicar com ele.
Malfoy se empertigou.
"Só acho que deveria saber caso você esteja... se encontrando com outras pessoas. Você sabe... para o caso de chegar aos ouvidos de algum terapeuta ou coisa do tipo".
Harry o encarou por alguns segundos, como se para ter certeza de que ele estava falando sério. Malfoy não titubeou, sequer desviou o olhar do dele.
"Não que eu me importe" Malfoy foi logo falando em seu tom desdenhoso de sempre. "Por mim, você pode sair com quem desejar. Só gostaria de lembrá-lo das possíveis consequências caso sejamos indiscretos".
"Não há ninguém" Harry falou, por fim, voltando a atenção para suas verduras. Poderia ter se enganado, porém teve a impressão de perceber certo alívio no modo como os traços do outro se suavizaram levemente. Mas não gostava da ideia de ter que dar satisfação da sua vida para alguém, nem mesmo para seus amigos. Quanto menos para Malfoy. Estava acostumado à sua liberdade desde os dezessete anos, quando se emancipara financeiramente e deixara a casa dos seus tios e tutores. "Ah, por falar nisso..." Harry se lembrou, enxugando a mão no avental antes de enfiar a mão no bolso e pescar a aliança de Malfoy. "Se nós vamos continuar com essa farsa, melhor ficar com isso".
Malfoy aceitou com o cenho franzido, aproveitando para inspecionar a mão de Harry.
"Você não está usando a sua" observou.
Harry rolou os olhos, dando as costas para ele.
"Vou mantê-la ao alcance, caso alguém toque a campainha, ok? Mas ninguém está vigiando a gente agora, a menos que tenham instalado câmeras no seu apartamento".
Por alguns instantes, o único som era o da água correndo. Até que Malfoy voltou a falar.
"O que está fazendo?"
"Almoço. Mas pode ficar tranquilo, não assaltei suas prateleiras da geladeira. Passei no mercado antes de chegar. Mais alguma coisa? Ou tenho que agendar um horário para usar sua cozinha também?" Harry perdeu a paciência. Era incrível como Malfoy tinha o poder de estragar uma ótima manhã com bisbilhotices.
Malfoy crispou o lábio superior antes de lhe dar as costas e sumir em direção ao seu quarto. Mal ele havia saído, a culpa atingiu Harry. Planejava convidá-lo para almoçar com ele, afinal estava cozinhando o suficiente para duas refeições. Já tinha suas dúvidas se Malfoy aceitaria o convite antes daquela conversa. Agora, não tinha mais clima nem para fazer o convite.
Quando Malfoy apareceu novamente, de cabelos penteados, roupas de passeio e uma pasta preta larga nas mãos, a sala estava recendendo ao perfume da carne assada com temperos. Harry assistia televisão e bebia um taça de vinho enquanto esperava a carne dourar, e percebeu quando o cheiro atingiu Malfoy em cheio.
"Quer se juntar a mim?" Harry acenou com a taça em direção ao vinho, descontraidamente.
"Não, obrigado" Malfoy falou, após um breve instante de hesitação. "Estou de saída. Volto antes de anoitecer" ele avisou e saiu sem mais nenhuma palavra.
Harry bufou e tentou amenizar a raiva dizendo para si mesmo que era o outro quem estava perdendo. Se alguém perguntasse, negaria profusamente, mas a verdade é que sentia também uma inquietação lá no fundo de sua mente, onde se perguntava aonde Malfoy ia, fazer o quê, com quem...
-oOo-
(5 de setembro, sexta-feira)
Harry correu até a chaleira que apitava loucamente e apagou o fogo. Espiou no relógio e relaxou ao perceber que não estava atrasado. Preparou seu chá com calma, passou geleia em algumas torradas e sentou-se em frente à televisão para assistir ao noticiário enquanto tomava seu desjejum.
Malfoy apareceu alguns minutos depois, pronto para o trabalho, e franziu o cenho para Harry enquanto passava por ele em direção à porta.
"Está servido?" Harry ofereceu educadamente, como fazia todas as manhãs, e recebeu a resposta usual.
"Não, obrigado" Malfoy resmungou enquanto vestia o paletó e saía porta afora com um contrariado 'até logo'.
Harry esperou alguns minutos antes de ir até a janela. Levantou-se do sofá muito rápido e suprimiu um gemido, levando uma das mãos às costas. Então espiou por uma pequena abertura nas cortinas, empurrando os óculos sobre a ponte do nariz como se aquilo apurasse sua visão, enquanto Malfoy atravessava a rua carregando sua valise até o Café da esquina. Harry meneou a cabeça. Aquilo acontecera todos os dias das últimas três semanas.
Malfoy se recusava a comer qualquer comida que Harry preparava, eles trocavam duas ou três palavras ao todo durante o dia e durante o restante do tempo mal se viam. Pelo menos aquela rotina evitava que os dois brigassem o tempo todo, apesar de que havia determinados dias que três palavras bastavam para que ambos arrumassem confusão.
Pelo menos aquela rotina fizera com que Harry começasse a achar que os próximos cinco meses não seriam tão difíceis quanto imaginara. Apesar de, tecnicamente, eles só completarem um mês na semana seguinte, era mera questão de arredondamento. Não fossem as noites mal dormidas e as dores nas costas por causa do sofá, Harry poderia dizer que aquele primeiro mês de convivência tinha sido até bastante tranquilo. Tudo o que eles precisavam fazer era se evitarem mutuamente e, apesar de muitas vezes Harry se sentir tentado a insistir para que Malfoy o acompanhasse em alguma refeição ou mesmo para assistir a algum filme que havia alugado, desconfiava que bastariam cinco minutos para que tudo se transformasse num pesadelo.
No entanto, aquele parecia ser um acordo implícito entre eles. Cada um cuidava de sua vida, Harry passando a maior parte do tempo envolvido em seu trabalho, parando uma ou outra vez para se distrair com a TV ou na cozinha, e Malfoy... fazendo o que quer que fosse que ele fazia. No começo Harry achara que Malfoy passava todo o seu tempo livre trancado no próprio quarto, porém não demorou a perceber que grande parte do tempo ele ficava trancado no quarto de visitas.
Só para não perder o costume, Harry foi até a última porta da direita e testou a maçaneta. Trancada, como sempre. Harry fingiu não se importar, bebericando casualmente seu chá, porém sua curiosidade o estava matando. Pensara até mesmo em chamar um chaveiro enquanto Malfoy estivesse fora, porém era mais escrupuloso do que isso.
Ao dar as costas para a porta trancada, Harry percebeu que a porta da suíte de Malfoy estava entreaberta. Hesitou por um momento, pensando se deveria. Não era como se tivesse planejado bisbilhotar, mas agora que a oportunidade se apresentara, estava relutante em deixá-la passar.
Deu alguns passos cautelosos para dentro do aposento, quase esperando que algum alarme soasse. Porém, quando nada aconteceu, deixou cair os ombros e se permitiu olhar ao redor. Malfoy podia ser muitas coisas, porém não era desorganizado. Muito pelo contrário. Sua cama estava feita e não havia sequer uma peça de roupa ou calçado à vista. Harry abriu as portas do guarda-roupas e espiou as roupas bem-passadas separadas por modelos e cores. Teve um pequeno sobressalto quando uma das portas revelou-se na verdade uma passagem para um closet.
"Filho da mãe" Harry resmungou ao ver as dezenas de prateleiras enfileiradas até o alto, repletas de sapatos, assessórios e mais roupas, todos devidamente separados e organizados. Harry poderia ter colocado todos os seus pertences ali e ainda sobraria espaço! Em vez disso, tinha que espremer suas roupas dentro de um armário minúsculo e úmido.
De volta ao quarto, Harry espiou o banheiro e quase caiu de costas. Tinha três vezes o tamanho do banheiro de visitas e boa parte desse espaço era ocupada por uma hidromassagem.
Durante sua viagem de metrô para o trabalho naquela manhã de sexta-feira, Harry teve tempo suficiente para pensar em milhares de xingamentos para seu esposo e nem todos eles juntos exprimiam o quanto o desprezava por sua mesquinharia.
-oOo-
A manhã passou tão rapidamente que Harry praguejou ao desligar o telefone percebendo que estava dez minutos atrasado para a reunião de fechamento de mês. A sala já estava cheia quando chegou e estava prestes a se desculpar quando tropeçou e teve que se apoiar no espaldar da cadeira de Oliver Wood para se equilibrar, sentindo uma fisgada de dor no músculo das costas pelo esforço desajeitado.
"Ops, sinto muito, Potter, não vi que você estava chegando" Marcus Flint se desculpou num tom que deixava claro que esticara o pé propositalmente.
"Sente-se, Potter" McGonagall falou rispidamente.
"Me desculpe" ele murmurou e deu um suspiro resignado ao perceber que a única cadeira vaga era a imediatamente ao lado da diretora. Evitou encarar Flint ao se sentar, mas teve a nítida impressão que ele tossia para disfarçar seu divertimento.
"Bem, acredito que podemos começar agora" McGonagall falou após lhe lançar outro olhar reprovador.
Desde o momento em que pisara pela primeira vez naquela empresa, Harry teve a nítida impressão de que a diretora não fora com a sua cara. Com o tempo, teve impressão de que na verdade ela não ia com a cara de ninguém. Quando seu nome fora indicado para o cargo de supervisor, tivera certeza de que fora Oliver Wood quem o indicara, porém Wood ficara vermelho como um pimentão quando sugerira aquilo e confessara que na verdade havia indicado Alicia Spinnet. Para sua surpresa, Wood também contou que fora a própria diretora quem o havia escolhido por sua 'liderança nata', segundo suas próprias palavras.
Daquele dia em diante, Harry sentira um misto de admiração e temor por aquela mulher, imaginando que aquilo só fazia com que sua responsabilidade de atender às expectativas dela fosse ainda maior.
Seguiram-se os assuntos rotineiros sobre metas alcançadas e as desculpas para aquelas que não foram atingidas. Felizmente a equipe de Harry tinha alcançado um bom resultado e Oliver Wood expôs seus números com satisfação, porém ao invés de se mostrar satisfeita, McGonagall apertou ainda mais os lábios ao final de sua apresentação.
"Bem" McGonagall disse, ao final. "Antes que vocês saiam, cedi um espaço da reunião a favor de uma... colega. Sr. Wood, se você puder, por favor, chamar a srta. Umbridge, que está aguardando no corredor..."
"Claro" Wood, que se sentara próximo à porta, pôs a cabeça para fora. "Srta. Umbridge? Pode entrar, por favor?"
"Obrigada" uma senhora baixa e atarracada entrou na sala e encarou todos a sua volta com um sorriso condescendente. Ela estava inteiramente vestida de cor-de-rosa, desde os sapatos infantis até o chapéu. O único objeto que destoava com suas roupas era um medalhão que ela usava pendurado no pescoço, de aparência pesada e rústica.
"Meus caros" McGonagall falou e só então Harry percebeu o quão contrariada ela parecia estar. "Esta é Dolores Umbridge, subsecretária da Secretaria Municipal de Assistência Social".
"Ha-ham" a mulher limpou a garganta com uma voz infantil e aguda. "Obrigada, Minerva. Bem, estamos fazendo um levantamento de informações a respeito de pessoas que ocupam cargos de gerência média em empresas de médio porte na cidade. Naturalmente, não costumo deixar o escritório para coisas do tipo" Harry não deixou de perceber novamente o tom condescendente em sua voz e na maneira como encarava as pessoas à sua volta com pena por sua mediocridade. "Mas Minerva e eu estudamos juntas há muitos anos e não poderia perder a oportunidade de revê-la".
Ela lançou um olhar sorridente para a diretora, aparentemente sem se abalar com o olhar gélido que recebeu de volta.
"Se vocês puderem, por favor, responder a um questionário..." houve um murmúrio de desconforto entre os presentes que a subsecretária pareceu não notar enquanto remexia em sua bolsa resgatando alguns formulários, que começou a distribuir enquanto falava. "Não será longo e não há necessidade de vocês se identificarem. São questões de ordem pessoal e familiar, nada complicado" Umbridge explicou bem no momento em que entregava o formulário a Harry, com seu sorriso que parecia deixar claro o quão estúpidos ela os julgava. "Levem o tempo que precisarem".
Harry estava preparado para assinalar todas as alternativas "c" e deixar a sala o mais rapidamente possível. Porém seus ombros caíram ao perceber que teria que escrever suas respostas. Deixou-se escorregar na cadeira até uma posição confortável e começou a responder.
Idade? 28 anos. Sexo? Masculino. Estado Civil? Solteiro. Aquela resposta fez com que pulasse algumas questões acerca de membros da família. Escolaridade? Pós-graduado.
Após estabelecer um perfil, as questões passaram para preferências diversas, como culinária, música e cor, hábitos alimentares, atividades físicas, etc. Apesar de não conseguir atinar para a utilidade daquele tipo de pesquisa para a Prefeitura Municipal, respondeu o mais rápida e instintivamente que pôde antes de se levantar e entregar o formulário para Umbridge, que parecia empenhada em conversar com McGonagall, ainda que esta se limitasse a palavras monossilábicas.
"Obrigada, querido" Umbridge disse, oferecendo mais um de seus sorrisos, incluindo seu formulário à pilha que já se acumulava conforme seus colegas foram deixando a sala. Harry lançou um olhar solidário a McGonagall, que atalhou antes que ele pudesse sair.
"Sr. Potter, eu gostaria de falar com você por um instante. Umbridge, se não se importa..."
"De maneira alguma. Posso encontrar a saída sozinha quando acabar. Obrigada mais uma vez pelo pequeno favor. E não se esqueça..." ela parecia prestes a dizer alguma coisa, porém lançou um rápido olhar para Harry.
"Não vou esquecer" Minerva atalhou, já virando-lhe as costas. "Potter, por favor, acompanhe-me ao meu escritório. Adeus, Dolores".
"Até mais, Minerva!" a mulher deu uma risadinha estranhamente infantil, que por algum motivo fez com que os pelos da nuca de Harry se arrepiassem
"Potter, não pense que não sei o que você está fazendo" McGonagall falou, tão logo Harry se acomodou na cadeira de frente para sua mesa.
"O quê?" Harry arregalou os olhos, sobressaltado. Teria McGonagall descoberto sobre seu passeio à Las Vegas e suas consequências?
A diretora prescrutou-o por cima de seus óculos por alguns instantes antes de falar novamente.
"Não sei se você compreende o verdadeiro propósito de seu cargo, Sr. Potter" ela falou e Harry relaxou, ainda que não de todo. "Supervisionar não significa fazer o trabalho de sua equipe, mas cuidar para que todos façam a sua parte".
"Mas... tenho saído no meu horário, como a senhora pediu e..." Harry começou a se defender, porém McGonagall o interrompeu, irritada.
"Ora, nem tente me enganar. Sei muito bem que você tem levado serviço para casa enquanto sua equipe está cada vez mais ociosa. As postagens do sr. Thomas nas redes sociais durante o expediente estão ficando cada vez mais descaradas, o sr. Finningan passa o tempo todo na internet procurando apartamento para morar com a namorada, o sr. Creevey encara mais a tela do celular do que a do computador e a srta. Patil já levou uma advertência por causa de seus telefonemas particulares. Não tente fingir que não sabia".
Harry não ia tentar. Reparou que pelo menos Neville Longbotton havia escapado ileso da lista de McGonagall e não conseguia nem imaginar como ela ficava sabendo daquelas coisas. Abriu a boca para defendê-los, porém McGonagall cortou-o novamente.
"Na verdade eles não me preocupam. São medíocres. Não no sentido pejorativo da palavra, mas comuns, medianos. Eu não esperava mais deles. Já de você, Potter..." Harry sentiu o desapontamento da diretora diretamente em suas entranhas e afundou em sua cadeira. McGonagall encarou-o por mais alguns intermináveis segundos, enquanto Harry evitava seu olhar. Quando voltou a falar, entretanto, sua voz estava tão suave que o tom chocou-o mais do que as próprias palavras. "Potter, eu dificilmente me engano sobre as pessoas e sei que você tem o que precisa para ser um líder. As pessoas prestam atenção em você, o respeitam e veem coerência naquilo que você fala e faz. Mas você precisa acreditar em si mesmo para que as outras pessoas acreditem em você. Eu confiei uma tarefa a você, de fazer sua equipe funcionar, e estou sinceramente desapontada".
"Sinto muito, senhora" Harry praticamente gemeu. "Talvez eu não esteja... talvez eu não esteja preparado para assumir esse trabalho. Eu devia ter..."
"Ora, não diga bobagens. Você está mais do que pronto. Só precisa entender isso. Se está pensando em renunciar ao seu cargo, pode esquecer. Não vou aceitar, a menos que você me dê uma ótima razão para isso. Você tem uma para me dar?"
"Não, senhora" Harry falou, sentindo-se um aluno culpado enviado para a diretoria. McGonagall tinha aquele efeito sobre ele.
A diretora prescrutou-o por alguns incômodos instantes, enquanto Harry remexia nervosamente no próprio bolso sem sequer perceber o que fazia.
"Potter, você por acaso se meteu em alguma encrenca?" McGonagall perguntou, por fim.
"O... o quê? Como assim?" Harry perguntou, confuso, e McGonagall encolheu ligeiramente os ombros, sem nunca deixar de encará-lo.
"Me diga você. Você está com algum tipo de problema? Com a lei? Com a polícia? Com a família?"
'Que família?' Harry quis perguntar, mas pensou em Malfoy e engoliu em seco. Seria possível que ela desconfiasse de alguma coisa? Não, ela não teria como saber daquilo. Se bem que chegava a ser esquisito como ela parecia saber tudo sobre todos.
"Não, senhora. Está tudo bem" Harry assegurou e por um momento pensou que a diretora não acreditara, porém ela suspirou e baixou os óculos, esfregando os olhos com visível cansaço.
"Bem, imagino que não seja da minha conta, a menos que venha a interferir no seu trabalho. De qualquer forma, quero que saiba que pode contar comigo se precisar de qualquer coisa. Nem que seja um psicólogo para poder desabafar. De qualquer forma, eu o chamei aqui para dizer que não vou tolerar que você leve serviço para casa. Ninguém pediu que fizesse isso".
"Sim, senhora. Mas... Sei que não é certo o que fiz, mas a verdade é que o trabalho me distrai" Harry confessou. Não era como se tivesse algo para fazer quando chegava em casa e pelo menos trabalhar mantinha-o ocupado.
"Então arrume outra distração. Arranje um hobbie, saia com a namorada, leia livros, faça exercícios, leve o cachorro para passear, ou qualquer outra coisa que as pessoas fazem com seu tempo livre" ela falou aquilo com um leve tom de desdém, como se ela mesma desprezasse aquelas coisas. E, tanto quanto Harry sabia, ela não era a melhor pessoa para dar aquele tipo de conselho, vivendo somente para o trabalho e praticamente morando na empresa. As pessoas costumavam dizer maldosamente que ela dormia em seu próprio escritório e alguns até juravam ter topado com ela pelos corredores, em dia de serão, vestindo roupão por cima da camisola, touca de dormir e pantufas. Aquilo costumava assustar os funcionários recém-chegados, desencorajando-os a fazer horas extras.
"Enfim" ela continuou. "Não posso dizer o que você deve fazer da sua vida, mas posso impedi-lo de levar material confidencial para fora deste prédio. E é melhor não haver uma próxima vez, entendido? Não importam quais as circunstâncias. Fui clara?"
"Perfeitamente, senhora".
"Ótimo, agora saia, por favor" ela dispensou-o, recolocando os óculos e voltando a atenção para os papéis sobre sua mesa.
Harry passou o restante da manhã perdido em seus próprios pensamentos, fingindo ler algo em seu monitor e observando com as sobrancelhas franzidas enquanto sua equipe conversava e se divertia ao invés trabalhar. McGonagall tinha toda razão. Harry não levara seu cargo a sério até então. Obviamente, como supervisor ele era responsável pela produção de sua equipe e tinha obrigação de garantir que suas metas fossem atingidas, mas não podia compensar a vadiagem deles se sobrecarregando.
"E aí, chefe? Quer ir almoçar?" Seamus perguntou, trazendo-o de volta ao presente.
"Claro" ele pegou a carteira de dentro da gaveta e enfiou no bolso da calça ao se levantar. Seamus e ele costumavam almoçar juntos, enquanto os outros revesavam seus horários para que a sala nunca ficasse completamente abandonada. Será que estava fazendo aquilo errado também? Teria que se distanciar de seus colegas para ganhar o respeito de sua equipe? "Está frio lá fora?" perguntou em voz alta.
"Não" Dean Thomas falou, sem levantar o olhar da tela do seu computador. "Acabei de ver o clima hoje e está ameno. Mas o fim de semana vai ser frio."
"Esse seu terno deve ser suficiente, Harry" concluiu Colin Creevey, após uma breve inspeção que incluiu o espanar de uma poeirinha em seu ombro direito. "Está muito elegante, aliás".
"Ora, não se esqueça de beijar o chão depois dele sair, Colin" Parvati pôs a mão na entrada de som do telefone para não perder a chance de fazer um comentário.
"Ei, caras, vocês podem trazer alguma coisa para viagem para mim?" pediu Nevile Longbottom, o único que estava realmente trabalhando. "Meu horário de almoço vai ser meio apertado hoje".
"Vai comprar calcinhas para sua avó de novo, Neville?" zombou Seamus e Dean caiu na gargalhada.
"Essa vai para o Twitter" ele falou e voltou a digitar furiosamente. Teoricamente, as redes sociais tinham o acesso bloqueado, porém era difícil manter aquele tipo de restrição quando se lidava com geeks.
"Ei, não eram calcinhas, eram calças de ginástica" defendeu-se Neville. "E, se vocês querem mesmo saber, vou comprar um anel de noivado para Hanna".
"O quê?" o queixo de Parvati caiu e ela pareceu esquecer a pessoa no outro lado da linha por um momento. "Não acredito! Que fofo! Queria que Terry parasse de me enrolar, sabe?"
"Ei! Parabéns, Nev!" Seamus deu tapinhas vigorosos nas costas de Neville, que parecia extremamente satisfeito consigo mesmo.
"Ei, Nev" Harry falou depois de parabenizá-lo também. "Você acha que consegue estar de volta até as três?"
"Claro. Por que?"
"Bem" Harry endireitou as costas ao encarar seus colegas com gravidade. "Quero que todos estejam aqui às três, na verdade. Precisamos nos reunir para... esclarecermos algumas coisas."
Harry não esperou pela reação dos colegas antes de sair, com Seamus logo em seu calcanhar, tentando arrancar alguma informação antecipada sobre a tal reunião, porém Harry se manteve firme. Aquela pequena interação de sua equipe, entretanto, o havia convencido de que aqueles eram seus amigos, e que preferia pedir para ser encarregado de outra equipe a perder a amizade deles. Mas, antes disso, faria o que estivesse ao seu alcance para as coisas funcionarem do jeito que estavam. Teria que estipular algumas regras e esperar que os outros o levassem a sério, como McGonagall acreditava que levariam.
Seamus tagarelava sem parar como sempre e Harry não prestara atenção em metade do que ele dizia, apesar de saber que estava falando mais uma vez sobre suas buscas por apartamento para dividir com Katie Bell, sua namorada.
"... e os quartos muito pequenos, mas a sala é boa e... Opa, parece que alguém levou um bolo..." Seamus comentou assim que deixaram o prédio. Cho Chang estava na calçada, alternando olhares para a rua e para o relógio de pulso enquanto balançava o pé nervosamente. "Harry, se você não aproveitar e chamá-la para almoçar, vou espalhar pra todo mundo que você é bicha".
Harry olhou para o amigo sobressaltado, mas Seamus não parecia ter dado tanta importância ao que ele próprio dissera.
"Cara" Seamus falou de repente, batendo a mão na própria testa tão teatralmente que Harry desconfiou. "Esqueci de retornar uma ligação importantíssima!"
"Mas você não..." Harry já ia dizer que ele dificilmente recebia ligações, porém Seamus não lhe deu atenção.
"Pode ir sem mim, cara. Depois eu vou com o Dean. Sinto muito por deixar você almoçar sozinho, mas você sabe como eu levo meu trabalho a sério" ele deu meia volta e praticamente correu pelo caminho de volta para o corredor, quase trombando com Umbridge, que deixava o prédio com uma pasta recheada de papéis debaixo do braço.
Harry desviou os olhos antes que Umbridge o visse e se deparou com Cho, encarando-o com as sobrancelhas franzidas.
"Cho? Ei" Harry cumprimentou, enfiando as mãos nos bolsos desajeitadamente e a garota ofereceu um sorriso nervoso. "Hmm... está esperando alguém?"
"Minhas amigas, mas..." ela passou uma mecha do cabelo escuro por trás da orelha antes de olhar para ambos os lados da rua e checar o celular. Sua voz soou magoada, apesar de sua tentativa de disfarçar. "Acho que elas não esperaram por mim. Acabei não avisando que ia com elas hoje, mas tinha esperanças de alcançá-las antes que elas saíssem. Bem..." ela deu de ombros. "Acho que não faz mal".
"Pois é, eu acho que acabei de ser dispensado, também. Se você quiser... hmmm..." Harry gaguejou. "Podemos almoçar juntos... isto é, se você não se importar".
"Claro" daquela vez, seu sorriso tímido alcançou os olhos e Harry desviou os olhos para disfarçar um possível rubor. Seu olhar foi atraído pela subsecretária da Assistência Social, que estava parada do lado oposto da entrada do prédio, aparentemente checando o celular. Harry poderia jurar que tinha visto a mulher espiando-os por cima do aparelho.
"Vamos, então?" Harry ofereceu, já se esquecendo da mulher, e Cho o seguiu, atravessando a rua. De repente ocorreu a Harry que ela talvez estivesse pensando num destino diferente do seu, algum restaurante mais requintado do que o que costumava frequentar nas proximidades. "Quer escolher o lugar? Podemos pegar um táxi até o centro, se você preferir".
"Ah, não. Qualquer lugar está bom para mim".
"Que tal o Wasabi?" Harry sugeriu e se sentiu um idiota em seguida por ter escolhido a opção mais óbvia. Alguma coisa na expressão de Cho deixou-o ainda mais apreensivo. "Ou então nós podemos..."
"Não, não" Cho atalhou. "O Wasabi está bom".
O restaurante era a apenas quatro quadras dali, mas pareceu levar uma eternidade enquanto Harry se esforçava para encontrar assuntos banais para preencher o tempo. Cho se mostrou simpática, mas num momento parecia estar à vontade, e no outro parecia deprimida. Harry tentou imaginar o que estaria fazendo de errado e aquilo o deixava ainda mais nervoso. Não era bom em jogar conversa fora. Se existisse força do pensamento, Seamus estaria se contorcendo de dor em algum lugar da Commetic.
"Então... Como foi na Irlanda?" Harry perguntou ajeitando nervosamente os óculos enquanto eles esperavam seus pratos, pensando muito antes de falar sobre algo mais pessoal para não esbarrar em algum assunto delicado.
"Foi bom... Tenho uma tia lá e passei algumas temporadas com minhas primas. Achei que me adaptaria, mas..." suas sobrancelhas franziram levemente, mas ela piscou rapidamente, como se tentasse afastar um pensamento. "Acho que senti falta da correria de Londres. Lá em Dublin tudo parece mais devagar".
"Você chegou a trabalhar lá?"
"Sim, consegui um emprego numa editora. Foi uma ótima experiência, na verdade. Mas fiquei feliz quando McGonagall me aceitou de volta. Fiz alguns amigos lá, mas não era a mesma coisa, sabe? Não sei explicar. As pessoas eram tão simpáticas e atenciosas que de alguma forma aquilo parecia... estranho".
"Entendo" Harry falou, com bom-humor. "Passar a vida inteira rodeada de pessoas indiferentes faz isso conosco".
"Exatamente" ela sorriu e Harry se sentiu satisfeito e ligeiramente mais confiante.
"Então suas amigas esquecem de você no almoço e você sente que está finalmente em casa" Harry brincou, porém o sorriso de Cho tremeu e morreu lentamente, enquanto uma sombra se abatia sobre ela novamente. Harry pensou em sair correndo. Droga, aquilo era para ficar mais fácil com o tempo. Talvez ele já devesse ter se conformado por ser tão sem tato no que se referia a garotas.
"Acho que é bem assim mesmo" ela falou, aparentemente tentando confortá-lo. "Mas eu não posso culpá-las..." ela abaixou os olhos para as próprias mãos. "Eu não costumava almoçar com elas às sexta-feiras, sabe? Esse era o dia em que... em que eu e Cedric almoçávamos juntos" Harry achou ter ouvido um soluço e se sentiu paralisar de pânico. "Ele costumava... ele costumava me trazer... aqui" ela se levantou de um salto e Harry quase caiu para trás quando ela levantou os olhos cheios de lágrimas. "Sinto muito, Harry. Eu... não consigo".
Ela saiu correndo e Harry ficou ainda algum tempo de olhos arregalados, sem saber direito o que havia acontecido quando o garçom chegou trazendo dois pratos. Sua mão, que estivera remexendo distraidamente em seu bolso, deixou escorregar a aliança e aquilo o assustou. Acabava de reparar que estivera fazendo aquilo durante o dia inteiro.
"Hmmm..." Harry sacudiu a cabeça para tentar colocar os pensamentos em ordem. "Tem como cancelar um dos pratos?" perguntou tolamente ao garçom que já se afastava, porém lembrou-se de algo de repente. "Não, espere. Vou querer levar este aqui para viagem".
Imaginou que Neville não se importaria em almoçar sushi, afinal.
-oOo-
Harry estava entrando na passagem subterrânea para o metrô no final do dia, estranhando o peso da mochila sem o notebook, quando seu telefone tocou. Estranhou ao ver quem era, mas atendeu rapidamente.
"Harry" a voz de Malfoy falou e Harry ficou ainda mais espantado. O que estava acontecendo? Malfoy dificilmente ligava para ele, e quando o fazia, não o chamava pelo primeiro nome nem usava aquele tom de voz quase - quase - doce. "Já está chegando?"
"Acabei de sair do serviço" Harry falou, preferindo não comentar a estranheza da situação. "Mas foi bom você ter ligado. Estou pensando em dormir..."
"Nós podemos fazer planos para a noite mais tarde, querido" Malfoy cortou-o e a cabeça de Harry recuou involuntariamente, como se ele tivesse levado um soco diretamente do telefone. Já ia perguntar o que diabos estava acontecendo quando Malfoy, continuou, como se não houvesse nada de errado. "E deixe para passar no mercado outro dia, está bem? Temos visita."
A palavra 'temos', que implicava o sujeito 'nós' já seria estranha o suficiente se não viesse acompanhada por 'visita'.
"Malfoy, o que está acontecendo?"
"Eu conto quando você chegar, está bem? Só não se atrase" ele desligou.
Aquele era um dia definitivamente esquisito, pensou Harry enquanto o metrô deslizava suavemente pelos trilhos. Tudo indicava que ainda estava longe de terminar. Será que a visita a que Malfoy se referira era a do psicólogo que o juiz Dumbledore prometera? Harry rapidamente pescou a aliança em seu bolso e deslizou-a pelo anelar esquerdo. Aquilo sem dúvida explicaria a atitude de Malfoy.
Perguntou-se o que faria quando chegasse ao apartamento. Teria que chamá-lo de 'doçura' ou coisa do tipo? Abraçá-lo ou... beijá-lo? Harry deixou a cabeça cair nas mãos abertas. Em que havia se metido, afinal? Como conseguiriam convencer alguém de que eram um casal? Eles deviam ter discutido sobre aquilo, para combinarem o que fazer quando o momento chegasse. Droga, eles sequer conversavam!
Harry estava à beira do pânico quando alcançou a porta do apartamento. Respirou fundo duas, três vezes, antes de abrir a porta, decidido a agir o mais naturalmente possível. Sua entrada interrompeu a conversa entre as duas pessoas na sala de visitas, que olharam para ele, segurando xícaras fumegantes. Uma delas era Malfoy, obviamente, e Harry não soube identificar a emoção que cruzou os olhos cinzentos naquele momento, se alívio ou apreensão. A outra, para espanto de Harry, era a subsecretária da Assistência Social.
"Você?" Harry exclamou, com a mão ainda na maçaneta.
"Harry, onde estão seus modos?" Malfoy alargou o nariz em reprovação e Harry limpou a garganta, fechando a porta atrás de si.
"Sra. Umbridge, que surpresa".
"Senhorita, por favor" disse a mulher com um risinho infantil. Ela vestia as mesmas roupas cor-de-rosa que usara pela manhã e Harry pensou que não era de se admirar que ela ainda estivesse solteira – e provavelmente permaneceria pelo resto da vida.
Malfoy havia se levantado do sofá, pousado a xícara na mesa de centro e vinha em sua direção. Sua expressão continuava difícil de ler. Harry conteve o impulso de recuar e sentiu seus olhos se arregalarem quando percebeu o que ele iria fazer.
"Olá querido" Malfoy murmurou, pousando ambas as mãos em seus braços antes de beijar seus lábios rapidamente. "Você demorou. Aconteceu alguma coisa?" ele passou as mãos sobre seus ombros, fazendo com que Harry tivesse que conter o instinto que lhe dizia para afastá-lo ou se defender. Demorou algum tempo para perceber que Malfoy estava tentando tirar seu casaco, mas Harry acabou deixando a mochila cair para ajudá-lo.
"Harry?" Malfoy chamou e Harry se sobressaltou.
"O quê?"
"Eu perguntei se aconteceu alguma coisa" daquela vez Malfoy quase soou como ele mesmo. Quase.
"Não. Quero dizer, nada fora do comum."
"Hu-hum" Umbridge limpou a garganta, chamando a atenção para si.
"Ah, querido" Malfoy falou, tendo pendurado o casaco de Harry no cabideiro ao lado da porta. "Eu já ia apresentar a srta. Dolores Umbridge, mas parece que vocês já se conhecem? Não me diga que ela também fez uma visita ao seu trabalho hoje?"
"Também?" Harry perguntou, confuso. "Como... Como assim?"
Umbridge deu um sorrisinho extremamente satisfeito, enquanto abaixava sua xícara.
"Bem, meus caros" ela falou, sem fazer menção de se levantar da poltrona em que se acomodara, e Harry experimentou novamente um arrepio diante da falsa doçura em sua voz. "Por que não se sentam um pouco? Temos alguns assuntos importantes a tratar e eu odiaria tomar muito do tempo de vocês quando vocês claramente têm tanto para... colocar em dia."
Harry lançou um olhar interrogativo a Malfoy, que encolheu os ombros num gesto desprendido, apesar de a forma como os músculos de seu maxilar estavam ressaltados lhe contarem uma história totalmente diferente. Harry se sentou, pela primeira vez, no sofá de visitas e Malfoy se acomodou ao seu lado, passando uma das mãos por trás de seus ombros descontraidamente.
Harry se remexeu, desconfortável, e Malfoy puxou um punhado de seu cabelo nada carinhosamente.
"Ouch" ele moveu os lábios sem fazer som algum, aproveitando um momento de distração da visitante, que vasculhava sua bolsa.
"Preste atenção" Malfoy admoestou, também sem emitir som algum.
"Ah, aqui estão" Umbridge falou e ambos olharam para frente como se nada tivesse acontecido. "Os formulários de vocês. Como você já deve ter adivinhado, sr. Potter, sou a assistente social nomeada para acompanhar o caso de vocês. E hoje..."
"Eu não... Desculpe" Harry falou assim que percebeu que interrompera a mulher. Perguntou-se se deveria ter levantado a mão antes.
"Pois não, sr. Potter?" ela piscou os olhos angelicalmente.
"Desculpe. Eu só não entendi. A senhora disse ser Secretária da Saúde Pública ou alguma coisa do tipo..."
"Subsecretária Municipal de Assistência Social" corrigiu Umbridge.
"Isso" Harry concordou. "Como pode ser a pessoa responsável pelo nosso caso? Quero dizer..."
"O que meu marido quer dizer" atalhou Malfoy e Harry soltou o ar dos pulmões. "É que esse tipo de tarefa, esse trabalho de campo, parece-nos estar abaixo de suas atribuições."
"Exatamente" Harry concordou.
"De fato" Umbridge assentiu, acariciando o medalhão rústico que trazia no seu pescoço enquanto falava orgulhosamente. "Mas tenho um currículo bastante extenso, e muita experiência na área de Serviço Social, tendo sido Assistente por alguns anos antes de me tornar subsecretária. E quando o Exmo. Sr. Dumbledore veio até mim pedindo que dispensasse o melhor e mais competente de meus profissionais para o caso, pensei, comigo mesma: ora, se este caso é assim tão especial, acredito que deva cuidar dele pessoalmente. E aqui estou" ela relatou, no mesmo tom condescendente que usara mais cedo naquele dia. "Mais alguma dúvida?"
"Não, madame" Harry disse rapidamente, se sentindo novamente como um aluno repreendido.
"Ótimo. Agora, como eu ia dizendo, hoje fiz uma visita ao local de trabalho de ambos, apesar de ter tomado o cuidado de não revelar o propósito de tal visita. Com o subterfúgio de obter dados para uma pesquisa de campo, coletei informações bastante pessoais a respeito de cada um. Devo dizer que fiquei muito intrigada pelas respostas de vocês, pois não há muito em comum. De fato, a única resposta que bateu foi o estado civil" ela encarou-os com outro de seus sorrisos angelicais e Harry se sentiu murchar.
"Nós decidimos manter em segredo, por enquanto" a resposta de Malfoy foi tão natural que até mesmo Harry poderia ter acreditado nele.
"Claro, claro" Umbridge, ao contrário, soou bastante cética. "Voltaremos a este ponto em seguida. Agora, para que eu tenha uma ideia clara sobre o grau de intimidade de vocês dois, gostaria que vocês, por favor, respondessem a algumas perguntas" ela mexeu em seus papéis por alguns instantes. "Sr. Potter, em quê o seu esposo trabalha?"
"Ahm..." Harry arrumou os óculos no rosto sentindo o pânico começar a brotar de dentro de seu peito. Olhou para o lado e pela primeira vez viu uma ruga de preocupação nas feições antes tão controladas de Malfoy. Harry não tinha ideia do que Malfoy fazia da vida. "Ahm..." gaguejou, então disse a primeira coisa que lhe veio na mente. "Ele é advogado."
Logo que as palavras saíram de sua boca, entretanto, percebeu que havia errado. Lembrou-se de Hermione dizendo que não encontrara o nome de Malfoy na ordem dos advogados e preparou-se para levar outro puxão de cabelo, mas felizmente - ou infelizmente - Umbridge não tirou os olhos de ambos, conforme um sorriso extremamente satisfeito se espalhava em seu rosto rosado.
"Receio que não, querido. Apesar de ter se formado em Direito, seu esposo não advoga, não é mesmo, sr. Malfoy?"
"Sem dúvida" respondeu Malfoy, se acomodando melhor no sofá. "Entretanto é um equívoco comum, devido à natureza jurídica da minha função na McNair & Yaxley."
Harry entendeu o que Malfoy estava fazendo e se sentiu profundamente grato pelas pistas. Conhecia o nome e sabia se tratar de uma empresa imobiliária de pequeno porte.
"Exato, eu sempre me confundo. Me desculpe" Harry concordou.
Umbridge o encarou com ceticismo por mais alguns instantes antes de voltar-se novamente para Malfoy.
"E você, sr. Malfoy, o que me diz do trabalho do seu esposo?"
"Ele trabalha na Commetic, uma empresa de propaganda muito bem conceituada. Mais especificamente na parte de tecnologia" Malfoy falou com convicção, e Harry encarou-o como se de repente lhe tivesse nascido outra cabeça.
Malfoy beliscou-o e Harry tossiu, disfarçando seu assombro. Como, diabos, Malfoy sabia aquilo? Eles nunca haviam conversado sobre seu emprego, Harry tinha certeza daquilo.
"Muito bem" aquilo havia apagado o sorriso de Umbridge, e ela atacou com a próxima pergunta. "Sr. Potter, qual é a culinária favorita do seu esposo?"
"Hmm..." o triunfo momentâneo se desfez rapidamente enquanto a mente de Harry trabalhava, tentando se lembrar do que Malfoy costumava pedir para jantar. Mas a verdade era que nunca havia prestado muita atenção. "Indiana?" chutou, apesar de já saber a resposta.
"Não. Aqui diz que o sr. Malfoy prefere a culinária Francesa."
"Depende do meu humor, na verdade" Malfoy falou, deixando transparecer certa impaciência. "Aliás, quem é que é totalmente sincero nesse tipo de pesquisa? Eu simplesmente escrevi o que me veio à cabeça."
"Pode ser que sim, sr. Malfoy. Porém, seguindo a mesma linha de pensamento, ninguém é totalmente desonesto. Sua vez."
"Meu esposo é mais tradicional. Prefere a culinária típica inglesa. Na verdade é um ótimo cozinheiro" Malfoy respondeu com desenvoltura e Harry teve vontade de socá-lo. Seria tão errado assim torcer para não ser o único a fazer papel de bobo naquela história?
"Cor favorita?" Umbridge disparou, e Harry teve certeza que ela também torcia para que o mesmo acontecesse.
"Vermelho" Malfoy rebateu, certeiro, e Harry praguejou internamente.
"Preto?" chutou, recebendo um muxoxo de Malfoy.
"Ele é péssimo com essas coisas" informou ele, com um rolar de olhos. "Esqueceria a própria cabeça, se não estivesse grudada no pescoço."
Harry mordeu a língua para não retrucar.
"Aniversário?" perguntou Umbridge.
Daquela vez, Malfoy hesitou, porém logo falou com convicção.
"Trinta e um de julho."
"Merda!" Harry não se conteve e jogou a toalha. "Não faço ideia!"
Aquilo fez com que Umbridge se empertigasse novamente. Malfoy pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas devia ter julgado não valer o esforço, pois voltou a fechar a boca.
"Ah, esta é a minha favorita" Umbridge falou, com outro de seus risinhos infantis. "A pergunta era: quantas vezes, aproximadamente, você teve relações sexuais nos últimos trinta dias?"
Harry engasgou e Malfoy pareceu estar rangendo os dentes.
"O curioso" Umbridge continuou "é que nem mesmo nesta vocês chegaram a um acordo. Enquanto o sr. Potter respondeu 'nenhuma', o sr. Malfoy respondeu 'três'. Que conclusões posso tomar dessas respostas?"
Harry não chegou a ouvir o resto da fala da subsecretária. Sua mente havia congelado no 'três'. Seria possível que Malfoy estivesse saindo com alguém? Olhou para ele desconfiado, porém este levantou uma sobrancelha em sua direção.
"Podemos concluir" disse Malfoy "que meu querido esposo não sabe contar. Ou será que eu sou o único que se lembra da nossa lua-de-mel?"
Harry corou. Merda. Três? Como pôde ter esquecido daquilo?
"De qualquer forma" Umbridge disse depois de se divertir com seu embaraço "três não é nem de longe um número saudável para o primeiro mês de casados. Mas já basta disso por hora" ela concedeu, guardando seus papeis em sua bolsa e Harry se permitiu relaxar uma pequena fração. "Apesar de vocês dois estarem em diferentes níveis de conhecimento mútuo, receio que isso não conte muitos pontos a favor de vocês. Só prova que vocês não são nada unidos. Isto aqui não é uma competição, é um casamento! E não me venha com desculpas, sr. Malfoy" ela atalhou quando este abriu a boca novamente. "Sr. Potter, enquanto você não chegava, o sr. Malfoy fez a gentileza de me mostrar o apartamento e reparei em alguns detalhes intrigantes" ela retirou um caderninho de anotações e Harry soube que aquilo não poderia ser nada bom. Malfoy também não parecia estar esperando boas notícias, apesar de ostentar certo desafio, como se estivesse pronto para rebater todas as acusações. "Começamos pela suíte, onde curiosamente encontrei itens solitários do tipo: uma única escova de dentes, uma única toalha de banho, um roupão e assim por diante. O quarto em si me pareceu muito organizado para abrigar dois homens tão diferentes, e as roupas, sapatos e acessórios... bem, todos os itens pertencem, obviamente, a mesma pessoa. E..."
"E o que a levou" Malfoy não se conteve "a tirar todas essas conclusões, madame, se me permite a pergunta."
"Ora, é uma pergunta excelente, sr, Malfoy" Umbridge se empertigou. "Considero-me uma pessoa muito observadora. Por exemplo, apenas de olhar para você, posso dizer que veste camisas número quarenta e sapatos, digamos, número trinta e nove."
"Ambos quarenta" corrigiu Malfoy, com certa satisfação.
"Muito bem" Umbridge continuou. "Já o sr. Potter, veste quarenta e quatro e calça... quarenta e dois. Estou enganada?"
Harry bem que gostaria que ela estivesse, mas àquela altura, já não tinha como se senti pior. Na verdade, já passara do estágio de se culpar e começava a colocar a culpa em Malfoy, lembrando-se do que vira naquela manhã durante sua expedição ao quarto dele.
"Ah, mas eu encontrei as roupas e calçados da numeração do sr. Potter" continuou Umbridge, tomando seu silêncio como uma confirmação. "Algumas peças penduradas no escritório, outras, curiosamente escondidas no armário do banheiro, onde também encontrei a segunda escova de dente."
Harry lançou um olhar para Malfoy com intenção de causar buracos em sua pele, porém Malfoy evitou encará-lo, limitando-se a oferecer sua costumeira careta de desdém.
"Já o quarto de visitas... bem, aquele é um local um tanto peculiar e, obviamente, bastante privado, mantido à chave até!"
"O quê? Ele deixou você entrar?"
"Não sem muita dificuldade, posso assegurá-lo. Mas não vá me dizer que nunca entrou lá?"
"Ora, não é porque me casei que não posso ter meus assuntos particulares!" Malfoy se defendeu, ao que Umbridge fez mais algumas anotações em seu caderno. "Que casal comum não tem os seus segredos?"
"Perfeitamente bem colocado, sr. Malfoy" a subsecretária falou, como se parabenizasse uma criança por fazer xixi no banheiro. "É natural que os casais mantenham assuntos particulares, além da vida conjugal. Mas pelo que vejo, não há segredos entre vocês dois. Há um imenso e inóspito abismo. E, já que vocês gostariam de fazer comparações, casais comuns não costumam colocar nomes individuais nas caixas de leite nem dormir separados. E antes que vocês me perguntem, eu sei diferenciar um travesseiro de uma almofada e alguns detalhes - como o radio relógio estrategicamente posicionado e a coberta ao alcance -, me dizem que alguém tem feito o sofá de cama regularmente."
Daquela vez Malfoy esqueceu que o estava evitando e estreitou os olhos ameaçadoramente em sua direção. Harry cerrou os punhos. Mas Umbridge aparentemente ainda não havia terminado.
"Além disso, andei me informando e descobri que o sr. Potter não tem passado todas as noites em casa, o que não faz nada senão levantar ainda mais minhas suspeitas sobre o quão a sério você estão levando a situação."
Harry examinou as próprias unhas e Umbridge tamborilou os dedos em sua pasta pensativamente.
"Deixe-me ver o que mais... ah, sim. Reparei que nenhum de vocês estava usando a aliança no trabalho e minhas fontes também me informaram que ninguém sabe que agora são casados. E não venham me dizer que a situação de vocês é mais delicada por serem um casal homossexual. Sei que a orientação sexual do sr. Malfoy já é conhecida de todos na empresa aonde trabalha e muitos até já ouviram falar de seu ex-namorado. E sei também que, apesar de o sr. Potter nunca ter tido nenhum relacionamento do tipo, trabalha numa empresa que reconhece e respeita uniões do mesmo sexo. Além do mais, ninguém se casa para manter em segredo."
Harry não pôde deixar de se sentir impressionado. Não fazia ideia de como aquela mulher havia levantando todas aquelas informações sem levantar suspeitas. Então lembrou-se da inexplicável preocupação de McGonagall àquela manhã, da maneira como ela parecera contrariada com a visita de Umbridge e tudo começou a fazer sentido.
"Está claro para mim que vocês não compreenderam o real propósito da sentença que receberam. Não basta viverem juntos, vocês têm que viver como um verdadeiro casal. E isso inclui usar a aliança em todos os momentos, e não apenas dentro de casa; fazer programas de casal com o pretexto de se conhecerem melhor; partilhar todas as pequenas coisas; dividirem a mesma cama e, porque não, ter uma vida sexual. E nada de aventuras extraconjugais, por mais inocentes que possam parecer, ou encontros com pretexto de trabalho. Ouviu bem, sr. Potter?"
A cabeça de Malfoy virou tão rápido em sua direção que ele poderia muito bem ter quebrado o próprio pescoço com o simples movimento. Harry sentiu as faces esquentarem novamente e evitou olhar na direção dele. Devia ter adivinhado que ela jogaria aquilo na sua cara, afinal ela assistira enquanto convidava Cho para almoçar e podia até mesmo tê-los seguido sem que percebessem.
"Por mais que vocês se sintam tentados, eu recomendo que não tentem me enganar, da próxima vez. Tenho um ótimo faro para essas coisas e não tolero mentiras".
Harry sentiu uma pontada nas costas da mão e flexionou-a, como se tivesse levado uma ferroada. Aquela mulher lhe dava arrepios! Umbridge continuou:
"Sei reconhecer um casal funcionante quando vejo, e vocês não me convenceram por um segundo sequer, nem mesmo com seus teatrinhos. Vocês sequer parecem confortáveis estando tão perto um do outro! Sr. Potter, você parecia prestes a se defender de um ataque toda vez que o sr. Malfoy se aproximava. E sr. Malfoy... você se acha muito esperto para o seu próprio bem. Espero não desperdiçar o meu tempo na próxima visita" ela se levantou, espanando um pó imaginário de suas vestes e segurando sua maleta com firmeza. "Se vocês me dão licença, ainda tenho um relatório para redigir sobre esta visita antes de dar meu trabalho por encerrado por hoje."
Harry se levantou, com o intuito de levá-la até a porta, porém Malfoy fez um gesto para que ficasse no lugar.
"Eu a acompanho até a porta" ele falou, cavalheiresco. "Srta. Umbridge, receio não ter causado a melhor das impressões, mas se você me deixar o seu cartão, posso pedir que meu assistente marque um horário para que possamos conversar com mais... privacidade."
Harry viu quando Umbridge sorriu, como se estivesse prestes a apertar a bochecha rechonchuda de um bebê mimado.
"Aposto que posso imaginar que tipo de conversa seria, sr. Malfoy. Tive a oportunidade de conhecer seu pai e tenho certeza que teríamos nos dados muito bem, não fossem as... circunstâncias. Infelizmente, a menos que você esteja disposto a doar cada centavo dos dez milhões de dólares para uma de minhas causas sociais, prefiro assistir enquanto vocês dois afundam esse barco" ela fez uma pausa para apreciar enquanto a expressão de Malfoy azedava. "Tenham uma boa noite e até a próxima visita."
Tão logo a porta se fechou, Malfoy o encarou com uma careta de escárnio.
"Obrigado por estragar tudo, Potter."
"Eu estraguei tudo?" Harry se indignou.
"Sim! Tudo o que você tinha que fazer era manter as suas coisas fora do caminho e agir naturalmente, mas de algum jeito você conseguiu fazer tudo dar errado!"
"Como se eu fosse a única falha no seu plano!" foi a vez de Harry desdenhar. "Caso você não tenha percebido, parte do motivo de ter dado tudo errado foi eu ter mantido as minhas coisas fora do caminho, como você sugeriu. Meu único erro foi ter feito tudo do seu jeito. E sabe o que eu ganhei? Uma bela dor nas costas."
"E quanto às suas aventuras, heim, Potter?" Malfoy se aproximou para encará-lo nos olhos. "Passando as noites fora de casa e ainda tendo encontros?"
"Não foi um encontro" Harry se defendeu, ainda que sua consciência gritasse que ele bem que gostaria que fosse. Quem poderia garantir que não teria rolado um clima se Chang não tivesse fugido chorando? "Foi um almoço inocente entre colegas de trabalho. Eu juro, não rolou nada!" acrescentou, diante do olhar cético que recebeu de Malfoy, e tratou de mudar novamente o foco da discussão. "Mas não venha jogar a culpa toda em mim. Eu sei muito bem que há espaço suficiente no seu closet para todas as minhas coisas e ainda mais!"
"E por que eu... ei!" Malfoy parou, de repente. "Como é que você sabe do meu closet? Você andou xeretando nas minhas coisas?"
"Ora, eu prefiro o termo 'exploração', ainda mais considerando que a porta estava aberta" Harry deu de ombros. "Droga, eu aposto que conseguiria enfiar o maldito sofá no seu banheiro também! E enquanto você se enruga todo naquela banheira, eu mal consigo me enfiar no box do banheiro de visitas! Minhas roupas estão embolorando por causa da umidade do banheiro, pelo amor de Deus!"
"Então por que você não volta para o seu apartamento de uma vez, se está tão insatisfeito?" Malfoy explodiu. "Tenho certeza de que você não demora a encontrar alguém que queira dividi-lo com você, para que você veja como é fácil!"
"Malfoy, quando é que você vai admitir que essa não é uma opção? Você sabe muito bem que não vai conseguir o dinheiro sem a minha ajuda!"
"E que grande ajuda você está sendo!"
"Quer saber, você também não está facilitando as coisas para mim. Eu é que devia estar ameaçando ir embora!"
"Fique à vontade. A porta é ali. Ah, e deixe as minhas chaves em cima da mesa, por favor" Malfoy girou sobre os calcanhares e saiu, pisando duro.
Harry jogou as mãos para o alto, pegou sua mochila e saiu, batendo a porta.
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Notas: se vocês continuarem generosos com as reviews, vou continuar postando aos domingos, combinado? Obrigada a todos que comentaram, inclusive quem não logou: Brenda C. (que tem mais um motivo para comemorar o casamento deles, né?) e Lis Martin (eu não queria nem ver a cara do Malfoy se o Harry aparecesse com um gato!).
Um agradecimento especial ao Matthew Black Potter Malfoy, que betou lindamente o capítulo!
Ahh o amor... eles se dão tão bem que dá até gosto! uhuahuahua
Quem achou suspeito o Malfoy saber tudo a respeito do Harry deixa um comentário!
