Olá, pessoas!

Nada de enrolação. Boa leitura.

Disclaimer: Declaro que Sakura Card Captors e seus personagens não me pertencem e sim ao CLAMP; e que a fic, apesar de ter sido classificada como K , contém cenas de violência.


Cap 3 - A última dança

Escrito por: Cherry hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

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Ele saiu. Precisava tomar ar. Não somente porque o salão estava abafado, mas também porque haviam lhe roubado todo o ar dos pulmões. Seu ar, sua sanidade...

... seu coração.

Lembrar do olhar que recebera poucos instantes antes foi o suficiente para sentir todo o seu corpo esquentar. Sentindo-se inquieto, inseguro com o rumo que sua mente tomava, ele adentrou nos famosos jardins de Lady Denver. Parou perto da fonte, onde um cupido, ironicamente, jorrava água da ponta de sua flecha para uma bacia de pedra. Havia um banco ali, de costas para um arbusto milimetricamente podado em formato retangular, de onde algumas rosas brancas foram cuidadosamente posicionadas. Por essas e outras que Lady Denver era uma perfeccionista conhecida.

Como se suas pernas não o agüentassem, ele se deixou cair no banco frio de pedra. E ali ficou, por muito tempo... tentando raciocinar com clareza... ou, pelo menos, tentando apagar aquela visão de sua cabeça... embora lhe parecesse impossível.

Tudo que podia recordar era a beleza estonteante os cabelos claros, com mechas caprichosamente onduladas, presos em um lindo penteado da última moda; o vestido branco, entremeado de pequenas pedrinhas de strass, acentuava as curvas perfeitas do corpo da menina que acabava de entrar no mundo dos adultos. Porém, o porte lembrava uma princesa que já adentrara milhares de salões de bailes, mirando tudo e todos com superioridade... com aqueles incríveis olhos verdes. Fuutie estava errada. Não eram simplesmente duas esmeraldas reluzentes. Ele não conhecia nenhuma palavra que pudesse adequadamente descrever a fascinação que aqueles orbes cintilantes tiveram sobre ele. Talvez apenas Shakespeare pudesse tivesse o poder de traduzir em versos aquele imenso sentimento novo e avassalador que o invadia. Quem sabe, se ele procurasse na vasta biblioteca de seu pai, ele encontrasse algum soneto do nobre poeta inglês que exprimisse tais sensações...

Perdido em seus pensamentos, nem notou a aproximação de uma jovem que vinha caminhando calmamente pelo gramado.

- Boa noite.

Levou um susto. Com o coração disparado, pensou ser ela, na fração de segundo que levou ao virar-se em direção da voz, mas relaxou: Não era Lady Avalon, e sim sua amiga, Lady Taylor, pelo que Fuutie lhe falara. Embora ainda bastante confuso, encontrou voz e serenidade para responder ao cumprimento, com polidez:

- Boa noite, Milady.

Ela alargou seu sorriso doce um pouco e se aproximou. À luz de uma lanterna chinesa próxima, ele notou que ela era realmente muito bonita. Seus olhos eram de um azul que lembravam o céu do crepúsculo e a pele era branca como leite, dando-lhe uma palidez - que por pouco não se passava por doentia - que apresentava um contraste espetacular com seus cabelos negros, de reflexos acinzentados. Lábios avermelhados, nariz reto e suave, queixo um pouco proeminente, com uma pequena covinha. Era magra, porém tinha um aspecto mais delgado, frágil, com seu vestido prateado e rodado. Lembrava uma flor muitíssimo delicada exposta ao vento frio e rude do inverno...

- O que faz aqui sozinho, Milorde? – ela perguntou, sem rodeios. Sua voz era muito agradável e musical.

- O calor do salão pode ser muito sufocante para alguém que não está muito acostumado. – ele respondeu, evasivo.

A moça soltou uma risadinha agradável.

- Milorde não parece ser alguém que está desacostumado com enormes salões apinhados de gente. – ele levantou uma sobrancelha, ligeiramente admirado e ela levou uma das mãos a boca, falando em tom de desculpa – Sinto muito, não tinha a intenção de ser insolente.

- Não se preocupe, não foi. O que acontece é que fiquei apenas surpreso, pois a senhorita não parece ser do tipo que costuma criticar desconhecidos. – calou-se por um instante e, notando que ela parecia um pouco desconfortável perguntou – Milady também estava achando o salão abafado demais?

- Não exatamente. – ela corou um pouco, colorindo seu rosto com o tom do sol que desponta no horizonte – Parece que tenho um admirador que é deveras insistente. Pode parecer crueldade minha dizer isto, mas ele já estava ficando cansativo... pedi que ele fosse pegar um refresco para mim... e fugi para cá.

Shaoran achou graça

- Então, Milady pode contar com a minha discrição.

- Será que posso lhe fazer companhia por alguns instantes? – ele lhe lançou um olhar estranho, mas que ela logo entendeu do que se tratava e tratou de tranqüilizá-lo – Não se preocupe, Milorde: o senhor não estará colocando minha reputação em risco, eu lhe garanto.

Geralmente, o conde pensaria duas vezes, até três, antes de fazer alguma coisa que pudesse levemente comprometer a sua própria reputação de solteirão inveterado... contudo, aquela moça lhe conferia uma estranha confiança, que o fez dizer:

- Não vejo por que não.

Ele levantou-se e esperou a mocinha se acomodar no banco para poder sentar outra vez. Após alguns instantes em silêncio, ela falou:

- Creio que não nos apresentamos, embora, no meu caso, seja desnecessário. Sei exatamente quem o senhor é: o afamado Conde de Lisbury.

- Pois que estranha coincidência. Também sei quem Milady é: a muito bem falada Lady Tomoyo Taylor.

Ela piscou, surpresa

- Que coisa estranha. É surpreendente que o senhor saiba meu primeiro nome. As pessoas costumam me chamar de Madson Taylor. – ela o fitou com redobrado interesse e então, alargou o sorriso – Com certeza, foi Sharisse quem já falou de mim. Ela é uma garota muito boazinha.

Shaoran sorriu, involuntariamente e falou, distraído

- É sim... – só então notou o que falara e pigarreou, recobrando a seriedade – Não diga a ela que eu falei isso, por favor.

Ela soltou uma risada gostosa, tapando os lábios com um leque que carregava em sua mão.

- Claro que não. Sabe... ela nós convidou, isto é, a mim e a Sakura, ou melhor, lady Avalon... – o coração dele pareceu descer até a boca do estômago e voltar ao escutar aquele nome - ...para seu Debut. Ficamos muito felizes. Com certeza, compareceremos.

Ao receber a confirmação de que ela iria ao baile de sua irmã e que, provavelmente, ele iria vê-la outra vez, fez com que ele sentisse o coração saltar, desta vez, até a sua boca. Lady Taylor notou o desconforto dele e, durante algum tempo, ficou bastante interessada no fiozinho de prata que a água parecia formar enquanto jorrava da fonte. Ouviu-o suspirar levemente e então falou, com inacreditável franqueza:

- Ela costuma causar esse tipo de efeito nos homens.

Foi tão surpreendente aquela frase que ele realmente estava sendo sincero quando perguntou:

- Quem?!

- A Sakura... Desculpe-me... Lady Avalon.

Shaoran foi incapaz de articular qualquer palavra, tamanho era seu aturdimento. Finalmente encontrou voz e presença de espírito para falar algo conivente:

- E Milady costuma causar essa surpresa nas pessoas, com sua franqueza?

- Com as pessoas com quem simpatizo, sim. Mas, geralmente, sou bastante eloqüente em minhas respostas ácidas. – ela o olhou diretamente nos olhos e ele viu que ali não havia nenhuma sensualidade ou provocação: na verdade, era a primeira vez que uma mulher (sem ser de sua própria família) lhe olhava diretamente daquela forma limpa – Estou falando isso porque sei o quanto a beleza de Lady Avalon é... perturbadora.

Perturbadora era a franqueza e o grande senso de observação que aquela adolescente tinha. Mas não comentou sobre isso. Limitou-se a perguntar, sedento por saber mais sobre ela, a boca um tanto seca:

- Conhece Lady Avalon há muito tempo?

- Pode-se dizer que sim... – ela respondeu, enigmaticamente – A conheci quando eu tinha uns oito anos... convivemos bastante... ela parece uma pessoa gelada ao primeiro olhar, mas muito doce com a convivência.

Uma brisa leve soprou, fazendo as mechas da garota balançarem com suavidade. Algumas folhas secas desprenderam-se de um arbusto alto e caíram na bacia de pedra, ondulando com o vai e vem da água que jorrava do cupido.

- ...E... e a mãe dela? – perguntou ele, com certo vagar – Chegou a conhecê-la?

Tomoyo olhou-o com uma expressão que ele não conseguiu identificar, na penumbra. E respondeu:

- Não. Sakura contou-me que sua mãe morreu há mais de dez anos.

Shaoran sentiu o coração se apertar. A Lady Avalon do passado havia sido muito especial para ele. Como um salva-vidas, um alento, um sonho bom entremeado numa noite inteira de pesadelos. E agora a lembrança era somente isso: uma lembrança. Nunca mais veria aquela lady Avalon outra vez.

- Eu sinto muito em saber disso! – ele falou, a voz baixa – Eu... eu a conheci há muitos anos.

Lady Taylor franziu a testa delicadamente.

- Não foi muito delicado de minha parte ter-lhe dado a notícia tão bruscamente – retrucou, com a voz mais suave que um murmúrio – Se soubesse, teria sido...

- Não precisa desculpar-se, Lady Taylor. – apressou-se em dizer o rapaz. Depois continuou – Eu tinha oito anos quando a conheci, em uma situação deveras estranha – sorriu – na época, achei que ela era a mulher mais bela do mundo.

Tomoyo sorriu, um sorriso estranho. Aquela garota era um pouco estranha.

- Suponho mesmo que tenha sido.

- Sua amiga é muitíssimo parecida com ela. – ele disse, o coração disparando somente por estar falando dela – Embora a tenha visto somente uma vez e a imagem dela tenha se desgastado em minha memória com a passagem dos anos, acredito que, se as duas tivessem a mesma idade hoje, elas poderiam se passar por gêmeas.

Lady Taylor abriu a boca para retrucar, porém outra voz se fez ouvir:

- Finalmente achei você, Shaoran.

Os dois se viraram na direção que a voz viera e o conde reconheceu, com alívio, Eriol.

Somente quando o jovem marquês se aproximou é que notou que o amigo estava acompanhado. Os dois se levantaram e o que se seguiu foi um silêncio um tanto embaraçoso. Antes que qualquer um dos dois pudessem falar qualquer coisa, Eriol fez uma mesura para a garota e falou, galante:

- Creio que milady só pode ser Lady Taylor. Como ainda não tive o prazer de ser devidamente apresentado, ousar-me-ei em fazê-lo. Sou Eriol Anthony de Clover, Marquês de Cloversfield.

Os olhos de Tomoyo brilharam, divertidos, enquanto ela estendia a mão para o rapaz

- É um grande prazer conhecê-lo, Alteza. – depois que o marquês levou sua mãos aos lábios, ela curvou-se para Shaoran, falando – Também fico muito honrada em conhecê-lo, senhor conde. Agora, se me derem licença, preciso voltar para o salão. Devem estar sentindo a minha falta.

- É verdade, Milady. Enquanto me dirigia para cá, encontrei um pobre rapaz que segurava um copo de limonada, procurando aflitíssimo pela senhorita.

Embora seu tom de voz fosse agradável, seus olhos azuis revelavam certo desagrado. Ela percebeu, porém nada falou, limitando-se a curvar-se para os rapazes e ir-se, a silhueta delgada logo desaparecendo na escuridão. Shaoran suspirou:

- Você foi um pouco duro com ela, Eriol.

O marquês fez um gesto de desdém e sentou-se no banco

- Lady Taylor é muito bonita e bem-educada, mas não gosto muito de pessoas que fazem os outros de tolos. Mas, de qualquer maneira, eu notei a sua falta, assim como metade daquelas debutantes. E quando notei que Lady Taylor também estava sumida, achei melhor vir atrás de você antes que alguém fizesse algum tipo de associação maldosa.

- Só estávamos conversando. – resmungou o conde, mal-humorado.

- Mas você sabe muito bem como funciona a sociedade. – rebateu Eriol, muito sério. Então perguntou – Afinal de contas, como você veio parar aqui?

- O salão estava muito abafado. – respondeu o conde, evasivo.

- Ah, sim. Realmente. Mas o salão ficou... hum... "muito abafado" antes ou depois de Lady Avalon aparecer? – Shaoran tomou um susto tão grande virou-se rapidamente para o amigo, quase caindo do banco. Sabia que Eriol era perspicaz... mas não sabia que era tanto. O marquês deu um daqueles sorrisos irritantes e explicou – Eu vi tudo. Quando as duas surgiram teatralmente por entre a multidão, você só tinha olhos para aquela mulher de olhos verdes. Ficou plantado lá algum tempo, até que saiu praticamente fugido do salão.

- Descrevendo assim, até parece que fiz papel de tolo! – Reclamou Shaoran, somente para falar alguma coisa e recuperar-se do susto.

- Não fez... QUASE fez! – Emendou o amigo, cruzando os braços – Você saiu de lá logo... e eu notei que a tal Avalon acompanhou você com o olhar.

Provavelmente, depois daquela noite, ele teria que ir a um médico: o coração dele voltou a bater mais depressa, ante aquela informação. Assim como uma criança que pergunta se ainda tem sobremesa depois do jantar, ele perguntou ao amigo:

- Está falando sério??

- E o que eu ganharia mentindo?! – perguntou o amigo, a guisa de resposta. Fez uma pausa e perguntou, cauteloso – Shaoran... por acaso, você acha que ela é parente da... Avalon que você conheceu quando criança?

- Eu não acho: tenho certeza! Elas são muito parecidas! Ela é igual a mãe quando eu a conheci! – respondeu o conde, animado.

- Mas... Shaoran... quando você me contou a história de quando vocês se conheceram, você não havia me dito que ela estava noiva daquele duque que te salvou? Então, se ela supostamente se casou, como o nome da garota continua sendo Avalon?

Shaoran franziu a testa. Ainda não havia pensado nesse detalhe. Ele tinha certeza que aquela garota que deveria estar naquele instante sendo rodeada por admiradores era filha daquela mulher que lhe dera o pente cravejado com a esmeralda. Mas então... POR QUE o sobrenome era Avalon? Seria ela filha do primeiro casamento da mulher? Ou Lady Avalon não se casara, afinal, com aquele nobre.

Era algo que perguntaria a ela, quando dançassem juntos. Oh, sim! Porque, por mais que quisesse distância das debutantes até aquela noite para não se envolver intimamente, ele fazia questão de ficar completamente comprometido com Sakura Avalon.

Aliás, pensou ele, repentinamente, o que faço eu aqui sentado neste banco frio jogando conversa fora com Eriol?

Levantou-se com brusquidão e, sem dizer nada, recomeçou a fazer o trajeto que o levaria para o salão. O marquês suspirou, exasperado, e também ergueu-se do banco, apressando o passo para alcançar o conde.

- O que você vai fazer agora?

- Pedir para que Fuutie apresente Lady Avalon para mim e, com um pouco de sorte, consigo uma dança com ela! – respondeu Shaoran, resoluto.

- Acho muito difícil. Creio que o cartão de dança dela deve estar esgotado. E é mais difícil ainda que alguém desista de última hora.

O conde vacilou um passo, ao escutá-lo, porém não mostrou hesitação, falando:

- Não tem problema. Ao menos serei apresentado a ela... devidamente apresentado...

Eriol nada falou porque naquele momento eles atravessaram as portas do salão. Uma valsa melosa tocava e várias casais dançavam. Ele logo localizou a irmã, dançando com ares de entediada com um rapaz tagarela. Também viu Lady Taylor dançando com um homem robusto de aparência rude e velha. Nele Shaoran reconheceu o duque Duine de Ormrod. Pelo visto, apesar de estar viúvo há pouco tempo, já estava atrás de um belo rosto que pudesse sentar na cabeceira oposta de sua sala de jantar. Tomoyo conversava com ele educadamente, sem transparecer qualquer emoção no rosto, além do sorriso gentil. Porém, por mais que esticasse o pescoço e se embrenhasse na multidão marginal a pista de dança, ele não conseguia localizar a garota de olhos verdes. Quando a valsa terminou, ele se virou, disposto a perguntar a irmã sobre o paradeiro de Lady Avalon, contudo, infelizmente, surgida do nada, Lady Denver se interpôs em seu caminho. Logo atrás, vinha sua filha, Ariella, o rosto mal contendo a ansiedade. A anfitriã da festa deu um imenso sorriso:

- Meu caro conde de Lisbury, estive lhe procurando por algum tempo. Espero que não tenha se esquecido que prometeu dançar com a minha pequena Ariella.

Antes que o conde desse qualquer desculpa, os músicos recomeçaram a tocar e Lady Denver praticamente empurrou Ariella em seus braços e ele não teve outra escolha a não ser dançar com a moça. Ele notou que algumas pessoas os olhavam, admiradas e cochichavam por atrás dos leques e taças de champanhe. E ele sentiu raiva: era SÓ uma dança. E, ainda por cima, uma quadrilha muitíssimo formal. Se ele estivesse abraçando a garota, ele até não diria nada... mas eles mantinham quase meio metro de distância um do outro enquanto executavam os passos. Quando trespassou por Eriol, que dançava com uma senhora muito linda, o amigo lhe lançou o olhar de "bem que eu te avisei" e ele soltou um muxoxo de impaciência. Tentou se concentrar em seus próprios pensamentos, rapidamente interrompido por Lady Ariella, que tentava entabular uma conversa:

- Então... milorde... está gostando do baile?

- Uhum. – respondeu ele, vagamente

- Eu... bem... – o rosto redondo adquiriu uma cor vermelha. Apesar da boa impressão que tivera antes, ao conhecê-la, via agora que ela era exatamente igual a maioria das debutantes: tímida e insossa – Eu... eu queria agradecer muito por ter vindo. Estou extremamente feliz.

- O prazer é meu. – rebateu ele, indiferente

- Milorde gosta de dançar?

- Não muito.

- Pois o faz com bastante perícia.

- Obrigado.

- Acredito, então, que tenha outros interesses... Gosta de montar?

- Sim.

- Ouvi dizer que milorde é perito com pistolas. É verdade?

- Sim.

A garota mordeu os lábios, desencorajada. Shaoran sentiu compaixão dela, mas gostaria de deixar bem claro que não haveria a menor possibilidade de um pedido de casamento. Pelo menos, não da parte dele. Ela respirou fundo para fazer mais alguma tentativa de entabular conversa e ele suspirou disfarçadamente.

- O senhor não acha que está fazendo muito calor, mesmo para esta época do ano?

- Sim.

- Tem muitas pessoas que estão ficando doentes ou passando mal. Alguém, da sua família ficou doente recentemente?

- Não.

- Que bom, fico feliz. Sabe, minha Chaperon sentiu-se mal e foi para cama, mas ela estava febril hoje pela manhã. Também lamentei quando Lady Avalon teve que sair mais cedo por causa de uma dor de cabeça.

- O QUÊ?!

Ele perguntou tão alto que algumas pessoas que dançavam ao redor olharam para ele, espantadas. Ariella Denver atrapalhou-se com a dança e quase pisou no pé dele. Recompondo-se, a garota disse:

- Sim... Lady Avalon lamentou terrivelmente sair mais cedo, mas alegou que estava sentindo uma dor de cabeça leve e, como amanhã ela precisa ir a um baile importante, foi embora para não sentir-se indisposta amanhã. Lady Taylor queria ir junto, mas ela pediu para que ficasse e se divertisse.

Shaoran nada disse, maldizendo-se por dentro por sua falta de sorte. Em vez de ter acompanhado Tomoyo de volta ao salão de danças, ficara proseando com Eriol e perdera a oportunidade de falar com ela! A dança terminou e o conde levou a garota até a sua mãe, sem lhe dirigir a palavra uma única vez. Depois de um breve agradecimento e esquivar-se de um convite para o chá na tarde seguinte, ele foi atrás da irmã. Encontrou-a conversando animadamente com Tomoyo. Ele se aproximou das duas, ao mesmo tempo que Eriol vinha do outro lado do salão. Sharisse virou-se para o irmão e falou, animadamente:

- Ah! Aí está você! Tome cuidado, estão todos comentando...

- Já sei, já sei... – ele a cortou, impaciente – Será que a sociedade não tem nada o que fazer a não ser ficar criando intrigas sem sentido algum?!

- Se não houvesse aquilo que Milorde chama de "intrigas", a cidade morreria de tédio. – respondeu Tomoyo, sem hesitar.

Sharisse soltou uma risada.

- Tomoyo, você não perdoa ninguém mesmo! – então virou-se para o irmão e para o marquês – Nossa! Ainda bem que mamãe não está aqui, senão ela iria ralhar comigo porque ainda não os apresentei. Shaoran, Eriol, esta aqui é Tomoyo Madison de Taylor. Tomoyo, estes são meu irmão Shaoran Lionel Lisbury, o conde de Lisbury e Eriol Anthony de Clover, o marquês de Cloversfield.

Ignorando completamente o fato de que já haviam se apresentado nos jardins minutos antes, Tomoyo curvou-se para eles e falou, com polidez:

- É uma grande honra conhecê-los, milorde... Alteza...

- Para nós é uma honra também, milady – Retrucou Eriol, entrando no jogo e curvando-se para ela. Shaoran fez o mesmo.

Caiu um silêncio sobre eles, logo interrompido pelo som de mais uma valsa. Aproveitando o encejo, Eriol virou-se para Fuutie e perguntou:

- Me concederia esta dança?

Antes que a moça pudesse responder, Shaoran interpôs e disse:

- Sinto muito, Eriol, mas eu preciso falar com minha irmã. Mas ela irá guardar a próxima dança para você, tenho certeza.

- Tudo bem. – respondeu o outro, seco. Virou-se para Tomoyo, sorriu e ofereceu-lhe o braço – Então... se milady não tiver algum pretendente, ficaria extremamente honrado se aceitasse dançar comigo.

A moça retribuiu o sorriso e respondeu:

- Sua honra não será maior que a minha.

Ela apoiou a ponta dos dedos no braço oferecido e eles se foram. Enquanto isso, Shaoran praticamente arrastou a irmã para um canto afastado e começaram a valsar também. A irmã olhou-o, aborrecida:

- Por que você tem que ser assim, hein, Shaoran?! Não poderia ter esperado a valsa terminar para poder me seqüestrar?

- Mas, Fuutie, é muito importante.

- É SHARISSE, Shaoran! – ela corrigiu, ficando cada vez mais chateada – E eu sei muito bem o que você quer de mim, mas sinto muito dizer que...

- Eu já sei! Lady Avalon já foi embora! Droga! – ele resmungou, nervoso – Acho que não era para ser hoje afinal.

- Pois acho muito bem feito!

Ele lançou um olhar zangado para a irmã, que, por sua vez, olhava de solaio Eriol e Tomoyo dançando a alguns metros. O conde estava desconfiado que sua irmãzinha estivesse nutrindo alguma espécie de paixão platônica pelo marquês desde que chegara do internato. E ele sabia muito bem que o amigo jamais olharia a irmã com outros olhos, então tratava de desencorajá-la das mais variadas maneiras. Porém, aquela fora completamente desproposital...

- Afinal, o que você quer? – perguntou ela, de repente, voltando a olhá-lo.

- O que eu quero saber é porque ela foi embora... Ariella Denver me contou uma história de ela estar se sentindo mal, porém não acredito muito nisso... Queria saber se ela não comentou nada com você...

- Eu vi quando ela falou com a Tomoyo – cortou Fuutie, ríspida – E me pareceu verdade. Ela estava bastante pálida. O Duque de Ormrod, que estivera dançando com ela minutos antes, ofereceu-se para levá-la para casa, porém ela recusou.

Shaoran sentiu sua tensão e frustração aumentaram um pouco mais. Só de pensar que um outro homem havia dançado e sido gentil com ela fazia com que uma sensação quente e incontrolável subisse pelo seu corpo, através de seu sangue. Ele acertadamente achou que fosse ciúmes e pegou-se surpreso por tê-lo sentido somente agora. Afinal, tinha plena consciência que ela tinha muitos admiradores. Provavelmente fosse porque "muitos admiradores" parecesse algo bem abstrato em comparação a um homem em particular, com nome e títulos. Ainda mais um homem que estava fatalmente atrás de uma esposa.

-E ela foi com ele?! – perguntou, sentindo um estranho misto de frustração e ansiedade.

- Eu acabei de dizer que ELA RECUSOU! – Fuutie enfatizou as palavras, olhando-o com impaciência. – Será que além de bobo, você fica surdo quando está apaixonado?!

- Eu... – começou, grosso, mas parou ao processar o que ela havia dito – Como... como... sabe que estou apaixonado... por ela?

A garota riu com certa maldade.

- Eu vi tudo! Quero dizer, quando você a viu! Ficou com a cara mais idiota do mundo! Oras, se aquilo não é o início de uma paixão, ou amor, se quiser ser mais poético, eu não saberia dizer o que era!

Sua frustração aumentou. Gostava de tirar sarro das irmãs, mas ser a vítima das provocações não era nada divertido. Já podia prever Shiefa lhe atentando no dia seguinte.

- Mas... você sabe... – Fuutie voltou a falar, com um tom de voz mais afável – eu acho que é não bom você alimentar... algum tipo de esperança... em relação a ela.

O comentário o pegou desprevenido.

- Por que diz isso, Fuutie?

Ela mordeu o lábio inferior, não porque estivesse procurando as palavras certas para dizer o que teria que dizer, mas porque sabia que o irmão não aceitaria tão fácil.

- Ela... é uma pessoa muito boa, mas... ela parte muito fácil o coração dos homens. E... eu não quero que você se machuque...

Ele levantou uma sobrancelha...

- Está dizendo para desistir... antes mesmo de tentar?

- É! – ela respondeu, desafiadoramente – Mas... pelo seu tom de voz, já entendi que você não vai abdicar desse... novo projeto.

Ele sorriu meio de lado.

- Pode ter certeza disso!

A valsa terminou. Os casais aplaudiram. Shaoran deu o braço à irmã e perguntou:

- Quem lhe acompanhou hoje?

- Shiefa. Aliás, ela também queria lhe falar... – Não foi preciso ela dizer mais nada para ele saber do que a irmã trataria e torceu os lábios. Fuutie, no entanto, falou - Prepare-se para escutar dela o mesmo que ouviu de mim. E me refiro a tudo.

O rapaz nada disse como resposta, contentando-se a levar Fuutie até sua irmã mais velha. Logo localizou-a conversando com uma senhora. Shiefa, assim que olhou o irmão, abriu a boca para comentar algo, mas o conde foi mais rápido e falou:

- Boa noite, Shiefa! Estou lhe trazendo Fuu... er... Sharisse de volta. Infelizmente, eu já havia marcado um outro compromisso para está noite, portanto já estou de saída.

Lady Denver, novamente aparecendo como por mágica, falou, chorosa:

- Mas já, Milorde?? Tinha esperança que aceitasse dançar uma valsa com a minha querida Ariella.

Fazendo um enorme esforço para não deixar transparecer o quanto estava aliviado por não ser obrigado a tentar demonstrar interesse pela jovem debutante, ele retrucou, usando seu charme irresistível:

- Lamento muito, Lady Denver, porém o que tenho que fazer é inadiável. Já estou atrasado. Contudo, embora não possa corrigir esta terrível falta hoje, talvez possa fazê-lo em outra oportunidade.

Lady Denver olhava-o hipnotizada, sentindo-se que voltara a ter apenas 18 anos outra vez...

- Claro, claro... meu garboso Conde...

Shaoran sorriu ainda mais e levou as mãos da dama aos lábios.

- Despeça-se de sua filha por mim.

Ele curvou-se para as irmãs, que assistiram a cena com um sorriso maroto em seus rostos e saiu, procurando com o olhar seu melhor amigo. Logo localizou a cabeleira negra de Eriol a uns cinco metros de distância, conversando com Lady Taylor e Lady Nobelli, a quem ainda não havia visto na festa. Quando se aproximou, Agatha Nobelli lhe encarou com uma expressão fria no rosto, embora houvesse qualquer coisa em seus olhos que a traísse e lhe dissessem que ela ficara repentinamente desconfortável com a presença do conde ali. Shaoran tocou o ombro do amigo, que se virou para ele com um olhar que lhe dizia que, apesar do seu preconceito a bailes de debutantes, ele estava se divertindo, e ele lamentou ter que tirar o amigo dali.

- Eriol, precisamos ir. Não se esqueça que temos outro compromisso.

Por um milésimo de segundo, os olhos azuis do amigo pareceram confusos, mas, no instante seguinte, captaram o que ele queria dizer e o rapaz entrou no jogo.

- É claro. – Voltou-se a virar para as moças e falou, curvando-se com galanteria – Havia me esquecido que combinamos de comemorar o aniversário de um amigo. Lamento muito termos tido tão pouco tempo para conversar...

Shaoran também cumprimentou as moças, que retribuíram com uma mesura, e encaminhou-se para a porta, mantendo a calma com dificuldade: sua vontade era sair correndo dali. Parava de vez em quando, para falar com algum conhecido, porém, apenas quando respirou a brisa fresca da noite, lá fora, foi que finalmente sentiu-se livre da sensação sufocante. A carruagem já os esperava. Eriol entrou primeiro e segurou a porta, com um gesto bastante irônico, até que o conde se acomodasse. Só então sentou-se, enquanto observava o lacaio parado a porta, esperando que seu patrão lhe dissesse aonde desejava ir, mas Shaoran parecia estar com os pensamentos longe dali. O marquês suspirou e falou:

- Leve-nos para Lisbury Manor.

Somente instantes depois, quando a carruagem já estava em movimento é que finalmente o rapaz pareceu despertar. Dirigiu-se aturdido ao amigo, que lhe observava com uma expressão meio divertida e meio preocupada no rosto.

- Estamos indo para onde?

- Para a sua casa. Não sei porquê, mas sinto que você não está querendo farrear esta noite e, quanto a mim, tudo o que quero é dormir.

Shaoran fez menção de falar alguma coisa, porém pareceu mudar de idéia e simplesmente sacudiu seus ombros.

Eriol curvou-se para frente para fitar o amigo mais de perto, desta vez com muita mais seriedade. Parecendo escolher bem as palavras, inquiriu:

- Você percebe o que está acontecendo?

- Como assim, Eriol? – perguntou o conde, com a voz distante, indicando que seus pensamentos vagueavam em uma dimensão bem diferente daquela.

- O que está acontecendo... – respondeu o marquês, alteando a voz para mostrar uma leve irritação nela e para ser ouvido – é que você está apaixonado pela mulher mais difícil da temporada.

Shaoran voltou a terra bruscamente. Olhou para Eriol, franzindo o cenho.

- Sei disso.

- Sabe mesmo, contudo acho que ainda não pensou nos pormenores da questão. Em primeiro lugar, digamos que 65 dos homens, tanto solteiros quanto casados, sejam jovens ou velhos, estão também apaixonados por ela!

Inconscientemente, Shaoran pensou no duque de Ormrod e aborreceu-se.

- Este fato é bem visível, até para mim! – falou, sarcástico

- O que você parece estar esquecendo, meu caro conde de Lisbury, é a atitude de lady Avalon perante tudo isso! – rebateu Eriol, no mesmo tom severo de antes – Era de se esperar que uma mocinha debutante ficasse exultante com tanta atenção, cheia de si, quem sabe. Mas, pelo o que ouço falar por toda Londres e, que a própria lady Taylor me confirmou enquanto dançávamos, não é bem assim que lady Avalon encara a sua popularidade. Ela parece achar que tal rebuliço por sua beleza é algo normal, esperado e não se deixa impressionar. E é muito fria com os homens e, segundo dizem, não foi muito gentil com os dois corajosos que lhe propuseram casamento...

- O que você quer dizer com todo esse discurso, Eriol Anthony de Clover? Vamos, coloque tudo as claras! – Cortou o jovem conde, sua voz alteando sem realmente ele desejar, sentindo uma inexplicável sensação de contrariedade subindo-lhe pelo peito, deixando-o irritado e frustrado.

- O que quero dizer, Shaoran, é para você não se meter com essa mulher! Você vai ser só mais um na coleção de admiradores dela! Há muitas mulheres no mundo, tão bonitas quanto ela e mais especiais.

- Em outras palavras, você também quer que eu desista antes mesmo de tentar! – ele notou a expressão ligeiramente confusa do amigo e esclareceu – Fuutie me disse a mesma coisa! Falou que posso "me machucar"! – falou, com sarcasmo as últimas palavras, rolando os olhos.

- Sua irmã tem toda a razão.

- Eriol, eu acho que já tenho idade suficiente para saber o que estou fazendo. Oras, foi você mesmo quem disse que havia ficado impressionado com meu "desempenho" na casa de Lady Nobelli – retrucou o conde, com a voz transparecendo teimosia e, infelizmente, convicção. Continuou, depois de uma ligeira pausa – Aliás, eu só quero conhecê-la melhor! Não é que vá pedi-la em casamento logo após a primeira dança.

Eriol lançou-lhe uma olhar que deixava bem claro que não acreditava no que ele dizia.

- Eu não sei! Você me parece muito afobado e imaturo! Parece até que voltou a ter 18 anos! Não está pensando direito, deixando seus sentimentos sobressaírem sua razão!

- JÁ CHEGA!! – Berrou ele, dessa vez bem zangado. Depois de um breve silêncio, ele voltou a falar, mais calmo, porém com a voz carregada de rispidez – Não adianta você tentar me convencer a desistir! A verdade é que eu gostei muito dessa mulher e quero me aproximar dela! Quero ao menos tentar! – viu Eriol torcer os lábios, com desagrado, e disse, com a irritação voltando – É melhor pararmos essa discussão por aqui!

- É você quem sabe, Shaoran.

E o resto do trajeto foi feito num silêncio amuado e desconfortável.

'

Finalmente, o tão esperando dia do Debut de Sharisse havia chegado. No final da tarde, Lisbury Manor ainda parecia não estar em perfeita ordem para receber os convidados que em breve chegariam, segundo o ponto de vista da condessa–mãe. Vários criados trombavam-se na escadas, carregando toalhas de mesa e outras coisas ou simplesmente para levar recados para a governanta e para o mordomo. O salão estava maravilhosamente enfeitado de flores brancas, de diversas espécies, com velas novas em todos os candelabros e com cadeiras meticulosamente limpas, arrumadas em fileira em um canto. Lá fora, criados penduravam lanternas chinesas em pontos estratégicos do jardim, tendo cuidado para não atropelar os jardineiros que davam o último toque nos arbustos e árvores com suas tesouras de podar enquanto outros criados limpavam as folhagens que caiam no chão. No hall de entrada, o mordomo instruía os lacaios para receber os convidados e checava seus uniformes, enquanto uma mocinha terminava de encerar o chão até ver sua própria imagem ali, como uma tenebrosa imitação de um espelho.

Do alto da escada, um velho senhor, empertigado, mas com uma expressão suave no rosto bondoso, observava toda aquela agitação. Depois de algum tempo, dirigiu-se com calma até um dos quartos na ala principal da casa e ali bateu em uma das portas. Uma voz calma mandou que entrasse e ele adentrou no aposento. Dentro do recinto, duas mulheres tentavam fazer com que uma garota tentasse se acalmar, para que ela pudesse escolher um dos dois vestidos que a criada pessoal dela exibia a um canto, com as mãos já cansadas. A condessa olhou para o senhor e perguntou:

- E então?

- Está tudo em ordem, milady. Os criados já terminaram de pendurar as flores no salão e o piso está completamente encerado.

- E no salão de jantar? Todos os lugares foram arrumados? A prataria foi lustrada? – o senhor respondeu que sim com um aceno da cabeça – E a louça de jantar?

- Está tudo em seu devido lugar, milady. Todos os lugares confirmados já estão postos. O cozinheiro também mandou avisar que todos os pratos estão quase prontos.

- Quase prontos? – repetiu a mulher, a voz alteando levemente – Será que ele está ciente que os convidados chegarão em menos de duas horas?!

- Está sim, milady. – respondeu o homem, controlado, embora sentisse uma enorme vontade de rir – Mas talvez milady prefira que eu peça para o cozinheiro apressar as coisas.

Os lábios tremeram para confirmar a ordem sugerida, porém ela mudou de idéia. Inesperadamente, deu um pequeno sorriso:

- Acho que estou um pouco ansiosa também, no final das contas, não é mesmo, Wei?

- Se milady me permite a impertinência, creio que sim. Está tudo em perfeita ordem. Não há com que se preocupar.

Apesar de ser muito estranho um criado dirigir-se assim à patroa, aquele era especial. Wei era um grande amigo da família, descendente de uma família que sempre serviu os Li, a família de Yelan. Quando esta se casou, Wei a acompanhou, apesar do conde de Lisbury ser contra. Era um criado muitíssimo bem treinado e prestativo, ocupando um cargo quase de sub-mordomo, se tal coisa existisse. O verdadeiro mordomo da casa, Webber, já estava ficando muito velho e pretendia se aposentar e, apesar de hesitar levemente em colocar um estrangeiro em seu lugar, Wei era o seu provável sucessor. Além de mordomo, o senhor de rosto bondoso e gentis olhos verdes também fora uma espécie de tutor para Shaoran e o jovem conde o amava como um pai. Pelo menos, Wei fora bem mais presente que o "velho leão" em sua infância e adolescência.

Um som angustiado se fez ouvir. Wei e Yelan viraram-se e viram Fuutie parada em frente à criada, olhando aterrorizada para os dois vestidos de baile que a mocinha ainda segurava, cada vez mais desanimada. Shiefa, sentada na beira da cama, cobria a boca com uma mão para esconder o ar de riso. Yelan soltou um suspiro e falou, meio ríspida a filha mais nova:

- Fuutie, apresse-se em escolher o vestido que você irá usar! Você estava tão certa de usar o branco rodado e de mangas bufantes até ontem!

- Eu sei, mamãe, mas acontece que hoje de manhã eu estou me achando um pouquinho mais cheinha do que o normal... e esse vestido parece aumentar minha silhueta. Vou ficar parecendo um barril coberto de glacê com ele! – explicou, angustiada, sem reparar que a mãe a chamara pelo detestado nome do meio.

- Isso não aconteceria se você não comesse tantos doces e sanduíches na hora do chá. E isto somente para começar: Só hoje vi você comendo três taças de pudim na sobremesa, Fuutie

- É que eu estou nervosa, mamãe. É hoje que, oficialmente, serei lançada na temporada e é preciso estar tudo perfeito!

- Então é bom que você escolha logo o vestido. – falou Shiefa, com os olhos brilhantes – Lembre-se que você ainda precisa tomar seu banho e o cabeleireiro virá aqui daqui a trinta minutos.

- Sua irmã tem razão. Olhe – Yelan foi até a criada lhe tomou das mãos os vestidos. A mocinha suspirou de alívio levemente. – Se você acha que o branco rodado lhe deixa mais gorda...

- Cheinha, mamãe! – protestou Fuutie, fazendo bico.

- Que seja! – exclamou a mãe, impaciente – Então ponha logo vestido de forro prateado e pronto!

- Mas... mamãe... esse vestido é tão simples! – falou a mocinha, chorosa – Quase nem se classifica para um vestido de baile. Só tem o forro prateado e esse bordado na barra.

Yelan, apesar de ser uma mulher que nunca perde o controle, sugou o ar ruidosamente e olhou a filha mais nova com impaciência redobrada. Shiefa levantou-se da cama e aproximou-se de Wei para lhe falar:

- Isso ainda vai demorar um pouco. Conheço Fuutie, ela vai acabar escolhendo o de forro prateado, mas ela e mamãe ainda vão "pechinchar" um bocado! – O velho se permitiu um sorriso de cumplicidade, mas logo estava sereno outra vez. Shiefa abaixou a voz, para perguntar, um pouco apreensiva – O conde ainda não chegou?

Wei balançou a cabeça, negando. Neste momento, porém, ouviu-se um certo alvoroço no hall de entrada e, aliviados, escutaram a voz de Shaoran dando algumas ordens. Acontecia que o rapaz havia sumido a tarde inteira e Fuutie já chegara ao cúmulo de dizer, alimentada pelo nervosismo e irritação, que o irmão havia esquecido-se do baile que aconteceria logo à noite, embora ele obviamente tivesse notado que a casa estava de cabeça para baixo pela manhã. As duas, que ainda estava discutindo, também escutaram e correram para a porta, bem a tempo de ver o rapaz galgando os últimos degraus da escada. Fuutie passou como um raio pelo corredor e postou-se bem a frente dele, enfrentando-o com o olhar cheio de irritação e, mesmo sendo mais velho e quase 40 centímetros mais alto, ele sentiu os cabelos de sua nuca se arrepiarem.

- Shaoran Lionel de Lisbury! POR ONDE VOCÊ ANDOU?? Você está em cima da hora!!

- Bem, eu... – começou, não muito certo do que estava falando, pensando que as mulheres realmente se transformavam quando estavam zangadas – Eu... estava no clube... e... Ah! Por favor! – exclamou, de repente se dando conta da situação – Eu consigo me arrumar com uma mão nas costas em menos de uma hora!

A garota, se possível, ficou ainda mais irritada. Virou-se para Wei e disse:

- Wei, faça-me um favor: quando Lionel for se arrumar, certifique-se de amarrar a mão direita dele às costas!!

Virou-se e, com a mesma rapidez que havia confrontar o irmão, entrou no quarto, batendo a porta com força ao passar. Shiefa olhou para o irmão e disse:

- Não sei se você merece ficar tão desconfortável na hora de sua toalete, mas certamente seu atraso é lamentável. Ainda mais com Fuutie tão alterada.

- Estávamos preocupadas! Você disse que voltaria antes da hora do chá! – emendou Yelan, com o cenho franzido.

- Mamãe... eu me atrasei quinze minutos! – defendeu-se, exasperado, o rapaz – Agora, se me dão licença, vou para meu quarto... e espero não ser incomodado até a hora que eu chamar!

Se afastou, porém Shiefa o acompanhou para perguntar:

- Onde esteve?

- No clube, com o Eriol. Estávamos... conversando e acabei perdendo a hora. – Shiefa notou a ligeira hesitação do irmão e, acertadamente, lançou-lhe um olhar de quem sabia que ele estava mentido. Querendo encerrar o assunto, falou – O Eriol falou que vai chegar um pouco mais cedo.

- Não tem problema. Ele já é praticamente um membro da família.

Haviam chegado à porta do quarto do rapaz. Galante, ele beijou a mão da irmã, que sorriu, divertida, pensando em como o rapaz era imprevisível.

Shaoran fechou a porta. O meio sorriso que estava em seus lábios, ao despedir-se de Shiefa, se desfez. Com a mão na cabeça, caminhou distraído até sua cama, onde sentou-se pesadamente. Ele tinha certeza absoluta que Shiefa pensava que estava mentindo sobre sua "conversa" com o marquês. Em verdade, ele apenas trocara a palavra "discutir" por "conversar". Eriol e ele passaram uma boa hora trocando insultos leves, em voz baixa, no clube, para não serem ouvidos pelos outros membros que por ali estavam. No mais, o amigo mais velho tentara, em vão, mudar a cabeça do conde para que ele não se precipitasse com relação a Lady Sakura Avalon e quando Shaoran, tendo chegado ao ponto onde sua paciência esgotara-se, acusara Eriol de querer tirá-lo do "páreo" para poder conquistar a moça, o outro calara-se de imediato, levantara-se e dissera, a guisa de despedida, que chegaria um pouco antes do horário combinado, com uma voz e um olhar que diziam com todas as letras "você é um idiota", indo embora logo em seguida.

O conde estava obviamente arrependido de ter feito tal desfeita com Eriol, mas achava que estava com a razão ao pensar que já era mesmo bem grandinho para tomar suas próprias decisões, acatar com os riscos da nova empreitada e se impacientar com os cuidados intensivos da família e do amigo. Para começo de conversa, fugira para o clube logo depois do almoço para não ter que ver os olhares apreensivos da mãe e presenciar o nervosismo crescente de Fuutie. Mas também fugira para que os outros não percebessem o quanto ele próprio estava impaciente e nervoso. Talvez estivesse tão aborrecido com Eriol porque, a cada palavra que o amigo dizia, o deixava mais apreensivo. Parecia transformar tarefas tão simples como conversar e flertar em um dos doze trabalhos de Hércules.

Disse a si mesmo (mais de uma vez somente naquela tarde) que não se deixaria impressionar pelas dificuldades. Lady Avalon era bonita. Sim. Verdade. Tão bonita que ofuscava qualquer outra mulher aonde estivesse (sentiu-se um pouco mais nervoso do que já estava), com o porte de uma princesa, ou melhor, uma rainha, vestida com o traje mais elegante que possuísse ou em trapos (o nervosismo aumentou mais uns pontos). Tão perfeita que três a cada quatro homens desejam sua companhia ardentemente (mais uns pontos de apreensão adicionado a uma pontadinha de ciúme)! Ah! Era melhor mesmo deixar de pensar nisso!

Deitou-se na cama, pegou uma almofada e cobriu sua cabeça com ela, como se quisesse sufocar os pensamentos. Funcionou por alguns segundos, até que se sentiu sufocar e precisou respirar. E todas as sensações conflitantes e pensamentos perigosos voltaram com o ar que inspirou. Não dava. Desde o baile de Lady Denver, sentia que precisava fazer alguma coisa, tomar alguma atitude... algo como se um ser, que estivesse dentro dele, quisesse sair, mas não pudesse porque sua carne e sua pele impediam... sentir-se impotente era pior coisa do mundo.

Nesse instante, passou um pensamento vago pela sua cabeça de que talvez estivesse ficando um tanto quanto paranóico: pensar tanto em alguém era normal? Bom... não poderia saber... aquela era a primeira vez que se apaixonava de verdade.

Foi surpreendido por uma batida a sua porta. Meio desorientado, ele mandou quem quer que fosse entrar. Era Wei. Olhando para o fiel empregado, falou:

- Achei que tinha dito que não queria se incomodado.

- Eu sei, Jovem Shaoran, porém receio que tenha perdido a hora: já passa das seis horas e o senhor precisa se trocar. Se não estiver no horário certo para receber os convidados, lady Lisbury poderá ter uma síncope.

Shaoran se surpreendeu: passara tanto tempo assim divagando? Ele suspirou:

- Bem... não há nada mais que eu possa fazer. Mande preparar o meu banho, Wei.

- Eu já havia tomado a liberdade de fazê-lo, milorde. – informou o senhor, fazendo um sinal para fora da porta e dois criados apareceram, trazendo uma banheira para o meio do quarto e, logo em seguida, um batalhão de pessoas com vários baldes de latão adentraram no aposento, jogando a água morna dentro da banheira. Assim que todos saíram, Wei abriu o sorriso bondoso de sempre e informou, sem necessidade – Seu banho está pronto.

Shaoran sorriu. Deu trégua a seus pensamentos confusos e concentrou-se em estar perfeito naquela noite... ou então correria o risco de ser aniquilado pela irmã.

'

O salão de festas da família Lisbury estava lotado. Todas aquelas pessoas, que agora conversavam e riam enquanto bebericavam em suas taças de champanhe e dançavam, eram a nata da sociedade londrina. O salão, ricamente decorado e iluminado por velas incontáveis, lançavam um brilho dourado e glamouroso sobre os homens bem apessoados em seus fraques aprumados com condecorações e nas mulheres com seus vestidos luxuosos que coloriam o ambiente e suas jóias que cintilavam e fazia que o lugar parecesse estar entremeado de estrelas do céu.

Mas ninguém parecia mais radiante do que Sharisse. Linda em seu vestido prateado (Shiefa acertara quanto a escolha da roupa), com os cabelos artisticamente arrumados e arrematados com pequenas rosas brancas, os olhos cintilantes de emoção e o sorriso constante no rosto, nem precisava do delicado colar de pérolas, a única jóia que usava, para se fazer brilhar: tal como o sol reina sobre as estrelas na alegria da manhã, ela reinava sobre o seu baile.

- Imagine, eu nem fiquei nervosa. Nem um pouquinho! Estive tranqüila a tarde inteira. – falou Fuutie a uma amiga, ao parar um pouco de dançar para tomar um refresco

Shaoran, que ia passando pelo local, ao escutar o que a irmã dizia, não pode deixar de exclamar bem baixinho:

- Cínica!

Por um momento, nada aconteceu e pareceu que ela nada havia escutado, até ela dar um passinho casual para trás e pisar com força no pé do irmão, que deu gemido de dor.

- Você escutou alguma coisa, Mary? Olhe, as irmãs Parkinson chegaram, preciso cumprimentá-las. Com licença. – ela falou, retirando-se, mantendo o sorriso perfeito sem vacilar e passando por Shaoran como se nada tivesse acontecido.

- Poderia ter sido bem pior. – falou Eriol, tendo se espremido entre dois senhores para chegar até o amigo, sério, segurando uma taça do vinho espumante e dourado.

- Creio que sim. – falou Shaoran, formal. Ainda não estava seguro se as coisas entre eles estavam bem, depois da discussão da tarde, mas o marquês parecia disposto a conversar, o que era uma boa coisa – Acho que ela está tão feliz e radiante que esqueceu de fuzilar-me com o olhar e acusar-me de ser cruel. É o que ela geralmente faz.

- Apesar de o Debut ser parte óbvia dessa felicidade, creio que a chegada surpresa da irmã de vocês também colaborou para isso.

Shaoran sorriu. Era bem verdade. Quando Fanrei, a segunda irmã mais velha do conde, chegou de viagem juntamente com o marido um pouco antes do jantar, Fuutie se emocionou tanto que chorou e teve que lavar o rosto uma três vezes para que o os olhos deixassem de ficar vermelhos. Fanrei, ou melhor, A Viscondessa de Ratcliffe, morava com seu marido em Blackpool, na costa oeste da Inglaterra. Sendo a cidade longe de Londres, era raro o casal fazer uma visita. O Visconde tinha saúde frágil e se mudou para a cidade que era conhecida por seus banhos de mar com propriedades curativas. A moça estava esperando o primeiro filho do casamento, dali a cinco meses, portanto o esforço da viagem fora ainda maior para o casal.

- Fuutie, desconfio, sempre foi a irmã predileta de Fanrei. Tinha um imenso ciúme de Fenmei quando elas duas aprontavam... – comentou Shaoran, dando um sorriso nostálgico ao relembrar-se dos velhos tempos.

- Nunca ouvi tamanha bobagem.

O conde e Eriol levaram um susto: como por mágica, a referida irmã apareceu atrás deles, com um ar de autoridade. Fanrei era tão alta quanto Shiefa, talvez um pouco mais. Tinha os olhos castanhos da família, astutos e brilhantes, nariz aristocrático e boca pequena e carnuda, moldados perfeitamente no rosto oval. Sua grande fronte denunciava sua imensa inteligência e os cabelos, presos num penteado romântico, eram castanho-claros, com fios de ouro entremeando os cachos grossos. Seu corpo era normalmente esguio, mas a gravidez estava deixando-a com os seios mais fartos e a cintura começava a se pronunciar. Era muito bonita e, quando debutou, causou furor em Londres, ainda mais quando aceitou o pedido de casamento do Visconde, que não possuía grande fortuna. Mas Fanrei amava muito o marido e eles eram muitíssimo felizes.

Naquele instante, a moça estava com as mãos na cintura, olhando altivamente para o irmão.

- Eu amo minhas irmãs igualmente... senão não sobraria amor para você, Shaoran!

- Eu também adoro você, maninha! – replicou Shaoran, com uma expressão dramática no rosto.

- Mas não parece, falando mal de mim pelas costas.

- Eu?! Falando mal de você?! Nunca! – o irmão replicou, fazendo-se de inocente

- Hum... pois suas sobrancelhas exageradamente erguidas, olhar muito esbugalhado e braços cruzados no peito me contam outra história.

Fanrei tinha umas manias estranhas desde pequena. Gostava de observar o comportamento das pessoas e fazer anotações sobre linguagem corporal. Segundo Yelan, Fanrei fazia isso porque tinha o sonho de poder ler a mente das outras pessoas quando ainda era uma criança, mas, como obviamente isso era impossível, aprendeu a ler os corpos e a expressão dos rostos para saber o que as pessoas estão pensando. Os irmãos achavam apenas engraçado que Fanrei seguisse discretamente os criados ou observasse atentamente a mãe conversar com as amigas na hora do chá da tarde, mas o conde e a condessa preocupavam-se com ela: e se os pretendentes da filha descobrissem aquele estranho comportamento? Ela poderia ser taxada de maluca e não conseguir fazer um bom casamento. Talvez por isso, Daniel, o marido de Fanrei, fosse tão especial: ao descobrir os interesses da garota, ele não só se encantara por isso, como também a incentivava. E, atualmente, com anos e anos de observação intensiva, a viscondessa se tornara perita em identificar mentiras e identificar a personalidade das pessoas somente em olhá-las.

- Pelo visto, você continua uma excelente observadora. – resmungou Shaoran, rolando os olhos.

- Não aja como se isso fosse besteira, maninho! – bronqueou Fanrei, interpretando corretamente o olhar do irmão. Olhou para Eriol e sorriu – Você continua como sempre, não Eriol? Taciturno, reservado e calmo, aliados ao grande senso de observação que sempre apreciei em você. Não tivemos ainda oportunidade de dialogar e pelo visto, não teremos, pois meu marido já vai aparecer, como todas as vezes que inicio uma conversação com você.

Dito e feito: dois segundos depois, uma mão segurou possessivamente o ombro da moça e um homem alto, de cabelos negros, pálido e magro, usando óculos um tanto pesados escondendo a beleza dos olhos cor de mel se inseriu no grupo. Embora ele estivesse sorrindo agradavelmente, todos na rodinha sabiam que ele tinha muitos ciúmes de Eriol, apesar de considerá-lo uma ótima pessoa. Isso porque, como Fanrei dissera anteriormente, ela o admirava muito, ou melhor, admirava o senso de observação do marquês. Ele apertou calorosamente a mão de Shaoran, dizendo:

- Como vai o meu cunhado favorito? Faz muito tempo que nós não conversamos – após hesitar levemente, ofereceu também a mão ao marquês e disse, gentilmente – Também é muito bom revê-lo, Cloversfield. Querida... você não vai acreditar no que a condessa de Lisbury me disse: que ela adquiriu recentemente um ramo de Ylang-Ylang das Filipinas, que está cultivando nas estufas, nós precisamos dar uma olhada.

Uma das paixões do Visconde eram plantas e a mulher também compartilhava a admiração com o marido. Fanrei juntou as mãos e, com os olhos brilhantes, falou:

- Então, nós precisamos ver essa raridade. Ouvir dizer que o solo precisa ser preparado com cuidado, com um nível de acidez característico. – ela virou-se para os rapazes e falou, fazendo uma leve mesura – Se me dão licença, rapazes, eu e Daniel passaremos horas agradáveis apreciando tão magnífica raridade.

Assim que eles saíram, Eriol lançou um olhar divertido a Shaoran e o conde, aliviado, percebeu que o amigo não estava mais zangado com ele. Ia comentar alguma coisa quando Fuutie se interpôs entre eles, perguntando:

- Shaoran, posso falar dois minutinhos com você? – ela virou-se para o marquês, sorrindo um pouco encabulada - Devolvo seu amigo em um instante... mas quero lembrar-lhe que você está me devendo uma dança desde o baile de Lady Denver.

- Não me esqueci, Fique tranqüila! – ele respondeu, galante.

Fuutie arrastou o irmão pelo salão de festa e adentrou em um corredor deserto. Só então falou, um pouco séria, indo direto ao ponto:

- O que quero saber é se você ainda está disposto a levar aquela história adiante! – O rosto dele adquiriu uma expressão que dizia "do que você está falando" e ela explicou, um pouco ríspida – Com relação a lady Avalon.

- Mas é claro que sim.

- Então... – ela suspirou, como se desse por vencida – quando elas chegarem, você pode pedir que eu a apresente para você...

- Era só isso que você queria me falar? Por que não falou na frente de Eriol? – ele perguntou, seco

Ela hesitou e respondeu, insegura:

- É que eu... bem... se você mostrasse dúvida com relação a isso, tentaria convencê-lo a não se aproximar dela...

Shaoran logo notou que tinha alguma coisa errada. Com os olhos semi-cerrados, perguntou:

- Aconteceu alguma coisa?

Mais uma vez, ela hesitou, mordendo os lábios, porém, pareceu ter tomado uma decisão porque disse:

- É que... ontem à noite, durante um baile, ela foi... pedida em... casamento...

Shaoran sentiu o coração gelar. Com a voz mais baixa que o murmúrio, inquiriu:

- E... ela aceitou?

- Não. – Shaoran suspirou de alívio. Por algum motivo, isto pareceu irritar Fuutie, que continuou, mais efusiva – Você não estava lá. Eu e Tomoyo vimos quando Lorde... bem, não vou dizer o nome dele... nós vimos quando um certo nobre encaminhou Sakura para o terraço. Tomoyo pediu-me que a acompanhasse e nós os seguimos. Eles foram até o jardim e ele... pediu-a em casamento. Sakura, muito gentilmente, recusou o pedido, mas algo estranho aconteceu. – ela fez uma pausa, como se decidisse internamente se contava ou não o resto da história. Decidiu prosseguir – o... nobre em questão agiu de forma inesperada. Primeiro, ele agiu como se Sakura estivesse fazendo algum tipo de brincadeira. Mas, depois que percebeu que ela estava falando sério, exaltou-se de forma... abominável. Gritou, ajoelhou-se... praticamente arrastou-se a seus pés. Foi horrível. Ainda bem que estávamos bem distantes do salão, pois seria terrível o escândalo. Tomoyo ficou com medo que ele tentasse agredi-la fisicamente, então interferimos... mas ele estava... muito ferido mesmo.

Calou-se, olhando-o ansiosa. Shaoran também manteve-se calado, até por fim dizer:

- Acho que entendo sua preocupação... você não quer que eu desça ao nível dele...

- Não! Não é isso! Eu não quero que você FIQUE como ele! – ela o corrigiu, resoluta, olhando-o nos olhos – Sakura é... uma boa pessoa, mas... tenho medo...

- Mais uma vez, você quer que eu desista antes de tentar! – ele a cortou, seco – Sinto muito, Fuutie, mas não posso fazer isso. Já me decidi e vou correr o risco.

Ele se afastou da irmã, resoluto.

- Não precisa me apresentar a ela... tenho certeza que lady Taylor o fará com prazer.

Ele voltou a adentrar no salão de baile... mas Fuutie ainda ficou bastante tempo encostada na parede do corredor, suspirando.

'

- Olha só!

- O que foi?

- São... elas!

- Não acredito! Elas vieram mesmo?

- Se não forem as "Nipon no hana" em carne e osso, são excelentes cópias!

O alvoroço no salão foi enorme assim que elas puseram os pés ali. Tomoyo estava lindíssima em um vestido violeta que, apesar de não ser uma cor indicada para debutantes, combinava e realçava a cor de seus olhos e sua palidez. Estava acompanhada por uma mulher bastante altiva, de cabelos ruivos e, apesar da idade, ainda em perfeita forma. Apenas os olhos no mesmo tom azul de Tomoyo denunciava o parentesco entre elas: tratava-se de sua mãe, Sonomi, a duquesa de Westway.

Apesar da beleza magnífica de Tomoyo, todos os olhos do salão voltaram-se para a figura ao seu lado, tão resplandecente que chegava a ofuscar. Usava um belo vestido marfim claro, de cintura alta, onde a região do busto era todo trabalhado em pequenas pedrarias que cintilavam a cada movimento. Havia uma faixa logo abaixo, que a envolvia até as costas, onde caia até o chão, como se fosse uma calda. A saia não era ampla e a barra também era bordada. Tinha pequenas mangas bufantes. Como complemento, luvas compridas e um pequeno colar de brilhantes, muito discreto. Os cabelos estavam caprichosamente penteados num coque estilo princesa, enfeitados com flores brancas. Estava espetacular! Ela logo foi cercada por vários admiradores, para os quais ela sorria gentilmente, embora os olhos permanecessem frios.

Shaoran observava tudo de longe, tomando sua terceira taça de champanhe. Não costumava beber daquela maneira, mas precisava de alguma coisa que lhe desse coragem. Tinha um objetivo em mente, que pensava ser o suficiente para chegar até ela... mas parecia que todas as suas defesas o deixavam, pelo simples fato de estarem no mesmo aposento. Percebeu então que, se não corresse, o cartão de dança dela iria ficar lotado e não haveria oportunidade melhor para conversarem! Engolindo a apreensão, ele encaminhou-se até onde elas estavam. Quando chegou bem perto, Sakura olhou-o com o olhar indiferente, que o intimidou um pouco e fez seu coração bater mais forte. Tomoyo notou também a aproximação dele, porém sorriu, fazendo uma leve mesura:

- Boa noite, milorde. Já pedi desculpa a Lady Sharisse pelo nosso atraso.

- Acredito que o atraso de jovens tão lindas quanto as senhoritas sejam apenas um estímulo para a ansiedade de nós, pobres mortais. – ele falou, cumprimentando a moça, agradecendo aos céus por conseguir ficar calmo no momento. Olhou para a mulher ruiva que assistia tudo com interesse e sorriu – Creio que ainda não fomos apresentados, milady.

- Ah, sim! Está é a minha mãe, a duquesa Sonomi de Westway... – ele fez uma mensura a mulher – E esta aqui é lady Sakura Avalon, minha amiga.

A garota fez uma mensura, mas sua expressão indicava que só o fizera porque as convenções sociais assim exigiam. Shaoran sentiu-se um pouco mais intimidado, mas não daria o braço a torcer... pelo que entendera, ela era assim com todos os homens... o que precisava fazer, antes de tudo, era quebrar o gelo.

- Adoraria se milady me desse o prazer de uma dança, lady Taylor. – olhou para Sakura, tentando esconder suas expectativas – e você também, Lady Avalon.

- Lamento... – ela falou com ele pela primeira vez com sua voz melodiosa, porém bastante fria – mas meu cartão de dança já está lotado.

Shaoran sentiu seu estômago despencar. Como poderia ela estar com todas as danças comprometidas se haviam acabado de chegar? Antes que pudesse fazer algum tipo de comentário lamentando o fato, a duquesa se pronunciou:

- Mesmo, minha cara Avalon? Pois olhe aqui. – ela pegou o cartão de dança com arrogância e apontou para o final – parece que ainda lhe resta uma última dança.

Por um momento muito rápido e intenso, Sakura olhou a mulher com alguma coisa que podia ser descrita como enorme antipatia, raiva até. Esforçando-se visivelmente para manter a calma, ela olhou para o rapaz e disse:

- Parece que, realmente, ainda lhe resta a última dança.

- Ficarei ansioso até lá, lady Avalon. – virou-se para Tomoyo, falando – E espero que milady ainda tenha alguma dança reservada para mim.

- Não se preocupe, milorde. Aguardarei o momento com ansiedade.

Neste momento, um jovem lorde aproximara-se de Sakura para tirá-la para sua primeira dança. Aproveitando o ensejo, o conde disse às duas:

- Agora, senhoras, preciso encontrar minha irmã para a primeira dança.

Depois dos cumprimentos de despedida, ele se afastou, pensativo. Lady Avalon era realmente muito fria. Como todas as pessoas que acham que podem fazer melhor e vão com tudo fazer dar certo aquilo em que todos falharam, ele estava confiante e, exatamente como essas pessoas se sentem quando também fracassam, ele estava frustrado e um pouco humilhado. Ela parecia olhá-lo como se ele fosse um grão de poeira em seu vestido impecável. Ou talvez pior. Porém, o que mais lhe intrigava era o comportamento da duquesa de Westay em relação à lady Avalon... pareciam se detestar, mesmo que a ruiva fosse sua Chaperon...

Sentiu um puxão no seu braço e viu Sharisse, que o observava com um olhar meio interrogativo, meio assassino e, subitamente, lembrou-se que realmente teria que dançar a primeira valsa com a irmã...

Após aquilo o que ele chamou de "tortura a três tempos" (não que fosse desagradável dançar com irmã, mas ele podia sentir os olhares ansiosos e invejosos e de um monte de menininhas recém saídas da escola que ali estavam), ele se esquivou de algumas insinuações de convites e andou a esmo pelo salão, até dar de cara com Eriol, que olhava com ar entediado alguns rapazes muito enfeitados e bebendo um taça atrás da outra.

- Por que não está dançando?

O marquês rasgou um sorriso sardônico

- Ninguém quer dançar com um nobre marquês, porém sem um penny no bolso, quando tem um excelente e belo partido com um grande título e muito dinheiro e propriedades... bem aqui na minha frente.

- Ah... não vai me dizer que você está com inveja, vai? – rebateu Shaoran, em tom de troça. Postou-se ao lado do amigo e pegou uma taça de vinho da bandeja de um criado que ia passando.

- E então? Como foram as coisas com a senhorita "sem coração"? – perguntou Eriol, demonstrando pouco interesse.

- "Sem coração"? É algum apelido bobo que você deu para ela?

- Eu, pessoalmente, não... mas, depois do que aconteceu ontem, no baile na casa dos Ranout... é o que está se falando no White's.

Shaoran sabia que ele se referia ao baile que sua irmã acabara de lhe falar.

- Se sabia da história, por que não me contou? – perguntou, sem tirar os olhos da taça que segurava.

- Tentei lhe contar hoje à tarde mas... – os dois lembraram-se da discussão de mais cedo e, num acordo mútuo e silencioso, não falaram nada. Pigarreando, Eriol retomou o assunto anterior – E então? Como foram as coisas com a Sem... com Lady Avalon?

- Bem... eu creio que poderia ter sido bem pior.

O conde levou cinco minutos para contar tudo o que acontecera. Para finalizar, colocou em palavras o que antes estivera lhe atormentando:

- Eu não entendo porque a duquesa parece não gostar dela... quero dizer, ela estava acompanhando ela e a filha... era de esperar que fizesse de tudo para que lady Avalon arranjasse casamento...

- Acho que você está vendo pelo lado errado. Apesar de estar realmente cuidando do debut dela, ela é a mãe de Lady Taylor... e tudo o que a duquesa consegue ver é a beleza maciça de lady Avalon encobrir os encantos da filha... e levar embora as chances de um ótimo casamento também.

Shaoran ergueu as sobrancelhas e disse.

- Você tem razão... não havia pensado por esse lado...

- E então? O que você vai fazer até... a hora derradeira? – Eriol perguntou, rindo meio de lado.

- Pensei em jogar cartas. Há uma sala aqui do lado, para aqueles que, como eu, são avessos a danças e a debutantes... você vem?

O marquês fez uma careta de desprezo:

- Sabe muito bem o que eu penso sobre esse tipo de jogo! Afinal, foi o carteado que me deixou sem par esta noite...

Shaoran deu nos ombros, porém Eriol ainda não havia terminado:

- E não acho que seja uma boa idéia.

- Não se preocupe Eriol, você sabe que tenho discernimento e sei quando devo parar!

- Não é isso! É que eu não acho uma boa idéia você desaparecer assim do baile e reaparecer somente para dançar com lady Avalon.

- Por quê? – questionou, em desafio, o conde – É isso mesmo o que eu quero.

- Mas vai despertar falatório! – respondeu Eriol, como se estivesse falando para uma criança de sete anos. O conde rolou os olhos, mas não impediu Eriol de continuar – Eu sei que você não está nem aí para as convenções sociais, mas... você precisa manter sua imagem! As pessoas perceberão seu comportamento e logo verão que você também está atrás da Avalon! Shaoran, aqueles que não gostam de você vão cair de boca nessa história... e vão adorar espalhar que você está caído por ela. Então... até pelo menos você ter conseguido alguma coisa concreta com ela, não aja como se ela fosse a única mulher no mundo!

Shaoran pensou seriamente em replicar, já que o amigo já estava começando a tomar aquelas atitudes paternalistas que ele tanto detestava, mas uma coisa o fez recuar: ele havia dito "até você ter conseguido"... pelo menos o amigo agora acreditava nele... ou, ao menos, se conformara. Suspirando, ele disse:

- Está bem. Você tem razão, claro. Devo dançar com outras moças... quais você sugere?

Parecendo aliviado que o amigo tenha acatado sua sugestão, o marquês respondeu:

- Bem... todas as garotas dariam os olhos e talvez um ouvido pela chance de uma dança. Mas sugiro que evite aquelas que as mães estiverem muito interessadas...

- Ou seja, praticamente todas do salão.

- Tente a filha de Lorde Bloodwood, a srta. Liv Blood. – continuou Eriol, como se Shaoran nunca tivesse falado nada - Ou mesmo lady Iolanda, filha do marquês de Cavendish... ou então, por que não a própria lady Taylor? Acho que ouvi você dizer que havia prometido uma dança para ela.

- É verdade... enfim... – ele suspirou e assumiu a expressão de quem vai participar de uma guerra em que se luta pela vida – É melhor eu acabar logo com isso. Deseje-me sorte.

- Boa sorte! – obedeceu Eriol, com ironia.

Enquanto observava o amigo se distanciar e abordar uma jovem que quase fraquejou das pernas quando o ele a cumprimentou, o sorriso que estava em seu rosto se desfez e deu lugar uma expressão fria, sombria... e impenetrável.

'

E a noite transcorria numa incrível vagareza. Dança após dança, as mesmas conversas sem sal, os mesmo olhares insinuantes... tudo repetia-se, numa incessante cadência melosa e entediante... as pernas do rapaz mal o agüentavam. Apenas o firme e claro pensamento que, a cada dança que ele era obrigado a tomar parte, mais perto de Lady Avalon se encontrava, o mantinha em pé... e mais forte seu coração batia... e mais ansioso ficava... e o anseio, se sabe, é o pior inimigo daqueles que desejam muito alguma coisa.

Mas, por mais que tempo passasse devagar, a tão sonhada hora finalmente chegara. A última dança da noite. A primeira que valeria realmente a pena.

Ele respirou fundo e foi até ela. As pessoas que passavam ao seu redor desapareciam à medida que se aproximava dela. Ela estava sozinha, em um canto do salão, rodeada pela luz das velas, que faziam seu vestido, seus cabelos e sua pele reluzirem dourado. Quando o viu se aproximar, entretanto, não havia qualquer sinal de simpatia em seus olhos frios como gelo. De repente, o apelido "sem coração" pareceu muito apropriado.

Ele parou a sua frente. Ela mal chegava na altura do ombro dele. Shaoran ofereceu-lhe a mão. Ela esticou o pescoço alvo para olhá-lo nos olhos, sem expressar qualquer sentimento além de desprezo, talvez. Mas, sabendo que não tinha escolha, ela aceitou a mão oferecida e, com ele, caminhou até o meio do salão. A sorte parecia estar ao seu lado, pois os músicos começaram a executar uma valsa suave muito romântica. Ele a enlaçou com delicadeza e, num movimento perfeitamente sincronizado, começaram a valsar. A moça nem parecia tocar o chão, pois valsava com uma graça e experiência que nenhuma debutante tinha. Aproveitando-se disso, Shaoran arriscou começar um diálogo:

- Milady dança muito bem. Quase parece levitar.

- Obrigada.

- Onde aprendeu a dançar desta maneira?

- Em uma escola de dança, na França.

- Minha irmã Fuu... Sharisse contou-me que é francesa.

- É verdade.

- Mas, se me permite a impertinência, milady é muito mais bela que qualquer francesa.

- Obrigada. – respondeu a moça, com um ar entediado.

Shaoran teve um dejá vu: viu-se de novo no baile de lady Denver, dançando com Ariella Denver; só que desta vez, os papéis estavam invertidos: enquanto ele tentava entabular conversa, ela o desencorajava. Sentiu, repentinamente, uma profunda simpatia pelas tentativas corajosas da mocinha, pois não era fácil ouvir aqueles monossílabos sem sentir-se, no mínimo, frustrado.

O que poderia fazer? Com o rabo do olho, ele notou que havia uma porção de jovens admiradores dela seguindo cada passo de dança que executavam, com inveja e raiva e percebeu: ele estava sendo igualzinho a todos àqueles pedantes almofadinhas que tanto desprezava. Estava deixando que o nervosismo, a tensão do momento tomasse conta dele daquele jeito. Ele não era assim. Já conquistara mulheres bem difíceis. Tinha que pensar com a razão e não com o coração. Pelo menos, não agora.

Esforçou-se para empurrar todo o nervosismo ou qualquer pensamento negativo que estivesse tendo para bem longe e concentrou-se, da maneira mais fria que podia naquele momento e observou bem o rosto dela. Notou que ela sentiu sua mudança repentina de comportamento, pois suspendeu as pálpebras indolentemente baixas de tédio um pouco. Pigarreando, perguntou, desta vez de um tom voz bastante indiferente:

- Há quanto tempo Milady mudou-se para a Inglaterra?

- Há 10 anos.

- Bastante tempo. Não sente falta da França?

- Não muita. Na verdade, não lembro muita coisa.

- Lady Taylor contou-me que se conhecem há vários anos. Como se conheceram?

O rosto dela, que estivera impassível até ali, finalmente deixou mostrar um pequeno traço de sentimento. Era algo como ternura.

- Há oito anos... mudei-me para uma propriedade vizinha do duque de Westay. Nos encontramos por acaso e... nos tornamos muito amigas.

- Entendo... milady parece gostar muito de Lady Taylor. Eu particularmente a acho muitíssimo encantadora.

Um leve esboço de sorriso pairou em seus lábios:

- Sim... é verdade. Tomoyo é especial. Mas é uma pena que as pessoas não notem muito isso.

- Sinto muito dizer, lady Avalon, mas creio que culpa é toda sua.

Ela o olhou, surpresa, e o conde entendeu que ela havia se surpreendido não pelo fato em si, porque ela deveria saber que ela verdade...

... Ela havia ficado surpresa com a ousadia dele dizer aquilo.

- Pressuponho que milady saiba que a senhorita rouba toda a atenção, quando entra no salão, para si. Milady não o faz propositalmente, eu sei. Porém o que é mais interessante é que lady Taylor não parece se importar. É por isso que ela é especial?

Ela voltou a lhe olhar com frieza, mas ele percebeu que ela estava começando a se interessar pela conversa.

- Não é só por isso. Tomoyo é muito meiga e compreensiva...

- E muito franca. – ela suspendeu uma das sobrancelhas. Ele explicou – Tivemos um encontro bastante peculiar no baile de Ariella Denver e confesso que me surpreendi com algumas coisas que ela falou.

- Ah, sim. Ela me contou. Parece que vocês são dois avessos a salões quentes e a admiradores que gostam de perseguição. – ela falou, o sorriso voltando a rondar os lábios perfeitos – Olhei o senhor logo no começo do baile. Eu... – ela hesitou um pouco, mas continuou, seca – Eu vi a maneira como me olhou.

Para disfarçar o silêncio que se seguiu, Shaoran fez lady Avalon rodopiar rapidamente. Quando ela voltou para seus braços, ele falou, sendo sincero, porém dosando as palavras:

- Bom... acontece que tinha muita curiosidade de conhecê-la. Sharisse falou-me bastante sobre milady... aliás, todos na cidade estão falando muito sobre sua pessoa. É natural um homem ficar curioso. E... quando finalmente a vi... – ele olhou bem dentro de seus olhos e prosseguiu, com a voz terna e profunda, como se não pudesse evitar que as palavras saíssem de seus lábios – Sinceramente... achei que o resto mundo havia desaparecido... só havia você.

Eles se encararam, continuamente, por vários instantes. E ele não sabia dizer o que havia nos olhos dela. Não estavam tão frios como antes, mas não demonstravam nenhuma admiração, ou afeto, ou mesmo algum sinal mais aparente de que se deixara levar por aquela declaração em meias palavras. Ele se recompôs e, soltando uma risada zombeteira, falou:

- Puxa... pareço um idiota romântico desta maneira. Espero que me perdoe.

Lady Avalon pegou a deixa e retrucou, voltando a sorrir:

- Não existem tantos poetas românticos hoje em dia, milorde. Então, não tem porque se preocupar.

Contente com o rumo da conversa, ele emendou:

- Infelizmente, milady causa esse efeito em muitas pessoas... e sou apenas um pobre mortal.

Lady Avalon mordeu o lábio inferior, de um jeito que poderia ser considerado bastante brejeiro e concluiu, suavemente, quase como falando para si mesma:

- Pode até ser que seja um pobre mortal... mas, definitivamente, é diferente dos outros.

Ele se surpreendeu com aquela declaração. Infelizmente, a valsa chegava ao fim e não havia como pedir a companhia dela, sem ser insistente, para que continuassem a conversa. E ele também não queria perder a boa impressão que ela parecia ter dele agora, por isso, fazendo um grande esforço para se controlar, ele levou até onde a duquesa de Westay, sua acompanhante, estava se curvou para a moça, que retribuiu com uma mesura graciosa.

- Espero ter algum dia o prazer de dançar ou conversar novamente com milady.

Ela sorriu:

- Eu digo o mesmo.

Cumprimentou a duquesa e lady Taylor, que tinha acabado de ser conduzida por Eriol até a sua mãe.

Então ele a viu se afastar, majestosa, acompanhada das outras duas mulheres, enquanto a orquestra tocava "deus salve a rainha", anunciando o fim do baile. Demorou algum tempo para perceber que o amigo continuava ao seu lado.

- E então? Como foi?

Shaoran sorriu, distraído e terno.

- Não diria que foi um sucesso absoluto, mas creio que... consegui chamar a atenção dela.

Eriol olhou o conde com curiosidade, mas percebendo que ele parecia não querer falar sobre o assunto no momento, guardou as perguntas que vinham aos seus lábios para mais tarde e se afastou. Shaoran continuou parado, no mesmo lugar, por muito tempo...


Fim do terceiro capítulo

Bom... hoje, tarde da noite de terça-feira, não vou me demorar muito aqui... toh com soninho...

Primeiramente, mil desculpas pela demora... mas, como já disse antes, quem já for leitor meu sabe que sempre demoro um pouquinho mais da conta... a faculdade apertou mais um pouquinho e ando trabalhando em outros projetos...

Segundamente, espero, claro, que vocês tenham gostado do capítulo. Eu acho meio estranho ver a Sakura tão fria... tão "sem coração", mas o "roteiro" manda que ela seja assim... alguns mistérios surgiram, algumas brigas aconteceram... mas não fiquem aflitos: guardem suas perguntas e indagações porque ainda tem muita história pelo caminho...

Hoje, temos poucas notas culturais:

Chaperon: São as chamadas damas de companhia. Antigamente, era inadimissível que uma moça andasse desacompanhada pelos lugares então as famílias contratavam senhoras de idade ou então tias ou primas idosas para acompanharem as moças em passeios e festa. Afinal se a moça ficasse a sós com um homem, sua reputação estaria seriamente comprometida e só haveria uma maneira de restaurar a honra da moça... as mães também se faziam de chaperon, mas eram casos mais raros.

"deus salve a rainha": ou "God save the queen" é o hino da Inglaterra. Ele era sempre tocado para anunciar o final de um baile.

notinha: o nome do Visconde não tem referência nenhuma a um certo ator britânico muito famoso por interpretar certo personagem igualmente famoso... foi só coincidência.

Gente... se eu esqueci alguma coisa e ou vocês tiverem alguma dúvida, review-me...

Por falar em review...

Quero agradecer a: Saki-Li (faz parte. Você não foi a única que pensou isso ), Katryna Greenleaf Black (pelo visto, você estava cheia de dúvidas. Será que você se encontrou e ta ainda mais perdida?), Vick.y Pirena(Obrigada pelos elogios. Quem bom que você curtiu UAE também), Sakura Lindah (Ahahaha... eu não chego aos pés da J.K... mas obrigada pela comparação), Sango Lee(obrigada pelos elogios), Isabella-Chan(hehehe... não se fico feliz ou triste de você naõ ter dúvidas ), Gabii GLO xD(ahahah... obrigada pelas perguntas ), Mimica Chan(- tira o copo de gelo de perto e saí correndo... – hehehe), Hyuuga Mitha(bom... notar a sakura já notou... agora, resta saber se ela gostou do que viu... isso só nos proximos capítulos), Musette Fujiwara(será que ela vai se aquietar? Hum... hehehe), Hanna-chan (bom... parte do título tem a ver com isso, como você pode ter percebido neste cap agora... ), Miiinina Suppie(Fico feliz que você fique feliz quando lê as minhas fics... mas, não precisa exagerar... eu não sou da realiza não... embora saiba q a intenção eh que conta ), Sakura – chan (desculpe a demora e obrigada pelo elogio), Aninha (hehehe... espere e você verá!), Jessii (desculpe a demora. Logo adiantando a sua pergunta, eu não sei quando sairá o capítulo 04, ok? ), Acdy-chan(espero que tenhas gostado da parte do baile), Lara (Voce tem alguma razão: realmente é complicado escrever uma fic histórica porque é preciso pesquisar constantemente para que não cometa nenhuma gafe... mas é tão divertido que compensa! ), Beatrice Sarti (Até panfletos?! Eheheh... desculpe a demora), Pequena miau-chan (Muito obrigada pelos elogios, mas não sei se você vai gostar de ter pego a fic no começo, porque eu costumo demorar... ") e Naianne Rabelo (Realmente, livros históricos são apaixonantes, não acha?!).

Se quiserem que eu escreva mais rápido, por favor, mandem reviews e cobrem bastante!!

E, por fim, mas não menos importante, agradecimentos mais que especiais para minha revisora, Yoruki Hiiragizawa. Sem ela, eu tava perdida! Valeu mais uma vez...

Fico por aqui, galera!

Até o próximo capítulo..

Cherry hi