II
Fridrik,vamos acordar?
O garotinho dos cabelos alaranjados piscou os olhos de leve, ouvindo uma voz conhecida distante, e tornou a fechá-los quando a claridade de um lampião próximo o cegou. A dona da voz que o chamara agora lhe acariciava o rosto, carinhosamente, enquanto o pequeno animal branco no bolso do garoto o cutucava com as patas dianteiras. Esfregou os olhos com as costas das mãos e finalmente criou coragem para abri-los, o que foi uma tarefa árdua para o pobre menino sonolento. A primeira coisa que viu foi um borrão escuro, com pequenos pontos prateados que piscavam e cintilavam. Quando sua visão se acostumou com a claridade, o que focalizou foi um belo rapaz que o observava com certo interesse, os olhos fixos nos seus. Rapidamente, desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar e suas bochechas ruborizarem. Virou-se para a garota ao seu lado, tentando disfarçar o nervosismo em sua voz.
- Nina? O que... – perguntou o ruivo, evitando olhar para o lado.
- Ah, finalmente acordado! – sorriu a loira, apertando uma das bochechas (muito) vermelhas do garotinho.
- Eu...
- Dormiu a viagem toda? Sim, mas não se preocupe! – e nesse momento, tirou um saquinho do bolso de suas vestes e entregou ao menino. – Eu comprei alguns doces para você não desmaiar de fome no caminho até Hogwarts!
- Ah, obrigado... – sem fazer cerimônia, Fridrik tirou um sapo de chocolate do saquinho, que imediatamente saltou de suas mãos e caiu no colo do terceiro ocupante da cabine. Nina logo fechou a cara, encarando-o furiosamente. Indiferente, ele limitou-se a pegar o sapo e devolvê-lo ao dono, demorando-se um pouco mais no contato de mãos, o que deixou Nina mais furiosa ainda. O ruivo agradeceu baixinho, olhando para o chão. Ao que começou a comer, Nina levantou-se:
- Está na hora de nos trocarmos – anunciou, em um tom preocupado. – Eu vou para a cabine da Kathelen e... você tem certeza de que pode se cuidar sozinho???
- Mas é claro, Nina! O que...
- Má companhia. – sussurou a loira, agressivamente, com os olhos voltados na direção do "estranho", que parecia muito distraído brincando com um papel de bala amassado.
- Ah, Nina! Eu sei me cuidar sozinho...! – teimou o ruivinho, fechando a cara.
- Bem... Ah, tá bem, tá bem, eu vou! – suspirou Nina, como se não tivesse escolha. E retirou-se da cabine, com o uniforme em mãos.
Rapidamente, Fridrik virou-se para pegar seu malão, que estava perigosamente mal-equilibrado no compartimento de cima. No momento em que o puxou, o trem deu uma forte sacolejada, fazendo o malão sair de sua posição para cair em cima do ruivo.
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Nina entrou no compartimento chutando a porta com toda a força que possuía, fazendo as ocupantes, que ainda estavam se vestindo se levantarem em um salto e olharem feio para a recém-chegada. Nina desculpou-se rapidamente e sentou-se ao lado de uma das garotas, que resmungou, de cara amarrada:
- Podia ser mais delicada, não?
- Não tenho tempo, Kath. – retrucou Nina, já se arrumando, sem olhar para a amiga.
- Mas qual é a da pressa?! – Retrucou a garota, jogando seus cachos loiros para trás dos ombros, enquanto ajeitava a gravata vermelha e dourada. Nina a ignorou, aproveitando a deixa para se abaixar e tirar os tênis. Irritada, a amiga a puxou pelas vestes, forçando-a a se levantar novamente. Nina suspirou, irritada.
- Eu não posso deixar ele sozinho!
Os grandes olhos azuis de Kath se arregalaram e sua expressão irritada se transformou em um largo sorriso.
- Ahhh, então você finalmente arranjou um namorado! Sabia! E ele deve ser popular, para você estar tão preocupada assim... – já estava para continuar a falar, visto que o rosto de Nina estava ficando bastante vermelho, quando uma das outras garotas da cabine, uma morena, a interrompeu:
- AAAAH! Então você é a garota que estava na MESMA cabine que o Luke Morningstar? – parou estrategicamente nesse ponto, já ouvindo as reações de suas amigas.
- Infelizmente. – foi a resposta seca de Nina, que fez todos os suspiros e gritinhos cessarem imediatamente. – e é por causa dele que eu não posso deixar o Frid sozinho.
- Frid??? – todas perguntaram em uníssono.
- Ah, então é esse o namorado... – suspirou Kath, decepcionada.
- Cale a boca, Kathelen. O Frid mal está no primeiro ano! – retorquiu Nina, o rosto sardento que estava voltando ao normal já ficando vermelho de novo.
- AAAH, PEDÓFILA! – gritou novamente o coro de garotas chocadas.
- JÁ CHEGA! Fridrik é só um amigo de infância, suas antas! E se vocês me chamarem de pedófila mais uma vez, eu juro que azaro vocês!
Ante tal ameaça, todas se calaram e assistiram Nina terminar de calçar os sapatos e sair batendo a porta com mais força do que quando entrara.
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Nina passou tão furiosamente pelos vagões que mal ouvia o que falavam à sua volta. Deteve-se, porém, à menção do nome "Kathelen" seguido de palavras não muito amistosas, ditas por uma voz desagradavelmente familiar. Não se surpreendeu que aquele falatório todo viesse de um compartimento lotado de sonserinos nem que a dona da voz fosse a garota de cabelos negros e muito crespos, semelhantes aos de Kathelen, sentada ao lado de uma garota que fazia carinho nos cabelos loiros de um certo almofadinha traiçoeiro. Nenhum dos três parecia falar sobre a mesma coisa, visto que a morena olhava para o lado oposto ao do loiro e garota do meio parecia completamente alheia ao mundo ao seu redor.
- ... obviamente, aquela sangue-ruim nunca vai conseguir fazer uma azaração tão bem quanto eu, mas...
- Então como é que ela ganhou de você no Clube de Duelos há algum tempo atrás, Lestrange? – Nina arregalou os olhos com a voz masculina, logo depois rindo internamente com essa nova informação.
- Isso não é da sua conta, Andrei. – retorquiu a garota que chamavam de Lestrange – E é Black para você, seu...
- Eeillen, cale a boca e preste atenção na minha história. – o loiro finalmente se impôs, erguendo um pouco a cabeça de sua confortável posição no colo da companheira.
- Hmpf... Desculpa, Malfoy. – Eeillen resmungou, em tom de poucos amigos, tornando a se virar para ele. Draco pareceu ignorar o resmungo, mas não continuou falando, uma vez que finalmente notara o rosto de Nina encostado na porta da cabine.
Nina permaneceu alerta, com o ouvido apurado, mas não saía som algum da cabine. De repente, a porta se abriu com força, fazendo-a cair no chão no meio do corredor praticamente vazio do trem, e revelou um rapaz muito branco, com cabelos negros uma franja ocultando um de seus olhos. Ainda não trocara de roupa, usando uma camisa branca cujas mangas estavam arregaçadas até um pouco antes do cotovelo, revelando uma ponta de tatuagem de serpente no braço esquerdo e uma enorme tatuagem de serpente enrolando-se em seu braço direito. Nina o reconheceu imediatamente.
- Andrei Vasileev...
- Nina Janalokova... – sorriu maleficamente o outro, a encarando com seu olhar frio. – O que faz aqui? Achei que corvinais não andassem por essa parte do trem...
- Eu... Eu só estava passando e... e passei perto demais pela porta quando você abriu... só isso.
- Não minta para mim, sangue-ruim. – o sorriso em seu rosto desapareceu e ele apertou os olhos. – é muito feio espionar por aí... você pode acabar se machucando... muito.
Nina finalmente o encarou nos olhos, em uma expressão de raiva.
- Não acho que você queira tanto assim ser expulso de Hogwarts...
- Há muitos meios de não ser pego. Apenas se cuide, ok? Ande com seus amiguinhos grifinórios para ver se a bravura deles te protege. E, quando você menos esp--
Sua voz fora interrompida por um "já chega" sibilante. Andrei olhou para trás e viu Malfoy, quase ao seu lado, com uma expressão não muito contente.
- Andrei, já chega. Você já assustou sangue-ruins o bastante por hoje. Venha, vamos entrar, já está quase na hora de nos trocarmos. – disse Draco, dessa vez mais calmo, segurando Andrei pelo braço. Hesitante, e ainda encarando mortalmente Nina, o rapaz entrou, indefeso. Nina entendeu na hora que aquela era sua chance de sair sem brigar e não esperou por um convite.
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Quando finalmente chegou à porta de sua cabine, Nina suspirou aliviada. Nunca desejara tanto estar longe de qualquer um que pudesse fazer perguntas e conversar sobre algum assunto inteligente por horas como desejava naquela hora. Fridrik, por mais inteligente que fosse, a tratava com tal respeito que nunca fora capaz de sequer perguntar as horas para ela. E Morningstar... Bem, ela nunca havia falado com ele na vida e nem pretendia, mesmo que estivesse dividindo a cabine com ele por hora. Seu maior medo, porém, era de que ele tivesse feito alguma coisa com o seu Fridrik enquanto ela estava fora. Não iria perdoar a si mesma se cometesse qualquer erro em sua missão auto-imposta. Obviamente, ela sabia que Fridrik já tinha certa proteção, mas mesmo assim achava que era seu dever ajudar e reforçar a segurança do pobre garotinho. Afinal, ela queria ou não queria com todas as forças do seu ser se tornar uma auror?
Respirando fundo, abriu a porta da cabine. Para seu alívio, os dois ainda estavam em bancos diferentes, e a única diferença era que ambos já estavam de uniforme e que Fridrik parecia... anormalmente vermelho e encolhido...
- ...Peraí, FRIDRIK! – gritou a garota, atirando seus braços em volta do garotinho, apertando-o com força contra si e encarando mortalmente Morningstar. – O que aconteceu?
Fridrik apenas gemia, sufocado. Seus braços tentavam desesperadamente tirar os de Nina do seu pescoço, sem sucesso, enquanto ele esperneava, tentando, também sem sucesso, avisar que estava sem ar. O rapaz à frente deles ergueu uma sobrancelha.
- Você quer matar ou cuidar do garoto? – perguntou, sarcástico, Morningstar.
Nina rolou os olhos e soltou o garotinho, que agradeceu intimamente ao sonserino. Depois, pegou o ruivo no colo e tirou-o da cabine, fechando a porta atrás de si. Ao certificar-se de que não havia mais ninguém além deles por perto abaixou-se no chão e virou-se para Fridrik.
- Muito bem, pode me contar. Eu sei! – ralhou, antes que Fridrik pudesse retrucar – eu sei que você costuma ser assim com todo mundo, mas... assim já é demais! Agora me diga o que aquele desgraçado fez com você que eu mesma vou lá e dou um... um jeito nele...
- Ele... ele não fez nada muito... ruim comigo, sabe? – respondeu o ruivo, ficando muito vermelho. – Ele... até me ajudou...!
- O QUE ele fez?
- Bem, a minha mala... Ela ia cair em cima de mim, e... você viu como ela é pesada, né...?
- Não se enrole, vá direto ao ponto.
- Ele se colocou no meio e levou a mala nas costas...
- Oww, deve ter doído... Mas não foi isso o que te fez ficar assim... Aliás, nem entendo por que ele fez isso, aquele sociopata desgraçado... Deve estar bancando o herói só para impressionar...
- Depois... depois ele falou uma coisa... ah, mas vamos entrar! Nós já estamos chegando... Eu acho...
- Você não vai escapar tão fácil dessa conversa, Frid. Mas deixemos para uma próxima vez...
Os dois voltaram em silêncio para a cabine. Fridrik evitava olhar para o banco da frente, o que era praticamente impossível, uma vez que, depois do incidente da mala, Morningstar a colocara no bagageiro do seu banco. Percebendo seu desconforto, o rapaz levantou-se para pegar o malão do garoto, entregando-o ao dono logo em seguida, com esperanças de que Fridrik parasse de olhá-lo daquele jeito. Não funcionou.
- Olha, eu te entreguei seu malão exatamente para que você não precisasse me olhar desse jeito. – sussurrou o mais velho como quem estivesse falando sobre o tempo. O menino rapidamente desviou o olhar, mais vermelho do que nunca. Nina fez de conta que não ouviu, enquanto esmagava com força sobre-humana uma caixinha de Feijõezinhos de Todos os Sabores.
Nina não esperou o trem parar. Pegou a mão de Fridrik com tal determinação que o garoto quase sentiu seus dedos se partirem. Morningstar também fez menção de se levantar, porém, ao perceber o olhar mortífero da garota pairando sobre sua cabeça (mais uma vez), desistiu. Mal Nina abrira a porta, uma massa de estudantes quase invadiu a cabine, em sua correria para se ver livre do Expresso. Com pressa, achou melhor não esperar o tumulto passar e se embrenhou na multidão, de mãos dadas com Fridrik. O garoto, entretanto, era tão pequeno que foi facilmente separado de sua "guardiã", esta desesperada enquanto tentava lutar contra a maré humana que insistia em empurrar-lhe para a porta.
Também desesperado, Fridrik choramingava e gritava pela amiga, agarrado ao seu malão e se deixando levar pelos empurrões. Para sua grande surpresa, sentiu um par de braços agarrando-o pelos ombros e suspendendo-o no ar, quase como se o carregasse no colo. Seu malão também fora arrancado de suas mãos e não foi mais visto pelo garoto. O lagarto em seu bolso se mexia freneticamente com as presas cravadas em algo que poderia ser um braço, mas que para o garotinho, era só um borrão disforme. Seu rosto encontrava-se colado ao peito/barriga da pessoa que o carregava. O aperto dos braços do estranho começou a afrouxar, e, lentamente, Fridrik escorregou sem encontrar o chão. Temendo a queda iminente, ele esticou os braços em busca de suporte, entrelaçando os braços em volta de algo muito duro, supostamente as costelas do indivíduo que o agarrava.
Uma vez fora do trem, os braços que o prendiam finalmente soltaram-se, mas Fridrik continuou abraçado na criatura, com medo.
- Já estamos fora, garoto. – anunciou a voz familiar. O ruivo levantou a cabeça e constatou que estivera o tempo todo abraçado ao seu primeiro e até agora único companheiro de cabine, e imediatamente o soltou, caindo sentado no chão. Seu "amável" lagartinho aproveitou para tirar as presas do braço de Morningstar e cair confortavelmente no colo de seu pequeno dono. Levantando-se, constrangido e sem olhar nos olhos de seu "salvador", Fridrik agradeceu.
- Muito obrigado... hã...
- Morningstar. Luke Morningstar, sextanista da Sonserina. – respondeu Luke, antecipando a pergunta de Fridrik – E você se chama Fridrik, não é?
- S-sim! Sou Fridrik Schneider.
- Schneider? Belo nome, criança. – murmurou o mais alto, encostando de leve no rosto sardento e muito corado do ruivo, roubando-lhe um gritinho de surpresa.
- Ahn... obrigado, eu acho... s-sou do primeiro ano... – gaguejou Fridrik, tentando desencostar o rosto da mão do outro, enquanto pensava se não tinha esquecido de alguma coisa... – Ah, meu...
- Seu malão? Olhe para trás. – completou novamente Luke, como se pudesse ler a mente da criança à sua frente.
O garotinho obedeceu docilmente, e constatou que seu malão realmente estava ali, atrás de si. Deu um sorriso amável para Luke, ainda um pouco envergonhado, e agradeceu novamente. O mais alto continuou em silêncio, volta e meia encostando uma das mãos no rosto de Fridrik e observando sua reação. Depois do que pareceram horas de silêncio, ouviu-se um grito feminino ao longe, que chamava desesperadamente por Luke. O grito foi se tornando mais e mais alto até silenciar. De repente, braços agarraram Luke pelas costas, e o susto de ambos foi tão grande que Fridrik, ainda gritando de pavor, foi obrigado a dar alguns passos para trás enquanto Luke cambaleava em sua direção. Quando ambos silenciaram, os braços soltaram Luke e uma garota surgiu por trás dele, fazendo bico.
- Ooown, não acredito que se assustaram tanto assim comigo! – reclamou a dita cuja, fazendo bico.
- Eeillen... Nunca... mais... – ofegava Luke, visivelmente assustado, sacudindo os ombros de Fridrik para checar se ele estava bem.
- Tá, já entendi... Quem é esse? – perguntou, interessada, referindo-se ao menino em pânico. – Ele já tem casa ou é só um pirralho do primeiro ano?
- O nome dele é Fridrik, Black. E sim, ele é só um "pirralho" do primeiro ano. – vociferou, agressivo, Luke, já perdendo a paciência com a garota.
- Bem, então espero que ele caia na Sonserina. – respondeu a garota, com indiferença.
- Eeillen, ele não vai cair na Sonserina. – retorquiu Morningstar, falando como se fosse muito óbvio.
- Ótimo, então que se dane! Agora vamos, Draco está nos esperando e ele não está muito feliz.
Dizendo isso, Eeillen deu as costas e saiu andando apressada, puxando seu colega pelas vestes. Por alguns momentos, Fridrik pensou estar completamente sozinho, até que avistou Nina, não muito longe, ainda a sua procura. Saiu correndo em direção a ela, aliviado.
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- MANEKE NÃO QUEEEEER!
- AH, MAS VAI QUERER E VAI GOSTAR!
- MAS MANEKE TEM MEEEEEDO!
- BLÁ, BLÁ, BLÁ, SEUS FRICOTES!
O elfo puxava sua dona pela gravata amarela, lacrimejando. Com muita dificuldade, a garota o derrubou no chão e o entregou ao temível zelador, Argus Filch. Vagarosamente, afastou-se, limpando as vestes com nojo e se uniu ao bando de garotas sorridentes e gritalhonas da Lufa-Lufa.
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