Mid Night's Lady
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Ariel, Emmus Dream Village, La Rochelle, Titãs, De Siren, Axel, Rafaelle, Alessandro, Fellipo, Calíope e Tália são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Boa Leitura!
Capitulo 3: Legado.
.I.
A noite caia intensa sobre a Grécia, aparentemente todos ali já haviam se recolhido. Subiu as escadarias rapidamente, tomando o devido cuidado para não fazer barulho ou denunciar sua presença com algum deslize.
Primeiro templo, a casa de Áries, depois veio Touro, por fim, aquele que estava procurando. Sentia a presença de um guardião ali, mas ele não seria um problema.
Um fino sorriso formou-se em seus lábios enquanto adentrava o local, faziam longos anos desde a última vez que estivera ali. É, longos anos...
Continuou a avançar pelo templo, tinha de encontrar aquilo que viera buscar e se retirar antes que pudesse encontrar com alguém pelo caminho.
Os orbes vermelhos cintilaram na escuridão, enquanto avançava, procurando não tropeçar em nada, mas já era tarde demais quando sentiu o cosmo dele se manifestar.
-Quem está ai? –a voz de Saga soou por todo o templo.
Virou-se no mesmo instante, deixando o capuz da capa que vestia cair para trás, revelando completamente sua identidade.
-Você! –o guardião do templo falou parando a poucos passos de distancia, surpreso e igualmente chocado com aquela aparição.
.II.
A música chegou ao fim, mas por alguns segundos relutou em afastar-se, logo a noite chegaria ao fim e teria de voltar para a casa, embora tivesse de admitir que estava realmente gostando de ficar ali.
-Quer beber alguma coisa? –o cavaleiro perguntou, assim que se afastaram da pista.
-Apenas água; Ariel respondeu sorrindo. –Enquanto você faz o pedido, vou ao toalete; ela avisou, antes de se afastar e seguir para a outra extremidade.
Assentiu, vendo-a se distanciar. Bem, se as Deusas do Destino eram tão sádicas quanto seu amigo ariano afirmava, elas estavam fazendo um ótimo trabalho ao colocar uma jovem tão singular em sua vida, apenas por algumas horas naquela noite; ele pensou retornando a mesa.
Ariel Considini, não se lembrava de ter ouvido falar da família Considini alguma vez, mas para possuírem duas grandes empresas deveriam vir de uma linhagem importante, o que lhe levava a crer que a jovem deveria ser muito solitária.
Tendo apenas o primo como único parente vivo e ter de levar a frente o legado da família, não deveria ter muito tempo para si mesma, ou pior, preferia não arriscar-se a se aproximar de pessoas que talvez queiram sua presença como uma marca de status.
Esse era o preço que aqueles tinham o poder nas mãos, pagavam. A irônica solidão.
Mas porque se preocupava tanto com ela? Bem, nunca foi dado a ignorar o sofrimento alheio, não que ela parecesse alguém que estava sofrendo. A primeira vista Ariel parecia uma pessoa controlada, excessivamente controlada, com a educação polida inglesa, mas havia algo nela que o instigava a ter esse sentimento de proteção.
Poderia estar errado, mas nesse quesito, dificilmente cometia erros, havia alguma coisa naquela jovem que a tornava totalmente diferente de qualquer outra mulher que já passara por sua vida antes.
.III.
Entrou rapidamente no banheiro e assim que fechou a porta do Box, sentou-se na tampa do sanitário. Suspirou pesadamente, apoiando a face sobre as mãos. Não era para aquela noite ser tão interessante quanto estava sendo. Seria mais difícil se afastar, principalmente porque realmente gostava da presença do cavaleiro.
Droga! Aquele seu lado chato, sempre responsável havia lhe prevenido que retornar a Grécia não seria uma boa idéia, não enquanto não resolvesse as coisas, mas Emmus estava tão confiante quanto a ter descoberto algo que lhes ajudar com o enigma.
Confiava cegamente nele e não pensaria duas vezes em colocar sua vida, nas mãos dele. Mas dessa vez não o ouviu quando ele disse que ainda era cedo para voltar à Grécia.
Respirou fundo, sentindo os orbes marejarem, agora não era hora para ser fraca, essa fase já passara há muito tempo. Levantou-se, retomando a confiança inicial. Abriu a porta e saiu, mas estancou ao deparar-se com alguém em frente ao espelho central do banheiro.
A cor sumiu de sua face quando ambos os reflexos ficaram lado a lado no espelho. Eram os mesmos cabelos negros e os olhos violeta intensos. Sentiu como se o tempo houvesse parado. Seus olhares se encontraram e nesse momento soube que deveria ter ouvido o cavaleiro de olhos vermelhos.
-o-o-o-o-o-
Levou a taça de vinho aos lábios, enquanto mantinha os orbes perdidos num ponto neutro na parede. Sentia um cosmo conhecido por perto, mas não sabia identificar de quem era e ainda tinha aquela jovem que vira mais cedo entrar no restaurante da Balada das Musas.
-Será que esta tudo bem? –ouviu Sorento perguntou e notou um leve tom de preocupação em sua voz.
-Uhn? –murmurou voltando-se para o ex-marina.
-Ariel ainda não voltou; ele comentou.
-Fique calmo Sorento; Thétis falou calmamente, passando a mão distraidamente sobre o ventre saliente, mais três meses e o novo membro da família Sollo viria ao mundo.
-Mas...; Sorento balbuciou.
Depois de tanto tempo preocupando-se com as repentinas aparições de Afrodite e o que a deusa ensandecida poderia lhes fazer novamente, era simplesmente difícil abaixar a guarda mesmo com Caos lhes dizendo que não precisavam se preocupar mais com isso.
-Eu vou encontrá-la, fique calmo; Thétis falou levantando-se.
-Querida, não acha q-...;
-E você fique quietinho ai, estou grávida não invalida; a marina reclamou, lançando um olhar enviesado ao marido, que parecia disposto a colocá-la numa redoma de vidro, pensando que um ventinho seria capaz de lhe fazer desmontar.
-Thétis, eu posso...;
-Sorento, já disse. Vou e já volto; ela o cortou, antes de deixar a sala e os dois. Desceu as escadas com cuidado e não demorou a encontrar a indicação para o banheiro assim que desceu o último degrau.
Franziu o cenho assim que segurou a maçaneta da porta, não sabia o porquê, mas sentia um cosmo diferente e familiar o ambiente; ela pensou antes de abrir a porta.
-o-o-o-o-o-o-
-Quem é você? –Ariel perguntou virando-se para trás e encontrando a jovem de melenas negras a lhe fitar petrificada.
Viu-a entreabrir os lábios, tentando falar algo, mas um barulho na porta chamou-lhe a atenção. Virou-se a tempo de ver Thétis entrar, mas quando voltou-se na direção da jovem ela havia sumido, como se nunca estivesse estado ali.
-Ariel!
Olhou para todos os lados, os demais boxes estavam com as portas abertas e vazios, poderia jurar que não estava sozinha ali.
-Você esta bem? –Thétis perguntou se aproximando preocupada ao vê-la tão pálida.
-Acho que sim; Ariel murmurou confusa.
Era como se seu próprio reflexo houvesse saltado do espelho, mas o mais estranho nisso tudo era que o outro reflexo era de uma mulher mais jovem, talvez uma garota com pouco mais de dezessete anos, enquanto ela estava chegando aos vinte e quatro.
Deveria estar ficando doida, principalmente por sucumbir as neuras de Sorento com relação à Afrodite. Caos garantira que não teriam de se preocupar com ela, mas o marido insistia em manter-se cauteloso. Será que essa era alguma artimanha da divindade?
Não, aquela jovem tinha um olhar tão intenso e porque não dizer melancólico, não deveria ter nada a ver com a divindade; ela pensou intrigada.
-O que aconteceu? –Thétis perguntou vendo aos poucos a cor voltar a face da jovem.
-Ahn! Thétis... Você acha que no mundo podem existir duas pessoas exatamente iguais? –Ariel perguntou.
-Se forem gêmeas, acredito que sim; a marina respondeu. –Por quê?
-E se não existir a possibilidade de existirem gêmeos, você acha que isso é possível? –ela perguntou tremula.
-Não, nunca vi um caso assim antes. Bem existem sósias, pessoas parecidas com alguma celebridade que ganham à vida imitando-as, mas entre pessoas comuns não;
-Entendo; Ariel balbuciou.
-Por quê?
-Não, nada... Só estive pensando em uma coisa; a jovem murmurou.
Pegou uma toalhinha de papel num suporte preso à parede, umedeceu-o e passou pela face, notou que suas mãos tremiam, mas não conseguia controlar o disparar do coração que parecia ainda mais agitado do que quando chegara àquela noite na Balada das Musas, com um pressentimento de que muitas coisas mudariam. Será que era isso?
-É melhor irmos, não quero dar motivos para Sorento se preocupar; Ariel falou afastando-se e seguindo com Tétis para fora dali.
.IV.
Atravessou o salão repleto de pessoas quase correndo, precisava ir embora antes que mais alguém atravessasse seu caminho. Esbarrou numa das musas, quase fazendo as duas caírem.
-Ariel; Calíope falou surpresa ao vê-la ali. Ouvira os rumores lançados por Tália de que a princesa Considini estava ali, mas achou que fosse mais uma piada da musa da comédia, mas pelo visto, pela primeira vez ela falava sério.
- Calíope, eu... Preciso de um favor; ela pediu com a voz tremula.
-Aconteceu alguma coisa? Emmus não esta aqui? –a musa perguntou agitada, olhando para todos os lados.
-Não, não está... Mas eu preciso que entregue isso a um cavalheiro que esta me acompanhando no restaurante; Ariel falou tirando um cartão de dentro da bolsa e em seu verso rabiscou algumas palavras e voltou-se para a musa. –Diga a ele que recebi um chamado importante e precisei ir embora;
-Mas Ariel, o que esta aconteceu? – Calíope perguntou vendo o quanto ela estava agitada.
-Por favor; a jovem pediu colocando o cartão entre as mãos da musa antes de sair correndo, perdendo-se entre a multidão.
Tentou segui-la, mas as pessoas formaram uma barreira entre elas e não conseguiu atravessar. Olhou para todos os lados procurando encontrar o motivo que a deixara assim, quando seus olhos recaíram sobre a porta do banheiro do outro lado do salão, ao pé da escada para as salas VIP.
Sentiu o sangue gelar em suas veias e segurou o cartão entre as mãos ainda mais forte. Respirou fundo e rumou para o restaurante.
-o-o-o-o-o-
Levou o copo aos lábios, pensativo. Ela estava demorando, será que acontecera alguma coisa? –Aldebaran pensou preocupado. Viu uma jovem entrar no restaurante buscando alguém com os olhos.
Suspirou pesadamente, não deveria estar tão agitado assim, mas algo lhe dizia que aquela noite não iria terminar tão bem quanto começara e isso só se reafirmou quando a garota se aproximou cautelosa.
-Ahn! Desculpe incomodá-lo senhor; Calíope falou.
-Pois não?
-Por acaso o senhor é o acompanhante a senhorita Considini? –ela indagou cautelosa.
-...; Aldebaran falou sentindo o estomago se contrair de tensão.
-Ela pediu que lhe entregasse isso e pedisse desculpas em seu nome. Ela recebeu um telefonema urgente e precisou sair às pressas; a musa falou entregando-lhe o cartão.
-Obrigado; ele balbuciou, vendo-a se retirar em seguida.
Hesitante baixou os olhos em direção ao cartão e engoliu em seco, ao começar a ler.
(...)
Obrigada pela noite maravilhosa.
A.C.
(...)
Passou a mão nervosamente pelos cabelos, queria saber o que acontecera para ela ter saído assim tão rápido? Droga! Não era problema seu, mas simplesmente não conseguia abandonar aquele parco sentimento que começava a criar raízes sem sua autorização.
Suspirou pesadamente, antes de tirar a carteira de dentro do bolso interno do terno e deixar o equivalente a conta do jantar sobre a mesa antes de partir.
Independente de qualquer coisa, queria saber o que aconteceu e não iria descansar enquanto não a encontrasse de novo, nem que fosse apenas para perguntar. Pelo menos tinha um nome. Ariel Considini!
.V.
Passou pela sala do trono. Há tantos anos aquele lugar não era usado; ele pensou observando atentamente cada um dos quadros ali existente, retratando toda a linhagem de príncipes que residiram em Dream Village.
Os orbes vermelhos observaram com atenção quadro por quadro. Desde a Idade Média, Dream Village permanecia uma fortaleza sólida e seu povo era fiel ao principado. La Rochelle poderia ser uma ilha relativamente pequena se comparado a outras tantas que formavam a costa de Edimburgo, mas La Rochelle era a que ficava mais próxima por isso muitos a consideravam parte de Edimburgo, mas também era a mais independente.
Na Idade Média quando a Escócia entrara em guerra, normandos, franceses e até mesmo ingleses encontraram pouso em La Rochelle, a ilha era um ponto neutro, como Greenwich no Reino Unido. Ali todos eram amigos e respeitavam o povo, ninguém ousava ir contra o regente do principado que mantinha a ordem com respeito e fidelidade.
Parou em frente ao quadro que representava o quarto regente antes de si. Rafaelle Considini. Era um jovem de longos cabelos dourados e orbes incrivelmente verdes. Rafaelle fora o pioneiro escocês que levara La Rochelle para a nova Era, trazendo inovações a ilha e uma maior qualidade de vida ao povo que perdurou por todas as quatro gerações seguintes e que ainda continua consigo.
Depois vieram Alessandro, Fellipo e Axel Considini. Passou pelos corredores, subindo as escadas da ala norte, rumo a seu quarto.
Será que todos os seus antecessores, tiveram as mesmas duvidas que possuía? –Emmus se perguntou, entrando num cômodo anexo ao quarto, uma fumaça acinzentada ergueu-se sobre o chão e o vapor tornou o cômodo revestido de mármore, quente. Uma banheira estilo vitoriana de mármore negro jazia no centro da sala de banho, com água quente pouco mais que a metade, a lhe esperar.
Quando aceitara ficar à frente de Dream Village, cuidar da Titãs e prover o necessário para que La Rochelle continuasse a evoluir como seus antecessores lutaram tanto, jamais imaginou que sua vida desse tantas guinadas. Não que se arrependesse de alguma decisão que tomara até agora, mas às vezes se perguntava se as coisas houvessem começado diferente, estaria ali agora?
Retirou as roupas negras uma a uma, deixando-as dentro de um cesto próximo a porta. Os longos cabelos negros caíram numa farta cascata sobre as costas, os músculos do corpo ainda estavam retesados de tensão. Sabia que alguma coisa não estava certa, mas não cabia a si interferir naquilo que tinha de acontecer.
Com passos calmos aproximou-se da banheira e no momento seguinte, deixava o corpo mergulhar na água quente. Fechou os olhos, suspirando extasiando antes de recostar a cabeça sobre a beirada da banheira.
Ariel fora até Atenas para o leilão de caridade que a comunidade próxima ao santuário iria fazer, havia dito a ela para não se arriscar, que pediria a outra pessoa para levar o montante que a Titãs e a De Siren iriam doar, mas ela foi irreverente ao dizer que não teria problema.
Sentia sua inquietação, como se fosse consigo e isso lhe preocupava. Apoiou os braços nas bordas laterais e esticou o corpo na larga banheira tentando relaxar.
A mente aos poucos começou a desanuviar, sentia-se aos poucos ser levado para o reino dos sonhos. Há tanto tempo não tirava um tempo apenas para relaxar. Teria adormecido completamente se não houvesse sentindo a chegada do cosmo da jovem a Dream Village.
Abriu os olhos alarmado, levantou-se da banheira rapidamente pegando o roupão negro atoalhado que deixara em um aparador próximo de si e saiu rapidamente, amarrando o laço do mesmo no caminho.
A água pingava a seus pés, mas não se importou com isso. Deixou-se guiar pelo castelo seguindo até a outra extremidade. Sentia o corpo recobrar a tensão e adrenalina habituais, que o deixavam sempre alerta e armado para qualquer coisa.
Encontrou a porta de um dos muitos quartos do castelo, aberta. Uma fraca luz vinha de lá de dentro. Parou na porta vendo a jovem de melenas negras encostada em uma parede encolhida, com os orbes perdidos no vazio e lágrimas correndo por sua face.
Aproximou-se, uma brisa suave entrou pelo quarto, através das janelas abertas, esvoaçando levemente o véu do dossel que cobria a cama. A luz cálida da lua refletida nos vidros tornava a pessoa que ali repousava, um ser etéreo e translúcido, alheio ao resto do mundo.
Lançou-lhe um rápido olhar antes de seguir até a jovem do outro lado. Nada disse, apenas ajoelhou-se a sua frente e tomou-a nos braços. Um baixo soluço escapou de seus lábios, abraçou-a forte.
Não eram necessárias palavras para que soubesse o que havia acontecido. Sempre fora assim entre eles. Era como se depois de tudo que já haviam compartilhado, fosse fácil saber o que pensavam, antes mesmo disso acontecer.
-Vai ficar tudo bem... Eu prometo; Emmus sussurrou, afagando-lhe as melenas negras.
.: Continua em: O Senhor dos Dragões e O Enigma da Sirene :.
