O rosto do menino mostrava indícios de cansaço. Sem nada pedir, abriu os braços. Watanuki abaixou-se e suspendeu-o no colo.
Kankuji, o Mestre, ao ve-los, retirou os óculos, abandonando a leitura.
- Avisei-lhe para que não se esforçasse demais.
Ajudou Watanuki a depositar o Príncipe sobre o futon e trouxe-lhe água.
Lembrando-se de algo, o Mestre perguntou ao rapaz.
- O senhor fica para o almoço?
Watanuki queria negar, mas os olhos de Tetsuo imploravam de tal maneira que não saberia negar.
Após a refeição, simples e saborosa, Watanuki voltou a sentar-se na sacada.
Enquanto Tetsuo repousava, Kankuji aproximou-se.
- Está mesmo preocupado que Yuuko-san se zangue com sua demora?
Watanuki imaginou a Bruxa esparramada no sofá, com cara de poucos amigos devido à sua fome.
- É... Eu acho que ela não vai gostar muito.
- Sou-lhe muito grato por ter vindo.
Watanuki sorriu.
- Na verdade, nem sei por que vim.
- O destino se encarregará das respostas.
- A verdade também é que estou muito contente por ter vindo.
Kankuji olhou longamente o rosto fino de Watanuki.
- O senhor precisa e deve me ajudar. Faz muito tempo que o Príncipe não se interessa por coisa alguma ou por qualquer pessoa. Fiquei pasmo da reação dele com a sua presença. O senhor poderia vir todos os dias ou o maior número de vezes que pudesse.
o.o.o.o.o.o.o.o
- Wa-ta-nu-ki...
- Ah, cheguei, Yuuko-san. Desculpe a demora.
- Wa-ta-nu-ki...
- Yuuko-san?
Como previra, Watanuki encontrou a Bruxa deitada na sala, com cara de poucos amigos.
- Estou com fome, Watanuki... Morrendo de fome.
- Ai, que exagero, Yuuko-san. Não demorei tanto assim...
Mokona pulou para o colo de Yuuko, e mostrou um grande relógio de bolso.
- Demorou sim, Watanuki. Já são três e meia da tarde.
- Três e meia?
Watanuki, feito o próprio vento, correu para a cozinha.
o.o.o.o.o.o
- Ah, tão bom!
O grande sorriso contente de Yuuko acalmou Watanuki, cujo avental estava todo engordurado devido à sua pressa em preparar algo.
- Ufa.
O rapaz suspirou, encolhendo-se.
Yuuko tomou um pequeno gole de saquê, enquanto observava a face de Watanuki.
- Você se deu muito bem com ele, não é?
- Com ele...?
- Com o Príncipe Tetsuo. Parece que se divertiram bastante juntos.
- Ah, foi sim. Ei, mas... Como sabe?
Yuuko apenas riu e tomou outro gole de saquê. Após uma pausa, ela prosseguiu.
- Se quiser voltar lá, tudo bem.
- Posso mesmo, Yuuko-san? A senhora não vai se zangar?
- É só não atrasar minhas refeições. E... claro que isso será debitado em sua conta.
- Ahhhhh! Yuuko-san é muito má!
o.o.o.o.o.o.o.o.o
Tetsuo e Watanuki caminharam para a ponte e estacionaram bem no meio.
O sol estava quase se pondo, deixando o ambiente fresco e agradável.
Watanuki viu que os peixes tinham se colocado sob as suas sombras, como se evitassem os últimos raios de sol para melhor enxergar.
Após a contemplação, os dois se ergueram e caminharam. Em silêncio.
Chegaram, então, ao jardim das macieiras e pessegueiros. O cheiro das flores era agradável e leve.
Caminharam em silêncio. Tetsuo ergueu a vista para Watanuki e sorriu.
- Watanuki-kun, você gosta de mim?
- Certamente que sim.
O rapaz não compreendia o motivo da pergunta. Entretanto, não deu atenção à sua crescente inquietação. Apenas admirou a paisagem.
- Vamos nos sentar no banco, Watanuki-kun. Dentro em breve Titio tocará as sinetas de recolher. Então voltarei para a noite, porque a noite é muito mais minha do que o dia.
Watanuki sentiu o aroma das flores aumentando com a brisa.
- Sabe quais são as flores mais lindas que existem?
- Existem tantas bonitas... Mas quais são?
Tetsuo baixou os olhos para as próprias mãos. Abriu-as, revelando uma flor branca na mão direita e uma negra na mão esquerda.
- Esta, a flor branca da vida. E esta, a mais linda das flores. A mais escura, a mais calma: a flor da morte. Suas pétalas são forradas de veludo macio e negro, para amparar com carinho a flor da vida.
