- Alô?
- James? É a Lily – falei baixinho – sabe, eu precisava da sua ajuda pra descobrir uma coisa.
- Lily? Fala mais alto, eu não estou escutando
- É que eu não posso falar mais alto, a Lene não pode ouvir!
- Olha, estou passando perto da sua casa, desce e a gente conversa. Pode ser?
- Seria ótimo.
Desliguei o celular. Assim que terminei de comer minha torrada e Lene entrou no banho, a única coisa que veio em minha mente pra descobrir o que tinha rolado na noite anterior era perguntar pro Sirius, mas pra isso eu ia precisar da ajuda de James. A única coisa que me atrapalhava era que Lene não queria que eu perguntasse de jeito nenhum, o que, sem duvida, era um mero detalhe. Peguei minhas chaves, calcei um chinelo e lá vamos nós. Missão: descobrir com quem Marlene Mckinnon transou. Sem duvida, a coisa mais fácil da minha vida. Depois, é claro, de ter minha lua de mel na... tchanã: LUA
- Oi... tudo bem? – James perguntou assim que me viu
- É, mais ou menos. Preciso descobrir algumas coisas sabe, e você podia me ajudar. – respondi – O que você faz acordado a essa hora, no domingo? Pensei que dormisse até tarde.
- Ah, não. Domingo eu visito o Asilo Mumpfred, trabalho voluntário – se explicou – mas então, como posso te ajudar?
- Aconteceu uma coisa engraçada essa noite. Eu cheguei em casa e a Marlene não estava. Quando eu acordei ela estava deitada no meio do corredor – falei – bêbada.
- Ela estava com Sirius – ele respondeu – ele me falou que beberam demais, ele a trouxe pra cá mas acho que não deve ter subido. Ele não deixaria a menina no corredor – falou dando risada – aconteceu algo de mais?
- Tinha mais alguém ou era só os dois? – perguntei
- Isso eu não posso dizer com certeza – ele falou – moramos e uma fraternidade, esqueceu Lil? Se eles estavam no quarto, possivelmente era só os dois, porque eu e ele dividimos a beliche, e ele não deixa nenhum dos outros caras entrarem lá. Agora, se eles estavam bebendo em qualquer outro lugar, eu não posso responder. Aconteceu algo?
- Ah, não é que... – o que eu responderia, Jesus? Que a amiga dele foi mordida em lugares impróprios e que a pergunta era 'transou ou não transou? Eis a questão: com quem?' – é que... ela estava usando uma tornozeleira minha, e desapareceu. Você pode dar uma olhada por lá, ver se ela não deixou cair?
- Sim, não se preocupe – ele respondeu – mas porque você não podia me perguntar isso por telefone?
- É... é que... não sei. – respondi por fim, tentando pensar mais rápido e fazer uma desculpa surgir na minha cabeça – eu queria te ver.
Pronto, escapuliu. E agora? Ele tem um sorriso vitorioso no rosto, um olhar brilhante que eu juro que significa alguma coisa que eu não vou gostar. É sério, eu não gosto de não saber interpretar os olhares das pessoas. Todas as respostas estão no olhar, e é frustrante não estar preparada para o que ele vai dizer ou fazer.
- Então, vou subindo. Tchau James.
Sai correndo da frente do prédio e subi para o apartamento. Lene já tinha saído do banho e estava se analisando no espelho. Havia uma marca no seu pescoço que demoraria pra sair se ela não fizesse nada.
- Ei, Lene, passa pente nisso ai – falei
- Ã? Pente? – ela falou me olhando através do espelho – você tá louca?
- Não, é sério. Passa as cerdas do pente nas marcas, isso ativa a circulação e vai tirar o sangue acumulado nelas.
- Aonde você aprendeu isso, Lily? – ela falou com um sorriso safado no rosto. Eu achei que você era vigem!
- Santo Deus, Marlene – respondi – para de ser ridícula! Só porque sou virgem, não quer dizer que nunca tenha beijado antes, e que nunca tenha ficado com marcas da paixão no meu corpo – falei dando risada.
- É sério essa historia? – ela perguntou já com o pente na mão – você não ta me zoando não né?
- Não. É sério. Confia em mim.
Enquanto ela ficava ali passando um pente em todas as suas manchas, eu me deitei novamente e comecei a pensar em algumas coisas. Se Lene e Sirius tinham transado, é porque rolou um clima, mesmo que inconscientemente. E enquanto assistia Marlene nas sua batalha por uma pele limpa de manchas minha mente voou para James. O olhar de vitória que ele me lançou quando dei aquela desculpa, não foi uma coisa ruim, mas tinha medo de interpretar como boa.
- Perdida em pensamentos aí, Lil? Pensando na morte da bezerra?
- Lene... James é tão bom mesmo como ele acha que é? – perguntei – Quero dizer, vocês são amigos, e pode ser coisa da minha cabeça, mas eu não consigo acreditar que ele faça certas coisas.
- Tipo o que? – ela perguntou
- Ele é vegetariano, e tomou essa decisão sozinho, por que ama os animais. – falei – Ele é voluntário no Asilo Mumpfred. Quero dizer, quando um cara que não sai de festas arrumou tempo pra tudo isso? Eu só o vejo entre uma aula e outra ou recebendo convites pra festas, organizando festas da Ômega... não sei, as vezes acho que ele é uma pessoa, mas na verdade é outra.
- Bom.. eu entendo isso. Mas ele já não organiza mais as festas da Ômega, ele ta deixando tudo com o Sirius. Agora ele está se concentrando em estudar. A historia de ser vegetariano é bem engraçada. Que homem dispensa um churrasco né? – ela falou rindo – mas ele é uma ótima pessoa. Ele começou a voluntariar no asilo porque quebrou algumas regras da universidade e tomou isso como castigo. Ele tinha que ajudar a servir o café da manhã de domingo, por 1 mês. Ele já está lá a 2 anos.
Mirei o teto por alguns instantes. Esse homem me surpreende a cada instante que penso nele, o que acabo de me dar conta, é a todo momento. Terça feira vai ter aquele show da banda Retro Rock que ele falou, e só então me dou conta que Lene ainda não ficou sabendo disso.
- Você esta sabendo que uma banda chamada Retro Rock vai tocar no Bar Valentino? – perguntei, e ela fez que sim com a cabeça – James nos chamou pra ir lá.
- O que quer dizer que Sirius estará lá, e ele vai olhar pra mim com a cara mais demoníaca de todas. Obrigada querida, mas eu passo. Vou ficar em casa esfregando o pente em mim pra que essas marcas saiam!
- Lene, isso é sério. Quero dizer, você precisa saber se foi com ele! Eu sei que é obvio demais que tenha sido. Mas.. e se não foi? E se você deu a louca e pegou um mendigo da esquina. Entende? Precisamos saber!
- Olha, vamos fazer assim... você cuida da sua vida, e eu cuido dos meus chupões.
- Escuta aqui, Marlene – falei com a voz mais alta – você não me diga o que fazer. E você vai sim com a gente, e se ele te olhar de maneira diferente, você pergunta. Se não, você sai correndo e se desespera, porque ai o negócio vai estar preto!
- É um consolo pra mim saber que posso contar com tamanha gentileza.
- Não tem de quê.
Passamos o resto do domingo enfurnadas em casa, assistindo alguns filmes e conversando. Engraçado como eu e Lene éramos tão diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais. Ela era uma boa amiga pra se manter. Sabia meus pensamentos, entendia minhas razões, se preocupava se eu ficava muito quieta, e se preocupava mais ainda se eu falasse demais. Ela sabia a hora de perguntar, a hora de ficar calada, a hora de ligar pra minha mãe pedindo socorro.
Nossa vida juntas tinha mais risadas que tristezas, mas em compensação, as tristezas que vinham eram devastadoras, como na vez em que ela recebeu a noticia de que o pai havia falecido, e quando eu soube que eu era, na verdade, adotada. Historias longas, trágicas, cheias de surpresas e mentiras que nos havia unido cada vez mais.
Seu pai fora assassinado. Ele teve os cabos do freio do carro cortados e acabou caindo numa ribanceira. Foi quando ela descobriu que a grande fortuna que ele tinha, não vinha – como inicialmente ela imaginava – de seu trabalho num banco, mas sim de espionagens em que ele mandava informações para o governo Inglês de facções criminosas e máfias. Não foi nada fácil acordar numa manhã e descobrir que o amável gerente financeiro do banco nacional era, na verdade, espião do governo. Por longos meses, ela não sabia sobre o que se lamentava: pela mentira ou pela morte. Imagino que se não tivesse com ela pra fazê-la andar na linha, Lene tivesse se rebelado. Então veio a noticia bombástica que abalou meu mundo.
Num acidente de carro, enquanto minha mãe me trazia de volta pro apartamento, tive um corte na perna provocado por um grande caco de vidro do para-brisas que me atingiu, e precisei de uma transfusão de sangue. Já no hospital, enquanto cuidavam dos ferimentos de minha mãe, me perguntaram qual era meu tipo sanguíneo. Instantaneamente eu disse. AB+. Me fizeram a transfusão, e pouco tempo depois comecei a passar mal, muito mal. Então se ligaram que o sangue estava errado, e depois de um pequeno teste feito em alguns minutos, me revelaram: meu sangue não era AB+, e sim O-. Eu disse que era impossível, já que eu sabia que o sangue dos meus pais era AB+, dos dois, e mesmo assim eles fizeram a transfusão do sangue certo, e foi quando eu percebi. Minha mãe e meu pai eram morenos de olhos castanhos, eu era ruiva e de olhos verdes. Meu pai tinha um furinho no queixo, o que, segundo a biologia que aprendi na escola, era uma característica dominante, ou seja: se meu pai tem furinho, eu teria furinho, meus filhos terão furinho e meus netos também. Assim por diante. Inicialmente eu ignorara esse fato. Afinal, seria um furinho no queixo que me faria menos filha dos meus pais?
Mas quando cheguei em casa, eles me contaram, com lagrimas nos olhos, que depois do parto sofrido de Petúnia, mamãe foi impossibilitada de ter outra filha, a filha dos seus sonhos. Então ela me pegou num orfanato, com apenas 1 mês de idade, pequena e frágil. E foi quando comecei a reparar no que estava na minha cara e eu nunca tinha percebido. Petúnia dizia que não me considerava irmã, e que eu era uma aberração. As fotos de mamãe gravida de Petúnia e gravida de mim eram absurdamente parecidas, até mesmo o corte e cor de cabelo, sendo que nas fotos em que ela tinha comigo, seu cabelo já estava muito mais longo e com tons avermelhados. Meus pais e os pais dos meus pais usavam óculos, Petúnia usava óculos, e mesmo que isso não fosse um fator obrigatório, seria muito mais comum que eu tivesse que usa-los também.
Devo dizer que foi uma crise e tanto para nossa família. E passa-la com Marlene foi infinitamente mais fácil do que seria sem ela. Devo dizer que demorei alguns meses pra voltar a falar com minha mãe, mas tudo isso em razão de uma surpresa que Lene fez pra mim. Inicialmente não me agradou, mas então eu vi como sentia falta de meus pais, e até mesmo daquela que me maltratou por tantos anos da minha vida. Afinal, eles continuavam sendo meus pais e ela continuava sendo minha irmã. E foi com pensamentos sobre Marlene e Sirius, eu e James e crises familiares que eu me dei conta: já estávamos na terça feira, e eu tinha que me arrumar para o show, e tinha que convencer minha melhor amiga de que seria o certo a fazer.
Fácil, não?
Experimente fazer isso enquanto ela olha as atualizações do facebook do dito cujo, com novas fotos com mulheres.
Missão impossível / MODE ON
