- Está lindo papa!

- Eu sabia que iria gostar!

O velho Lautrec admirava o belo quadro onde se via a fisionomia de uma mulher ainda jovem, de longos cabelos e sonhadores olhos castanhos, segurando uma flor entre as mãos. O pintor sorria.

- Parabéns sr...

- Miro!

O jovem tinha um belo sorriso no rosto. Fez questão de vestir-se com sua melhor roupa para apresentar-se a família de Camus.

- O senhor pinta belamente!

A moça parecia encantada, pegando no quadro e fazendo um gesto para que um criado o levasse para dependurá-lo.

- Obrigada, mas pode me chamar apenas de Miro! Somos quase da mesma idade! - ele riu.

- É um rapaz excelente! Um verdadeiro artista! - comentou o senhor Lautrec, fitando com satisfação o trabalho minucioso.

- É uma honra!

- Posso ser velho, mas sei reconhecer um trabalho de qualidade, meu filho!

- Mora aqui mesmo sen...Miro? - Marie sorriu docemente.

- Sim, aqui perto! Um lugar pequeno, mas suficiente para mim e meu quadros e meu livros, valiosos companheiros!

- Ah, o senhor gosta de ler?

- Muito! Tenho lido principalmente os clássicos!

- Que pena que meu marido ainda esteja dormindo! Saiu para dar uma volta ontem e...

- E chegou as 5 da manhã!

Exclamou o velho com semblante severo, batendo a bengala no chão. Marie sorriu sem graça. Miro levantou a sobrancelha.

- Bem, ele também gosta muito de ler! Inclusive está escrevendo um romance!

- Mesmo? - Miro fingiu surpresa.

- Sim, se inspirou num romance alemão, que infelizmente ainda não tive oportunidade de ler!

- Tenho muitos clássicos alemães!

- Os sofrimentos do Jovem Werther? - perguntou ela sorrindo.

- Meu preferido! - disse empolgado - Se quiser posso emprestá-lo! - e tirando do bolso um pequeno cartão - Meu endereço! E se por acaso quiser encomendar um quadro...- ofereceu-se sorrindo; Marie pegou o papel delicadamente.

- Com certeza o farei! E irei buscar o livro!

Disse, mas naquele momento sua atenção foi cortada pelo ruído de passos na escada e indo na direção, encontrou o marido na metade desta, beijando-lhe nos lábios. Pegando-lhe na mão, o arrastou, sorridente.

- venha ver uma coisa! O papai queria fazer uma surpresa!

Camus parecia feliz naquela manhã, o que deixou Marie satisfeita.

- O que houve?

Perguntou, deixando-se levar pelas mãos. Mas seu sorriso desapareceu ao ver quem se encontrava no meio de sua sala.

- Veja! Não é lindo?

Marie o mostrava ao quadro, em pé em cima do sofá. Miro o olhava afetadamente, com um quase sorriso nos lábios. Camus o fitou e depois desviou seus olhos para o retrato, para depois voltá-los para o rapaz, surpreendido.

- Fala alguma coisa meu amor! - pedia Marie balançando-o; Camus abanou a cabeça.

- Sim, é muito bonito! - conseguiu articular; seus olhos estavam presos em Miro; Marie virou-se para este.

- Querido, este é o Miro! Foi ele quem pintou! Um grande artista não é? Ele vai participar da exposição que o papai está organizando!

Miro estendeu a mão, Camus não retirava seus olhos atordoados do rosto do rapaz, particularmente calmo.O grego terminou abaixando a mão.

- Sua mulher estava me dizendo que está escrevendo um livro! Conheço um bom editor, se precisar! - disse tranqüilamente para Camus.

- Com certeza não precisarei!

- Camus! - Marie corou pelo marido.

- Com licença! - saiu a passos largos da sala; Miro o seguiu com o olhar.

- Não ligue pra ele! Anda um pouco inquieto devido ao romance! - desculpou-se.

- Não se preocupe! Eu entendo perfeitamente! - comentou sorrindo - Poderia pegar seu telefone?

- Claro! - Marie deu o número.

-Bom Mme. Dousseau, devo ir embora agora! - disse, oferecendo a mão, que foi prontamente aceita.

- Apareça sempre Miro! Gostei muito de conversar com você!

- Farei o possível! Sr. Lautrec...- o velho veio cumprimentá-lo -...Obrigado mais uma vez!

- Eu é que agradeço! Minha esposa nos faz muita falta! - apertou a mão cordialmente.

- Lembranças ao seu marido! - disse a Marie.

- Eu darei!

- E melhoras à senhora, que acidente horrível!

Naquele momento, Camus, que preparava-se para subir a escada, parou para vê-lo sair. Seu semblante estava transtornado. Miro o viu.

- Espero que seu filho também esteja bem!

- Está sim e eu já nem estou andando de muletas! Foi um exagero do médico!

Sorriu a esposa. Miro saiu relanceando um olhar discreto para Camus. Marie foi ao encontro do marido.

- Ele é ótimo, não é, amor? - comentou, seguindo-o até o andar de cima.

- Não gostei dele! - disse severamente.

- Por que, meu amor? Nem o conhece direito!

- Exatamente por isso! Não o conhecemos e você já se derrete toda!

- Está com ciúmes? - sorriu Marie, feliz pela possibilidade.

- Sabe que não é isso! Só o achei com cara de marginal!

- Mon amour, que é isso! É um rapaz exemplar e um maravilhoso pintor! Poderíamos pedir a ele um retrato do Jean, o que acha?

- Não! - gritou o homem; Marie assustou-se; o telefone tocou, Camus o atendeu.

- Senhor Camus? - de um celular, Miro discou o telefone recebido há pouco.

- Oiu! - reconhecendo a voz, fechou a cara.

- Poderia passar para sua esposa? - pediu cínico.

- O que deseja?

- Falar com ela! Esqueci de dizer algo! - seu tom de voz estava irritando o francês.

- Para quê?

- Ah, nossa...está tão quente! Não estou agüentando! Quando eu chegar em casa a primeira coisa que farei será tirar a roupa todinha!

Pronunciou com voz adocicada. Camus tirou o telefone do gancho e tapando-o com a mão, falou para a esposa.

- Está vendo? Já começou a incomodar! - passou o telefone para a mulher.

- Alô? Oi Miro! Ok! Está bem! Au revoir! - desligou - Ele é muito legal! Creio que serão bons amigos! - Marie saiu, deixando-o sozinho; Camus levou as mãos a cabeça.

O.o.O 20:00 O.o.O

- Não sou criança pra você falar comigo neste tom! - dizia Miro, de calção, andando pelo quarto.

- É sim e acha que sou um idiota! - Camus estava visivelmente alterado.

- Sua mulher é um encanto de pessoa, diferente de você! - dizia o rapaz, enquanto ajeitava algumas telas - Ainda bem que não me apaixonei por você!

- Não se faça de engraçadinho! Eu quero você longe da minha casa!

- Se o velho me pedir outro quadro eu o farei! - disse encarando-o sério - Além do mais, adorei sua esposa! Seremos bons amigos!

- Eu te proíbo! - berrou Camus.

- Sério? - Miro levantou-se, fitando-o nos olhos - Pois bem, amanhã irei a sua casa e direi a sua esposa que você me proibiu falar com ela, ok! Ai você explica a razão!

- Não vai contar coisa nenhuma!

- Quer apostar? - virou-se, voltando as suas telas.

- Sabe o que eu tenho vontade de fazer?

Indagou Camus, olhando-o severo, mas com voz um pouco mais serenizada.

- O que? - perguntou Miro de costas.

- Dar-te uma surra! - e começou a tirar o cinto; Miro voltou-se para ele com olhar sensual.

- Se você me bater eu juro que me apaixono e não te largo nunca mais!

Falou, sorrindo cinicamente. Camus o pegou e o jogou em cima da cama, ficando por cima dele. Estava lívido de ódio. Suas mãos encontraram o pescoço masculino.

- Eu te mato! - grunhiu; Miro apenas sorria.

- Como você é mal!

Miro sussurrava, alisando as mãos de Camus que apertavam seus pescoço.

- Judia de mim porque não sei me defender!

Olhava-o com cara de indefeso.

- Mas eu juro que um dia eu me vingo!

- Se vinga nada, simplesmente porque não vai me ver! Nunca mais!

E soltando-o, o francês sentou-se na cama, pegando de um cigarro e deitando-se de barriga para cima, olhando o teto.

- Se o Saga estivesse aqui, você ia ver! - comentou Miro ainda deitado, agora ao lado de Camus.

- Chega de falar desse Saga! Estou cheio!

Gritou com raiva. O grego sorriu satisfeito pelo ciúme do outro e arrancando o cigarro da boca de Camus, passou a fumá-lo calmamente.

O.o.O No casarão O.o.O

- Vai sair filha? - perguntou Lautrec ao ver Marie se dirigir para a porta de sobretudo.

- Sim pai! Vou a um lugar, mas não demoro! O Jean já está dormindo! Se meu marido chegar, diga que daqui a pouco estarei em casa!

- Vá se divertir, filha! Não se preocupe com aquele devasso! Deve estar por ai com uma pu...uma prostituta! - encaminhou-se para seu quarto; Marie sorriu e bateu a porta atrás de si.

O.o.O 21:40 O.o.O

- Não tem nada mais grosso que olhar o relógio quando se está com alguém! - recriminava Miro ao ver Camus olhar a hora pela centésima vez.

- O Saga jamais faria isso!

Sentou na cama abraçando os joelhos. Estava apenas de calção. Camus o fuzilou com o olhar ao ouvir o nome Saga. Miro retrocedeu.

- Seu bobo, se o conhecesse iria gostar dele!

- Não estou interessado em seus..."amigos"!

- Olha aqui, você mesmo disse que não teríamos nada!

Disse o rapaz, sério, mas ao notar o semblante do outro, sentado na cama de costas para ele, rastejou por cima do colchão, abraçando-o por trás, mordendo sua orelha. A agressividade de Camus caiu por terra.
- Pra que ligou para minha mulher?

- Só queria falar uma coisa que esqueci! - disse, lambendo-lhe o pescoço; Camus o fitou.

- Você é cínico! Você não regula bem! (levantou-se)

- Aonde você vai? - o grego deitou-se na cama com as mãos cruzadas atrás da cabeça.

- Vou cair fora! Você uma tremenda chave de cadeia!- disse, colocando a camisa - Meu sogro é conhecido nesta cidade! Já imaginou se alguém descobre? Seria um escândalo! E meu trabalho? Minha família? Minha reputação? Não posso jogar tudo isso fora por causa de um...- olhava pela varanda, perturbado -...deslize! Se a gente pudesse ter apenas uma relação circunstancial, enquanto estou aqui, mas não! Você não quer isso! Você...

Virou-se para Miro, este estava de olhos fechados, parecia dormir.

- Miro?

Este abriu os olhos.

- Sim, meu bem?

- Você ouviu o que eu disse?

- Disse o que meu amor? - perguntou, fingindo desentendimento; Camus o fitou.

- Você não tem jeito mesmo!

E sentando-se na cama, fitando o outro nos olhos, levou sua mão a coxa musculosa do grego.

- Pára Camus, quero dormir!

Disse o rapaz, fechando os olhos, mas voltou a abri-los. Camus subia sua mão pelo short, parando na virilha.

- Não resiste, não é? (comentou Miro sensualmente, enrouquecido - O garotinho aqui te põe maluco!

- Você é um demônio! - seus dedos acariciavam a barriga bem dividida do rapaz - Eu sou um idiota!

E puxando o calção, deixou-o completamente despido. Este, afastando-se dele, levantou-se como um felino, caminhando até o interruptor e apagou a luz.

Camus podia vê-lo através da claridade vinda rua e seus olhos, sempre acesos pela seriedade, pareciam escurecidos pelo desejo. Miro aproximou-se dele, fazendo-o deitar-se na cama.

O.o.O

Estavam ambos na cama, nus, adormecidos, quando Camus, despertando de repente, ouvira batidas na porta. Acordou Miro com cuidado.

- Tem alguém ai! Vá ver quem é e livre-se dele!

Miro espreguiçou-se e levantou-se da cama, abrindo a porta do quarto.

- Quem é? - gritou o grego, com voz sonolenta.

- Sou eu! Marie!

Camus gelou ao reconhecer a voz. Postou-se de pé atrás do outro.

- Minha mulher! - Miro o olhou com falsa inocência.

- Ela me pediu o endereço, mas não achei que fosse aparecer!

- E para quê deu? - ambos sussurravam.

- Eu dou meu endereço pra quem eu quiser! - falou Miro, decidido.

- Você armou isso! - desesperou-se o francês, pondo as roupas apressadamente.

- Claro que não! - disse o outro, sorrindo maliciosamente.

- Diga que não vai abrir!

- Ah não! Não gosto de fazer isso com meus amigos!

- Minha mulher não é sua amiga! - ponderou Camus de cara amarrada.

- Ah, ela já é grande! Vai entender que sua praia é outra! - disse impaciente.

- Eu te mato, desgraçado! - esbravejou Camus num fio de voz.

- Eu não sabia que ela viria! - falou, satisfeito pelo seu plano ter dado certo.

Marie bateu mais algumas vezes...Ambos a haviam esquecido lá fora...

- Marie, pode entrar! A porta está aberta! - disse Miro para desespero de Camus, que o olhou quase o fulminando.

- Ok! - ela entra, fechando a porta.

- Você quer me arrasar, mas antes eu te mato! - terminando de se vestir.

- Eu recebo na minha casa que eu quiser! - ponderou Miro, fechando a porta do quarto antes que Marie entrasse.

- Você também gosta de óperas? - perguntou Marie, examinando alguns cds na sala.

- Ahn...sim! Muito!

Gritou Miro de dentro do quarto.

- Você precisa ver os que tenho aqui no quarto! - comentou, olhando para Camus.

- Se ela entrar aqui eu te atiro pela varanda! - ameaçou o francês - Dê um jeito de ela ir embora! - Miro entreabriu a porta.

- Marie, espera um pouco! Acabei de tomar banho, estou trocando de roupa!

- Ok! - ela sentou-se no sofá. Você é fã do Wagner? - pegando de um cd.

- Meu preferido! - fechando a porta do quarto; Olhou Camus - Foi o Saga quem me deu! - sussurrou para Camus - Eu e ela temos os mesmos gostos! Nos daremos muito bem! - Camus aproximou-se do rapaz com expressão assustadora.

- Eu vou sair pela varanda e você despacha ela pra casa! - empurrou-o - E coloque uma roupa!

- Ué...o que é que tem? - sorriu cínico; Camus bufou.

- Minha mulher é uma pessoa de respeito!

- Faz o seguinte: eu saiu, vejo o que ela quer, a chamo para dá uma volta, ela vai pra casa, eu volto e passamos a noite aqui, só nós dois! Vocês espera? - falou com jeito doce na voz; Camus sorriu cínico.

- Ficou doido? Eu não quero minha mulher mais um minuto nesta casa!

- Qual é! Aqui não é a zona não! Tá pensando que sou o que?

Miro exasperou-se, aproximou-se apontando o dedo para a face de um desesperado Camus, sussurrou entre dentes.

- Aqui é a zona sim e você é um...pivetizinho da pior estirpe! - esbravejou o francês; Miro o encarava irado.

- Pare de me ofender ou eu chamo a Marie para ver a mocinha com a qual ela casou! - ameaçou - Eu queria que você tivesse conhecido o Saga! - falou dando de ombros - Você iria ver o que era um homem!

- Você inventa este tal Saga! Mentiroso!

- Não estou mentindo!

- Você já não sabe mais o que é verdade! - disse impaciente - Na verdade acho que você nem teve mãe! É! Você foi inventado!

- Miro! - Marie levantou-se, aproximando-se da porta - Você está bem?

- Estou sim! - respondeu, olhando Camus.

- É que tenho que voltar! Vim só pegar o livro que você me prometeu!

- Já estou indo!

Camus, rapidamente, desceu pela escada de emergência na varanda, deixando Miro com Marie no apartamento. Fôra uma boa idéia não ter vindo de carro. O grego, pondo uma bermuda, foi ao encontro da visitante.

- Desculpe a demora! Estava terminando de arrumar algumas coisas! - cumprimentou-a.

- Tenho que voltar logo! Não quero que o Camus se chateie! - respondeu ela, sorrindo; Miro a fitou sem graça.

- Aqui está! - estendendo o livro a ela - Espero que goste!

- Com certeza gostarei! Bem, agora já vou!

- Deixo-te em casa! Já está tarde! Deixa eu só por uma camisa!

- Oui!

O.o.O

Marie entrou no quarto , encontrando o marido deitado na cama, com o abajour aceso. Tirou o sobretudo e trocou de roupa.

- Onde esteve? - perguntou Camus para quebrar o silêncio que ficara insuportável.

- Fui na casa do Miro pegar um livro! - e mostrou o exemplar.

- Um bom livro! - disse sorrindo; Marie deitou-se na cama.

Camus a olhou, Marie o estanhou...

- O que foi? - perguntou, fitando-o preocupada.

- Nada! Acho que fazia tempo que não olhava pra você! - Marie surpreendeu-se; seria um milagre?

- Tem estado cansado! - disse ela, quase gaguejando.

- Não é desculpa! Tenho sido um péssimo marido estes anos!

Completou ele, olhando-a ternamente, um olhar tão carinhoso como Marie não via há tempos. Ela tremeu de felicidade.

- Você é o melhor marido que uma mulher pode desejar!

Camus aproximou-se, beijando-a, desligando a única luz acesa do ambiente. Naquela noite realmente a faria sentir-se a mulher mais bem aventurada da face da terra.

Marie enlaçou seu pescoço tão ardentemente, tão saudosa, que quase deixou uma lágrima escapar, mas conteve-se. O faria sentir-se tão satisfeito quanto um homem poderia suportar. Parecia que, enfim, seus desejos estavam se concretizando.

O.o.O Continua O.o.O