Assim que entraram, Selena fez questão de oferecer à Demi uma bebida, que não foi recusada.
-Aqui. –Colocou a bandeja que carregava uma jarra com suco e dois copos de vidro em cima da mesinha de centro. –Espera um pouco enquanto eu pego uma coisa. –Avisou enquanto saía novamente.
-Não é uma arma, né? Por favor. Se quiser posso começar a implorar pela minha vida logo agora. –Brincou.
-Meu Deus! Cale a boca, viajante. –Gargalhou.
Demi aproveitou a ausência da artista para olhar o apartamento mais cuidadosamente. Era pequeno e pouco arejado, contudo, era limpo, bem organizado e decorado com bom gosto. E tinha uma estante de livros, próxima a única janela do cômodo, que realmente tinha chamado sua atenção.
-Gostou? –Perguntou ao emergir do corredor.
-Hm?
-A decoração...
-Ah, sim, gostei sim. Repetindo, seu bom gosto parece ir além dos desenhos.
-Obrigada. –Fez uma pausa. –Pode pegar se quiser. Você está parecendo um cachorro babando em frente a um açougue.
-Quê?
Selena riu de sua confusão e apontou para os livros.
-Os livros, viajante. Estou falando dos livros. –Sorriu. –Não vou te morder se você levantar daí e for olhá-los.
Demi sorriu sem graça e se levantou, se advertindo mentalmente para que calculasse todos os movimentos, a fim de não fazer nada desastrado e levar todo o prédio abaixo.
Passou a mão pela fileira de livros, sentindo a textura de cada um, como se pudesse absorver todas as palavras que eles traziam com um simples toque. Leu os títulos devagar, reconhecendo alguns e se sentindo tentada a ler outros.
-Você tem uma coleção muito boa. –Comentou maravilhada ao reconhecer alguns livros mais antigos.
-Posso te emprestar algum, se você me prometer trazer de volta antes de partir.
-Seria maravilhoso. Mas eu parto amanhã cedo.
-Está brincando? –Perguntou entristecida. Por um momento pensou que teria tempo de conhecer melhor a viajante.
-Nunca passo dois dias na mesma cidade. Um país por semana, uma cidade por dia.
Andou de volta até o sofá onde deixou a mochila, e a abriu com um ar empolgado. Tirou um caderno com capa de couro e desamarrou o laço que o mantinha fechado, libertando o volume das folhas. Se sentou ao lado da artista, deixando que ela visse o conteúdo do caderno. Tinha várias fotografias coladas e todas elas com a mesma inscrição logo abaixo "dia ** de 365, [data], [nome da cidade], [nome do país]". Em algumas páginas era possível ver alguns textos, como em um diário, e em outras, mais fotos.
-Você tem fotos ótimas aqui. –Admirou boquiaberta.
-É o presente que vou deixar para alguém importante. Um álbum de memórias para que essa pessoa saiba que estive em lugares bonitos e aproveitei cada um deles. Que fiz bom proveito do tempo que tive.
A artista estranhou a fala da outra, mas estava muito distraída com as fotos para questionar alguma coisa.
-Mas o que era que você queria me mostrar? Acho que acabei te distraindo do seu objetivo.
-Com certeza o que você tem aqui é mais interessante do que o meu antigo sketch book. –Respondeu ainda folheando o caderno da outra.
-Isso é o que veremos, menina dos olhos. Deixe-me ver isso. –Pediu.
A meia hora que se passou foi de puro silêncio, enquanto a artista e a viajante admiravam os hobbies uma da outra. Após terminarem, trocaram elogios e conversaram sobre seus gostos em comum. Literatura, principalmente. Durante o papo, Demi descobriu que a menina dos olhos estudava arquitetura, e os desenhos que fazia eram apenas uma distração.
-Queria ver um pouco mais de Paris antes de ir para o hotel. –Bebericou do suco que Selena serviu. –Me acompanha num passeio? Depois podemos dividir um táxi e... Bom, foi ótimo lhe conhecer, menina dos olhos.
Seu tom de voz parecia triste, embora levasse nos lábios um sorriso fraco. Já havia se despedido de tantas pessoas em sua jornada e nunca havia se abalado. Nunca tivera tempo de conhecer alguém o suficiente para realmente sentir falta de tal. Não deveria estar sentindo tanto por ter que partir agora.
-Idem, viajante. Acho que devemos ir agora se não quisermos perder tempo.
-Não. Perder tempo nunca.
Já começava a anoitecer e ambas se perguntavam como ficaram tão absortas ao ponto de não perceber o tempo passar. Selena levou a viajante em sua padaria favorita para provar alguns doces e salgados típicos da região, depois, passearam pela praça comendo algodão doce enquanto partilhavam de histórias de suas infâncias.
A viajante, filha de pais ricos e super protetores, sempre fora uma criança calma, de poucos amigos, e saía pouco; A artista, ao contrário, foi uma criança levada e adorava aprontar.
-Meus avós moravam no campo, e tinha uma fazenda vizinha onde criavam vacas e galinhas. Aquele era meu parque de diversões. Eu e meus primos fugíamos para lá quase todas as noites e íamos perturbar as vacas. –Contou enquanto ria das lembranças. –Um dia a senhora que morava lá pensou que fossemos ladrões e gritou para o marido que tinha um grupo de bastardos tentando sequestrar as pobres vaquinhas. Ele saiu de casa com uma arma na mão e deu um tiro para o alto, gritando "saiam daqui seus ladrões! E deixem as minhas vacas!" –Demi gargalhou alto. –Corremos como loucos e quando fui pular a cerca acabei caindo e quebrando o braço direito.
-Depois disso vocês nunca mais foram lá? –Tentou adivinhar o final enquanto tentava controlar o riso, usando as costas da mão livre para enxugar uma lágrima que caía.
-Bem que aqueles dois queriam. Ficamos quietos por um tempo, mas depois que a líder da bagunça, que no caso era eu, se recuperou, todo o grupo voltou a fazer as mesmas traquinagens de sempre. –Riu.
-E logo você que parece ser tão pacata, era uma diabinha.
-As aparências enganam, não?
-Demais. –Suspirou.
Mantiveram contato visual por alguns longos segundos até a viajante avistar um artista de rua na calçada do outro lado da praça e arrastar Selena com ela. Deixou uma quantia generosa de dinheiro para o menino que tocava violoncelo e se virou para sua companhia com um sorriso animado.
-O que vamos fazer agora? Acho que ainda tenho algumas horas sobrando.
-Hm... Não sei. Que tal jantar? Estou ficando com fome.
-Ótimo.
Para encerrar a noite bem, a menina dos olhos escolheu mais uma vez o prato da viajante, que ficou responsável pela escolha do vinho. Conversavam como se aquele não tivesse sido o dia em que se conheceram, e como se não fosse o último em que elas se veriam. Gargalharam até suas barrigas doerem e lágrimas caírem de seus olhos, chamaram a atenção dos outros clientes mas não se importaram, porque a companhia era boa demais para prestar atenção nos olhares reprovadores que lhe lançavam.
Os ponteiros do relógio corriam depressa, e cada hora parecia apenas um minuto. Quando a conta foi pedida já se aproximava das nove horas da noite, e a ficha caiu como uma bigorna em suas cabeças. Não haveria escapatória como na hora do almoço. Nenhum convite poderia ser feito para que elas tivessem a chance de passar mais tempo juntas. O adeus era inevitável.
Selena queria perguntar a viajante qual seria seu próximo destino, mas, do que adiantaria? Ela não faria suas malas e partiria para se encontrar com a mulher, que passava cada dia em uma cidade diferente e não tinha nada com o que se preocupar. Ela tinha uma vida estável ali em Paris e não podia deixar que aquela viajante chegasse bagunçando tudo como se fosse brincadeira.
Ficaram dez minutos esperando um táxi e, estranhamente, nenhuma das duas disse uma palavra. Temiam abrir a boca e deixar que as primeiras palavras que lhes escapassem os lábios fossem uma despedida.
A ideia de dividirem o táxi foi descartada quando Selena alegou querer andar um pouco pelo bairro, precisava de ar. Precisava respirar longe da viajante, porque as horas que passaram juntas foi o suficiente para que ela se esquecesse remotamente como era respirar longe da outra. Também, a despedida estava doendo, mesmo que ainda não tivesse acontecido. Ela queria se perguntar o porquê de tudo isso, mas estava com medo da resposta, que parecia óbvia.
-Agora não tem como contornar a situação, menina dos olhos. –Suspirou quando abriu a porta do carro. –Adeus.
Ouviu Selena fungar e pensou que ela fosse chorar, mas recebeu um abraço apertado e um meio sorriso cabisbaixo.
-Se cuide, viajante.
-Você também.
/
"Não chore nas despedidas, pois elas são necessárias antes de vocês poderem se encontrar outra vez." – Richard Bach.
