Cap III

Amanheceu como num segundo e os raios entravam pelas janelas e sacada do prédio. Nenhum deles sabia o porquê, mas haviam dormido ali mesmo, todos deitados no chão, menos Houjo, que continuava no sofá, a única diferença era que agora ele estava babando na almofada do mesmo.

Kagome se incomodou com a claridade a ponto de levantar, mesmo com muita vontade de continuar com seu sono. Olhou em volta e percebeu que faltara alguém por ali, estavam apenas Miroku deitado quase debaixo da mesa, e Houjo, o babão.

"Puts, esse cara tá babando tudo!" – Kagome pensava com uma cara enojada, olhando atentamente o rastro que Houjo deixara na almofada da amiga enquanto coçava os olhos e buscava forças para levantar do chão. A jovem ouviu um barulho de chuveiro ligado, e como tinha intimidade o bastante com a amiga, resolveu ir até o banheiro anunciar que havia acordado.

Sango estava terminando o banho matinal e então se enrolou na toalha, saindo do box. Percebeu a presença de sua amiga com uma cara de burro atropelado na estrada. – Ohayou, Kagome! Nossa, que cara de ressaca! – a mulher disse risonha depois de ter secado seu corpo e começado a colocar suas roupas.

- Ohayou... claro que estou com essa cara, como queria que eu estivesse? – A voz da menina ainda estava sonolenta, mas mesmo assim fazia esforço para falar – Eu posso tomar um banho também? Me empresta uma roupa?

-Claro que sim, Ka, pode entrar, eu vou pegar uma roupa e toalha para você...depois vamos até a cafeteria tomar um bom café da manhã pós-bebedeira. – A mulher já havia se vestido com um vestido básico da cor amarela e então saiu do banheiro deixando a amiga à vontade.

- Hai, Sangozinha! Então vou tomar meu banho para irmos, preciso acabar com essa cara de ressaca mesmo... – a mocinha estava um pouco mais acordada agora, e então sorriu entusiasmada para a velha amiga.

-Ai, Inuyasha! É só hoje, poxa, não te custa nada! – Kikyou nesse momento estava empurrando o namorado até o balcão da cafeteria. Ele, como sempre, estava emburrado, de braços cruzados, mas dando alguns passos para chegar ao balcão, mesmo forçado.

- Você sabe que eu odeio isso, Kikyou! Eu não posso ficar lá dentro e você atende os clientes? – o rapaz apoiou o cotovelo no balcão e a mão no rosto, como se seu braço estivesse sustentando sua cabeça.

- Não posso! Você não sabe fazer um café sem sujar a cozinha! E quem me fez liberar os funcionários foi você, agora me ajude... – A mulher estava convencida de que estava certa, e então virou as costas sem esperar a resposta do rapaz e foi para a cozinha.

"Bah! Também...só sabe fazer café direito, porque comida..grrr, baka!" – Inuyasha estava com um olhar mortal em Kikyou, parecia uma criança com raiva da mãe quando leva sermão.

Ele estava a 10 minutos ali, e já estava impaciente, batia os dedos no balcão para tirar o tédio, até que então ouviu a porta da entrada se abrir. – "Ah, não! Vou ter que atender clientes!" – resmungava em pensamentos, mas ao se deparar com a linda jovem com um rabo de cavalo, um short jeans e uma bata de cor rosa bebê entrar seus olhos fixaram nela, ele não pode evitar olhá-la, ficara simplesmente encantado, nem reparou ao menos quem a estava acompanhando.

- Ohayou, eu quero dois pedidos nume...- Sango parou de falar quando percebeu quem estava no balcão, e com um sorriso de ponta a ponta ela disse – Inuyasha! De balconista, é? Me senti superior agora... – a moça adorava o irritar quando percebia que ele estava em situações como essa.

- Sango-chan...qualquer comentário contra mim vai se rebatido no seu emprego... – o homem sorriu sarcástico e em seguida ajeitara o avental da cafeteria que estava usando, nem era verdade, mas ele falava só para assusta-la. – Então, qual é o pedido mesmo? – ele percebeu que conseguiu amedrontar a mulher, e o seu sorriso se tornou debochado.

- Er... dois pedidos número 4... – ela falava com um ar de derrotada, não conseguia nem vencer nas brincadeiras de Inuyasha, ele sempre a reprimia, chegava a ser engraçado. Kagome só ria da situação, achou kawaii o modo como os dois se relacionavam. A menina escondia o sorriso com uma das mãos, tentando disfarçar para Sango não ficar com raiva dela.

- Ei, pode rir, eu sei que foi engraçado... – Inuyasha olhou com o sorriso mais lindo do mundo para a menina, que ficou perdida nos belos olhos do rapaz, capaz até de não ter visto o lindo sorriso sincero que ele esboçava.

- hihihi, foi um momento kawaii... – a menina sentiu suas bochechas corarem por ser observada por aqueles lindos olhos. Ela acidentalmente encontrou o olhar dela com o dele, mas logo desviou, morrendo de vergonha.

Sango percebeu tudo, mas resolveu não dizer nada, apenas sorriu como se soubesse no que tudo ia dar. Ela foi caminhando até uma mesa vazia – Bom, eu vou me sentar ali, tá? – Ela queria deixa-los a sós, mas disfarçou tão mal que ambos perceberam.

-Hã? Ah! Eu vou também, né... – Sorriu uma última vez para Inuyasha, que também sorriu, como forma de cumprimento, e logo foi atrás da amiga, sentando-se com ela.

- Ele trabalha com você, Sango-chan? – A mocinha estava curiosa e muito interessada nele, apoiou os dois cotovelos na mesa e apoiou o rosto nas mãos, esperando ansiosamente pela resposta da amiga.

- Ele é o dono da empresa aonde trabalho...é o meu chefe...- a mulher percebia o brilho nos olhos de Kagome ao ve-lo – Nossa, o que foi aquilo entre vocês dois ali no balcão? – Sango referia-se a troca de olhares dos dois, fazendo novamente a menina ficar corada, Kagome era bastante tímida.

- Não foi nada demais, ué! – tentava sem sucesso disfarçar o repentino interesse pelo rapaz, com um sorriso sínico no rosto. – Mas que ele é um cara muito... er, bonito, ele é... – o olhar de Kagome rapidamente desviara para o rapaz, que estava atendendo outros clientes no balcão.

Sango ria da situação, nunca vira a amiga dizer isso de um cara logo na primeira vez que via, ela geralmente julgava todos eles, dava sempre um defeito. E muito menos havia visto esse lado "educado e paciente" de Inuyasha. – Ka...tem um probleminha...ele tem namorada, é até o motivo dele estar aqui, ela é a dona daqui, ele provavelmente deve estar ajudando. – a expressão do rosto de Sango mostrava lamento pela amiga.

-Pff! Eu só dou azar! – A mocinha bateu de leve na testa, indignada com a informação que acabara de receber, mas logo disfarçou, já que o rapaz estava vindo com o pedido delas até a mesa.

- Aqui está o pedido, meninas! Espero que gostem! – Parecia que só havia a menina ali, ele disse sem tirar os olhos dela um segundo, e sorria novamente, parecia que ele queria a conquistar.

- Arigato! – Kagome sorria para ele também, mas ainda muito tímida.

"Nossa, ele está muito sorridente e bonzinho, nem parece o Inuyasha de verdade!" – Sango pegou o copo de frapuccino e começou a beber, olhando os dois, desconfiada, confusa, na verdade.

O rapaz saiu e então as duas moças puderam tomar o café da manhã à vontade.

Tudo estava muito bom, as mulheres estavam satisfeitas e então chegara a hora de pagar. Uma felicidade para Kagome, pois iria até o balcão poder ver mais uma vez o lindo rapaz pelo qual ficara vidrada. Mas Sango a desanimou quando notou que faltava algo.

- Puts, Kagome-chan, esqueci a carteira lá encima, preciso ir buscar, me espere aqui, se não vão achar que estamos saindo sem pagar! – A mulher disse levantando da mesa indo direto até a porta de saída em busca da carteira.

"Nossa, ela sumiu tão rápido!" – Pensou Kagome, que quando se virou para processar tudo que a amiga havia falado e a mesma estava já atravessando a rua, a menina ficou observando a mulher pela grande janela que havia na cafeteria, até que ela sumiu de sua vista. Então a jovem virou-se novamente para frente e se assustou com a presença de um certo rapaz perto dela, mas foi um susto bom.

- Desculpa ter te assustado, só vim limpar a mesa, senhorita...? – O rapaz esperava que a menina dissesse seu nome a ele, queria mesmo conhece-la, talvez houvesse esquecido de que tinha uma namorada, e ela estava perto dali, ou se lembrava, pouco ligou.

- Er...Kagome. Enquanto ao susto, tudo bem, eu que estava meio desligada mesmo, haan... – Kagome apontava para Inuyasha como se quisesse que ele completasse a frase dela com seu nome.

- Inuyasha. – Ele disse feliz, pelo interesse da moça de querer saber seu nome, mesmo ele tendo sido citado antes. Numa situação normal, Inuyasha nem iria responder, mandaria a pessoa tratar de se lembrar, mas ele estava espantosamente simpático.

- Sim...Inuyasha-kun. – Inevitavelmente, e com a maior vontade de todas Kagome sorria.

Eles nem faziam ideia de que estavam sendo observados de longe, claro, por Kikyou, e essa, como precaução resolveu chamar por Inuyasha, que logo saiu da mesa e foi até a sua namorada que, na verdade, não o interessava muito naquele momento.

Poucos segundos, Sango entrou na loja e pagou a dívida, deu bom dia ao Inuyasha e Kikyou, Kagome fez o mesmo e então seguiram o caminho de volta para o prédio.

Um barulho bem longe se repetia milhares de vezes, se tornando incomodo. Então Miroku foi reconciliando a consciência até perceber que estava acordando e o barulho que ouvira de longe agora estava mais alto, era o telefone de Sango tocando, mas não entendia o porquê dela não atender.

-Sango! Seu telefone! – O rapaz gritava pela casa, com a voz sonolenta. Percebeu que ninguém o respondeu, e então resolveu levantar e atender.

Alô? – Miroku dizia com a voz irritada por ter que atender ao telefone, nem olhou o número antes, apenas aguardou a resposta do outro lado.

-Se o cara que estiver falando for o Miroku, eu dou 2 meses para você sumir da vida da minha irmã. Se eu voltar da Itália e ver que você está tendo ainda alguma coisa com ela, não vou ter perdoar, então some se não quiser morrer, baka! Ah, mas não deixe da avisar a minha princesa que eu estou voltando daqui à 4 meses...enquanto ao seu prazo...eu tenho muita gente por ai que pode ficar de olho se você tá me enrolando ou não... – o telefone desligou, a ligação era realmente para Sango, e a pessoa do outro lado parecia mais furiosa do que nunca ao ouvir e reconhecer a voz do namorado da jovem. Miroku sabia muito bem quem era, mas não sabia direito como dar essa notícia a Sango, não sabia como fazer com que ela ficasse feliz com a volta de Kohaku, ao invés de ficar com medo de perdê-lo pela vinda do irmão.

O jovem desligou o telefone e ficou assombrado com a ligação, só poderia ser um pesadelo a volta do Kohaku, justo agora que ele finalmente conseguiu se entender com Sango. Ele não resistiu em dar um forte soco na mesa, estava sem saber o que fazer, não queria deixar a amada por causa das ameaças do irmão dela, mas ele sabia que se continuasse, ele o tiraria da vida dela de modo pior.

Ao ouvir o barulho da porta se abrindo largou o celular na mesa e disfarçou a preocupação, recebendo Kagome e Sango, que acabaram de voltar da cafeteria, com um sorriso no rosto.

- Ohayou, meu amorzinho! – A mulher envolveu os braços no pescoço do homem e deu-lhe um demorado selinho.

O rapaz envolveu a cintura dela e aprofundou o abraço, como se ele precisasse daquilo como seu porto seguro nessa ocasião. – Ohayou, minha Sango-chan... – ele beijara sua testa e em seguida apoiara o queixo em seu ombro, mantendo o abraço.

Ela retribuiu. Adorava quando Miroku a abraçava desse jeito, e muito mais quando a chamava de "minha". Afastou-se dele um pouco, respeitando a amiga, que estava os observando. – Então, Kagome, vai ficar para o almoço?

Kagome estava sacudindo Houjo com toda a força para que o menino acordasse, mas desviou a atenção para a amiga quando a mesma a questionou – Não não, Sangozinha...vou acordar o Houjo para ele ir pra casa e vou também, porque tenho que estudar um pouco, faltam só 4 meses para eu me formar né, não posso fraquejar! – Sorriu para a amiga.

Enquanto ao Houjo, perdeu a paciência a ponto de falar alto – Acorda, Houjo! E para de babar também! – O rapaz acordou no susto e levantou quase fugindo do apartamento. Fazendo todos rirem da situação dele. – Ohayou para você também, Houjo! – Sango até disse debochando do jovem rapaz.

- Ah, ohayou... e... obrigado pela hospedagem e me desculpe o mau jeito, hein! – Kagome o arrastava tão rápido para fora do apartamento que o rapaz só conseguiu se despedir olhando para trás e acenando.

- Sayonara, Sango-chan! Depois te ligo para falarmos do balconista, quero saber mais sobre ele... – Kagome mandava beijos segundos antes de fechar a porta do apartamento.

Sango ria demais de tudo aquilo, mas percebia que Miroku não estava tão alegre. Sentou-se no sofá, em meio a toda bagunça da sala de estar depois do happy hour e ficou encarando Miroku, esperando ele dizer algo.

- Por que está me olhando assim, Sango? – Ele ainda tentava disfarçar, mesmo sabendo que não conseguia mentir por muito tempo para Sango. Sentou-se ao lado dela, tentando esconder a situação a enchendo de beijos carinhosos pelo rosto.

- Não tenta disfarçar, Miroku...- A mulher se afastou aos poucos dos beijos do seu homem e voltou a fixar os olhos nos dele.- o que foi que aconteceu? – Sango nem sequer piscava, estava preocupada demais.

- Não é nada demais, Sango...- O homem abaixou o olhar e suspirou, criando coragem para contar – O...Kohaku vai voltar dentro de 4 meses, para te ver. – Olhou para sua mulher sorrindo, como se a notícia tivesse só o lado bom.

O olhar de Sango ficou perdido, perdido por muitos segundos. Ela estava morrendo de saudades do irmão, realmente não podia mais esperar para vê-lo, mas sabia que para isso precisava abrir mão de Miroku, já que seu irmão não suportava sua presença por ele ter feito-a sofrer muito no passado, traindo-a sem restrições.

Mas Miroku mudou, ela sabia disso, queria mostrar isso ao seu irmão, só que ele era um jovem muito revoltado e orgulhoso, nunca mudaria sua opinião, e se as coisas não fossem do jeito que ele queria, poderia acabar com a vida do amado de Sango, por puro instinto excessivo de proteção.

Mesmo só com 19 anos, sendo 8 anos mais novo que sua irmã, ele sentia que era ele o responsável por tudo que a acontecia, tanto em bons quanto em maus momentos.

- Sango? – Seu homem estava preocupado com o desligamento dela, segurou em seus ombros e a sacudiu cuidadosamente.

- Ah, Miroku, eu tô bem...tô feliz porque vou ter meu irmão de volta. – Ela não parecia estar nada feliz, sua fisionomia era de total medo do que poderia acontecer – Mas para ele vir, vai ter que ser aceitando o fato de que eu vou e quero estar contigo, por isso, não vou deixar que vá embora, Miroku...- Sango parou por um instante, limpando seus olhos que encheram-se de lágrimas, mas de cabeça erguida seguiu com sua fala – Eu só preciso da tua ajuda, só quero saber se você quer tentar comigo.- A mulher percebeu que os olhos dele também ficaram rasos pelas lágrimas que tentava esconder, mas ainda assim, o homem sorriu para ela.

- Eu só vou fazer aquilo que te fizer bem... – Ele queria muito conta-la sobre a ameaça que Kohaku fizera, mas não queria assusta-la, apenas a abraçou.

- Mi...roku... – Sango retribuiu o abraço e se sentiu confortável nele, o que mais desejava era que o tempo não andasse mais dali em diante.

Mas o tempo nunca para, e o Sol os iluminava naquela sala de estar tão tensa. O final da manhã estava ali, os atormentando, e esse tormento seguiria por todo o dia, ou muito mais que só um dia. Estavam abraçados, juntos, foi o que importou mais. O tempo parando ou não, podia passar à vontade para eles, afinal, era um momento que não sabiam se teriam a vida toda.