Catherine está na cozinha tentando se distrair fazendo um bolo e conversando com Mércia que está limpando os armários. As duas fingem não ouvir os gritos e o choro de Derek, falam mais alto, Catherine liga a batedeira vezes seguidas. Ficam assim até que os gritos cessam, só então se olham e respiram aliviadas.

Steve desce e entra na cozinha totalmente calmo, como se nada tivesse acontecido. As duas se calam, mas ele já está acostumado com isso, dá um meio sorriso para Mércia, pega uma maçã, lava... só então olha para Catherine – Eu vou dar um pulo no John... ele também esta de folga hoje. Faz uma cara que não bato um papo com ele.

- Está bem. Você volta para o almoço?

- Volta daqui em menos de uma hora. (aí aponta com o polegar para cima) – Dei uma hora para ele arrumar o quarto. Se você ouvir algum barulho fora do normal... (mostra o celular)

Catherine concorda, não pode defender o filho, Derek já havia destruído um dvdplayer num acesso de birra.

Mércia pega a vassoura, quer ajudar – Eu subo lá e arrumo Dona Catherine ... ele nem sabe fazer...

- Se ele não sabe, vai tratar de aprender! (Vendo que assustou a mulher, Steve tenta falar de forma mais branda) – Faz parte do castigo, Mércia. Oque ele fez foi muito errado. Mas te garanto que não acontece mais.

- Ele não vai fazer mais, ele falou, Seu Steve. Ele é um menino bom.

Steve sorri, balança a cabeça – Ele é sim, mas precisa de uns ajustes. Agora deixa ele se virar, tá? Dá uma piscadinha, Mércia sente o rosto pegar fogo,baixa a cabeça – Sim senhor.

Steve vai para a casa de John, moram a duas quadras. Passa pelo portão sem tocar a campainha. Dá uma batida na porta antes de entrar, mas não espera convite, é assim entre eles.

Na sala encontra o sobrinho caçula, Collin. O menino está jogando, nem olha para o tio, continua concentrado no jogo. Steve cruza os braços, espera o menino dar uma pausa, mas nada... para Collin não tinha ninguém ali.

- Collin, será que você pode parar um segundo para me cumprimentar?

Collin responde sem tirar os olhos do jogo - Oi tio. Meu pai deve tá lá fora, vai lá também, vai.

Steve descruza os braços, dá um tapa na nuca dele – Como é que é? Isso lá é jeito de falar comigo, garoto?

Collin vai até pra frente com o tapa, pausa o jogo no mesmo minuto, vira e olha puto – Ai tio! Eu preciso passar desta fase, só isso...porra... eu não quis ser

- Mal-educado? Pois foi! Você vê bem como fala comigo garoto, eu não sou teu colega!

John ouve a voz do irmão, entra na sala a tempo de ouvir o finalzinho. Olha pros dois, mas Steve responde antes dele perguntar oque houve

– Nada... Já me acertei com ele. Tá livre, podemos bater um papo?

John olha feio para o filho, que imediatamente olha pro chão, pedindo desculpas num tom inaudível.

- Desliga isso e vai pro seu quarto.

Collin levanta apavorado, o pai já tinha dado um esporro nele por causa do jogo... com essa... ele iria apanhar... ?

Não tem o menor pudor em pedir na frente do tio mesmo - Não pai... por favor, eu tava concentrado, foi sem querer... eu pedi desculpas...

- Chega Collin, eu te avisei que não ia ter segundo aviso. Sobe.

Collin sente os olhos encherem de lágrimas, fala com voz de choro – O senhor vai me bater. Vai não vai?

- Eu não queria Collin, mas hoje tá dificil camarada... desde que você levantou, você não dá uma dentro. Paciência tem limite.

Collin olha pro tio pedindo ajuda, Steve por milagre estava calmo, talvez porque estivesse de folga depois de semanas... nem ele sabia porquê, mas nem mesmo o incidente com Derek tinha tirado seu humor.

- Porra bem hoje que eu vim em missão de paz? Ah Jonh...você não vai estragar minha performance, vai? (Steve vai mais perto do irmão, fala baixo) - Sério, meu assunto com ele já está resolvido... deixa pra estourar com ele se ele aprontar mais uma.

John olha para Collin por cima do ombro de Steve, aponta – Teu tio tá te livrando a cara desta vez... mas acabou, entendeu? A próxima que você aprontar, entra no cinto.

Collin quase não se aguenta de felicidade, abraça Steve, beija. Steve sorri, dá uma palmada "carinhosa" na bunda dele.

- Tá certo... agora eu sou o cara?

- É sim tio! Valeu!

John faz sinal pra Steve ir lá fora com ele. Do lado de fora, John não aguenta mais segurar, dá risada – Cara... missão de paz? Você?

Steve ri também – Eu não tenho prática nessas coisas, foi oque veio a mente rs... estava na cara que você não queria pegar ele.

- Ufffffffff Será que ele reparou também ?

- Pelo desespero dele, não né?

- Eu não gosto de bater em nenhum deles mas... é muito mais dificil pegar o Collin...

- Caçula é sempre mais complicado mesmo... (sorri)

- É né? Você que o diga... aproveitou bem desta sua condição especial.

- Aproveitei? De que condição especial? Só se fosse a de ser saco de pancadas de vocês.

- Saco de pancadas... a gente mal relava um dedo em você, você corria dedurar para mãe.

- Não lembro disso não... rs

John ri - Aposto que não. Cara, como você era chorão... apanhei muito por sua causa, sabia?

Steve levanta as mãos – Sem revanchismo hein? Eu não sabia oque fazia mas você sabia e eu lembro dos sustos que você me dava, eu morria de medo de escuro até sei lá que idade. E surra mesmo por minha causa eu só lembro de uma que você levou...

Jonh cobre o rosto rindo, mais por vergonha, do que outra coisa – Putz... aquela vez foi foda... Eu era anormal mesmo... sério, se Matheus tivesse feito uma dessas com Collin, eu acho que tinha batido bem mais do que o pai me bateu...

- Mais? Você mal conseguia andar no dia seguinte.

- É... mas eu mereci. Mas o pior nem foi a surra... foi você correndo de mim, eu me sentia um monstro ... e Carl? Nunca tomei tanta porrada dele na vida, ele não perdia nenhuma oportunidade.

Steve abre um sorriso - Eu lembro disso. Carl virou meu herói! Mas já passou bastante tempo... você devia ter esquecido isso.

- Não dá... nem sei quanto tempo isso durou, mas para mim pareceram anos. Era como se a família inteira me odiasse. O pai então... eu tinha medo de respirar perto dele.

Flashback

Steve tinha 8 anos, Jonh 12 e Carl 15. Moravam em uma casa velha, as madeiras do assoalho rangiam. John havia inventado para Steve que a casa tinha sido feito sobre um cemitério e que a noite os mortos raspavam as tampas dos caixões, daí o barulho.

Steve acreditava em tudo que os irmãos falavam, não ia nem no banheiro sozinho de tanto medo que tinha.

Um belo dia, por pura sacanagem, para aparecer para os amigos, John pregou uma peça em Steve. Falou pra ele ir com ele no porão pegar um brinquedo. Ele foi mas quando estava distraido olhando umas revistas velhas, John saiu e bateu a porta com força deixando ele no escuro total. Steve começou a gritar, chutar a porta. John ficou segurando a porta enquanto ele e os amigos riram até perder o ar.

Steve chorava de soluçar, gritava apavorado dizendo que os mortos iam pega-lo. Jonh ainda estava se divertindo quando notou que Carl estava olhando-o pela acabar com a brincadeira antes que o mais velho fosse até lá. Tentou abrir a porta, sacodia, puxava com toda força mas nada, ela havia emperrado! O arrependimento chegou junto com o pânico. Seus amigos ao invés de ajuda-lo, fugiram quando viram Carl correndo na direção deles. John gritava que tinha sido só uma brincadeira, mas Carl nem deu atenção, apenas tirou ele da frente com um empurrão, gritou pra Steve sair de perto da porta e simplesmente meteu o pé nela, quebrando-a ao meio.

Steve estava pálido, tremendo, não conseguia sair do lugar, jurava que um monstro estava segurando sua perna. Carl teve que carrega-lo para fora. John tentou chegar perto, mas Steve escondia o rosto no pescoço do mais velho, gritava que ele tinha trancado ele ali com os mortos.

Depois um tempinho, Steve estava dormindo na sala devido a exaustão.

John volta para olhar o estrago na porta. Ele era o responsável pela casa e pelos irmãos na ausência dos pais. Passa as mãos nos cabelos, não tinha como consertar... chuta os pedaços de madeira irritado.

John vai chegando devagar, com medo de Carl explodir com ele.

– Carl...

Carl fala entre os dentes – Sai de perto de mim!

- Foi uma brincadeira...

- Você não está nem aí pra nada, não é? Vai lá ver o estado que você deixou nosso irmão! Sem contar com oque você me fez fazer... olha pra isso!

- Não era pra ser assim! Eu não tenho culpa se a porta travou! E nem que você arrebentou ela!

Carl fecha as mãos na lateral do corpo, quer muito socar John, mas sabe que isso iria deixar o pai ainda mais furioso com ele. Levanta as mãos abertas - Quer saber? Eu não quero nem olhar mais pra sua cara. Só que reza, reza muito pra sua brincadeira não me custar uma surra.

Carl fala já subindo as escadas para entrar em casa, John corre atrás dele.

- Carl... deixa eu explicar...

Carl nem vira – Pra mim você não tem que explicar nada!

Enfim, a tardinha quando o pai chegou e viu a porta quebrada, gritou o nome do mais velho, como de costume.. Carl teve que reunir toda coragem para chegar perto do pai e reportar o acontecido.

Naquela noite, Jonh apanhou de vara e chorou até pegar no sono e Carl levou uma surra de cinto por não cuidar dos irmãos como devia.

Steve... bem Steve dormiu entre os mimos dos pais.

Fim do Flashback

Continua...