ABORRECIMENTOS E SAUDADES

Uma comédia romântica assumidamente feminista e sadomasoquista

Por Vane

"Saint Seiya" pertence a Masami Kurumada, Toei Animation, Shueisha e Akita Shoten.

Capítulo 3



Ao término de sua reunião com Athena, Shion retornou ao estado de prontidão em que se encontrava desde que a invasão ao Santuário fora iniciada, por volta das 7h da manhã. Estava preparado para unir-se aos cavaleiros e amazonas e tomar parte na batalha. Não podia porém deixar seu templo, pois era preciso que alguém barrasse os inimigos se estes subissem as escadarias e atravessassem as doze casas zodiacais. Estas haviam ficado desguarnecidas, pois logo que surgiram as primeiras notícias sobre a invasão, os cavaleiros de ouro reuniram-se rapidamente e aceitaram a proposta de Afrodite: todos eles deixariam suas casas e se espalhariam pelo Santuário, procurando e derrotando os inimigos antes que estes se aproximassem dos degraus que levavam à casa de Áries.

A idéia do cavaleiro de Peixes lhe parecera bastante ousada e talvez um tanto imprudente. Como a maioria dos cavaleiros de ouro a aprovara, quando lhe perguntaram sua opinião ele se limitara a dizer que aceitava o que os demais haviam decidido. Um ou outro cavaleiro ficara em silêncio após ouvir a sugestão de Afrodite, o que dera a Shion a impressão de que ele não fora o único a se sentir receoso. Supunha que aqueles cavaleiros também optaram por acatar a decisão dos companheiros porque não havia muito tempo a perder com debates.

Shion olhou para os papéis que havia deixado sobre sua mesa de trabalho, resultado da tarefa que Athena e ele haviam executado: a alteração da lei sobre o uso de máscaras por amazonas. Neste momento, não pôde deixar de pensar que os cavaleiros corriam um risco adicional naquele dia: o de involuntariamente ganhar uma noiva, se algum deles visse o rosto de Shaina. Só podia esperar que desta vez a máscara dela não caísse e nem se quebrasse. De fato, desejava ardentemente que o rosto dela não voltasse a ser visto até que ele conseguisse convencer Athena a cancelar a alteração na lei, ou até que a própria deusa se desse conta do absurdo de sua idéia.

No final da tarde, o Mestre do Santuário foi procurado por um soldado que lhe levou excelentes notícias: a invasão fracassara e nenhum cavaleiro fora morto. Shion sentiu-se mais tranquilo, mas aguardou que outros soldados e/ou cavaleiros o procurassem portando informações similares, a fim de se certificar de que tudo estava realmente acabado. Em menos de quarenta minutos, outros três soldados repetiram a boa notícia de seu primeiro colega, e por fim um sorridente Afrodite surgiu, trazendo a mesma informação.

- Viu, Mestre? Meu plano funcionou - comemorou o cavaleiro, com uma expressão vitoriosa.

- Que bom, Afrodite, que bom - disse Shion, bastante aliviado. - Você sabe que estaria em sérios apuros se seu plano tivesse fracassado, não é?

- Eu não luto sozinho, Mestre - Afrodite respondeu altivo. - Acha justo que um só cavaleiro seja responsabilizado pelas falhas de um grupo inteiro?

- Não, não. Esqueça - Shion pediu, erguendo as mãos num gesto de paz. E depois, lembrando-se da tarefa de que Athena o incumbira, ele indagou num tom que pretendia que soasse casual: - Sabe como estão os outros cavaleiros agora? E principalmente as amazonas?

- Por que principalmente elas? - Afrodite devolveu, franzindo o cenho.

- Errr... é que... ora, é só uma questão de cavalheirismo, apenas isso. Você sabe, "primeiro as damas"! - Shion mentiu, dando uma risadinha nervosa.

- Mas é o senhor mesmo quem diz que não se deve fazer distinção entre os homens e as mulheres que servem Athena - observou Afrodite, agora nitidamente desconfiado.

- Sim, filho, claro - Shion admitiu constrangido. - Mas não vai responder à minha pergunta? - ele acrescentou rapidamente, esperando que Afrodite não percebesse que ele não tinha nenhuma desculpa para inventar.

- Bem, está certo - Afrodite respondeu, dando de ombros enquanto a desconfiança se apagava de sua face.

No fundo, continuava achando estranha a súbita preocupação do Mestre com a situação das amazonas após a batalha, uma vez que Shion sempre fora defensor de políticas igualitárias, insistindo em que as mulheres não fossem consideradas inferiores aos homens. Porém, o cavaleiro de Peixes sabia que o Mestre não lhe devia satisfações por coisa alguma, ainda que suas indagações o tivessem deixado claramente constrangido. "O próprio Mestre parece ter se esquecido de que não é obrigado a responder as minhas perguntas", Afrodite pensou divertido.

Depois disso, pôs-se a relatar o que sabia sobre as condições em que amazonas e cavaleiros se encontravam após o fim das lutas.

Quando Afrodite se foi, deixou atrás de si um aflito Shion.

"Minha deusa, não pode ser... por que justo ele?", o Mestre se perguntava, pensando no que o cavaleiro de Peixes havia lhe contado: que vira Mu a alguns metros de distância, conversando com Shaina, e que o rosto dela estava descoberto.

Athena fora clara: o primeiro homem a ver o rosto de Shaina - salvo exceções discutidas por eles e depois citadas na lei que haviam alterado conjuntamente - seria o marido da amazona. Afrodite naturalmente a vira sem máscara, porém estava distante dela naquele momento... ao passo que Mu estava bem próximo, e já se encontrava no local quando o cavaleiro de Peixes os avistou, segundo o relato deste. Logo, era absolutamente impossível que Afrodite tivesse visto a face dela antes do discípulo de Shion. A menos, é claro, que Afrodite tivesse lhe mentido.

"Mas por que ele mentiria? Ele nem parecia preocupado. Não teria por que se preocupar, já que ninguém sabe nada sobre a mudança na norma. Por outro lado, ele pelo menos poderia ter tido a decência de se mostrar envergonhado por ter visto algo que não devia. Mas claro, tantos já viram o rosto dela, seja por acidente ou por vontade dela... a esta altura, nem todos devem achar que isso é constrangedor. Talvez já achem até que é parte da rotina do Santuário."

Shion no entanto sabia que, se havia um rapaz que ainda conseguiria reconhecer a vergonha da situação, este seria Mu. "Eu deveria ter pedido mais detalhes ao Afrodite. Mas pensando bem, que diferença isso teria feito? Envergonhado ou não, se tiver sido o primeiro a ver Shaina sem máscara, Mu terá que se casar com ela."

Essa idéia lhe doía. Shion nada tinha contra Shaina, quem considerava uma mulher de muita fibra e com claríssimo potencial para progredir bem mais como guerreira. Ele até queria protegê-la da punição que Athena lhe preparava. Contudo, agora era-lhe difícil não se inquietar pelo futuro que poderia aguardar Mu.

"Eu criei esse menino com todo o esmero, e certamente não foi para que ele caísse nas mãos de uma mulher rude e irascível como Shaina!", ele lamentou. Sabia que o mais provável era que a amazona se revoltasse contra o castigo que receberia... e quem poderia lhe garantir que ela, impossibilitada de confrontar sua própria deusa, não descontaria sua fúria no marido?

Shion sabia que seu discípulo era dócil e que aceitaria resignado o que quer que Athena lhe impusesse. O seu temor era justamente que Shaina se aproveitasse da docilidade de Mu para transformar sua vida num inferno, usando-o como válvula de escape para sua raiva. "No mínimo ele ganhará um olho roxo permanente. Pobrezinho!...", Shion pensou condoído. "Agora só falta Shaina de uma hora para outra conseguir evoluir, como eu sempre achei que aconteceria, e se tornar uma amazona de ouro", ele receou, estremecendo ao pensar no que ela poderia causar ao seu aluno se tal ocorresse.

"Preciso de mais informações. Tentarei encontrar mais testemunhas da cena e conversarei com o próprio Mu. Sei que ele não me esconderia a verdade mesmo que soubesse o que vai lhe acontecer", Shion concluiu, erguendo-se de sua cadeira resoluto.

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- Sim, Mestre. Eu vi o rosto dela - Mu confessou, enrubescendo.

- Mu, você sabe que isso é errado! - Shion o repreendeu, intimamente desanimado com a confissão do aluno.

- Eu sei, Mestre. Mas por favor, não pense que o fiz de propósito. Quando cheguei à Athena Gloriosa, vi Shaina de costas e chamei-a - Mu contou, citando o nome da estrada em que encontrara a amazona de Ofiúco. - Não sabia que ela estava sem máscara e levei um susto quando ela se virou na minha direção. Mas eu juro que só vi o rosto dela por um segundo, talvez menos que isso, pois logo em seguida eu baixei a cabeça e fixei meus olhos no chão. O máximo que eu podia ver a partir desse momento eram os pés dela.

- Claro, eu entendo, meu filho - Shion disse, agora mais desanimado por pensar que um único segundo fora suficiente para mudar o futuro dos dois jovens sem que eles o soubessem. Pessimista, o Mestre do Santuário indagou: - Sabe se algum outro homem viu o rosto de Shaina antes de você?

- Sim, Mestre.

Shion quase deu um pulo ao ouvir a resposta de seu pupilo.

- Sim você sabe, ou sim houve outro homem? - ele perguntou ansioso, aproximando-se mais um pouco de Mu.

- As duas coisas - o cavaleiro de Áries respondeu, fitando Shion intrigado. Não entendia por que essa informação haveria de ser importante.

- Então fale, Mu! Que homem foi esse? - Shion insistiu, num misto de leve impaciência e princípio de esperança.

- Ela me contou que já havia matado quatro dos homens que invadiram o Santuário - por sinal, um dos corpos estava bem perto de nós -, e que a máscara dela tinha sido quebrada pelo primeiro deles. Então o rosto dela certamente foi visto não só por esse primeiro homem, mas também pelos outros que ela...

- Ah, isso não me interessa. Não faz a menor diferença - Shion interrompeu-o, gesticulando como quem descartava algo sem importância.

Mu arregalou um pouco os olhos, sem entender o porquê das reações de seu mestre.

Shion pousou uma das mãos sobre o ombro esquerdo do cavaleiro e pediu:

- Filho, o que preciso que me diga é se Shaina lhe contou, ou se você soube por qualquer outro meio, se algum homem deste Santuário viu a face dela hoje antes de você.

Mu continuava confuso, mas respondeu calmamente:

- Pelo que ela mesma me contou, essa possibilidade existe.

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Shion caminhou pelos corredores do hospital apressadamente, o coração aos pulos. Havia acabado de falar com Shaina, que afirmara estar ali por dois motivos: receber curativos para os cortes que sofrera durante as lutas e... mandar internar o cavaleiro que ela havia socorrido.

Quando Shion a encontrara, ela felizmente já havia coberto o rosto com uma máscara sobressalente, e aguardava a realização dos tradicionais exames pós-batalha a que os guerreiros comumente se submetiam ao término de cada luta.

Ao ser inquirida a respeito, a amazona de Ofiúco confirmara com toda a naturalidade que seu rosto fora visto por quatro inimigos e por Mu. Apesar do desânimo inicial que as palavras dela lhe causaram, Shion decidira insistir e obter mais detalhes.

Não, ela não sabia se outro homem vira seu rosto naquele dia, mas supunha que não. Ninguém no hospital, a não ser a enfermeira que lhe fizera os curativos, vira sua face; antes de chegar até ali ela fora à sua casa para buscar a nova máscara. Não, não havia encontrado mais ninguém no caminho. Sim, era possível que o cavaleiro que ela socorrera houvesse visto seu rosto, mas se isto ocorrera ela não havia notado. Ouvira-o gemer de dor, mas os olhos dele estavam fechados quando ela o fitara; chamara-o, mas ele não atendera, parecendo estar inconsciente outra vez. Achava pouco provável que ele tivesse visto sua face antes daquele momento, pois quando ela o encontrara ele já estava desmaiado e prestes a ser assassinado por dois inimigos, os quais foram assassinados por ela. Ademais, exceto pelo instante do gemido - e sim, isto se dera bem antes que ela se deparasse com Mu -, o cavaleiro permanecera em total quietude enquanto ela o carregava.

Ah, então Afrodite testemunhara sua conversa com Mu? Sim, era verdade que Mu devia ter visto seu rosto somente por um segundo, pois depois ele baixara os olhos e não tornara a levantá-los em sua presença. Por que o cavaleiro de Peixes não mencionara o homem que ela levava nos braços? Provavelmente porque ela precisara deitá-lo no chão ao se deparar com mais um inimigo, o qual aliás ela também matara. Mu chegara ao local daquela luta instantes após o seu final, e enquanto ela conversava com ele, o outro cavaleiro continuara deitado. Afrodite devia ter testemunhado apenas parte daquele encontro fortuito; se tivesse ficado até o final, teria presenciado o momento em que ela recolhera o cavaleiro inconsciente, voltando a carregá-lo entre os braços. Mas afinal, por que o Mestre estava fazendo tantas perguntas inusitadas?

Ao ouvir esta pergunta, Shion se limitara a dizer que eles voltariam a conversar em breve, e afastara-se rapidamente da sala em que encontrara a amazona, sem dar-llhe tempo de perguntar mais nada.

Agora o Mestre do Santuário sentia que havia uma possibilidade, ainda que remota, de salvar seu discípulo do casamento com uma mulher que provavemente tentaria lhe comer o fígado.

O aspecto irônico da situação era que talvez ele viesse a assistir ao casamento de um jovem que todos acreditavam que morreria só.

Entre os cavaleiros de Athena, havia uma corrente que propunha a proibição de todo e qualquer relacionamento que ultrapassasse os limites da amizade. Os adeptos desse movimento acreditavam que os seguidores de Athena não deveriam desperdiçar suas energias com nenhuma espécie de relação amorosa, uma vez que a missão deles era servir à sua deusa e não a si mesmos. Chegaram a fazer circular pelo Santuário um abaixo-assinado solicitando a criação de uma lei a esse respeito, e depois encaminharam seu projeto diretamente a Athena. Tratava-se da Proposta 230012, que possuía duas versões: a mais severa, que previa o banimento de matrimônios, namoros e todas as outras formas de relacionamento íntimo entre casais; e a mais branda, que oferecia à deusa do Santuário a alternativa de proibir apenas casamentos.

Shion não discordava das pessoas que apoiavam tal proposta, porém considerava-as um tanto ingênuas. Como poderiam esperar que Athena acatasse tal idéia quando ela mesma mantinha relações íntimas com um de seus cavaleiros? A deusa certamente poderia criar a lei que aquele grupo solicitava, até mesmo em sua versão mais restritiva, abrindo uma conveniente exceção para os cavaleiros que ela requisitasse para seu uso pessoal. Ainda assim, Shion acreditava que aquela proposta permaneceria "em estudo" para sempre, exatamente como ela se encontrava no momento. Athena não parecia ter a menor pressa em analisá-la, a despeito das muitas assinaturas que os organizadores do movimento tinham conseguido coletar.

O cavaleiro a cujo quarto Shion se encaminhava era um dos signatários da Proposta 230012 e um de seus mais convictos defensores. "O que não é de se admirar, considerando-se a personalidade dele", o Mestre concluiu.

Pouco depois, chegou ao quarto que buscava. O homem que ele desejava interrogar estava consciente, mas ainda visivelmente enfraquecido. Shion cumprimentou-o gentilmente, e com sincera preocupação fez-lhe perguntas sobre seu estado de saúde. Depois de alguns instantes de hesitação, abordou o assunto que motivara sua visita.

Adaptando a narrativa de Shaina de maneira que o nome dela não precisasse ser citado, Shion expôs tudo o que ele sabia sobre os acontecimentos daquele dia: que aquele cavaleiro fora encontrado desacordado, que fora socorrido e que a pessoa que o carregara não lhe percebera nenhum sinal de consciência, exceto por um instante em que ele teria dado um gemido de dor. Aproveitando esta brecha, Shion quis saber se em algum momento seu interlocutor estivera consciente de que alguém o transportava e, em caso afirmativo, se ele chegara a abrir os olhos e ver a face dessa pessoa.

O Mestre do Santuário viu o rosto do cavaleiro cobrir-se de constrangimento, e aguardou com grande expectativa que ele respondesse sua pergunta.

Por fim, o jovem confessou tudo:

- Sim, tudo o que o senhor disse está correto. Recobrei a consciência por alguns instantes; como fiz um movimento um tanto brusco com a cabeça e foi justo aí que me golpearam, senti uma dor muito intensa e não consegui reprimir um gemido. Perdi os sentidos novamente logo depois disso, mas antes... cheguei a ver o rosto da pessoa que me carregava. Pareceu-me ser uma mulher.

- Como ela era? - Shion indagou ansioso. Não que isso lhe fosse de grande ajuda, já que ele nunca vira o rosto de Shaina. Mas queria saber se o cavaleiro seria capaz de citar algum traço particular dela, apenas para se certificar de que os dois realmente se referiam à mesma mulher.

- Não me recordo bem. Lembro-me de coisas verdes. Cabelos, olhos... mas não sei se ainda reconheceria seus traços faciais se voltasse a vê-la.

- Mas o fato é que, mesmo não recordando o rosto dela com exatidão, você o viu, certo? - Shion insistiu.

- Sim, Mestre - o jovem respondeu, enquanto suas faces se tingiam de vermelho. Ele fitou Shion em silêncio por alguns segundos, os lábios entreabertos como se ele se preparasse para dizer algo. Finalmente, indagou titubeante: - Mestre... por acaso essa pessoa que eu vi é... uma de nossas irmãs de armas?

Shion temia que sua voz soasse alegre se ele dissesse algo, e sabia que isso seria desrespeitoso para com o rapaz. Por isso limitou-se a respondeu com um lento movimento de cabeça.

Seu interlocutor fechou os olhos e murmurou algo que Shion entendeu como "que vergonha". Depois, voltando a fitá-lo, o cavaleiro disse sério:

- Mestre, eu juro que não tive a intenção. Eu havia acabado de despertar e ainda me sentia muito mal. Levei algum tempo para conseguir coordenar meus pensamentos. Cheguei sim a imaginar que aquele poderia ser um rosto que eu não tinha o direito de ver, e assim que essa possibilidade me ocorreu eu tornei a fechar os olhos. Voltei a desmaiar pouco depois disso.

- Eu compreendo, filho - Shion disse no tom paternal que lhe era peculiar. Já não se sentia mais alegre.

- O que vai acontecer agora? - o rapaz indagou com nítida preocupação.

"Darei a você a mesma resposta que dei à sua futura esposa", Shion decidiu. E assim o fez:

- Nós voltaremos a conversar em breve.

Sabendo que o jovem que tinha diante de si não ousaria pedir-lhe maiores esclarecimentos - bem ao contrário do que Shaina teria feito -, Shion não se apressou em afastar-se dele. Ainda ficou ali por mais alguns minutos, conversando sobre assuntos variados, numa tentativa de distrair seu interlocutor.

Após despedir-se dele, Shion retirou-se do quarto e pôs-se a procurar a saída do hospital. Encontrou-a, e logo sentiu a morna brisa noturna agitar muito levemente seus longos cabelos.

Agora havia um certo vazio dentro dele. Quisera tanto poupar Mu do que seguramente seria uma união infeliz... e conseguira-o. Chegara a se sentir exultante quando o cavaleiro que interrogara pouco antes lhe dissera exatamente o que ele desejava ouvir. Porém, logo percebera que seu contentamento não era justo.

"Talvez nem tudo esteja perdido para ele. Ainda quero fazer mais algumas averiguações. Tenho que me certificar de que realmente ninguém a viu antes dele", Shion pensou. Entretanto, sabia que seria difícil comprovar algo assim. Shaina, sem imaginar o que lhe esperava, fora bastante franca com ele e certamente teria mencionado qualquer outro homem com que porventura tivesse se deparado. Restava ainda a possibilidade de que alguém mais além de Afrodite a tivesse visto à distância. Isto porém era bastante difícil de se comprovar. Ainda que algum homem lhe fizesse um relato semelhante ao do cavaleiro de Peixes, como Shion poderia saber se ele avistara Shaina antes ou depois de a face dela já ter sido vista pelo cavaleiro que ela ajudara?

Pobre Shaina... seria castigada por ter tido um gesto altruísta para com um colega, o qual ela bem poderia ter deixado entregue à própria sorte se quisesse. Afinal, em tese cada cavaleiro era responsável por si mesmo e a única obrigação que todos tinham era a de proteger Athena, e não necessariamente uns aos outros. A amazona demonstrara ser solidária, mas isto desafortunadamente seria usado contra ela.

Suspirando, o Mestre do Santuário se disse novamente que precisava fazer mais averiguações. Todavia, não tinha grandes esperanças de descobrir algum fato novo. O mais provável era que tivesse de informar a Athena que Shaina já tinha um noivo. "E infelizmente, este noivo terá de violar a própria consciência para se casar com Shaina, pois ele considera condenáveis os casamentos de cavaleiros", Shion lamentou, recordando outra vez o movimento que Camus de Aquário apoiava.


Capítulo escrito entre 27 e 28 de dezembro de 2008.

NOTAS: Até pensei em dividir este capítulo em dois, porque achei-o meio longo. Porém, eu não quis fazê-los esperar ainda mais pela revelação do nome que vocês desejavam saber. Aí está ele.

Caso vocês queiram postar algum comentário, gostaria de lhes pedir um favor: não citem o Camus. Por quê? Porque muitas pessoas (inclusive eu mesma) têm o costume de ler reviews antes de ler a fic propriamente dita. Se vocês mencionarem o nome do "noivo compulsório" da Shaina, isto será um spoiler, coisa que desagrada a muitos leitores e acaba com o suspense da história. Obrigada por sua compreensão!

Como vocês viram, o capítulo anterior acabou não sendo o último de 2008, ao contrário do que eu havia previsto. Mas este aqui será o último mesmo. No ano que vem vocês verão como Shaina vai reagir à notícia de seu futuro casamento forçado. Não percam!

Camus: Algo me diz que eu deveria perder isso, para o meu próprio bem.

Vane: Sinto muito, meu caro. Mas sua participação é indispensável a esta fic.

Camus: Era o que eu temia...

Enquanto o próximo capítulo não chega, desejo a todos vocês um excelente Ano Novo! Sim, eu já fizera votos semelhantes no capítulo anterior, mas achei que não custava nada repetir a mensagem. :-)