ATENÇÃO!

ESSE CAPÍTULO CONTÉM CENAS DE INSINUAÇÃO SEXUAL! A CENA ESTÁ EM ITÁLICO POR SER PARTE DE UM FLASHBACK!

Dana


A Senhora dos Mares

Capítulo 3

A Meretriz e o Pirata

A surpresa de Lily não foi suficiente para suprimir sua curiosidade, ela imediatamente concordou em acompanhá-lo. Apenas mais tarde pensaria no quanto seu pai lhe diria se soubesse que sequer suspeitara da inocência daquele convite.

Ela e Potter caminharam até a proa, Potter à frente. O ar estava frio e o vento aumentava aquela sensação térmica, assim como deixava o oceano bravio, chocando-se brutalmente contra o casco da embarcação.

O Capitão depositou sua lamparina sobre a amurada e observou a água com uma expressão séria que somente conseguiu atiçar a curiosidade da ruiva. Ela decidiu não pressioná-lo temendo uma reação adversa a seus interesses; assim apenas se postou ao lado do homem e passou a observar o céu sem estrelas.

Os segundos se estenderam em minutos lentamente. Lily já se impacientava com Potter quando ele finalmente se manifestou:

- Eu sei quem é o homem que procura.

A reação dela foi imediata.

- O quê?

- Black e Lupin também sabem – ele continuou, em momento nenhum a fitando. – Assim como a grande maioria dos homens dessa tripulação. O Potter que você procura era meu pai, o antigo Capitão do Esmeralda.

Ele deu à ruiva alguns segundos para assimilar suas palavras.

- Remus e Sirius quiseram dizer a você, mas esperaram minha autorização. Eu adotei a fama do meu pai quando assumi o navio, isso já havia trazido muitas consequências para mim, mas é a primeira vez que não tomo uma de suas atitudes como minha. Eu nunca precisei deixar de ser meu pai, mesmo quando fui acusado de roubo, assassinato e traição no lugar dele. Mas a história que você contou, senhorita, eu não posso assumir tanto por uma questão temporal quanto por uma questão moral. – Ele sorriu levemente para as ondas ferozes. – É irônico que ainda hoje pela manhã tenhamos discutido a moral de um pirata, a minha moral.

Lily continuou encarando o perfil do homem, sedenta por suas palavras.

- Não sei por onde começar – confessou. – Talvez deva contar minha própria história, talvez deva contar a de meu pai, ou mesmo a do Esmeralda. E ainda que eu lhe faça passar toda a noite e o dia que está por vir, ouvindo-me, é possível que não compreenda. Meu pai nunca fez sentido para mim, não posso esperar que ele faça para a senhorita.

- O senhor pode tentar – ela murmurou em incentivo.

- Há, claro, a possibilidade de que a senhorita morra de frio durante meu discurso – ele disse em tom de brincadeira, fazendo-a sorrir. – Então é melhor que busquemos uma manta bem quente antes de continuarmos. Se quiser que continuemos, claro.

- Eu quero – garantiu.

Minutos mais tarde, com uma manta feita de retalhos sobre os ombros, Lily se postou no mesmo lugar de antes para ouvir o Capitão.

- Acho que vou começar pela metade da história – ele anunciou, entregando à moça um copo de rum e recebendo de volta um olhar questionador. – É para aquecer.

James tomou um gole de seu próprio copo e inspirou.

- Oito anos atrás, o antigo Capitão do Esmeralda, Ulisses Potter, ouviu falar de um garoto que podia ser sua imagem no espelho quando criança. Não sei que motivos o levaram a procurar por mim, mas ele o fez. Meu pai me encontrou na casa de minha mãe, morávamos sozinhos, ela era um senhora viúva há mais de um ano e eu um garoto de quinze anos que vivia como podia. Depois de uma semana me observando de longe, ele apareceu em nossa casa afirmando que me levaria consigo, que eu seria o herdeiro de seu legado na pirataria. Minha mãe implorou que ele não me levasse, mas ele nunca ouviu ninguém senão a si mesmo, de modo que foi em vão. Fui levado para o Esmeralda e aqui permaneço desde então.

- O que aconteceu a ela? – interrompeu Lily, sem se conter.

- Morreu menos de um ano depois. Sem o marido e o filho, ela adoeceu e definhou de tristeza até seu último dia. Voltei lá há alguns anos e soube de tudo por uma velha vizinha.

- Sinto muito.

- Eu sei que sente. Eu também sinto pelo que aconteceu a sua família. Creio que tenha sido pior com a senhorita. – Ele tornou a bebericar o rum. – Foi através disso que eu encontrei minha verdadeira vocação. Descobri que não havia nada mais que eu desejasse ser, exceto um pirata. E levei uma vida relativamente fácil graças à posição de meu pai como Capitão do barco.

- Você gostava dele? Do seu pai?

- Não sei. Era meu pai, apesar de tudo. Me ensinou cada pequena coisa que sei sobre pirataria e desde que me encontrou não permitiu que nada me faltasse. Mas não sei se gostava dele. Eu o admirava, certamente, era um grande Capitão, mas não era fácil de lidar. – Potter pigarreou e lançou um olhar de soslaio que captou a expressão pouco convencida dela. – Minha mãe nunca mentiu para mim, eu sempre soube que não era filho de seu marido, Derek Prienstone. Quando eles se casaram, ela já estava grávida. Derek a amava, todavia não posso dizer que foi um pai para mim, então sempre imaginava como seria o meu pai de verdade. Como seria sair para pescar e ouvir histórias, essa bobagens de garoto. Confesso que quando meu pai apareceu, fiquei contente. E mesmo depois que ele me tirou de casa, continuei tentando parecer digno, um bom filho de pirata. Mas o Capitão nunca foi o pai que eu procurava, era um homem fechado, sério e prático. Não fazia o tipo que elogia seus acertos, apenas aquele que corrige seus erros, o que é bom num Capitão, mas não num pai.

Lily suspirou, cheia de pena. O modo sério como ele contava a história, atendo-se exclusivamente aos fatos, não a enganava. Podia sentir seu ressentimento, podia ver como ele tentava ser exatamente como o pai enquanto Capitão, mas como era inevitavelmente mais brincalhão e bondoso, principalmente na presença dos amigos. Era inevitável não sentir uma onda de ternura invadi-la enquanto o observa.

- O senhor é diferente dele – disse Lily, fazendo-o finalmente fitá-la.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, em seguida voltou seu olhar para o mar.

- Eu imagino que o que aconteceu com sua mãe talvez tivesse acontecido com a minha, se ela tivesse resistido a ele. Mas minha mãe amava Ulisses Potter, mesmo sabendo que era apenas um pobre pirata. Ela me contou como se apaixonou e como eles viveram um caso longo o suficiente para me conceber. Ele obviamente a abandonou. E ela tentou salvar sua vida e a minha, casando-se com Derek.

- Ela teve sorte em conseguir – murmurou Lily. – Não conheço um homem sequer que teria coragem de se casar com uma mulher que já tivesse sido de um pirata e muito menos que esperasse um filho de um pirata.

- Certamente – ele concordou com um sorriso que a ruiva não conseguiu compreender. – E isso foi há mais de vinte e três anos atrás, mais de nove meses antes de eu nascer, o começo de toda a minha história.

"Muito deve ter acontecido nos anos seguintes a ambos, mas eu não tenho esse conhecimento. Como disse, meu pai nunca foi um grande contador de histórias e minha mãe se foi antes que eu pudesse perguntar. O que eu sei é o que os homens daqui me disseram quando cheguei: há cerca de onze anos houve uma rebelião no navio. O Capitão foi morto e meu pai, o líder da rebelião, assumiu sua posição e renomeou o navio. Esmeralda é o terceiro nome que essa embarcação recebeu, dois anos depois da rebelião."

- Por que ele deu novos nomes a um navio pirata? – perguntou Lily. – Ele poderia ter feito como você e se aproveitado da fama do Capitão anterior.

- Poderia. Mas meu pai queria fazer sua própria fama e seu sobrenome era Potter, não Lake. Além disso... – Ele parou, imaginando a melhor forma de dizer o que viria a seguir. – Como eu disse mais cedo, seu conhecimento de pirataria é muito limitado, senhorita. Existem certas regras que valem para os piratas. Por exemplo, o novo Capitão pode ser definido de várias formas. Pode ocorrer uma rebelião dentro do navio e o líder dessa rebelião deverá se tornar o novo Capitão ou escolhê-lo, como aconteceu com meu pai; o filho do Capitão anterior pode assumir a posição, contanto tenha sido devidamente anunciado, como aconteceu comigo; e, o mais comum, o Capitão pode escolher seu sucessor e anunciar no primeiro dia do outono, o anúncio passa a valer se o Capitão deixar o navio para sempre. Se ele não fizer o anúncio, o barco deverá ser abandonado, pois não pertencerá a ninguém.

- O que acontece se essas regras forem quebradas? – questionou Lily.

James riu.

- Elas não podem ser quebradas, senhorita. Mesmo que aparentemente possa haver um Capitão de outro modo, a sua legitimidade só se dá dessas formas. Por exemplo, se nós dominássemos um barco pirata e eu determinasse que Lupin fosse seu Capitão, Remus não seria o legítimo Capitão.

- Não entendo – tornou a dizer. – Qual o problema de ser um Capitão ilegítimo?

James arregalou os olhos para ela.

- O problema? Ora, senhorita, um barco em que não há um Capitão legítimo não pode navegar – murmurou ele, quase num sussurro. – Um barco sem Capitão legítimo desperta a ira d'Ela.

- Ela? Quem é Ela? – perguntou Lily. – Que mulher poderia ter tanto poder sobre os piratas?

James meneou a cabeça, como se fosse inaceitável que alguém não soubesse d'Ela e de seus feitos.

- A Grande Rainha, a Senhora dos Mares, a Deusa – respondeu ele respeitosamente. – Ela governa os sete mares com suas delicadas e justas mãos. Cada pirata, marinheiro e pescador é regido por Ela. Se as regras não forem cumpridas, Ela se encarrega das punições. E a Grande Senhora é justa, mas nunca clemente, tem sede de sangue e pode ser absolutamente cruel.

- O senhor quer dizer que há uma deusa além do meu Deus que afunda barcos que não seguem essas tais regras? – Lily disse, cheia de ironia. – Diga-me, Capitão, Ela faz isso pessoalmente ou usa seus apavorantes monstros marinhos?

Potter olhou-a com horror.

- Existe muita coisa de que a senhorita não tem conhecimento. Eu não arriscaria tratar a Rainha dos Mares com desrespeito em seu domínio – disse o homem.

- Certo. Diga-me, então, Capitão, por que os navios da Marinha não são afundados pela Grande Rainha quando seus Capitães mudam de forma ilegítima?

- Eles são. Quantos barcos da Marinha desaparecem subitamente? A culpa é sempre posta em piratas ou na revolta do mar. Além disso, algumas das regras deles são diferentes. No entanto a senhorita está certa. A pirataria tem tomado os mares porque a Marinha se esqueceu de respeitar a Senhora dos Mares.

Lily refletiu por alguns segundos. Aquilo era verdade, os piratas haviam crescido nos últimos anos, enquanto a Marinha havia diminuído.

- Ainda assim – disse a ruiva. – Qual o sentido dessas regras? Qual o sentido dessas punições?

- Não é óbvio? Garantir que os Mares e a Rainha sejam respeitados. Não permitir que os homens do mar subestimem sua autoridade e poder.

Para Lily, não havia mais como discutir. Por mais que não fizesse sentido uma poderosa criatura como aquela existir fora de seu conhecimento, não havia mais argumentos que pudesse usar. Tampouco conhecimentos a respeito da pirataria que pudesse invocar.

- Certo. Qual é o ponto?

- Eu... – disse James, baixo. – Nem consigo me lembrar de como chegamos a esse assunto.

- Falávamos sobre seu pai – disse Lily. – Sobre como ele desejava fazer sua própria fama como pirata.

- Ah, sim. A senhorita perguntou o porquê de alterar o nome de um navio. Bem, Lily, uma das regras entre os piratas é que o Capitão é a autoridade dos tripulantes de seu navio em qualquer aspecto de suas vidas. O que é estabelecido por um Capitão passa a ser obrigatoriamente seguido por seus marujos. Chamamos isso de normas e elas se justificam pelo fato de que um Capitão tem o direito natural de manter a fama de seu navio como preferir. As normas só podem ser mudadas quando o Capitão muda, ou o nome do navio é alterado, num ritual simples que exige um item extremamente raro. Mas isso não vem ao caso.

- Se entendi corretamente, senhor, seu pai alterou o nome dessa embarcação duas vezes para mudar as normas de acordo com as regras da Senhora dos Mares?

- Sim.

- Por Deus, quanta burocracia – murmurou Lily

- Se preferir chamar assim – disse ele, divertido ante a expressão da ruiva. – Não sei especificar quais alterações foram feitas nas normas, mas posso garantir que algo mudou. Descobrimos quando somos impelidos a fazer alguma coisa ou mesmo impedidos.

- Impedido? Pela Rainha dos Mares?

- Não, Ela não precisa garantir a execução das normas pessoalmente. Seu poder é suficiente.

- O senhor já tentou fazer algo contra as normas?

- Sim – respondeu, observando-a com curiosidade. – Obviamente não fui bem sucedido.

- E como se sentiu? O que o impediu?

- Eu mesmo me impedi. É como se houvesse uma súbita consciência de que aquilo é incorreto, como uma força maior que te leva na direção contrária, mas ela não está fora, está dentro de mim. É o poder da Grande Rainha.

Lily ficou em silêncio por alguns segundos.

- Continue, por favor.

- Eu passei a maior parte de hoje tentando descobrir onde sua história se encaixava na vida do meu pai e tudo o que pude concluir foi que tudo o que me contou deve ter ocorrido alguns meses antes do Esmeralda ser assim nomeado, numa longa temporada que meu pai passou em terra, pouco antes de me procurar. Cerca de nove anos atrás.

A expressão triste que tomou conta do rosto arredondado da moça teria sido suficiente para que Potter soubesse que estava certo, mas ela fez questão de menear a cabeça em confirmação. Eles ficaram em silêncio por mais alguns segundos, dessa vez ela olhava para o mar e James fitava seu perfil.

- Isso provavelmente confirma que foi ele quem causou sua desgraça – disse o pirata por fim. – Você o encontrou, Lily.

- Não – ela negou, virando-se para ele com obstinação. – Ainda não tive a oportunidade de olhar em seus olhos e dizer o quanto ele fez eu e minha família sofrermos. Não pude castigá-lo por sua crueldade e egoísmo.

- A senhorita nunca poderá – disse James.

Lily sorriu sem alegria.

- Entendo que o senhor prefira não revelar a localização de seu pai, Capitão, mas fiz uma promessa a mim mesma há alguns anos e não sossegarei enquanto não cumpri-la. Ulisses Potter vai saber o que me fez, ou morrerei tentando.

James a fitou com curiosidade. Era impressionante a obstinação que Lily demonstrava ter. Era quase lamentável que não tivesse chance de alcançar seu objetivo.

- A senhorita felizmente jamais terá a oportunidade de sujar suas mãos com sangue pirata – recomeçou o Capitão –, porque meu pai está morto há cinco anos.

Lily segurou-se à amurada com tanta rapidez que esbarrou na lamparina. O objeto girou no ar antes de apagar e desaparecer em meio à espuma que cercava o Esmeralda.

- Morto? Como pode estar morto?

- Como qualquer outra pessoa, senhorita – respondeu cautelosamente, temendo que ela tivesse uma nova síncope. – Pouco depois de eu fazer dezoito anos, meu pai me fez Capitão e desapareceu.

- Ele pode estar vivo, então – disse Lily, a voz irremediavelmente esganiçada. – Pode estar em algum lugar por aí.

- Não, senhorita – murmurou James, com pena do desespero dela. – Ele desapareceu quando atravessávamos o Pacífico. Estávamos em alto mar, há muitas milhas da ilha mais próxima, e os dois pequenos botes do navio continuavam em seus lugares. Ulisses Potter partiu, creio que por vontade própria, para o território de Davy Jones.

Lily não se deu ao trabalho de perguntar sobre Davy Jones. Procurava desesperadamente uma brecha no que lhe fora dito, mas não era capaz de encontrar. Por mais que pudesse haver uma Deusa dos Mares, regras e normas de que ela não tivesse conhecimento, um homem não poderia sobreviver sem um barco no meio do oceano que separa a Inglaterra da América.

- Eu sinto muito, senhorita Lily, por ter vindo tão longe para descobrir que seu objetivo não existe mais há cinco anos. Mas a senhorita é jov...

- Capitão – a ruiva o interrompeu, fitando-o firmemente. – O senhor responderia a uma pergunta minha antes de irmos nos deitar?

- Claro.

- Por que, senhor, se a Grande Rainha é tão justa, os piratas ainda andam pela terra e pelos mares fazendo coisas terríveis às pessoas?

James a encarou enquanto recebia o copo de rum intocado de volta e pensou por alguns segundos.

- Eu não sei – respondeu. – Talvez ela não julgue quem é bom ou mal, apenas quem tem o direito a navegar por seus domínios.

- A mim parece que essa Deusa é uma criatura feita somente de egoísmo e vaidade, incapaz de usar seus poderes para algo realmente útil ou minimamente bom – disse Lily, antes de virar-se para retornar aos aposentos do Capitão.

Ele não a impediu. Permaneceu quieto observando o lugar por onde ela havia desaparecido, os dois copos de rum ocupando as mãos, o chapéu ameaçando cair ante a força do vento. Até que as primeiras gotas de uma suave chuva começaram a se chocar contra seus ombros.

xxxXXxxxXXxxxXXxxx

Lily chegou à cabine do Capitão já com os olhos cheios de lágrimas. Trancou a porta com agressividade e se lançou contra as cortinas azuis para desabar na cama.

Não compreendia realmente o que sentia naquele momento, era uma mistura de alívio e frustração. Por um lado, estava livre daquela vingança, por outro, o maldito pirata havia partido do mundo dos vivos sem saber do mal que lhe causara e tampouco pagar por ele.

Sua mãe não seria vingada, mas não seria por sua culpa.

Então, por que aquele vazio angustiante?

Estava livre para retornar a Sunset Ville e seguir sua vida. Poderia se casar e levar uma vida modesta e feliz, junto de seu pai, Charlotte, Petunia e pelos menos cinco filhos. Tudo o que sempre quisera.

Ulisses Potter pagaria por seus pecados num outro lugar. Certamente queimaria no inferno por toda a eternidade.

Enquanto as lágrimas secavam e a ruiva tentava controlar os soluços que faziam tremer todo o seu corpo, uma possibilidade lhe passou pela cabeça. E se aquele vazio significasse que ainda não havia terminado o que viera fazer? Se fosse seu coração querendo lhe dizer algo que seus olhos não conseguiam enxergar?

A voz de seu pai ecoou em sua mente de maneira quase nostálgica.

Nunca confie em piratas, Lily.

Ela se sentou na cama de súbito, empurrando a manta que havia esquecido sobre seus ombros e limpando as marcas das lágrimas em suas bochechas.

E se Potter estivesse mentindo? Não em tudo, apenas na parte da história em que Ulisses havia desaparecido em meio ao oceano para sempre. E se fosse uma mentira para proteger o pai, para garantir-lhe uma velhice segura? Era um pirata, afinal. Enganar era o que fazia de melhor.

A ruiva voltou a deitar-se na cama e fitou o teto de madeira. Tinha que averiguar. Não podia ir embora sem ter certeza. Seria... Uma ofensa à memória de sua mãe.

A capacidade de Lily de encontrar brechas nos mais decisivos argumentos teria feito dela uma grande advogada.

xxxXXxxxXXxxxXXxxx

A manhã seguinte não mostrou nenhum resquício da garoa noturna; o sol se levantou forte e imponente, parecendo decidido a secar todo o oceano com seu calor.

Lily observou o fim do trabalho dos piratas na transferência de carga de um barco para o outro e, ignorando o fato de ser tratada como um fantasma, decidiu usar as dezenas de laranjas que haviam sido roubadas para fazer um suco.

O calor pareceu abrandar o medo dos piratas, que aceitaram a bebida chegando até mesmo a fazer gestos afirmativos com a cabeça, o que Lily considerou um tipo de agradecimento.

- É uma boa ideia – disse Remus, sentando-se ao lado da ruiva. – Existem poucas coisas melhores do que comida e bebida para conquistar piratas.

Lily sorriu, deixando a jarra onde espremia as laranjas de lado. Lupin, ela havia notado, não mentira ao dizer que era evitado pelos outros piratas.

- O senhor devia tentar – disse ela, indicando as frutas.

- Infelizmente herdei de meu pai uma impressionante inabilidade manual – disse o homem, sorrindo. – Não conseguiria cozinhar nem mesmo para salvar minha própria vida. Além disso, ideias como essa nunca vem de homens.

- Vou tomar isso como um elogio – falou Lily, cortando uma nova laranja. – Ainda não entendo o porquê dessa atitude, senhor Lupin. Com o senhor, quero dizer.

- Ora, Lily, não me faça implorar que me chame de Remus – disse ele, descontraído. – Sobre os homens, digamos que eles têm bons motivos para me tratar assim.

Ela fitou-o com curiosidade, mas a expressão do Primeiro Imediato não encorajava o assunto. Em poucos dias, Lily havia percebido que piratas se comunicavam muito mais por ações e expressões que por palavras.

- James me disse que contou tudo a você – recomeçou o pirata. – Disse que saiu bastante transtornada quando soube que o velho Capitão Potter estava morto.

- Foi um grande choque.

- Eu imagino. Mas você parece bem, agora.

- Não adianta chorar sobre o leite derramado, é o que diz minha irmã.

- E está muito certa – disse ele com entusiasmo.

Eles se calaram por alguns minutos, durante os quais Lily espremeu mais algumas laranjas.

- Já decidiu o que vai fazer agora? – perguntou Lupin.

- Eu não sei – disse ela lentamente, erguendo o rosto para encará-lo. – Sei que o Lady Tiocvari está partindo e que minha presença não está nem perto de ser bem-vinda aqui, mas não consigo decidir o que fazer, me sinto tão perdida.

- Sua presença é muito bem-vinda aqui. E se continuar nesse ritmo – ele indicou os bagaços de laranja –, certamente será ainda mais e em pouco tempo.

Ela riu, usando um pouco de água doce para lavar as mãos e molhar o rosto. Ergueu os cabelos espessos e tornou a prendê-los num coque malfeito com alguns grampos. Suas bochechas já estavam vermelhas pela exposição ao sol, mas suas pequenas sardas ainda eram muito visíveis.

- Não quero que tome nenhuma decisão agora, Lily – disse Remus calmamente. – Mas se está perdida, o mar é um bom lugar para tentar se encontrar. Pode permanecer conosco até quando quiser. Só tome cuidado para não ser seduzida pela pirataria.

Ela riu.

- No que está pensando? – perguntou o pirata.

- Estou pensando no que meu pai diria sobre isso – respondeu, franca. – Ele sempre me disse para manter distância de piratas e agora eu estou aqui, cogitando permanecer com alguns deles depois de descobrir que meu plano de matar um homem fora executado com um atraso de cinco anos.

Remus gargalhou.

- Nós não somos tão ruins quanto você imaginava, somos?

- Por enquanto, não – Lily respondeu. – E eu gostaria de saber por quê.

- Estou lhe dando a chance – disse ele. – Uma temporada estudando os piratas. Se decidir voltar, talvez escreva um livro sobre nós.

- Pensarei sobre isso – garantiu, erguendo-se. – Agora, se me dá licença, tenho que fazer aquele anão aceitar um pouco de refresco.

Naquela tarde, o Lady Tiocvari partiu. Lily viu Sirius observar seu barco diminuir no horizonte por um bom tempo. Depois disso, o pirata se juntou a Potter e Lupin na sala do Capitão para discutir a direção exata que tomariam.

A ruiva aproveitou a ausência deles para conhecer a cozinha do barco. O lugar era relativamente grande, repleto de caixas, panelas, colheres de vários tamanhos e panos pendurados. Havia uma enorme mesa no meio e, ocupando todo um canto, um fogão à lenha grande o suficiente para comportar três imensos tachos.

Quando ela chegou, o fogo estava sendo aceso e por isso o cômodo estava repleto de fumaça. O anão e um homem alto de barba ruiva cerrada, que ela acreditava se chamar Rupert, preparariam o jantar.

Lily viu seus dias de trabalho na taverna serem úteis quando selecionou algumas verduras para fazer uma sopa. Reuniu coragem por longos minutos para sugerir o prato. Felizmente – talvez graças ao refresco de mais cedo – o anão foi bastante receptivo à sua sugestão, assim como o homem.

Rupert mostrou-se excelente na hora de descascar, o que atribuiu aos dias descascando batatas num outro navio pirata onde fora cativo, e rapidamente dois tachos se encontravam fervendo sobre o fogão, desprendendo um cheiro bastante agradável.

- Má sorte, hã? – disse Sirius quando desceu as escadas até a cozinha. – Não temos uma comida como essa desde que Thruman morreu em batalha.

- Creio que uma noite sem afundarmos pode ter ajudado a me aceitarem melhor – disse Lily, que jogava diversos panos imundos numa cesta para que fossem lavados.

- Piratas manhosos, é o que são. Bastam alguns mimos e já tratam qualquer um bem – declarou em tom de brincadeira. – E quanto à senhorita? Pensei que tinha dito para não se atrever a descer até aqui.

- Não vi mal algum em auxiliar esses exímios cozinheiros – respondeu. – Além do mais, tenho que conhecer todo o navio se for permanecer com os senhores.

- Isso é uma resposta definitiva?

- Ainda não.

A sopa foi muito bem recebida no jantar. Os homens comeram muito e beberam pouco rum, acabando por dormir mais cedo que de costume. Lily, fatigada pelo dia cansativo, também se recolheu cedo.

O sol da manhã seguinte ergueu-se novamente implacável.

Logo que Lily se levantou, Remus foi vê-la em seus aposentos com queijo e frutas. James e Sirius vieram logo para saber qual era a decisão final dela, pois rumavam agora para um conhecido porto pirata chamado Big Turtle.

- O tesouro que procuramos tem certa urgência – disse Sirius, dando uma dentada num pêssego, mastigando lentamente e por fim engolindo. – Precisamos saber sua decisão para executar nossos planos.

- O que vão fazer em Big Turtle? – perguntou Lily, confusa e internamente irritada com o número de informações que lhe eram omitidas.

- Visitar um velho amigo – respondeu Lupin. – Um que vem nos ajudando a encontrar o... Tesouro há um bom tempo.

- E então, senhorita, fará parte da nossa tripulação por algumas semanas?

- Não quero ser um estorvo – ela disse, erguendo a mão para calar Sirius quando ele abriu a boca para replicar. – Mas gostaria de permanecer com os senhores por mais algum tempo, se for possível.

- Ótimo – declarou Sirius, batendo a mão fechada na mesa. – Com sorte chegaremos em três dias a Big Turtle.

- Mas – interrompeu Lily – quero saber a verdade. Se sou parte da tripulação, tenho o direito de saber sobre o tesouro que vamos procurar.

Os três piratas se entreolharam. Por fim, Sirius e Remus olharam para James, indicando que a decisão seria dele.

- Não vejo mal em contar-lhe. É até melhor que saiba na loucura em que está se metendo. Se tudo der certo, estaremos mexendo com coisas grandes demais, coisas muito além do nosso controle.

Lily aguardou em silêncio. Dessa vez James olhou para Remus, que fez um gesto de confirmação com a cabeça e se levantou da mesa.

- Se puder me acompanhar, Lily, há uma parte da minha história que não fui capaz de contar-lhe.

Ela acompanhou-o, curiosa. Mal haviam alcançado o corredor e o pirata começou a falar.

- Há mais de setenta anos, meu avô estava numa velha taberna na antiga Big Turtle bebendo e jogando cartas...

Haviam passado cinco meses no mar, aquela era sua primeira noite em terra. Tudo havia dado errado em sua última viagem, haviam enfrentado uma grande tempestade, perdido três homens, sido desviados do curso, não conseguiram chegar à Ilha das Sereias e voltavam cansados e sem dinheiro. Tudo o que os piratas queriam era bebida, mulheres e descanso.

John Lupin não era exceção. Estava sentado numa mesa com dois companheiros e tinha duas mulheres, uma em cada perna, oferecendo-lhe rum e disputando sua atenção. As duas acreditavam que aquele grupo pirata tinha um imenso tesouro, nem imaginavam o fracasso que fora sua última missão. Lupin não pretendia contar até o dia seguinte, quando estivesse saciado e sóbrio o suficiente para fugir.

- É verdade – murmurava a garota da esquerda (ou era a da direita?) enquanto escorregava a mão habilidosa por cima da dele, conduzindo-o até uma de suas pernas, mas impedindo-o de ultrapassar seu joelho – que o seu navio possui o maior tesouro de toda a costa inglesa?

Ele sorriu, malicioso. Mesmo mulheres como ela precisavam ser seduzidas para fazerem um bom trabalho.

- Ora, doçura – respondeu com a voz rouca, parando para um enorme gole de rum. – O meu navio é o mais rápido de todos os mares, não tivemos nenhum problema para passar pelos Penhascos da Perdição e chegar à Ilha das Sereias...

A outra moça puxou seu queixo com delicadeza, mas ele não fitou seus olhos, rumou diretamente para o decote generoso, onde saboreou a maciez da pele dela sem nenhuma gentileza.

- E nessa ilha vocês procuravam o quê? – a voz dela vinha abafada enquanto acariciava seus cabelos, as unhas longas lhe causando arrepios.

Lupin subiu devagar pelo pescoço dela, até chegar ao seu ouvido.

- Já ouviu falar de Matt Dickenson? – perguntou.

A outra moça puxou seu rosto e ele sorriu. Havia preferido a loira desde o início, apesar de a ruiva ter seios maiores. Era hora de dispensar a outra, afinal não poderia fugir das duas no dia seguinte.

Lupin empurrou a ruiva de seu colo e ela caiu sentada no longo banco de madeira. Sem se abalar, ela virou-se para o pirata do seu outro lado e lançou seu melhor sorriso. O homem fitou seu decote maliciosamente e ela deslizou os dedos por entre as coxas dele.

- Soube que Dickenson era muito fogoso – disse a loira e Lupin parou por alguns instantes para encará-la. O rosto delicado e alvo cintilava rouge, o pescoço estava marcado por seus beijos e mordidas, o decote estava torto. Ela continuava linda. Queria beijá-la, satisfazê-la, guardá-la de todo o mal. – Dizem que sabia como levar uma mulher aos céus.

Lupin segurou a cintura da moça e puxou-a para si. Ela não se surpreendeu, puxou o vestido um pouco para cima e passou uma perna de cada lado dele.

- Qual o seu nome? – perguntou Lupin.

- Vem até mim há anos e hoje decidiu perguntar meu nome? – questionou ela, divertida.

- Estive envergonhado demais diante de sua beleza para perguntar antes – mentiu. – Talvez o rum tenha me feito mais desinibido.

- Oh – ela disse sorrindo-lhe. – Não me constranja com tão belos galanteios.

- Então me dê o prazer de saber o seu nome,

- Meu nome é Elise, John Lupin.

- Elise – ele disse. – Gostaria que eu lhe levasse aos céus, Elise?

Ele teve a impressão de ver algo triste em seus olhos, como a sombra de um grande sofrimento, mas rapidamente se esqueceu.

- Quer dizer que pode fazer o mesmo que Dickenson? – a loira perguntou, puxando o cordão que prendia a calça dele com habilidade.

- Você me dirá – respondeu, enfiando as mãos embaixo das camadas de saia que ela vestia e puxando-a contra si pelas coxas.

Ela se levantou e ele a acompanhou. Sabia que Elise os levaria para trás de uma das cortinas vermelhas do andar superior.

Mal alcançaram o lugar, ela o empurrou por cima de uma cama de feno rústica e se sentou sobre sua barriga.

- O que quer que eu faça, Lupin? – ela perguntou, inclinando-se sobre ele.

- Mostre-me o que sabe fazer.

Ela sorriu. Ele tirou a própria camisa para aliviar o calor, ela desceu os lábios beijando o peito e a barriga dele. Parou pouco abaixo do umbigo dele e tornou a se sentar, agora sobre suas cochas, fitou-lhe enquanto passeava suas mãos por cima de sua calça e observou a expressão de deleite do pirata quando o estímulo foi feito no lugar certo. Elise movimentou-se mais rápido, sempre observando o rosto de Lupin e parou quando os gemidos dele já eram constantes.

- Não pare – ele implorou, abrindo os olhos.

Ela tornou a deitar-se sobre ele, divertida.

- E quanto à minha parte do trato? – ela perguntou.

Lupin rolou por cima dela com força, fazendo-a soltar um gritinho de susto. Ajoelhou-se entre suas pernas, empurrou as saias para cima sem cuidado. Elise se sentou, puxando seu rosto para um beijo. John ficou estático. Não era comum que mulheres como ela beijassem os lábios dos homens com quem estavam daquela maneira. Era tão doce e suave. Apaixonada, talvez. Mas mulheres como ela não podiam ter sentimentos.

Ele se afastou e fitou-a nos olhos, mesmo bêbado podia ver que ela gostava dele e que ele gostava dela.

- Eu não sei se posso fazer o mesmo que Dickenson – murmurou em tom de confissão, desarmado.

- Contanto que seja tão rico quanto ele era – disse Elise em tom de brincadeira.

Lupin a encarou, sério.

- Eu também não tenho dinheiro – sussurrou.

Isso foi realmente um choque para ela. Gostava dele, mas esperava ganhar algum dinheiro com aquilo. Suspirou.

- Podemos fingir que descobri depois – sussurrou. – Vou ter que estapeá-lo para ser convincente, mas pelo menos Bob não me vai pôr na rua.

- Por quê? – ele perguntou, incapaz de refrear-se.

- Não finja que não sabe – sussurrou Elise. – Agora faça.

A ordem dela foi obedecida. John mergulhou em seus cabelos loiros e suspirou seu odor doce de mulher. Tratou-a com tanta delicadeza quanto era possível para um pirata e aquela foi uma das poucas vezes em que Elise sentiu prazer no que fazia.

- Vamos roubar como nunca roubamos antes – ele disse à mulher, enquanto se vestia. – Conseguirei dinheiro suficiente para comprar uma casa e você não precisará mais disso para viver.

Ela sorriu, fazendo um novo laço nas amarras do vestido.

- Você sabe onde me encontrar.

Minutos depois John desceu as escadas correndo e abaixou-se quando um quadro pequeno voou em sua direção.

- Lupin, seu pirata maldito! – gritou Elise, correndo atrás dele. – Como pode não ter dinheiro?

Ele se forçou a manter a seriedade e virou-se para ela.

- Deu tudo errado na Ilha das Sereias – explicou, sabendo que seus companheiros seriam expulsos dali por também não terem dinheiro. – Não tenho nada!

Ela lascou-lhe um tapa que, em sua opinião, foi desnecessariamente forte.

- Desapareça daqui! Nunca mais quero vê-lo em minha vida!

Lupin saiu do bar rindo. Caminhou com tranquilidade pela pequena estrada que levava ao porto, mas antes que chegasse, viu o enorme barco negro que tripulava se afastando. Começou a correr e só parou quando encontrou um de seus companheiros, Bill.

- Eles foram embora! – gritou Bill. – Nos deixaram! Cheguei a tempo de ver Wiggs acenar dizendo que vai procurar uma tripulação capaz de encontrar um tesouro. FILHO DE UMA PUTA!

Lupin sentiu a cabeça girar e uma ira imensa se apossar dele. Estava só, sem nenhuma moeda, sem sequer um barco para tripular. O fracasso da missão, Elise, o barco se afastando... Tudo subitamente pareceu querer fazer sua cabeça explodir e seu estado de ebriedade não o ajudou a controlar suas palavras.

- MALDIÇÃO – berrou, fora de si. – MALDITOS SEJAM WIGGS E TODOS OS OUTROS! MALDITO SEJA O MAR QUE NÃO NOS DEIXOU ALCANÇAR AQUELA MALDITA ILHA! MALDITA SEJA A GRANDE SENHORA DOS MARES!

A última palavra que disse foi interrompida por uma imensa luz que veio de dentro das águas calmas. A luz diminuiu gradativamente, permitindo a Lupin a visão de uma mulher completamente nua que emanava uma suave cintilação azulada. Ela abriu os olhos e o mar ondulou agressivamente sob seus pés.

- Meu Deus – a voz de Bill, o maior de todos os descrentes, foi ouvida antes que ele disparasse correndo de volta para a cidade.

Por alguns instantes John acreditou que estava tendo uma alucinação ocasionada pela bebida.

- Quem – disse a mulher pausadamente, flutuando em direção a Lupin. Sua voz parecia vir de todos os lados, mas principalmente de dentro da cabeça do pirata – ousa. Amaldiçoar. A mim?

- John Lupin – ele ouviu sua voz dizer e arregalou os olhos.

- O que você é?

- Um pirata.

- Com que autoridade você despreza sua Senhora? – ela perguntou, pisando sobre no chão do porto silenciosamente.

- Culpo os Mares pela minha desgraça – ele respondeu de forma monótona, incapaz de refrear suas palavras. – Eles somente me têm trazido sofrimento e desgraça. Perdi meus companheiros, não encontrei tesouro algum, não posso ter a mulher que amo e o mar acaba de levar o lugar que chamei de casa nos últimos vinte anos.

A expressão dela manteve-se neutra.

- Terei que castigá-lo – disse com simplicidade. – Se acredita que o mar seja a causa de sua desgraça, não precisará mais dele.

John caiu de joelhos.

- Por tudo o que é mais sagrado, tenha piedade de mim, Grande Rainha – implorou, finalmente conseguindo controlar sua voz. – Não me mate.

Ela ignorou-o, erguendo os braços graciosamente.

- Eu amaldiçôo você e toda a sua linhagem, John Lupin – ela disse seriamente. – Amaldiçôo a sua presença em meus domínios. – Ela fechou os olhos e os barcos presos ao porto balançaram-se violentamente, chocando-se uns com os outros, o vento frio fez o pirata se arrepiar. – A cada lua cheia, se estiver sobre as águas, Jormungard, meu servo, irá pessoalmente engoli-lo ou afundar qualquer embarcação sobre a qual esteja.

A Senhora dos Mares tocou o ombro de Lupin e ele se viu obrigado a fitar seus olhos. As íris dela se tornaram amarelas, em seguida alaranjadas e finalmente vermelho vivo. John sentiu como se seu corpo já não fosse grande o suficiente para suportar o que continha e gritou de dor.

E de repente tudo havia desaparecido, restava apenas uma sensação úmida em seu ombro no lugar onde a Deusa havia tocado. Lupin olhou de um lado para o outro, confuso, e se levantou.

Fora amaldiçoado pela própria Rainha dos Mares.

Remus empurrou a camisa sobre seu ombro e mostrou a marca dos quatro dedos da Deusa. Vermelha, como se tivesse sido feita a ferro quente, a cicatriz fez os olhos de Lily arderem.

- E foi assim que me tornei um homem amaldiçoado – finalizou Lupin. – A cada lua cheia, Jormungard me procura a mando da Grande Senhora, de modo que eu tenho que estar em terra para não matar toda a tripulação do Esmeralda.

- Mas não é justo – horrorizou-se Lily, até então calada. – Você está pagando pelo erro de seu avô! Potter disse que a Deusa é justa.

- Ela é justa, contanto que não tenha sua autoridade questionada, Lily – disse Remus, mantendo o mesmo respeito amedrontado que o Capitão Potter.

- Continua sendo injusto com você – murmurou ela, impaciente.

- Talvez – ele respondeu, incapaz de questionar as razões da Deusa. – Mas há algum tempo um amigo de James descobriu uma forma de me livrar da maldição.

- E o que está esperando? – perguntou ela, saltando no lugar.

Remus sorriu. Toda a vivacidade de Lily era contagiante.

- Estávamos esperando Sirius regressar de Sunset Ville – explicou. – Eu e James aproveitamos para trocar algumas coisas por comida num porto pirata próximo. Agora, sim, estamos partindo em busca do que eles chamam de "tesouro".

- Oh, Céus – ela disse. – O tesouro é a sua liberdade.

- Sim. Não há nada pior para um pirata do que ser impedido de navegar.

Subitamente, Lily entendia a tristeza que sempre vira nele. Certamente acreditava ser um verdadeiro estorvo naquela embarcação, acreditava que os outros estavam certos em considerá-lo um perigo para suas vidas.

- Eu não quero ter que suportar sua pena também, Lily – disse Remus notando a expressão dela. – Você já tem sua resposta. Ainda vai conosco?

- Vou – respondeu, umedecendo os lábios e em seguida sorrindo. – Quero estar lá quando for um homem livre, senhor.


N/B – Liv: Oh, Deus! Que capítulo intenso, mana! Quantas histórias, respostas, explicações... torturas! Essa Senhora dos Mares merece sim o respeito que os piratas lhe dão, mas, assim como Lily, eu também a acho egoísta. Porém, como podemos julgar uma entidade desse tipo que tem tantos poderes e deveres? Pois é... complicado. Porém, o que eu realmente gostei nesse capítulo, foi sua descrição das personagens! Incrível! James, Sirius, Lily, Remus... Até me parece a tia Jô escrevendo uma UA com suas próprias crias! E tudo isso é pra dizer: PARABÉNS, IRMÃZINHA! CAPÍTULO PERFEITO! Se o começo está de roer as unhas por ansiedade e expectativas, que dirá quando chegar o momento do clímax, James/Lily (rá, esse eu quero muito ver evoluir à romance!), Sirius, Remus e sua liberdade... Paro por aqui! E anseio por muito mais... Um beijo imenso e saudoso pra você. Te amo. Debret.

N/B – Alessandra: Para tudo! O que foi isso? Como assim já acabou? * ergue a sobrancelha esquerda em sinal de descrença e desespero* O que foi essa Senhora das Mares? Mas que dama implacável e impiedosa! E... hum... eu entendo o vazio de Lily... Sua vingança a motivava a seguir em frente. Sem ela, o que lhe restou? Talvez – oxalá que sim!!! – o dono do par de olhos castanhos cativantes, que enfeitam um rosto guarnecido por cabelos arrepiados e indomáveis? Ahhhh, está cada vez melhor, Dana... Sinta-se abraçada, beijada, afofada, acarinhada e rodopiada! Beijos a todos! Alessandra (Sandy Meirelles).

N/A: Olá, pessoas! Mais uma vez em tempo record, principalmente porque vou viajar no Carnaval e não queria ficar devendo.

Pois é. Muita gente acertou quem era o Capitão Potter que a Lily procurava. E também acertaram coisas que eu nem posso confirmar agora. E minha beta Sandy está mais que certa em sua compreensão do 'vazio' da Lily. Aparentemente ela achou uma distração agora. O que acharam da história de Remus? E da Senhora? Ah, estou ansiosa para saber! Espero que gostem desse capítulo tanto quanto eu e as betas.

O próximo se chama O Corvo. Ah, eu gostei tanto de escrevê-lo! Espero que vocês também gostem de lê-lo. Posso demorar mais com ele, né? 'Tô atualizando muito rápido. Na semana do dia 22, quem sabe?

Agora, às reviews!

Cuca Malfoy: Ah, James e Lily só são eles se tiverem os Marotos junto. Acho que você teve um monte de respostas nesse cap, não é? Espero que tenha gostado! Um beijo!

Aneenha-Black: Hey! Haha! Espero que você não esteja tão corroída agora! Estou tão satisfeita com o fato de meus personagens estarem agradando no quesito UA. Obrigada! Gostou d'A Meretriz e o Pirata? Um grande beijo, querida.

Kaah~: Menina, você precisa tratar essa ansiedade! Calma, calma, já tem cap novo. Pode avisar à sua mãe que sua sanidade foi mantida - por enquanto. Fiquei feliz com você, a beta-Liv e a Aneenha terem gostado da minha caracterização. Tento não fugir muito da JK, porque po pouco isso aqui não vira uma história à parte, não é? Muito obrigada pelo carinho! Mil beijos.

Grace Black: Grazzy!!! Viu como você estava super certa? Pai do James Theory super correta. Eles são sempre assim, não é? Fogo puro! Que bom que você gostou de todos! Qualquer coisa me avise, sim? O que achou desse? Beijoooos.

Rose Anne Samartinne: Todas surtamos com eles! Aqui está o três! Que achou?? Muito obrigada. Um beijo!

Lia: Obrigada pelo elogio! E que boom que você gostou do capítulo. Que tal esse? Ah, lamento pela sua net. Espero que isso não atrapalhe a conferir as atualizações, seus comentários são ótimos. Espero não decepcionar! Beijooos.

lelezuda: Hey, muito obrigada! Adorei seu comentário. Espero não decepcionar. Um beijo!

Priscila Louredo: E aí, o que achou? Do James e do Remus! Que bom que gostou dos personagens. Já falei que adoro essa leitora, né? Priii, beijoo!

LadyBarbiePontasPotterCullenS: Menina, já até consigo escrever seu nick sem ctrl c! Que bom que você gostou! E desse, que tal? Também amo os Marotos! Beijo!

zihsendin: Ah, era necessário trocar de capítulo, mas concordo que é sofrido esperar. E aí, gostou desse? Que achou? Um beijo!

Fadinha Ruiva: Faaaads. Ai, você não tem noção de como a sua opinião é importante pra mim. Muito obrigada! E sobre esse, o que você achou?? O só deixa uma review por capítulo, pra não virar bagunça. Amooo. Mil beijos!

Kellysds: Kells! Finalmente você por aqui! Entendeu porque eu só conseguia pensar nessa fic? Ela 'tava me consumindo... Ainda está! Ah, é claro que eu adoro as suas cobranças. Você a Paty são as melhores nisso. Obrigada mesmo pelo seu apoio! O Snape aparece, sim! Aguarde o próximo capítulo. Quanto à Victoria... Bem, você vai ter que esperar um pouquinho. Não vou entrar em mais detalhes pra não dar spoillers desnecessários. Que achou desse??? Diga tudo, amada. Amo seus coments! Mil beijooos. Amooo. Saudades.

Yuufu: Ah, eu juro que fiquei esperando o seu comentário! Ainda pensei "aiaiaiai, cadê a Yuufu???". Fiquei superfeliz quando ele veio. Você acertou muita coisa, menina! Mas não posso entrar em detalhes. Gosto de surpreender, você deve ter notado. Ah, eu também detesto fim de história! E a Victoria... Bem, aguarde por ela também. Não, você não teve que esperar muito, não é mesmo? Gostou do comentário sobre a Lily dar uma boa advogada? A minha beta Sandy é advogada e adorou. Hihi. Aguardo sua opinião sobre esse! Um Beijo.

Paty Black: Aaah, é sempre um prazer saber que você gostou! E olha como eu atualizei rapidinho. Você nem precisa me perseguir até Goiânia. Sabia que você ia amar o Sirius! Quem não ama? A gente perde a linha quando ele aparece na fic. Muito, muito obrigada, mana! Beeeeijos!

Livinha: Amoreee, brigada por tudo! Sua opinião conta demais, você sabe, né? Amo você.

Alessandra - Sandy Meirelles: Betaaaaa!!! Jura que é sua primeira? Eles são meu shipper preferido. Você leu meu único projeto H/G. E felizmente gostou, não é mesmo? Ele tá postado aqui no , tem até dedicatória pra você. Obrigada por tudooooo! Espero te dar trabalho de novo em breve! Amo você. Beijos!

Muito obrigada pelos favorites também, gente! Eles sempre são um grande estímulo, assim como essas reviews que eu amo.

Vou fazer meu papel utilidade pública agora: Bom Carnaval!!! Juízo!!! Usem Camisinha!!!

Beijos mil!

Carinho,

Dana Black