Era definitivamente impossível acordar disposto no dia que sucedia a lua cheia. No sábado à tarde, quando Gustavo finalmente decidiu que conseguia ficar de pé, ele novamente arrumou a mochila para partir. Claramente tinha o semblante de uma pessoa que estivera doente; havia bolsas escuras embaixo de seus olhos, o seu rosto estava pálido e magro; a barba por fazer e o olhar abatido denunciavam uma pessoa que há dias não vinha descansando o suficiente. Tivera uma noite difícil e não estava exatamente animado, mas não podia se dar ao luxo de passar um dia inteiro descansando enquanto tinha uma missão importante a cumprir.
Ele tomou uma boa dose da Poção Estimulante e, depois de tomar banho e se arrumar, e de convencer a Sra. Branstone de que não, ele realmente não podia esperar o fim de semana acabar para voltar ao trabalho, finalmente pegou as suas coisas e partiu, mas não sem antes receber o último abraço da mãe.
O problema era que ele não sabia direito como noticiar à comunidade bruxa o que exatamente estava acontecendo depois de Harry aparecer anunciando o retorno do maior bruxo das trevas de todos os tempos. No dia em que voltara a trabalhar em Londres, visitou o Ministério da Magia, e o que descobriu? Bagman não voltou ao trabalho e Percy foi promovido; enfim, nada que merecesse uma matéria no Profeta Diário. Precisava de um ponto de partida; talvez pudesse começar a investigar o que Dumbledore andava fazendo para deter o Lorde das Trevas.
Ele ainda chegou a Londres a tempo de, antes de qualquer coisa, conseguir um quarto vago no Caldeirão Furado. Não era bem o que esperava; de qualquer forma, teria que dividir o quarto com algum desconhecido.
Ele seguiu Tom, o dono encarquilhado e sem dentes do bar-hospedaria, por uma escada de madeira até o corredor onde ficavam os dormitórios. Gustavo notou que num deles, logo abaixo da placa de latão de número treze, havia um pequeno aviso que ele nunca tinha percebido antes. Parou, então, brevemente para lê-lo; era um aviso breve e pomposo, caprichosamente escrito à mão: "Não entre sem a expressa permissão de Percival Inácio Weasley".
A indignação foi se infiltrando em Gustavo, e ele ficou ali, imóvel, sem saber explicar o motivo. Precisava ser alguém muito idiota para escrever um aviso desses na porta do próprio quarto, ele pensou, enquanto era informado por Tom que o seu quarto não seria aquele. Seguiu o seu caminho até chegarem à porta de um quarto ao final do corredor.
- Você vai ficar muito bem instalado no quarto número dezessete – anunciou Tom. – Ele está sendo ocupado por Mundungo Fletcher, mas ele não aparece muito por aqui. Se precisar de alguma coisa, sr. Branstone, por favor, é só pedir.
Ele fez uma reverência e saiu.
Gustavo ficou sentado na cama durante algum tempo, dando uma boa olhada no quarto. Seu novo companheiro era meio porcalhão; havia uma porção de caldeirões velhos empilhados de qualquer jeito num canto, junto com um monte de quinquilharias e roupas sujas. Mas ele não podia reclamar. Agora que voltara ao trabalho, precisava manter a esperança de que dali para frente os dias seriam melhores.
E, sem ao menos trocar de roupa, ele se largou em cima do travesseiro e adormeceu.
O dia estava apenas começando a amanhecer quando Gustavo foi despertado por uns roncos sonoros e incômodos vindos de algum lugar do seu quarto. Meio atordoado, ele olhou ao redor; o quarto estava impregnado por um forte cheiro de bebida misturado ao de fumo curtido. Mais caldeirões tinham sido amontoados ao lado da cama vizinha, misturados a alguns tachos e panelas, cálices, garrafas de vinho vazias e algo que parecia uma pilha de trapos. Olhou com mais atenção; a coisa que Gustavo pensara ser uma pilha de trapos soltou um ronco prolongado e se virou, sem se acordar.
Era um homem atarracado, com a barba por fazer, olhos empapuçados e cabelos ruivos e desgrenhados. O novo companheiro de quarto de Gustavo dormia esparramado sobre a cama com a boca aberta e roncava tão alto que ele não sabia se poderia dizer que foi um prazer conhecê-lo quando o encontrasse acordado. Quando os roncos de Mundungo se tornaram decididamente insuportáveis, Gustavo resolveu descer para o bar para tomar o café da manhã.
Como era domingo e ainda estava muito cedo, o bar estava vazio e restou a Gustavo se distrair com um exemplar do Profeta Diário. Não havia qualquer menção sobre a volta d'Aquele que Não Deve Ser Nomeado; apenas algumas notícias vazias sobre vasos sanitários que regurgitavam e um roubo de caldeirões povoavam as páginas do jornal.
Tom chegou algum tempo depois. Com uma cara de quem tinha acabado de acordar, passou manteiga em um pãozinho e o empurrou para Gustavo.
- Coma, rapaz, a sua cara é de quem não está se aguentando em pé. Mas... por que se levantou tão cedo? Você também trabalha aos domingos?
- Não eu, na verdade, eu estava sem sono – mentiu Gustavo.
Mal terminou de dizer isso, outro hóspede se aproximou, tentando se juntar à conversa:
- É bom acordar cedo aos domingos, não? – A voz de Percy Weasley soou bem ao lado de Gustavo. – Assim a gente aproveita mais o dia, aproveita mais o domingo...
Gustavo ergueu a caneca e tomou um grande gole de café para não precisar responder.
- Espera aí – observou Percy, mirando Gustavo de cima a baixo –, eu conheço você!
"É exatamente isso, Percy" – Gustavo pensou imediatamente –, "a Penny está comigo agora; por que você não cala a boca e sai?", mas Percy continuou falando, parecendo interessado:
- Você não é aquele repórter do Profeta Diário?
- Fotógrafo – corrigiu Gustavo, e se arrependeu em seguida; pela expressão de Percy, ficou parecendo que ele entendera que Gustavo havia sido rebaixado de sua função.
- Ah, sim, fotógrafo... Bom, creio que vocês do Profeta Diário já devam saber que agora eu sou o novo Assistente do Ministro...
- Sim, claro; já estamos cansados de saber – Gustavo engoliu rapidamente o restante do café e saiu, sem querer estender a conversa.
Se Gustavo achou que noticiar o reaparecimento do Lorde das Trevas seria uma tarefa fácil, as semanas que se seguiram lhe provaram o contrário. Apesar de Rita não estar mais escrevendo para o Profeta Diário, ela lançou as bases para o que o jornal estava tentando fazer agora: pintando Harry como uma pessoa fantasiosa e sedenta de atenção, incluindo comentários irônicos sobre o garoto sempre que tinham oportunidade. Além disso, o Ministério estava definitivamente decidido a abafar o caso sobre o retorno de Voldemort. Era como se estivessem confiando em que o Profeta Diário não noticiasse o que chamavam de campanha de boatos de Dumbledore e, assim sendo, a maior parte da comunidade bruxa não tinha a menor consciência de que alguma coisa tivesse acontecido.
Por mais que se esforçasse com fotos, as reportagens a que eram vinculadas só serviam para reforçar ainda mais a imagem negativa de Harry Potter, a quem o jornal decidiu transformar numa pessoa que ninguém acredita.
O Profeta Diário não publicou nem uma palavra sobre os boatos de um ataque de dementadores supostamente sofrido por Harry em uma rua perto de casa; teria sido uma história e tanto, dementadores escapam ao controle do governo. Poderiam ter noticiado, pois combinaria com a imagem do garoto de exibicionista idiota, mas nem ao menos publicaram que ele violou o Estatuto Internacional do Sigilo em Magia e quase foi expulso de Hogwarts por conta disso, tendo que comparecer a uma audiência de controle disciplinar e tudo mais.
Dumbledore também não estava tendo sorte; depois que ele fez um discurso anunciando o retorno de Voldemort, a Confederação Internacional de Bruxos votou a favor da sua dispensa da diretoria, alegando que ele estava ficando velho e incapaz. Ele perdeu o cargo de bruxo-presidente da Suprema Corte dos Bruxos, e estavam até falando em cassar sua comenda de primeira classe da Ordem de Merlin – embora Dumbledore não se importasse com isso, desde que não tirassem o retrato dele do baralho de sapos de chocolate.
Gustavo pouco podia fazer a respeito disso; perderia até o emprego caso se rebelasse e começasse a defender o que acreditava. Além do que, era um risco ocupacional ser um lobisomem. Mas a Sra. Branstone só permitiu mesmo que Léa voltasse a Hogwarts quando soube que o Ministério da Magia estava disposto a interferir na escola, caso fosse preciso.
Para tornar tudo ainda mais complicado, Gustavo nem ao menos conseguia conversar com alguém a respeito do que estava acontecendo, porque até falar com Penny estava se tornando cada vez mais difícil. O Sr. Clearwater, agora que sabia que Gustavo estava por perto, resolvera buscar a filha na porta da redação do Profeta Diário todos os dias, impossibilitando os seus encontros costumeiros ao final do expediente. Não que esses encontros fossem exatamente românticos; o Beco Diagonal, aquela imensa rua de pedras cheia de lojas de magia mais fascinantes do mundo, estava ficando a cada dia mais movimentado do que de costume; famílias inteiras de bruxos vinham de todos os lugares aproveitar o fim das férias de verão para fazer compras.
Durante o mês de agosto, a Sorveteria Florean Fortescue estava sempre lotada; Gustavo e Penny quase não conseguiam mais encontrar mesas livres no horário do almoço, a única hora do dia em que podiam conversar.
- Eu não aguento mais essa situação – disse Penny certo dia, depois de ficar cerca de dez minutos esperando por uma mesa desocupada. – O meu pai insiste em me tratar como se eu fosse uma criança; parece até que ele não confia em mim. Ele não quer que eu leve você lá em casa, não quer que eu me encontre com você fora de casa, eu sinceramente não sei mais o que fazer!
- Tudo bem, Penny – respondeu Gustavo. – Está tudo bem, de verdade. Você sabe que a gente ainda não contou a ele sobre, sabe, aquele meu problema e... não é justo com o seu pai, entende? Eu penso que, se ele tiver que me aceitar, é bom que saiba a verdade primeiro...
Penny abaixou a cabeça por um instante, pensativa.
- Aí é que ele não vai aceitar mesmo – disse ela. – A não ser que eu saísse de casa, porque eu já estava até pensando em morar sozinha sabe; eu já tenho quase dezenove anos, sou maior de idade. Eu não devia mais me submeter a isso. É sério, eu cheguei a pensar em alugar um quarto no Caldeirão Furado...
- Penny, por favor, não faça isso – pediu Gustavo. – Tem muita gente estranha que aparece lá, sério, não é tão bom quanto você pensa.
- Qual é o problema, Gustavo? – Questionou Penny, servindo-se de sanduíche. – Vai dizer que você também acha que eu não consigo me virar sozinha?
- Não Penny, não é isso. O lugar realmente não é confiável; tenho certeza de que andaram mexendo nas minhas coisas. Parece que vou ter que começar a trazer a mochila comigo para o trabalho.
- Mexeram na sua mochila? – Penny indagou num misto de preocupação e interesse. – Você acha que isso pode ser coisa do tal do Mundungo? Porque eu achei ele meio suspeito.
- Não posso afirmar nada. Eu nem sei se ele estava lá na hora que aconteceu; eu simplesmente cheguei e a mochila estava em cima da cama, mas tenho certeza de que não foi lá que eu a deixei. O estranho é que não levaram nada.
- Às vezes foi só alguém que passou arrumando o quarto. Um elfo doméstico talvez...
- Mas não é só isso – confessou o rapaz com amargura. – É que o Percy também está morando no Caldeirão Furado, e eu acho que ele ainda gosta de você...
- Ah Gustavo, deixa de ser bobo – um sorriso se espalhou pelo rosto de Penny sem ela querer. – Sabe que para mim só existe você. – Ela sacudiu a cabeça. – Mas tudo bem, foi só um pensamento que me ocorreu; o meu pai não iria deixar eu sair de casa mesmo...
A garota deixou escapar um profundo suspiro.
- O engraçado é que o Ben pode fazer o que ele quer – prosseguiu ela. – O Edu veio passar o resto das férias de verão lá em casa, e agora aqueles dois inventam de sair quando querem e só voltam na hora que bem entendem. Eu só queria saber o que eles estão aprontando...
- O Edu está na sua casa? – Gustavo arregalou os olhos, perplexo.
- O que foi; vai ficar com ciúme dele também?
- Não Penny, não é isso, é que... ele está tipo, dormindo na sua casa? E o seu pai aceita isso?
- Você fica tão fofo quando está com ciúme – disse ela com um sorriso, segurando-lhe a mão. – Eu estou morrendo de saudade de você...
- Eu também, Penny – disse ele, preocupado. – Mas depois que começarem as aulas em Hogwarts creio que as coisas vão se normalizar, e aí a gente tenta falar com o seu pai, pode ser?
- Eu nunca diria não para você, Gustavo – respondeu Penny.
Eles terminaram de almoçar e Penny voltou para o escritório, enquanto Gustavo prosseguiu o seu trabalho, sem conseguir parar de imaginar que alguém estava sendo bem aceito na casa dos Clearwater, mas não era ele. Não sabia explicar o motivo, mas estava a cada dia mais convencido de que não gostava de Edu.
