O Bardo e o Pardal

Capítulo 3


2 anos depois...


- Lasho!

- Sim, meu senhor?

- Já está pronto para partir?

- Meu cavalo está quase pronto.

- Ótimo.

- Meu senhor, eu... posso fazer-lhe uma pergunta?

O conde Muldovar nada respondeu. Parecia compenetrado demais lendo uns papéis sobre a mesa. Seu jovem pajem, entretanto, estava muito ansioso e, mesmo sem permissão, começou a falar:

- Eu... gostaria de saber quando pretende começar o meu treinamento.

- Hum? – murmurou o conde, sem retirar os olhos dos papéis.

- Meu... treinamento, senhor. – continuou o jovem pajem, um pouco temeroso. Sabia que o conde Muldovar não gostava de ser incomodado, mas o rapaz há muito desejava uma resposta por parte de seu senhor – Gostaria de saber quando pretende dar início a ele.

- Do que está falando, Lasho? – bufou Muldovar, retirando finalmente os olhos de seus papéis para encarar o pajem, parecendo aborrecido com a persistência deste em incomodá-lo.

- É que... o senhor sempre prometeu que me treinaria, lembra-se? Disse que, em troca de meus serviços como seu pajem, faria de mim o seu pupilo e me ensinaria a manejar apropriadamente a arte da feitiçaria...

- Lasho! – interrompeu-o o conde, abruptamente – Fale baixo! Ninguém aqui no castelo sabe dos meus conhecimentos de feitiçaria, esqueceu-se?

- Não, meu senhor; não me esqueci. Perdão por ter cometido essa falta... é que ando um pouco ansioso em relação a tudo isso...

- O que quer dizer, Lasho?

- É que... logo farão 4 anos que estou com o senhor e ainda não começamos a...

- Ah, meu rapaz... Não seja apressado. Acha que é fácil aprender tudo que tenho a lhe ensinar? Não; e é por isso que pedi que começasse treinando alguns pequenos feitiços... Para ir se preparando...

- Meu senhor, eu já venho me preparando há 4 anos! Eu... creio já estar pronto...

- Quem decide se está pronto ou não sou eu, Lasho.

O rapaz calou-se diante da voz fria com que recebeu a resposta do conde. Mas havia muito que se esforçava por não falar tudo o que lhe passava pela cabeça e já não conseguia mais se segurar. Sem pensar muito nas conseqüências, disse de uma vez o que estava preso em sua garganta:

- Meu senhor, eu só acho injusto que... Eu, que lhe sirvo fielmente há tanto tempo, não esteja tendo meu valor reconhecido. Estou há 4 anos esperando pela oportunidade que, em menos de 2 anos, o senhor já deu ao Ikki. Em 2 anos, ele já parece conhecer mais técnicas e feitiços que eu...

- Ele é meu afilhado, Lasho.

- Sim, mas... – o jovem pajem continuava a falar, já sem medir suas palavras – Ele sequer está interessado em se aprofundar na arte da feitiçaria como eu, meu senhor! Eu desejo ser seu pupilo, eu desejo me dedicar inteiramente a tudo o que o senhor pode me ensinar, eu posso ser muito melhor que ele...

- Basta! – disse o conde, levantando-se de sua cadeira – Não preciso explicar meus motivos a você, Lasho. Se digo que não está preparado, então você não está. Se estou passando tantos ensinamentos a Ikki, tenhos meus motivos.

- Ele não valoriza o que o senhor faz por ele. Ele não estuda tanto quanto deveria. Ele não quer ser um grande feiticeiro...

- Tudo a seu tempo. Cedo ou tarde, ele acabará se interessando...

- Senhor, perdoe-me, mas... não acredito nisso. A morte de seus pais ainda o assombra. Ele não está disposto a seguir seus passos porque simplesmente não consegue se desvencilhar do passado para ver tudo o que pode ser no futuro.

- É o que vê quando vai visitá-lo?

- Sim, meu senhor. Sempre. Eu o observo, fico a vigiá-lo e... bem, ele faz tudo o que lhe é pedido. Treina, pratica. Mas não como eu faria. Ele não vai além. Meu senhor, se me fosse oferecida essa chance, eu daria tudo de mim para alcançar a excelência, faria o possível para que se orgulhasse de mim. Por merecimento, deveria ser eu a estar lá, como seu pupilo. E ele é quem deveria me servir... – essa última frase foi dita em voz baixa, carregada de ressentimento, que não foi sequer percebida por Muldovar, que estava pensativo com tudo que ouvira de seu pajem.

- Hum... de fato, ainda não consigo ver em Ikki tudo o que ele pode ser... tudo o que ele precisa se tornar. – falou, passando a mão pelo queixo.

- Exato, senhor. E, se me permite dizer...

- É por isso que preciso de sua ajuda, Lasho. Você tem de cobrar mais dele. Precisa fazer com que treine mais. Converse com ele. Quem sabe não consegue passar um pouco dessa sua paixão para ele? Ikki precisa encarar a arte da feitiçaria como você.

O pajem engoliu em seco. Não era essa a resposta que buscava de seu senhor.

- Entenda, Lasho... se continuar a ser fiel como sempre foi, um dia será recompensado.

O rapaz nada disse. Estava abalado com a idéia de que talvez a promessa feita pelo conde nunca se cumprisse.

- Então... nosso assunto acaba de se encerrar. Agora vá, Lasho. E não se esqueça de levar os mantimentos.

- Não.

O conde, que já havia dado meia-volta para deixar o salão em que se encontravam, voltou-se para olhar para o pajem. Estranhou a resposta:

- Como assim, "não"? Não quer levar os mantimentos?

- Não vou mais servir a esse garoto mimado. Estou cansado de ocupar uma posição que não me serve mais. Não quero mais ser um simples pajem. Quero ser um aprendiz de feiticeiro.

- Lasho, eu já disse...

- Não! Não quero mais esperar! Há dois anos Ikki está sendo treinado por você! Há dois anos eu o vejo progredindo em meu lugar. E eu sei que tenho mais capacidade que ele! No entanto, enquanto ele pratica, com má vontade, os feitiços que você ensina a ele, eu devo servi-lo? Todos os dias, devo ir até sua cabana para saber se está treinando e se alimentando adequadamente? Todos os dias devo checar para ver se Ikki tem seguido tudo o que o senhor lhe manda fazer? É só para isso que sirvo? Não, meu senhor... Sinto muito, mas se essa história não mudar...

- Está pensando em me ameaçar, Lasho? – perguntou o conde, com os dentes à mostra.

- Estou dando-lhe um aviso, senhor. Eu sei de coisas demais. Sei, por exemplo, como, há dois anos, os pais de Ikki morreram...

O conde cerrou os punhos. Mas não disse nada.

- Eu sei que foi o senhor quem mandou incendiar a cabana para que eles morressem. Eu sei que essa era sua intenção porque eles estavam atrapalhando seus planos em relação a Ikki. E sei de tudo isso porque foi para mim que você deu todas essas ordens. Não sei por que você os queria mortos, nem que planos tem em mente para Ikki, mas nunca questionei suas ordens. Sempre as obedeci sem pestanejar. Mas agora estou cansado. Quero o que é meu por direito. Do contrário, contarei a Ikki tudo o que sei...

- Você... realmente faria isso, Lasho? – perguntou o conde, com a voz bastante controlada.

- Faria. E sei o quanto Ikki anseia por descobrir o que houve naquela noite... Ele quer muito descobrir quem pôs fogo na cabana de seus pais...

- Já dei a ele uma explicação para isso.

- Sim, meu senhor... e ele pode até ter acreditado. Uma boa explicação, é verdade... Dizer que a culpa era dele, que por ter se envolvido com a música, roubou o coração de tantas moças da vila... o que acabou despertando a inveja e o despeito em tantos homens, que não aceitavam que um camponês estivesse sendo o centro de tantas atenções... De fato, meu senhor. Uma excelente explicação. Mas, diante do que posso contar a ele, essa explicação será imediatamente desacreditada por Ikki...

- Acha mesmo, Lasho? Acredita mesmo que Ikki preferirá aceitar essa história que você pretende contar a ele? Dizer que fui eu o mandante do assassinato de seus pais? E, por acaso, pretende contar também que foi você quem colocou o fogo, pessoalmente? E, se ele lhe perguntar o porquê disso tudo, você dirá o que acaba de me falar aqui? Que desconhece o motivo, mas fez o que pedi mesmo assim?

Lasho emudeceu. Não havia pensado nessa situação sob esse ponto de vista...

- Ou será que ele vai preferir acreditar na minha versão da história? A versão do padrinho dele? Um homem que ele conhece desde a infância? Que sempre ajudou sua família?

Lasho baixou os olhos. Fora vencido pelos argumentos do conde.

- Ah, meu rapaz... Não se deixe levar pela ambição desenfreada... – sorriu Muldovar – Entendo sua pressa. É jovem, tem pressa de crescer. Mas acalme-se; tudo a seu tempo. – e, fazendo com que o rapaz voltasse a encará-lo, prosseguiu – E, para que perceba que não guardo mágoas do que acaba de dizer, fingirei que essa conversa nunca ocorreu e que você nunca tentou me ameaçar.

Muldovar sorria triunfante. Gostava de saborear suas vitórias:

- Agora vá. Ikki ainda precisa praticar mais o último feitiço que ensinei a ele semana passada. Ajude-o em tudo o que ele precisar.

Lasho ouviu as ordens de cabeça baixa. Começou a caminhar em direção à porta e, apesar de não dizer uma palavra, era perceptível que uma raiva muito grande apoderava-se de todo seu ser. Muldovar pôde perceber isso e entendeu que aquele não era o momento de criar mais inimigos. Ikki tinha 20 anos; em breve completaria 21. Era já um homem feito... o momento da profecia do oráculo se concretizar devia estar perto... E Muldovar precisava buscar aliados para quando essa hora chegasse; e não o contrário. Pensando assim, antes que Lasho deixasse o recinto, ele disse:

- Se fizer tudo quanto lhe peço, poderemos começar seu treinamento nesse domingo.

O jovem virou-se para trás, incerto do que acabara de ouvir. E Muldovar continuou, dizendo:

- Ora... se já estou treinando Ikki, posso treinar mais um. A partir de agora, vocês serão colegas. E deverão se auxiliar.

Lasho voltou correndo até onde estava Muldovar. Ajoelhou-se a seus pés e beijou-lhe as mãos, agradecido:

- Obrigado, meu senhor! Muito obrigado!

- Não por isso, meu jovem. – respondeu o conde, certo de que tomara a melhor atitude. Realmente, tinha planos para Ikki. Em breve a profecia se cumpriria e o rapaz mataria a seu pai, o rei Markash. Tudo caminhava conforme os planos de Muldovar: o rei já havia concordado em fazer dele seu vizir real que, de acordo com algumas novas leis implementadas, subiria ao trono em caso de morte do rei e impossibilidade do jovem príncipe Shun subir ao trono.

O rei Markash e a rainha Licahla, que durante muitos anos sofreram com a morte precoce de seu primeiro filho, tiveram a alegria de ter um outro filho 8 anos depois. Shun, o jovem príncipe, tinha ainda 12 anos e, caso algo acontecesse ao rei, só poderia subir ao trono depois de completar 18 anos. Até lá, o poder ficaria nas mãos de Muldovar.

Não sabendo exatamente como Ikki viria a assassinar o próprio pai, o conde não quis dar chance ao azar. Ensinou ao jovem todas as técnicas de luta, de combate armado ou não e, por fim, a arte de feitiçaria. De algum modo, Ikki mataria o rei. E Muldovar quis capacitá-lo bem o suficiente para que pudesse cumprir seu destino.

Quanto ao que ocorreria depois... bem... Ikki seria preso e julgado pelo assassinato do rei. Provavelmente, o jovem pediria sua ajuda, mas Muldovar iria se fazer de desentendido. E ninguém daria ouvidos a um jovem desconhecido, que alegava conhecer o vizir real, mas que seria completamente ignorado por este.

Aliás, esse foi o motivo que levou Muldovar a buscar um casal de camponeses que vivesse tão isolado para cuidar do príncipe que todos julgavam morto. Assim, Ikki seria pouco visto e pouco conhecido. O ideal para que seu plano funcionasse. Lembrou-se deles porque o casal o visitava sempre, pedindo para que o conde, tão conhecido pela sua sapiência no reino de Onel, lhes ajudasse a ter um filho. Então, convencendo o simpático casal de que havia salvado uma indefesa criança das garras de um maldoso pai, conseguiu entrar em um acordo com os dois: de que eles criariam a criança, mas que ele, o conde, poderia visitar o garoto semanalmente, como seu padrinho, tendo direito à sua educação.

O que Muldovar não esperava era que Ikki se interessasse tanto por música e, com isso, começasse a chamar atenção em demasia nas suas idas à vila. Tentara aplacar essa paixão no garoto, mas nunca conseguira ser bem sucedido. Por fim, a morte dos pais do garoto é que deu a ele a solução para todos os seus problemas. O casal de velhinhos estava começando a se rebelar e já se apresentava como um problema para o conde. E, como ocorria com tudo aquilo que o atrapalhava, Muldovar tratou de dar logo um jeito de acabar com o problema. Só depois é que viu como isso poderia beneficiá-lo mais do que ele imaginava... Ikki sentia-se muito culpado pela morte dos pais, pois achava que se estivesse estado em casa naquela noite, poderia ter feito algo – e, realmente, poderia... aliás, fora por isso que o conde dera um jeito de fazer com que o jovem não estivesse na cabana aquela noite. Muldovar, então, compreendendo como o jovem se martirizava por ter ido à vila comprar o alaúde e entendendo que ele já se culpava por estar se divertindo na noite em que seus pais vieram a falecer, resolveu aumentar ainda mais a culpa do rapaz. Disse-lhe que, certamente, a paixão de Ikki pela música era a responsável pela morte de seus pais, não só por fazer com que ele não estivesse em casa em um momento crucial, mas por ter trazido a ele muitos inimigos ao chamar assim tanto a atenção. Inimigos esses que eram, com certeza, os responsáveis pelo incêndio na cabana. Muldovar chegara a dizer: "Seus pais pagaram um preço caro por você insistir em viver essa vida boêmia". Com isso, conseguiu o que sempre desejara: que Ikki se isolasse do mundo, vivendo sozinho em uma cabana que ficava nos arredores do castelo. Assim, Muldovar visitava o rapaz semanalmente, como sempre fizera, para que este continuasse seu treinamento e Lasho ia até a cabana todos os dias ao pôr-do-sol, para verificar se Ikki estava praticando diariamente.

E agora, tinha de lidar com mais um problema. Lasho começara a colocar suas garras para fora e isso não agradou em nada ao novo vizir real de Onel. Mas, por enquanto, Muldovar precisava dele. Não podia visitar Ikki todos os dias, pois levantaria suspeitas no palácio, mas era preciso vigiar o rapaz diariamente. Daí a importância de seu pajem.

"Deixe estar", pensou consigo. Não era difícil manipular seu criado. Daria a ele um pouco do que ele desejava e assim o jovem se acalmaria. E, tão logo não precisasse mais de seus serviços, Muldovar se livraria dele.

- Muito bem, Lasho. Aprecio sua gratidão, mas está se fazendo tarde. É preciso que parta logo.

- Sim, meu senhor! Partirei agora mesmo! - disse o rapaz, visivelmente animado - Com a sua licença, meu senhor! - e deixou o salão, sem que pudesse ter a chance de ver o sorriso de satisfação que o conde exibia por perceber que tudo caminhava de acordo com o que ele planejava.

Enquanto isso, lá fora, um jovem viajante se aproximava dos portões do castelo. Os cabelos loiros, tão claros, balançavam ao sabor da brisa daquele fim de tarde. Os olhos eram azuis, mas de um azul tão límpido, que mais pareciam dois cristais resplandecentes. Em seu olhar, era possível notar uma grande melancolia, fazendo parecer que esse rapaz carregava um fardo mais pesado do que poderia suportar.

- Está perdido? – perguntou uma senhora, por perceber que o rapaz estava ali parado, encarando aqueles portões, já há algum tempo, sem se mover.

- Espero que não. – respondeu o jovem – Vim de muito longe para estar no lugar errado. – e, retirando um papel de seu bolso, leu o nome ali escrito – Por acaso, minha boa senhora... Saberia me dizer se é aqui que posso encontrar um conde que atende pelo nome de Muldovar?

- Ah, sim... – sorriu ela, com os poucos dentes que ainda lhe restavam na boca – Conde Muldovar, o novo vizir real. Sim, ele vive no castelo.

O rapaz suspirou, aliviado. Por um momento, temera que a senhora lhe dissesse nunca ter ouvido falar de tal nome. Ele mesmo duvidava da existência desse homem. Não queria criar falsas esperanças; mas disseram que ele poderia ajudá-lo. E, apesar de seu ceticismo, lá estava o rapaz. Respirou fundo e disse para si mesmo:

- Muito bem, Hyoga... Você chegou até aqui. Então, agora, vamos até o fim. – e caminhou resoluto até os imensos portões de madeira do imponente castelo de Onel.

Continua...