Capítulo 03:
Eu não sei por que a pressa, talvez ela finalmente estivesse ouvindo meus gritos, até então eu estudava em um colégio só para mulheres, mas já fazia cinco anos e eu não havia me tornado amiga de ninguém.
Me divertia mais indo até a casa de minha prima, embora não fizéssemos algo de extraordinário, eu sentia que poderia conversar um pouco, embora falar não fosse nosso forte.
Ela estudava em um colégio público bem conceituado, ela estava sempre reclamando de tudo, penso que ela gostaria de estar no meu lugar.
Em uma viagem à Okinawa, ela disse que gostaria de estar em uma família novamente, não deve ser fácil, o pai abandonou a todos e a mãe só sabe dizer como homens são inúteis e nojentos, ela apenas repete tudo que escuta.
Ter mãe e pai em casa, não quer dizer que eles sejam presentes e isso faz muito mais falta, do que se um deles estivesse simplesmente muito longe. É mais ou menos assim aqui em casa.
Eu, passo o dia vendo tv, lendo revistas e dizendo onde as empregadas devem limpar, o que elas devem passar e o que eu quero para o almoço, é uma casa bem grande, totalmente inútil, isso poderia ser transformada em uma pensão com a quantidade de quartos extras.
Mas eu havia conseguido, convencido meu pai de que mudar de colégio faria bem, eu poderia morar com minha vó e ir para o colégio amaldiçoado que Marion sempre falou.
Da maneira que ela conta, até parece divertido, mas eu sei que na verdade é uma rotina, como em qualquer outro lugar, mas eu gostaria de poder tentar interagir.
O carro parou, meu motorista me ajudou a descer, a cidade não era diferente da que eu vivia até então, barulhenta, pessoas apressadas, carros buzinando, mas não quero morar no interior, não agora.
- Anna, venha, venha.
- Vovó, obrigada por me receber.
Seguimos por um quintal longo, era uma casa de esquina, embora muito bonita, de dois andares, sempre achei que ela vivesse em uma casa apertadinha, pelo menos sei que o meu quarto continuará sendo grande, talvez eu consiga colocar o pôster da Ringo.
- Vá passear, quando voltar as coisas já estarão no seu devido lugar.
- Não sei andar por aqui.
- Mas é assim que se aprende, pergunte as pessoas na rua se tiver dúvida.
Ela sorriu e voltou para dentro da casa. Eu estava parada no quintal, ao lado de uma arvore; ela realmente acredita que eu não sei interagir com as pessoas, bom...na verdade, vendo meus pais, acho que se pode ter certeza.
Segui a rua, se eu virasse talvez eu me perdesse, tinham muitas casas, e não faço idéia onde fica o centro. Ah, era só falar, várias placas saindo dos prédios, lojas coladas, eu comecei a me sentir em casa.
As pessoas andavam de um lado a outro sem se preocupar com nada, eu não gosto de multidões, ficar sendo esmagada por nada, eu simplesmente me recuso.
Decidi descansar em uma pequena sorveteria, as mesinhas cor de limão eram agradáveis, embora tivesse pedido apenas um copo d'água, me parecia suficiente.
Eu não sei o quanto andei, mas meus pés doíam, o que me fez lembrar que eu precisava comprar sapatos, sandálias como as minhas só fazem cortes.
Um gatinho de pêlo marrom claro veio andando na minha direção, não pude deixar de me sentir um pouquinho feliz, saindo do banquinho eu me agachei no chão, segurando o bichano.
- Você também está perdido?
O sol estava incomodando, por alguma razão estúpida, olhei para cima, um prédio bem grande tampava os grandes raios, no segundo andar, um vidro que ia do chão até o teto, mas não era só isso que me fez ficar parada olhando estupidamente para lá.
Um garoto olhando exatamente para o mesmo gato que eu segurava, me incomodou um pouco, ou fato dele estar muito colado naquele vidro, que se quebrasse, eu prefiro nem pensar.
É estranho, a cidade, as pessoas, eu não me sinto perdida aqui, até mesmo aquele garoto... As energias daqui são mais positivas, ou estar longe dos meus pais me fizesse bem.
Continua.
