3º Capítulo: A Carta
Como Sara previa, ele mal olhou para aquelas do laboratório; foi logo para as dos livros, dizendo que estas (as do laboratório), continuariam ali. Ela revirou os olhos, suspirou e empurrou as caixas resignadamente, para um canto. Ele olhou os livros; tirou alguns volumes e disse à esposa:
- Vou pôr na estante. Pretendo relê-los, mais adiante. Você vai demorar ainda aqui?
- Mais um pouco, querido! O resto, termino amanhã!
- OK, Sara, estes livros vão para o padre O'Shea.
- Está bem! - Disse Sara, puxando outra caixa para si.
Grissom desceu com os livros e esqueceu a bandeja... Sara sorriu: o marido adorava fazer galanterias... Mas no fim, o trabalho ficava em cima de outros ombros, os seus... Como sempre. Começou a ver o que tinha aquela caixa: papelada! Colocou os óculos e viu que muita coisa iria pro lixo.
Contas, que já não se lembrava do que era; certificados de vacinação, de um Hank, que nem existia mais; multas de trânsito, de quando era nova na cidade, e não a conhecia, como hoje, receitas de remédios; aquele bolo Esponja, que Emily pedira e ela não sabia onde tinha posto a receita.
A receita daquele recheio, que deixava o peru molhadinho, e que ela revirou a casa, tentando encontrar; outras receitas soltas, que ela colocou perto da bandeja, para descer com elas. Foi aí que ela viu o envelope, onde se lia "Para Sara", escrito na letra pequena, infantil e inconfundível de Grissom.
Primeiro surgiu a ruga na testa, depois ela sorriu: o marido continuava com sua mania de esquilo, escondendo coisas em todo o lugar. Sendo endereçado para ela, tirou o papel do envelope e leu:
"Amada, Sara,
você sabe que não sou muito bom falando: prefiro escrever.
Você sabe também, que é a mulher da minha vida e me faz feliz, como nenhuma outra, jamais me fez. E além de tudo, me deu duas crianças maravilhosas. Você é meu presente, meu porto seguro, Sara; mas nossos filhos são uma parte de nós, projetada para o futuro!E, através deles consigo tocar o futuro. Gosto dessa sensação de imortalidade, que a paternidade me dá!
E dizer que tudo começou em San Francisco, com um olhar cheio de promessas, e um delicioso rabo de cavalo... Eu nunca te falei, mas me enamorei naquele instante. Quanto tempo perdemos, meu amor!
Eu fui um tolo tentando fugir ao que jamais se foge. Eu tentei substituir o amor pelo trabalho e não vi que ele é insubstituível; eu tive medo e recuei muitas vezes, esquecendo que o amor é destemido e a tudo enfrenta. Por tudo isso meu amor, me perdoa;
as ligações que não fiz;
os beijos que não dei;
a mão que não te afagou;
as lágrimas, que sei que causei.
Ah, Sara! Poderíamos ser felizes, há muito mais tempo não fosse por mim!
Me perdoa e obrigado, por nunca desistir de mim! Pela sua fé inabalável, que poderíamos dar certo juntos!
Hoje quando sinto o carinho e a dedicação que você oferece a esta família, sei que você é a parte mais forte dela; é a cola do seu amor que nos une e junta nossos pedaços, quando nos arrebentamos nos embates da vida.
É porisso e muito mais, que eu te amo e sei que vou te amar, por toda a eternidade...
GIL"
Sara leu carta com o coração apertado, achando que ela tinha um ar de despedida. "E se ele não fosse operar o joelho? E se fosse algo mais sério? E se ele estivesse mentindo para ela, pensando protegê-la?". Não seria a primeira, nem a última vez.
Desceu para a sala aflita, ostentando sua ruga de preocupação na testa. Foi atrás do marido e encontrou-o na cozinha, tirando um pedaço do rosbife, antes de esquentá-lo no microondas.
- O que está fazendo?
- Comendo antes do jantar, eu sei que é errado, mas eu estava com fome...
Ela não estava interessada no rosbife. Estendeu com impaciência a carta pra ele:
- O que é isso?
Grissom, tirou os óculos do bolso e sentiu um certo alívio ao ver do que se tratava.
- É uma carta.
- Não banque o engraçadinho, Gilbert, eu sei que é uma carta. Mas ela tem um tom melancólico de despedida. Quando você a escreveu?
Ele pensou um pouco antes de responder:
- Faz muito tempo! Não notou que o envelope está amarelado? As crianças eram pequenas ainda; foi uma vez, que William teve um febrão e você só saiu de perto dele de manhãzinha, quando a febre cedeu...
- Lembro bem, dessa noite. – Disse Sara, apertando os olhos.
- Pois então, eu fui ao escritório a uma certa hora. Lembro que estava nervoso, por causa do menino e também, que não aguentava aquela cama vazia. Sentei-me e escrevi.
- E como ela acabou no sótão?
- Não faço idéia, querida! Nem me lembrava que ela existia ainda!
- Gilbert Arthur Grissom, você está me escondendo algo? – Perguntou e olhou no fundo de seus olhos.
- N-Não! Que ideia – e desviou seus olhos dos dela, pousando-os no chão.
- Eu sabia! Eu sabia!
