N/A: Here we go;

Harry Potter não me pertence. Obviamente.


Cherry Bomb,

Draco Malfoy x Harry Potter


"Seus sonhos sem futuro não te fazem sorrir,

vou te dar algo pelo que viver."


III


01/05, 14h20min pm

Harry voltou a encontrar Draco no lugar mais inusitado de todos, dias depois. A biblioteca da faculdade, por mais vasta que fosse não atraía muitos estudantes. Ele pensou que talvez eles viessem com mais frequência por conta do final do semestre, mas não aconteceu. Ele agradecia por isso, já que assim, tinha mais tempo para estudar em paz.

— Onde posso achar a sessão com livros sobre Nutrição?

Ao ouvir sua voz, Harry virou a cabeça rapidamente a fazendo estalar. Draco estava debruçado no balcão que ele atendia acompanhado de Blaise, dois rapazes mais corpulentos e uma jovem de cabelos negros que o encarava de forma estranha; parecia raiva. Mas ele nunca havia visto a garota na vida, deveria ter confundido.

— Olá, estranho. – Harry sem esboçar mais nenhuma reação, ergueu a mão direita e apontou para o final do corredor. – Prateleira Y, em cima.

— Vocês o ouviram. Mexam-se. – Três deles seguiram na direção indicada. Blaise fez que ia se aproximar, mas foi cortado rapidamente. – Você também, Blaise.

— Malfoy egoísta.

— Vocês sabem que isso é uma biblioteca, certo? – Harry disse, revirando os olhos. – Silêncio.

O moreno seguiu junto com os outros, não se importando com o tom da sua risada. Harry teve vontade de pedir para Draco controlar seu amigo, mas a pergunta morreu quando ele voltou o olhar no dele. Draco o encarava de forma intensa.

— Desculpa não ter preparado suas refeições esses dias, eu estive ocupado.

— Oh, está tudo bem. – Harry se lembrou de como havia ficado chateado ao não encontrar a costumeira sacola presa na maçaneta de sua porta aquela semana e da fome que não estava mais acostumado a sentir. – Como vai a sua mãe?

— Na mesma. – Draco olhou para os lados e vendo que ninguém o observava, pulou o balcão baixo entre eles e entrou no pequeno espaço que Harry tinha para trabalhar. Sentou na mesinha a sua frente, fazendo seus joelhos encostarem. – Hey, será que eu posso ficar escondido aqui por um tempo?

— Tem certeza?

— Sim, não aguento mais olhar para a cara feia da Pansy. – Harry ergueu as sobrancelhas, mas não falou nada. – Então, o que está fazendo?

— Trabalhando.

— Além disso, idiota. – Ele cruzou os braços e apontou para a pasta em suas mãos com o queixo. – O que está lendo?

— Ah, nada.

Justo naquele dia, Harry havia pegado o processo da herança dos seus pais para estudar. Ia colocar os documentos em sua gaveta, mas Draco foi mais rápido. Evidente que seus olhos foram rápidos ao encontrar os nomes "Potter". Em um gesto silencioso, dessa vez, ele perguntou se podia continuar lendo. Harry lhe deu a permissão e aproveitou que ele estava ali para levantar e buscar um copo d'água.

Quando voltou (havia demorado mais do que o comum), Draco estava sentado em sua cadeira, girando sem parar. Ele suspirou, sabendo que o loiro provavelmente o veria agora com outros olhos. Essa era a coisa boa entre eles: mesmo vivendo juntos, não sabiam quase nada da vida um do outro. Não tinham nenhum tipo de relação e para Harry, apesar da solidão que sentia, era a melhor coisa entre eles porque quando se conhece uma pessoa e cria laços, a chance dela lhe magoar ao ir embora é três vezes maior.

Pena que a grande redoma de vidro que os separava havia trincado naquela noite do abraço e continuava a trincar agora.

— Posso te fazer algumas perguntas?

— Tirando essa? – Diante do olhar divertido, ele acenou com a cabeça. – Sim, claro.

— Sua cicatriz... Veio desse acidente?!

— Sim... No momento que a arvore caiu sob o carro, meus pais morreram na hora. Eu escapei com essa cicatriz. Acho que era pequeno demais e escapei entre os espaços do banco.

— E esse processo, porque... ?

— Como você pode imaginar, a indenização pelo Estado foi enorme. Somando aos milhões que meus pais já tinham no banco, eu não consigo nem estimar a quantia que tenho direito. Mas um bebê de um ano e três meses podia facilmente ser passado para trás por seus tios, certo?

— É por isso que você decidiu cursar Direito?

— Sim. Advogado nenhum do mundo iria seguir com um caso de vinte anos.

— Você é rico, então?

— Tanto quanto você.

Harry não pode evitar a indireta, que pareceu ter surtido o efeito correto. Draco sorriu apenas confirmando que ele estava certo. Levantando da sua cadeira, ele parou a sua frente, encarando-o. Ergueu a mão parar tirar alguns fios de cabelo de sua testa, aproveitando para contornar a cicatriz com forma de raio com a ponta do dedo indicador.

Depois de tudo que já havia acontecido, Harry não pensou que fosse isso a lhe trazer verdadeiro desconforto. Cruzou os braços e evitou olhar em seus olhos, focando em um inseto que estava no chão.

— As mulheres devem cair aos seus pés com essa história triste.

— Isso foi uma pergunta retórica?

— Não, deixe-me corrigir. – Draco sorriu, e avançou a pouca distância entre eles. – Homens e mulheres devem cair aos seus pés com essa história triste.

Antes que ele pudesse se afastar, os lábios foram cobertos novamente pelos finos de Draco. Dessa vez ele segurou seu queixo, prolongando o contato por mais alguns segundos antes de se afastar. Seu sorriso estava enorme quando ele voltou ao seu campo de visão.

— Até mais tarde, Potter.

Parado, ficou observando enquanto o loiro pulava o balcão de novo, caminhando na direção da saída.

"Eu beijo quem eu quero. Quando eu quero."

x-x-x

01/05, 23h40min pm

— Está atrasado.

Harry lançou sua mochila no chão e evitou olhar na direção da voz que havia soado alta da cozinha. Seus lábios estavam formigando com a simples lembrança daquela tarde. Talvez fosse a carência, a falta de estar com alguém que havia feito com que ele ficasse revivendo o momento na sua mente. Ou seria vergonha por deixar o outro se aproximar dele e pegar o que quisesse, sem lutar contra? Ele havia decidido usar essa teoria para explicar as sensações estranhas.

— Venha, Harry querido! – Revirando os olhos e bufando, finalmente olhou na direção da cozinha. Blaise estava olhando pra ele, mordendo o lábio inferior. – Eu fiz o seu jantar!

— Dispenso.

— Não pensei que alguém como esse garoto estivesse em posição de dispensar comida.

Blaise fez uma careta feia, e saiu do batente da porta deixando a cozinha à vista. Cortando alguns legumes, sem ao menos olhar para eles, estava a jovem morena de mais cedo. Ela o encarava com olhar afiado, e Harry não teve opção a não ser encará-la de volta. Os dois garotos corpulentos de mais cedo estavam no fogão, e lançaram olhares por cima dos ombros apenas para cumprimentá-lo rapidamente. Draco nem ao menos ergueu os olhos do livro que estava lendo.

— Calada, Pansy. – Disse cansado. – Potter, venha comer.

Harry pensou nas suas opções. Poderia ir para o quarto terminar suas tarefas e comer os pãezinhos recheados que havia pegado na cafeteria mais cedo, ou poderia comer um jantar completo que com certeza o alimentaria bem até o outro dia.

Em compensação, teria de aguentar aquela garota que por algum motivo o odiava.

— Está pronto? Eu não posso esperar muito.

— Deus, além de tudo é mal educado...

— Pansy, pela última vez, cale a boca. – Blaise encolheu no seu canto, os cozinheiros voltaram as suas panelas. Harry apenas ignorou a briga que seguia pegando o seu lugar a mesa. – É por esse motivo que você nunca foi convidada a entrar na minha casa.

— Desculpa, desculpa... – Ela revirou os olhos e Harry percebeu que o pedido era feito da boca pra fora.

— Hey. – Blaise chamou sua atenção. – Hoje nós estamos trabalhando com carne e algumas saladas de acompanhamento. Queremos ver qual combina mais, pode nos ajudar?

Apenas acenou e ficou em silêncio esperando o moreno montar seu prato. Deu um olhar rápido para Draco vendo que seus olhos estavam apenas focados no livro; ele nem ao menos estava fingindo ler.

Blaise sorriu gentil, e montou um prato que consistia apenas em um pedaço generoso de carne –ele não saberia qual tipo – com um molho esverdeado. Ao lado, uma salada com ingredientes que ele nunca via visto, mas que sabia que o sabor estaria divino.

— Além de cozinhar vocês precisam deixar o prato bonito assim? – Perguntou inocente.

— Você nunca sabe quando um cliente irá tirar foto para postar em algum lugar. – Blaise ainda sorria. – Na realidade, a montagem do prato é tão importante quanto o sabor. Você precisar ter vontade de comer apenas ao olhar para o alimento.

Harry não perguntou mais nada enquanto comia. A carne estava tão macia que a força que ele havia posto nos talheres tinha sido totalmente desnecessária. Ela parecia desmanchar na boca, e o molho que acompanhava... uau.

— E então?

— Bom.

— Nossa, um verdadeiro crítico gastronômico. – A voz era zombeteira. Harry ouviu garotas usando aquele tom a vida inteira. – Não esperava menos de um garoto que só se alimenta de noodles.

Isso chamou a atenção dele e, pelo que ele percebeu a de Draco também. Juntando-se a Blaise, os três a encararam atrás de uma explicação.

— Eu vi alguns noodles no armário, e tenho certeza que Draco não come aquela nojeira.

Isso fez Harry rir. Ele percebeu quão sem humor foi o tom de sua risada, mas não se importou.

— Você entrou no meu quarto?

— Não fale como se o quarto fosse seu. – Confirmado, maldita bruxa. – Essa casa pertence à Draco.

— Eu pago o aluguel daquele quarto. A casa é dele, mas o quarto é meu.

— Uau. Não é como se tivesse algo para se esconder lá, não é? Seu armário mal tem dois pares de cada peça de roupa. Sua mesa tem tanto lixo que poderia me afogar neles e... oh! – Ela largou a faca na mesa, e pôs a mão na boca para esconder um sorriso debochado. – Você queria esconder as fotos?

Harry trincou os dentes e Blaise percebeu, já que era quem estava mais próximo dele. Ele percebeu que seu corpo tremeu, e o moreno pôs uma mão em seu ombro para segurá-lo.

— Parkinson, não ouse...

— Ninguém poderia saber dos seus pais? Aquela família de ruivos... Eles te adotaram, ou algo assim? – Suas mãos estavam fechadas de forma tão forte que suas unhas começaram a machucar. – Ah! Quem é Sirius Black? Tenho certeza que já ouvi esse nome em...

Antes que ele pudesse revidar, o loiro que esteve quieto durante toda a conversar bateu a mão na mesa com tanta força que algumas coisas caíram no chão. Os garotos no fogão pararam de se mexer, Blaise pôs a mão no peito por conta do susto e Pansy finalmente calou a boca, assustada.

Quando Draco respirou fundo e ergueu os olhos ele estava furioso. Harry viu sua deixa para levantar e sair da mesa; o que quer que fosse vir ali não seria bom para ninguém e ele já havia sido bombardeado demais. Viu que Blaise tentou lhe chamar, mas fechou a porta do quarto assim que entrou. Abriu a porta de seu armário confirmando que a garota havia revirado tudo, e com um pouco de dificuldade encontrou sua toalha. Caminhou para o banheiro, olhando rapidamente para seu reflexo abatido no espelho enquanto tirava as roupas, e entrou embaixo do chuveiro assim que ligou não se importando com a água gelada. Nem o barulho da água foi capaz de abafar os gritos que vinham da cozinha.

Quando saiu, entretanto, a casa estava silenciosa. A única coisa que denunciava a presença de alguém era o barulho das panelas que ainda era presente. Harry se trocou, vestindo apenas sua calça de pijama e se enfiou embaixo das cobertas. Olhou para a parede ao seu lado e tocou as fotos que ali estavam com a ponta dos dedos. Mesmo que estivesse sem os óculos, e sem conseguir enxergar nada na penumbra, Harry já tinha aquelas fotos decoradas na mente.

O barulho da maçaneta chamou sua atenção. Olhando para a porta, um filete de luz apareceu iluminando o quarto.

— Eu sei que você ainda está acordado. – Harry suspirou. – Posso entrar?

Acendendo a luz da sua luminária fraca e sentando-se na cama, Harry falou que sim. Quando Draco caminhou na sua direção, desamarrou o avental e passou a segurá-lo nas mãos. Ele não pediu licença para sentar na sua cama.

— Peço desculpas pela Pansy. Já pedi para Crabbe levá-la para casa e deixei bem claro que ela não é bem vinda aqui.

— Ela é sua amiga, Malfoy. – Harry finalmente puxou os óculos da sua mesinha para poder enxergar o rosto do loiro. – E ela está certa, a casa é sua.

Ele balançou a cabeça negativamente antes de vira-la para trás, focando na parede atrás dele. Aproximou-se o suficiente para olhar as fotos, seus olhos acinzentados parecendo ainda mais claros na pouca iluminação.

— Pansy sempre foi daquele jeito. – Ele franziu as sobrancelhas. – Ela pensa que bolsistas não tem direito a nada... Ela vê a nossa faculdade como um lugar onde só os mais ricos podem ficar.

Algo no tom de voz dele trouxe a tona uma dúvida. Harry sofreu na escola por causa de garotas como ela, mas sabia que garotas assim não andavam sozinhas.

— Você era como ela, não era?

Seus lábios não se curvaram no sorriso envergonhado que ele esperava ver. Ao invés disso, Draco focou seus olhos nos dele. Harry sempre foi bom em ler as pessoas, mas seu super poder não era tão efetivo em caras como Draco.

— Diferente de Pansy, eu tive algo que mudou minha cabeça... – Seus dedos, gelados, ergueram-se na escuridão até pousarem em sua cicatriz. Harry arrepiou-se com o contato, mas não deixou transparecer. – A vida é curta.

— Você tem cara de ter sido praticante de bullying, junto daqueles dois caras do fogão.

— E Blaise?

— Blaise era a vitima. Acabou virando amigo por algum motivo estranho.

— Você é bom com palpites. – Ele baixou o braço finalmente e cruzou-os no peito. – Isso é bom para um advogado, não é?

— Tente. – Harry deu de ombros, indicando as fotos com um aceno de cabeça. – É mais simples do que parece.

Draco dessa vez não apenas inclinou o corpo, mas preferiu levantar e sentar praticamente do seu lado no mínimo espaço da cama de solteiro. Apontou para a primeira foto, do casal que se abraçava sob a sombra de um grande arvore, folhas alaranjadas caindo ao redor.

— Esses são seus pais, mas qualquer um poderia dizer. Você é a cara dele, com os olhos dela. – Olhando para a foto do lado, um rapaz de longos cabelos pretos e sorriso intimidador em cima de uma Harley Davidson, Draco riu e balançou a cabeça negativamente. – Ok. Não sou bom. Quem é esse cara?

— Este é meu padrinho, Sirius Black, ele morreu há quatro anos na prisão por um crime que não cometeu. – Ele ergueu a borda da foto mostrando que o nome dele estava escrito lá assim como o ano da foto, única razão para Pansy ter descoberto. Apontando para o lado, continuou. – Esses são Ron e Hermione. Meus melhores amigos.

A foto era antiga. Eles estavam no quarto ano da escola; Ron ainda possuía aquele estúpido rato de estimação e Hermione não havia colocado seu aparelho. Harry não sorria na foto, mas era evidente o quanto estava feliz naquele momento.

— Porque você não os chama para uma visita?

— Porque Ron provavelmente ainda está com raiva porque eu acabei com a irmã dele. – Foi a deixa que ele precisou parar seguir para a outra foto. – Essa é Ginny e seus irmãos, esses são Molly e Arthur que sempre me trataram como um filho mesmo antes de eu namorá-la.

— Porque acabou?

— Nunca a amei.

Ele pensou que ele perguntaria "porque começou?", como todos faziam, mas ele não o fez. Diferente disso, ele puxou sua carteira do jeans que ainda usava e lhe entregou uma pequena foto. Dois loiros, imponentes, olhavam sérios. O que chamava a atenção, além da beleza, eram os longos cabelos do homem e os olhos muito claros da mulher.

— Hoje eles não estão desse jeito, mas preferem ser lembrados assim. – Sorriu levemente, enquanto arrumava os cabelos sem perceber em um gesto automático. – Eu preciso voltar a cozinha. Sem Pansy, iremos demorar a terminar o trabalho. Blaise precisara de minha ajuda para montar as saladas.

— Deveria pedir desculpas?

— Apenas por não ter terminado seu prato. – Draco deu um longo suspiro. – Pensei que você estivesse com fome.

— Eu estava, acredite. – Harry lembrou-se da carne e controlou os pensamentos para sua barriga não fazer nenhum barulho constrangedor. – Uma pena que sua garota é louca.

— Ela não é minha garota. – Draco se aproximou rápido, como sempre, ficando próximo a ponto dos seus narizes se tocarem. – Não tenha ciúmes.

Ele quis dizer que ele estava entendendo tudo errado, mas tudo que dissesse no momento seria usado contra ele. Por isso se afastou, demonstrando que a presença do loiro nada lhe afetava, e tirou os óculos antes de puxar a coberta para cima do ombro e deitar.

— Boa noite, Malfoy.

— Sem beijo de boa noite? – Harry ficou quieto, ouvindo e sentindo apenas o colchão se mexer quando ele se levantou. Sua surpresa, entretanto, veio quando ele debruçou sobre seu corpo, sussurrando com voz rouca no seu ouvido. – Talvez na próxima?

Ele ouviu a risada fraca sumir ao fechar da porta e em seguida, só as batidas descontroladas do seu coração se fizeram presentes, ensurdecendo-o.


N/A: KuchikiRukia.13 criou um monstro, ok? ok.

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