Após esconder o Impala entre as árvores que ficavam do outro lado da estrada Sam pegou uma lanterna e se dirigiu com determinação para o local em que antes ficava a casa de Celeste. Um vento frio soprava daquela direção e um leve cheiro de madeira queimada começou a se desprender do chão conforme Sam se aprofundava no bosque, mas ele não estava com medo. Tinha certeza de que podia resolver aquilo se encontrasse Celeste novamente, se explicasse á ela o que estava acontecendo; e pela maneira como o ar de repente começou a ficar mais quente ao seu redor, percebeu que não ia demorar muito para achá-la.

Rick...? – a voz ecoou por trás de Sam.

Sam virou-se rapidamente e o facho da lanterna iluminou uma figura pálida, de cabelos chamuscados caídos no rosto, as roupas queimadas e um olhar tão vazio que causou um arrepio em Sam. Ela não estava sorrindo para ele desta vez.

Quem é você? O que quer aqui?

Ela se aproximava devagar agora, e o ar começou a ficar abafado, sufocante, ao redor de Sam.

- Celeste, espere. – disse Sam, com toda calma que conseguiu reunir apesar da situação. – Eu estou aqui pra ajudar...

Vá embora! Me deixe em paz!!

- Não...escute...o que aconteceu no incêndio a deixou confusa...

Me deixe em paz!!! Me deixem em paz!!!

Ela levou as duas mãos á cabeça de repente, como se sentisse dor, então Sam percebeu a mudança que estava ocorrendo ao redor deles: o bosque ainda estava ali mas a casa se sobrepunha á imagem real, oscilando, aparecendo e desaparecendo como um fantasma querendo tomar forma.

- Celeste, você tem que...- Sam não pôde continuar; aquela sensação estranha que sempre o assaltava antes das visões de Celeste o tomou, mas agora parecia três vezes mais forte, dolorosa, e parecia estar drenando toda a sua força.

Sam caiu de joelhos.

Aquilo não estava indo bem, nada bem, pensou Sam em meio ao atordoamento e a dor. Ele não calculara que as coisas podiam acabar assim e estava pronto a admitir que Dean tinha razão e aquela não fora uma boa idéia. Não que isso adiantasse alguma coisa naquele momento...

Por que não me deixam em paz? Vou fazê-los me deixarem em paz!!

Obviamente ele trouxera uma arma carregada com sal grosso e algumas outras coisas para se proteger, ainda era um Winchester antes de tudo, mas agora, fraco e desorientado como estava, não conseguia nem mesmo forçar-se á alcançá-las. Sentiu outra onda de vertigem e soube que mais alguma coisa estava mudando naquele cenário de horror.

Ergueu a cabeça e arregalou os olhos. A casa estava mais nítida, Celeste estava mais nítida, mas Sam ainda podia ver o bosque como se o visse através de uma janela embaçada. Mas o que assustou o jovem caçador foi notar que havia outras cenas se desenrolando á volta dele, como num filme.

Uma garota andava no acostamento da estrada, uma mochila enorme nas costas. Num momento ela estava sorrindo e apertando o passo para ir á algum lugar e, no outro, ela estava no meio do bosque, a escuridão sufocante á rodeá-la, o puro pavor refletindo-se em seus olhos.

Sam ouviu os gritos e fechou os olhos quando começou a sentir o cheiro de carne queimando. Ele ouviu outras vozes, outras vítimas de Celeste passando naquele filme macabro ao seu redor, até que eles também silenciaram.

Quando abriu os olhos novamente ele viu algo completamente diferente, mas não menos terrível: Sam começou a ver, desde o momento em que os três rapazes saíam de seu esconderijo no bosque, o ataque que causou a morte de Celeste.

Oh Meu Deus. O que foi que fizeram com você?

SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

- É aqui, pare o carro! Pare o carro!

Dean ligara o EMF e o aparelho de repente começara a zumbir e piscar loucamente como antes, indicando o trecho certo da estrada. Richard mal teve tempo de encostar a caminhonete e Dean já saltava do veículo.

- Que inferno, Sam! Onde diabos você a deixou?? – Dean, refreando o primeiro impulso de se embrenhar no bosque atrás do irmão, correu para o outro lado da estrada, procurando o Impala. As armas estavam ali e ele não podia simplesmente sair atrás do fantasma com as mãos nuas. – Finalmente!! – disse, quando viu o brilho dos cromados á luz da lua.

Enquanto Dean se preparava, Richard Coltrane, de pé no acostamento, de frente para o bosque, olhava para a escuridão como se ela estivesse prestes a engoli-lo. Estava pálido, suas mãos tremiam e quando Dean se aproximou e ficou a seu lado notou que o homem estava rezando baixinho.

- Fique aqui. – disse Dean, encaminhando-se para o bosque. – Talvez não seja uma boa idéia encontrá-la depois de ter lhe dado um bolo de tantos anos.

- Não...- murmurou o homem, num fio de voz. – Eu vou...tenho que ir...

Dean o encarou atentamente e assentiu.

- Como quiser...mas fique atrás de mim, ok?

Assim que os dois começaram a caminhar para dentro da escuridão, apenas a lanterna de Dean cortando as sombras á frente, uma lufada de ar quente os envolveu e, num segundo, a noite foi substituída por um entardecer estranho e quente.

Havia o bosque, mas havia também uma sala em cujo chão uma pessoa jazia deitada.

- SAM!!

Dean correu até o irmão, ajoelhou-se e o ergueu um pouco, assustado com sua palidez.

- Sam? Sammy?? Acorde, Sam...acorde, vamos lá!! Sammy...

- Dean...- a voz de Sam era menos que um murmúrio, mas Dean sorriu ao ver que ele estava consciente. – Dean...Celeste...você tem que tomar cuidado...ela está...

- Ok, ok...eu sei...agora fique calmo...vou tirar você daqui. - Dean passou o braço por baixo do braço do irmão, tentando erguê-lo, alheio ao fato de que eles não estavam sozinhos ali.

O calor se intensificou e chamas fantasmagóricas começaram a se espalhar pelo chão, tomar os móveis e lamber as cortinas e paredes. Sam puxou a jaqueta do irmão mais velho e apontou fracamente para o meio da sala. Dean ergueu a cabeça e teve que focalizar o olhar para perceber Celeste, em meio ás chamas violentas que a rodeavam, parecendo o pavio incandescente no olho de um incêndio.

Ela começou a caminhar na direção deles, as chamas saindo dela e atingindo tudo ao redor, destruindo a casa fantasma e roubando o ar.

Dean ergueu a escopeta e atirou.

Nada aconteceu. Uma leve ondulação nas chamas, um franzir delicado de sobrancelhas, e Celeste continuava a se aproximar.

- Filha da...- Dean atirou de novo, e de novo, então sentiu Sam voltar a desmaiar em seus braços. Foi quando notou pelo canto do olho a figura rígida e apavorada de Richard Coltrane num canto da sala, que agora estava tão sólida e sufocante quanto a ante sala do inferno. – Richard!! Richard fale com ela! – gritou Dean, sem conseguir pensar em nada mais que pudesse fazer para evitar que todos ali terminassem assados feito peru de Natal. – Ela estava esperando você, não estava? Não foi o que me disse? Todo esse tempo ela esperou você...ela vai te ouvir!!

- Mas...- o homem hesitou e pareceu se encolher.

- Nós vamos morrer aqui se você não fizer nada!! Mexa-se!!!

Dean abraçou o irmão com firmeza.

Richard pareceu tomar uma decisão e a despeito de sua hesitação anterior, aproximou-se das chamas que envolviam Celeste e estendeu a mão. Lembrava-se da dor das queimaduras e tinha medo de sentir aquilo novamente mas dessa vez não hesitou. Tocou o ombro de Celeste e por um momento sentiu a mão arder como o diabo...então não sentiu mais nada. Um brilho intenso mas que não lhe feriu os olhos tomou conta da sala e, quando Richard abriu os olhos tudo havia mudado.

Não havia mais chamas. A sala estava arrumada e agradável como sempre e Celeste estava usando seu melhor vestido; aquele branco com pequenas flores azuis.

Miosótis, Rick...significam não te esqueças...

A voz dela era suave e seus olhos não estavam mais tristes. Richard era jovem novamente, forte, e suas mãos não doíam porque não tinham cicatrizes de queimadura. Ela estava sorrindo e ele a tomou nos braços como sempre quisera fazer, e a beijou, sentido as lágrimas dela escorrerem pelo rosto.

Eu esperei tanto...

- Eu sei...me desculpe. – ele olhou profundamente nos brilhantes olhos castanhos dela e disse aquilo que também sempre quisera dizer. – Eu te amo. Você pode me perdoar?

Sim.

Dean fechou os olhos quando uma segunda explosão de luz encheu o lugar. Quando abriu os olhos novamente a primeira coisa que viu foi Richard de pé, olhando para o nada a sua frente, então o jovem Winchester percebeu que estavam no meio do bosque e não havia sinal da casa nem de Celeste. O EMF estava em silencio em seu bolso.

- Sammy...? – Dean ergueu a cabeça do irmão e o sacudiu de leve. O rapaz abriu os olhos devagar. – Sam, você está bem?

- Estou com fome...

Dean riu.

SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

No dia seguinte os irmãos Winchester se despediram da família Coltrane e tomaram a estrada, mas não sem antes ganharem três refeições completas distribuídas em vários potes e travessas para comerem durante a viagem. Cortesia de Rachel e de Cinthia, que também fez questão de dar outra lembrancinha para Sam levar: um belo beijo de despedida antes que ele entrasse no carro. Ela também disse a ele para não se esquecer de telefonar. Dean mal se agüentou ao ver o irmão ficar vermelho feito pimenta.

- Obrigado, garotos. – disse o senhor Coltrane, o braço envolvendo o ombro de sua esposa carinhosamente. Ela também agradeceu e lhes desejou uma boa viagem.

Os rapazes entraram no carro e, quando passaram pelo trecho antes assombrado da estrada, Sam respirou fundo e pegou um dos potes de torta.

- Ainda com fome, hein. – disse Dean, observando o irmão mais novo devorar o primeiro pedaço. – Bem...não é de se admirar, já que ela estava usando a sua energia para aquele show pirotécnico que estava fazendo.

Sam não disse nada. Ainda se sentia culpado por ter desobedecido Dean e ter colocado todos eles em perigo. Claro que não ia dizer isso á ele.

- E as antenas? – perguntou, engolindo a torta e já pegando mais um pedaço. – Você checou?

- Yep. – Dean respondeu. – Os geradores praticamente explodiram mas não se preocupe, ninguém saiu ferido. Parece que houve uma sobrecarga bem feia... - Sam suspirou e devolveu ao pote o terceiro pedaço. Dean o olhou de esguelha. – Olhe, Sam...de certa forma tudo o que aconteceu deu certo. Você disse que sentia que podia ajudá-la, e foi o que aconteceu.

- Do que está falando, Dean?? Eu quase arruinei tudo! Se o senhor Coltrane não tivesse aparecido nós estaríamos mortos e sabe-se-lá quantas pessoas mais, se ela usasse minha energia para continuar a vingança!

- Hei, calma! – Dean encostou o carro e encarou o irmão. – Se você não tivesse ido até lá eu e o velho Coltrane não apareceríamos...e ele não teria finalmente libertado a garota. Aliás, quem realmente libertou Celeste foi você, Sam. Sem a sua energia psíquica para fortalecê-la o espírito nunca ia conseguir detonar aqueles geradores para se libertar do campo magnético!

- É isso que você acha que aconteceu? – Sam estava atônito; Dean sempre fazia o possível para esquecer que Sam tinha essas habilidades, nem gostava de tocar no assunto se tivesse chance. – Acha que foi por minha causa?

Dean deu de ombros e ligou o carro de novo.

- Bem, não vá ficar todo convencido, ok? – disse, fugindo do assunto deliberadamente. – E só pra avisar: se você fizer isso de novo eu vou te dar uma surra.

- Ah é? – Sam riu. – Vai me dar um soco como daquela vez, quando encontramos o Gordon?

- Não, vai ser de cinto, mesmo.

- COMO É??

- Se você insistir em bancar o irmão mais novo desobediente, Sammy, vai ter que agüentar as conseqüências. Agora me passa essa torta.

Dean puxou o pote para o colo e enquanto Sam ainda estava balbuciando frases indignadas colocou uma fita no player.

A música abafou os protestos de Sam enquanto Dean ria:

Prison gates won't open up for me

On these hands and knees i'm crawlin'

Oh, i reach for you

Well i'm terrified of these four walls

These iron bars can't hold my soul in

All i need is you

Come please i'm callin'

And oh i scream for you

Hurry i'm fallin'

Fim

Música: Savin'me - Nickelback