Segundo dia, continuação: o jantar
"O conceito de que os homens sentem atração, e que as mulheres se apaixonam, não está completamente errado. Mas também não está certo. Do ponto de vista estratégico, é melhor que a mente dele esteja enevoada e que a sua permaneça alerta."
Ouse
O restaurante tinha uma iluminação suave e discreta. As toalhas de mesa eram forradas com primor, a comida agradaria qualquer connoisseur, e o clima inspirava intimidade.
Para completar, um talentoso trio tocava jazz ao fundo, com classe e elegância.
Se Lily não o conhecesse bem, poderia jurar que James estava tentando seduzi-la. Contudo, depois de sucumbir ao delicioso vinho de boa safra, estava um pouco difícil se lembrar do plano que elaborara para executar naquela noite. Sabia apenas que era algo sobre fazê-lo encarar seus sentimentos.
O livro de Kate afirmava de forma categórica que deveria haver mais do que apenas emoção como base de um casamento. Era necessário saber quão profundos e sinceros eram os sentimentos, para se ter uma união feliz e duradoura. Caso contrário, não valeria a pena "fisgar o homem".
Não que Lily quisesse ajudar Dominique a fisgá-lo, mas depois de haver se acalmado, percebeu que não queria arruinar-lhe a vida, caso estivesse amando realmente aquela mulher.
Enquanto durou o efeito mais intenso do vinho, Lily não conseguiu raciocinar direito, mas depois de relembrar os eventos do dia, sua determinação venceu a pequena dose de álcool com facilidade.
Estava mais do que preparada para fazer James encarar os próprios sentimentos, mesmo que o motivo para isso fosse uma mulher falsa, que via nele apenas um futuro de sucesso, cheio de ganhos pessoais.
James se curvou sobre a mesa e colocou mais um pouco do precioso líquido cor de rubi na taça de cristal.
— Quer sobremesa? Pelo que vi no carrinho, eles têm algumas iguarias tentadoras. A maioria dos doces é recheada com creme.
Creme. Uma das fraquezas de Lily. Fechando os olhos por um instante, reuniu forças para abdicar da tentação.
— Não, obrigada.
Mas James já havia sinalizado para que o garçom trouxesse o carrinho de sobremesas.
— Não precisa se fazer de mártir e manter sua dieta só porque está na minha frente — ralhou ele. — Está em ótima forma e, além disso, já descobri que mentiu para mim hoje.
— Quando?
— Sobre sua idade.
— Mas tenho vinte e quatro anos. Ainda...
— Ainda... — repetiu ele, rindo da expressão indignada de Lily. — Se me lembro bem, seu aniversário será daqui a dois dias. Como estaremos em Las Vegas, não terá como celebrar com a família.
— Será pouco comum, mas vamos comemorar no meu retorno. Mamãe insistiu nisso, por querer colocar vinte e cinco velinhas sobre o bolo, mesmo correndo o risco de disparar o alarme de incêndio.
— Serei convidado para a festa?
— Claro, e também o corpo de bombeiros.
Enquanto ambos riam, o garçom se aproximou, empurrando o carrinho de sobremesas. Os vários doces, de todos tipos e cores, pareciam deliciosos e apetitosos.
— Decisão difícil, não? — indagou James, antes de voltar a atenção para o garçom. — O que sugere como sobremesa para uma senhorita que adora creme e chocolate?
Lily suspirou, preocupada, ao ver que fora presenteada com o doce mais exuberante e aparentemente delicioso da travessa.
— Você nunca me ouve? — disse ela, assim que o garçom partiu.
— O que foi que fiz agora?
— Avisei que não queria sobremesa.
— Seus lábios disseram "não", mas seus olhos gritaram "sim, sim, sim"!
"Como sempre, uma dedução bastante masculina, e totalmente imprecisa", pensou ela.
— E o que meus olhos dizem agora?
— Hum... Deixe-me ver. Estão brilhando. Um efeito causado pela ótima companhia que está tendo agora, é claro.
— Essa não é bem a definição que eu usaria.
— Não mesmo? Bem, de qualquer forma, eu a ouço, sim. E chegada a hora de colocar meus sentimentos em revisão, certo?
— Certo — confirmou Lily, surpresa pela lembrança quase espontânea por parte dele. — Por onde quer começar?
James apoiou o cotovelo na mesa e levou a mão ao queixo. Mesmo estando acostumada a vê-lo todos os dias, não podia deixar de ficar encantada com James. Sem perceber, fitou longamente os lábios dele, desejando o impossível. Observou-o levar o guardanapo à boca, em um movimento tranquilo e natural.
— Acertei? — indagou ele.
— O quê? — perguntou Lily, voltando à realidade.
— O lugar onde estava o farelo de doce. Pensei que era por isso que estava me olhando desse jeito.
— Oh... Sim. Está ótimo agora — assegurou ela, embora não houvesse nenhum farelo de doce nos lábios dele. — E então?
— Acho que será mais fácil se me fizer algumas perguntas, para me ajudar a começar — sugeriu ele. — Não vai comer a sobremesa?
— Bem, comecemos pela lembrança de que está se encontrando com Dominique há bastante tempo. Deve admitir que isso é raro para você.
— É?
— Digamos que nem os homens mais rápidos que conheço entram e saem de relacionamentos tão depressa quanto você. Nenhum dos que teve até hoje foi duradouro.
— Errado — contestou James, balançando a cabeça negativamente e mostrando um meio sorriso.
— O que quer dizer com isso? — Lily ficou parada, com o garfo a centímetros da boca, sustentando um pedaço de doce em pleno ar. — Dominique é a primeira mulher com quem ficou por todo esse tempo.
— É a segunda — corrigiu ele.
— Tem certeza? Ficou com alguém com quem saía na faculdade, e que eu não conheci?
— Não. Foi antes disso.
— No colégio? De jeito nenhum... — disse ela, devolvendo o garfo ao prato. — Eu estava na mesma escola, lembra-se? E mesmo estando algumas séries para trás, Josh sempre teve dificuldade em ficar calado. Contava todas as aventuras de vocês.
— Foi ainda antes do colegial.
— No ginásio? Não pode ser. Considerei até mesmo Barbara Aram, mas você estava saindo com Nancy West e com Juliet Weingarten ao mesmo tempo, então...
— Ouça só esta música! — exclamou James, levantando-se da cadeira. — Vamos dançar.
— Dançar? — perguntou ela, olhando para a minúscula e vazia pista de dança.
— Isso mesmo. Já perdeu aquela mania de querer conduzir, não é? Vou avisando que vou vencer qualquer disputa de força para determinar quem conduz a dança, quer goste ou não.
Tendo a nítida impressão de que estava dentro de um sonho, e sem saber se estava mesmo acordada, Lily se levantou, sentindo melhor o efeito do vinho.
— Mas não há ninguém dançando.
— Pior para eles — respondeu James, segurando-a carinhosamente pela mão e fazendo-a caminhar na frente até a pista.
— Mas é uma música lenta — observou ela, ainda relutante.
— Está com medo de que eu pise nos seus pés?
Lily estava temendo milhares de outras coisas, menos aquilo. Ao sentir o braço dele envolvê-la e entrar em contato com aquele peito forte e quente, suas forças se esvaíram.
— Hum... Do tamanho exato!.. — James murmurou próximo ao ouvido dela, enquanto tocava-lhe os cachos sedosos com a face.
— O quê? — sussurrou Lily, olhando para o nó da gravata dele.
— Você é do tamanho certo. Sua altura... Não tenho de me curvar, como seria preciso fazer com uma mulher mais baixa.
— Sempre desejei ser menor — confessou ela.
— Ora, mas é perfeita assim. Sorte que não temos o poder de mudar, ou você teria trabalhado em vão.
"Por que nenhum homem com quem saí me disse algo assim?", pensou Lily, desconcertada. "E por que teve de ser James a fazer o elogio? Ele é meu melhor amigo, e não meu amante."
Todavia, enquanto se deixava levar pelo som suave da música, envolta por aqueles braços fortes, foi difícil concentrar-se na ideia de que ele era apenas um amigo.
— Então, quem foi a primeira mulher com quem passou tanto tempo assim? — perguntou, tentando recuperar o rumo dos pensamentos. — Sua mãe?
— Eu não havia pensado nela.
— Não? Então quem foi?
O sorriso dele foi anunciado por um estranho brilho no olhar.
— Foi você, Lily — murmurou ele, apertando-a carinhosamente contra si. — Quem mais, senão você?
Os lindos olhos verdes de Lily se arregalaram diante do anúncio. James decidiu tirar vantagem do momento e levou a mão calmamente mais para cima, tocando-lhe a pele nua das costas.
— Pronta para uma pequena ousadia? — indagou ele, começando a incliná-la para trás.
De imediato, e ainda atordoada pela declaração que ouvira, Lily colocou os braços ao redor do pescoço dele, esforçando-se para manter o equilíbrio enquanto era praticamente deitada no ar, apoiada sobre a mão de James.
Por um instante, ele a teve completamente à sua mercê, deleitando-se com o prazer de senti-la tão perto.
Caídos para trás, os cabelos de Lily formavam lindos cachos ruivos. Era um prazer saber que ela era tão natural, e que não iria correr para o toalete no instante seguinte, tendo de ajeitar o penteado e retocar a maquiagem, como faria Dominique.
— O que vem agora? — indagou ela, franzindo o cenho. — Piruetas em pleno ar? Acha que estamos em um rinque de patinação?
James a endireitou, aproveitando cada instante de contato entre seus corpos. Deliciou-se com a sensação de perceber os seios firmes de Lily pressionados contra seu peito, sentindo seus rostos quase se tocando.
— Nada tão radical — murmurou ele, sorrindo com charme.
— O que quis dizer ao afirmar que seu relacionamento comigo precede seu caso com Dominique? Trata-se de duas situações completamente diferentes.
— De onde vem sua ideia sobre isso?
— Como assim? — indagou Lily.
— Por que acha que nunca tivemos um relacio...
— Está sendo evasivo de novo, James — ela o interrompeu, impedindo-o de terminar a frase.
— Acha mesmo isso? — indagou ele, sorrindo ao vê-la enrubescer.
— Não ouse me inclinar para trás outra vez!
— Então pare de tentar se afastar de mim. Danço muito melhor quando estou perto da parceira.
— Pois prefiro poder dançar e respirar ao mesmo tempo — argumentou Lily, resistindo ao abraço dele. — Agora, falemos de Dominique.
— Precisamos falar dela? — murmurou ele, suspirando com desânimo, antes de roçar a face nos cabelos dela.
— Temos de fazê-lo. Foi por isso que viemos jantar.
— Já acabamos de jantar. Superamos essa parte da noite.
A música acabou nesse momento e houve alguns aplausos em agradecimento. Lily escapou dos braços dele, tentando caminhar em direção à mesa.
James a segurou pela mão e a fez voltar para perto de si, virando-se em seguida para o pequenino palco.
— Rapazes, quantas músicas lentas vocês conhecem?
— Um repertório apresentável de pelo menos mais vinte minutos — respondeu o saxofonista, acenando para os colegas em busca de aprovação.
O baterista e o baixista concordaram com gestos de cabeça, observando James tirar duas notas de vinte dólares da carteira e entregá-las ao saxofonista.
— Poderiam tocar algumas delas duas vezes?
Os três sorriram, entreolhando-se, e voltaram a tocar em seguida. Tomando-a nos braços outra vez, James não tardou em recomeçar a dançar.
— Onde estávamos mesmo? Ah, sim, lembrei — disse ele, roçando o rosto nos cabelos perfumados de Lily.
— Isso não vai funcionar, Sr. Potter — falou ela, suspirando com desânimo.
— Já está funcionando, querida. Dança lenta é muito relaxante. Com todo o estresse a que fomos submetidos nos últimos dias, sob a pressão de acertar o lançamento do novo creme dental, acho que merecemos e que precisamos de uma pausa. Não está se divertindo?
— Sim, mas...
— Se me ouvir prometer que falaremos sobre Dominique amanhã, ao longo do vôo, esquecerá o assunto por hoje e vai se divertir? Teremos pelo menos cinco horas no ar, o que será tempo mais do que suficiente para conversarmos.
Lily hesitou um instante, mas acabou se rendendo.
— Tenho certeza de que vou me arrepender por concordar com isso, mas tudo bem.
Ele a recompensou com um beijo suave na testa. Na verdade, talvez estivesse recompensando a si mesmo. Estava com vontade de beijá-la desde que fora buscá-la no apartamento, ou teria sido desde o almoço no parque?
Ainda era difícil de acreditar que estava com Lily em seus braços. A garota que ele sempre considerara a antítese de Dominique estava conseguindo afetá-lo da mesma forma...
Não. De uma maneira diferente, mas ainda assim, poderosa.
Aceitando finalmente a situação que surgira, ela havia relaxado em seus braços, e seus corpos estavam se tocando.
James a apertou levemente contra si, repousando a face junto aos cabelos dela.
— Você dança muito bem.
— Só está dizendo isso porque não tentei conduzir o ritmo nenhuma vez — respondeu ela, soltando um riso suave.
— Pode ser.
— Passou muito tempo, desde a última vez que dançamos juntos.
— Dez anos?
— Mais... Eu era a única parceira disponível para você e Josh praticarem, antes de irem ao primeiro baile.
— É mesmo — concordou James. — A formatura do ginásio. Eu era tímido naquela época.
— Você? — indagou Lily, afastando o rosto para encará-lo, sorrindo. — Acho difícil alguém acreditar nisso. Vamos lá, admita que já nasceu extrovertido.
Se fosse outra garota, ele começaria a falar com segundas intenções e a jogar com palavras de duplo sentido. Mas aquela era Lily, e não uma cabeça-de-vento como Dominique.
— É apenas uma farsa. Estou sempre assustado com...
— Entendi a ideia — Lily o interrompeu. — E não acredito de jeito nenhum. Lembre-se que venho sendo vítima do seu charme por muito tempo.
— Meu charme? — indagou ele, sorrindo.
— Bem, talvez "charme" não seja a palavra adequada. Creio que "tolice" se encaixe melhor.
— Tolice... — ecoou James. — Seja mais delicada, sim? Meu ego é bastante sensível.
Lily riu.
— Oh, sim. E agora me conte que os oceanos secaram. Tente outra história, está bem? Hum... Isto é mesmo relaxante. Ou será o efeito do vinho?
James conseguia pensar em outras coisas muito mais relaxantes, que depois de certo tempo se tornavam infinitamente mais prazerosas do que dançar. Só havia um problema: estava com Lily.
Não poderia tratar sua melhor amiga como faria com qualquer outra mulher. Mesmo estando atraído por ela e sabendo que jamais estivera antes.
— Você a ama? — perguntou Lily, com voz suave.
— Quem?
— Dominique.
— Não sei. É isso o que vamos descobrir amanhã, no vôo, lembra? Sou muito pão-duro para pagar um analista. Então, cabe a você descobrir o que acontece dentro de minha mente — brincou James.
— É para isso que servem os amigos — garantiu Lily.
"Eu aqui brincando e ela falando sério!", pensou ele, censurando-se.
— Não mereço você, sabia? — disse a ela.
— Sei disso.
— Algum dia já fiz algo por você, Lily? Responda com sinceridade.
— Está falando sério? — perguntou ela. — Já fez muitas coisas por mim, James.
— Diga uma.
— Conseguiu um emprego para mim na Godric Gryffindor — Lily respondeu sem hesitar, surpreendendo-o.
— Quem conseguiu o emprego foi você, com competência e qualificação. Tudo o que fiz foi informá-la da vaga.
— Mas você me colocou no projeto de elaboração de Fresh All Day, que é como um trofeu no meu currículo e...
— Não fiz arranjo nenhum, Lily. O fato é que você se mostrou a melhor pessoa para o serviço — explicou James.
— Certo. Mas sei que fez...
Ele a interrompeu com um gesto, suspirando antes de falar:
— Pode apostar que não fiz, o que quer que fosse mencionar. Neste caso, por que contínua tão próxima de mim? Nunca fiz nada para merecer sua amizade.
— Não seja tolo — exclamou Lily. — Como poderia virar-lhe as costas quando está precisando de mim? Você foi meu herói quando éramos crianças.
— Isso foi há muito tempo, e já não é mais assim, estou certo?
De repente, a noite pareceu ficar sem graça. Ao olhar ao redor, James observou que apenas um casal havia se encorajado a ir para a pista de dança, enquanto os outros continuavam sentados. Era como se estivessem fechados para tudo, em um mundo só deles.
No fundo, também queria estar daquele jeito, apenas com Lily em seu universo particular. Mas isso não aconteceria, pois jamais tivera o mínimo de consideração por ela.
Ficou surpreso quando os dedos dela acariciaram seu rosto, fazendo-o voltar a encará-la.
— Você ainda é meu herói, e nada vai mudar isso.
— Nem mesmo Dominique?
— Nem mesmo Dominique — prometeu Lily. — Quando se ama uma pessoa, você...
"Oh, não!", pensou ela, ao notar que falara demais. Interrompera-se muito tarde. Seria melhor ficar calada um instante para evitar outro deslize daqueles.
— Ama? — repetiu James, com um sorriso franco, contrastando com a expressão anterior.
— Claro que amo. Como poderia não amá-lo, conhecendo-o pela vida toda? Mas existem vários tipos de amor. São condições diferentes que os determinam.
— Tem certeza? — James indagou com tanta sinceridade que a fez questionar a própria afirmação.
— Sim, pode acreditar em mim. Por exemplo: não é verdade que o que sente por mim não é o mesmo que sente por Dominique?
— Nunca senti por ela o que sinto por você — murmurou James, concluindo exatamente o contrário do que ela concluíra.
— Viu só? Caso encerrado.
Por segurança, Lily evitou olhá-lo e recostou a cabeça no ombro dele.
— É claro que não conheço Dominique há tanto tempo assim — afirmou James. — Mas acha que envelhecer ao lado dela ajudará a desenvolver um relacionamento como o que existe entre nós, que crescemos juntos?
— Quem sabe? — cogitou Lily, embora acreditasse que Dominique jamais fosse aprender a amar alguém mais, além de si mesma.
— Não consigo imaginar Dominique sentada a meu lado, na cadeira de balanço de um asilo para velhinhos. Isso significa que vou viver mais do que ela?
Lily achava que se a namorada dele não estivesse em cena, seria porque fugira com outro homem que pudesse lhe oferecer mais regalias do que James. Mas essa era uma opinião que ela não poderia revelar nem ao melhor amigo, e muito menos se ele estivesse mesmo apaixonado.
— Talvez ela mude com o tempo — disse a ele.
— Talvez.
Mesmo concordando, James achava que era mais provável Dominique deixá-lo no mesmo instante em que falassem em ir para um asilo. Isso se realmente acabassem se casando, e se ela não o abandonasse antes.
Lembrar do ultimato de casamento logo fazia sua alegria se esvair. Estava querendo sair com Lily naquela noite porque ela sempre tivera o dom de fazê-lo sentir-se bem. Ao longo da vida, haviam tido ótimos momentos juntos. Chegava a ser impressionante poder afirmar tal coisa sobre uma mulher e não ter feito sexo com ela. Se bem que era exatamente isso que estava lhe ocorrendo nessa noite.
— O que acha da ideia de ficar senil a meu lado, balançando-se em uma cadeira de asilo? — perguntou James.
— Infelizmente, pela idade você chegará primeiro lá — brincou Lily. — Além disso, estarei jogando malha, ali por perto. Não terei uma cadeira de balanço, isso eu garanto. Quando os filhos de Josh forem visitar a casa dos avós, estarei no jardim, jogando.
— O que quer dizer com isso? E seus próprios filhos?
— Oh, provavelmente não terei nenhum.
— Claro que terá. Algum rapaz ainda vai carregá-la no colo pela porta da frente, com você trajando seu belo vestido de...
— Rapazes — zombou ela. — Eles nem sabem que existo. Exceto por um ou outro colega do time de minibeisebol da empresa...
— Algum deles a convidou para sair?
— De jeito nenhum. Os rapazes fazem isso com garotas como Dominique, e não comigo.
— Ora, mas você tem encontros, não? — indagou James, surpreso.
— Ocasionalmente. E costumam ser muito rápidos.
— Por que isso? Eu a acho adorável. Você é uma pessoa muito boa.
— Boa... — caçoou Lily. — Uma palavra mortal. Sabe muito bem que os homens não saem com garotas boazinhas. Você mesmo é um exemplo perfeito disso. E nem deveria precisar lhe dar esta explicação.
— Não estou entendendo.
Nunca encontrei um homem sequer que marcasse um encontro porque estava procurando uma parceira para a vida toda. Em geral, eles querem companhia apenas para uma noite.
Indignado com a ideia de alguém usando Lily por mera satisfação sexual, ele se sentiu incomodado, alterando o tom de voz ao perguntar:
— Quem era ele? Diga-me, e eu...
Lily se inclinou para trás, encarando-o.
— Um instante, sim? Por que tenho a impressão de estar ouvindo um eco do baile de formatura? Posso cuidar de mim mesma. Não preciso de um irmão mais velho.
— Seu próprio irmão não se importa muito com sua segurança — declarou ele, desgostoso. — Se dependesse dele, você teria ido parar no banco de trás do carro daquele moleque safado que a convidou para sair naquela noite.
— Durante todos esses anos, venho culpando Josh por haver arruinado minha noite, mas acho que o responsável foi você.
Outros casais se juntaram a eles na pista de dança, quando os músicos começaram a tocar algo mais agitado.
Lily deduziu que era o momento de concluir o sonho e voltar à realidade. Nem mesmo Cinderela pudera fazer o encanto durar além da meia-noite.
— Está ficando tarde, James. Temos de embarcar no avião, amanhã bem cedo. Podemos ir embora?
— O quê? Oh, claro! Posso buscá-la amanhã cedo?
— Não, obrigada. Prefiro não perder o avião — ironizou. — O que acha de fazermos o contrário, e eu passar em sua casa para apanhá-lo? Também posso ligar para acordá-lo.
James pensou no quão conveniente seria se Lily acordasse em sua cama, mas preferiu ficar calado, ou poderia ganhar um olho roxo.
— Está bem — anuiu. — Vamos embora ao final desta música. Sabe de uma coisa? Precisamos repetir a dose de hoje. Tive uma noite excelente, e você?
— Sim, foi adorável.
— Fico contente que tenha gostado, Lily — declarou ele. Cedendo à tentação, beijou-a no rosto por um tempo muito mais demorado do que o habitual.
Lily corou.
— Obrigada.
— Foi um prazer — murmurou James, roçando o rosto junto ao dela.
"O prazer foi realmente todo meu", pensou ela, sabendo que jamais poderia dizer-lhe o que sentia.
Porém, enquanto aguardavam o final da dança, Lily se permitiu aproveitar o ritmo envolvente da música e continuar roçando o rosto no dele. Só que seus movimentos coincidiram e os lábios de ambos ficaram separados por poucos centímetros. Fitando-o nos olhos, não conseguiu se mover. De súbito, surgiu-lhe a expectativa de que James a beijaria naquele momento.
Mas ele sorriu com ternura e girou-a lentamente para o lado, em um passo de dança. Quando a puxou de volta, a distância entre eles ficou muito maior do que antes. A realidade do que acontecera atingiu-a como um raio.
Percebendo o que quase havia feito, censurou-se. Só podia ser o efeito do vinho e da música. Pelo visto, estava fadada a viver apenas de sonhos. Mas como seria possível ser notada, com uma mulher como Dominique mantendo-o junto de si?
Esforçando-se para afastar a lembrança do "quase" beijo, lamentou que James estivesse prestes a aceitar um pedido de casamento. Seria muito fácil se acostumar a passar as noites nos braços dele.
Olá gente! Estou contentíssima com os comentários, obrigada a vocês que comentaram: Tata Potter tortura medieval não kkkk não vou deixar isso acontecer kkkk, Natsumi Yamasaki também acho que o Jay tem que agarrar ela logo e pelo cap de hoje acho que isso não vai demorar muito ;D Joana Patrícia irritante é apelido, a Dominique é..., melhor nem falar kkkk e pode deixar que o Jay vai dar um jeito nessa relação deles, Ninha Souma isso mesmo TRÊS, agora sim ele vai acordar. Beijos gente e até o próximo cap :*
