Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO DOIS

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"Agradeça às estrelas que finalmente terá um marido. Com Falconwell em seu dote, você poderá conseguir um príncipe."

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Caro E,
Você definitivamente precisa voltar para casa. A vida está terrivelmente tediosa sem você aqui. Victoria e Valerie não são boas companhias para a margem do lago. Tem certeza absoluta de que precisa frequentar a escola? Minha tutora parece bastante inteligente. Estou certa de que pode ensinar tudo o que precisa saber.

Sua I.
Solar Swan, setembro de 1813

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Cara I,
Receio que terá de suportar o tédio terrível até o Natal. Se serve de consolo, eu nem sequer tenho acesso a um lago. Posso sugerir ensinar as gêmeas a pescar? Tenho certeza de que devo frequentar a escola... sua tutora não gosta de mim.

E.
Eton College, setembro de 1813

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~FIM DE JANEIRO DE 1831, SURREY.

Lady Isabella Swan, nobre e bem-nascida, sabia que deveria se sentir bastante grata quando, em uma fria tarde de janeiro, do alto de seus 28 anos de idade, recebeu o quinto (e provavelmente último) pedido de casamento. Ela sabia que metade de Londres não a consideraria totalmente fora de si, caso viesse a se unir ao excelentíssimo Sr. Jacob Black de joelhos e agradecesse a ele e ao Criador pela oferta amável e extremamente generosa. Para uma mulher não tão jovem, com um noivado rompido e apenas um punhado de pretendentes no passado, o cavalheiro em questão era bem-apessoado, gentil, tinha todos os dentes e a cabeça coberta de cabelos – uma combinação rara de características.

Ela também sabia que seu pai, que sem dúvida havia abençoado a união em algum instante anterior àquele momento – em que ela olhava para o topo da cabeça de Jacob –, gostava dele. O marquês de Swan gostava "daquele Jake Black" desde o dia em que, havia mais de vinte anos, o garoto arregaçou as mangas, agachou-se no estábulo de sua casa e ajudou no parto de uma das cadelas de caça preferidas do marquês.

Daquele dia em diante, Jake foi um bom menino, do tipo que Isabella sempre acreditou que o pai gostaria de ter como filho. Isso, é claro, se ele tivesse tido um filho, em vez de cinco filhas. E havia ainda o fato de que Jake viria um dia a se tornar visconde – e rico. Como a mãe de Isabella, sem dúvida, estava dizendo de seu lugar além da porta da sala de estar, onde certamente estava assistindo ao desenrolar da cena em um silencioso desespero: Mendigos não podem ser exigentes, Isabella.

Isabella sabia de tudo isso. E foi por esse motivo que, quando encontrou os olhos negros do garoto, amigo querido que conhecia a vida inteira transformado em homem, se deu conta de que era o pedido de casamento mais generoso que ela jamais iria receber e que deveria responder "sim". De maneira ressoante. No entanto, ela não o fez... Em vez disso, perguntou:

"Por quê?"

O silêncio que se seguiu foi pontuado por um dramático "O que ela pensa que está fazendo?", de trás da porta da sala de estar, e o olhar de Jake se encheu de divertimento e nem um pouco de surpresa ao voltar a ficar em pé.

"Por que não?", ele respondeu, amigavelmente, acrescentando depois de um instante. "Somos amigos há uma era. Apreciamos a companhia um do outro. Eu preciso de uma esposa, e você, de um marido".

No que se referia a motivos para um casamento, aqueles não eram terríveis. No entanto...

"Estou disponível há nove anos, Jake. Você teve todo esse tempo para pedir minha mão."

Jacob teve a elegância de demonstrar decepção antes de sorrir.

"Isso é verdade. E não tenho uma boa desculpa por ter esperado, exceto que... bem, me alegro em dizer que ganhei juízo, Bells."

Ela sorriu para ele.

"Tolice. Você jamais ganhará juízo. Por que eu, Jake?", ela pressionou. "Por que agora?"

Quando ele riu diante da pergunta, não foi sua risada alegre, ruidosa e amigável. Foi um riso nervoso. O que ele sempre dava quando não desejava responder a uma pergunta.

"Está na hora de eu sossegar", ele disse, antes de entortar a cabeça para um lado, dando um largo sorriso, e continuando, "Vamos lá, Bells. Vamos fazer uma tentativa, que tal?".

Isabella havia recebido anteriormente quatro pedidos de casamento e imaginado inúmeros outros em uma infinidade de maneiras, desde a gloriosa interrupção dramática de um baile, ao pedido maravilhoso em um gazebo isolado no meio de um verão de Surrey. Imaginou declarações de amor e paixão eterna, profusões de sua flor preferida (a frésia), cobertores adoravelmente estendidos em um campo de margaridas selvagens e o sabor alegre do champanhe em sua língua, enquanto toda Londres erguia as taças para brindar sua felicidade. A sensação dos braços de seu noivo ao seu redor, enquanto ela se atirava no abraço dele e suspirava: Sim... Sim!

Era tudo fantasia – cada pedido mais improvável do que outro –, e ela sabia disso. Afinal, uma solteirona de 28 anos não estava exatamente tentando livrar-se de pretendentes. Mas certamente ela não estava louca de esperar por algo mais do que Vamos fazer uma tentativa, que tal?

Soltou um pequeno suspiro, sem querer contrariar Jacob, que claramente estava fazendo o melhor possível. Mas os dois eram amigos havia muito tempo, e Isabella não pretendia acrescentar mentiras à amizade àquela altura.

"Você está com pena de mim, não está?"

Ele arregalou os olhos.

"O quê? Não! Por que você diz isso?"

Ela sorriu.

"Porque é verdade. Você está com pena da sua pobre amiga solteirona. E está disposto a sacrificar a própria felicidade para garantir que eu me case."

Ele lançou a ela um olhar exasperado – do tipo que apenas um velho amigo muito querido poderia dar a outro –, e segurou suas mãos nas deles, beijando os nós de seus dedos.

"Tolice. Está na hora de eu me casar, Bells. Você é uma boa amiga." Ele fez uma pausa, demonstrando a decepção de uma forma tão gentil, que tornava impossível irritar-se com ele. "Fiz uma confusão, não fiz?"

Ela não conseguiu se conter. Sorriu.

"Sim... Um pouco... Você deveria jurar amor eterno."

Ele pareceu cético.

"Com a mão na testa e tudo mais?"

O sorriso se alargou.

"Exatamente. E quem sabe compor um soneto."

"Ó, Lady Isabella, tão bela... Poderei eu casar-me com ela?"

E riu. Jacob sempre a fazia rir. Era uma boa qualidade.

"Uma tentativa triste de fato, milorde."

Ele fingiu uma careta.

"Não poderia por acaso criar uma nova raça de cão? Chamá-la de Lady I?"

"Romântico, de fato...", ela disse. "Mas levaria um bom tempo, não acha?"

Houve uma pausa enquanto os dois aproveitavam a companhia um do outro, antes dele dizer, subitamente muito sério:

"Por favor, Bells. Deixe-me protegê-la."

Foi uma coisa estranha de dizer, mas como ele havia fracassado em todas as outras etapas do processo de pedido de casamento, ela não se concentrou nas palavras. Em vez disso, considerou a oferta, seriamente. Ele era seu amigo mais antigo. Um deles, ao menos. O que não a havia abandonado. Ele a fazia rir, e ela gostava muito, muito dele. Ele foi o único homem que não a desertou completamente após o seu desastroso noivado rompido. Só isso já era um bom motivo. Ela deveria dizer sim. Diga, Isabella. Ela deveria se tornar Lady Jacob Black, 28 anos de idade e salva, no último instante, de uma eternidade de solteirice. Diga: sim, Jake. Vou me casar com você. Que gentil da sua parte.

Ela deveria dizer, mas não disse.

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Caro E.

Minha tutora não gosta de enguias. Ela certamente é culta o bastante para saber que apenas por você ter chegado trazendo uma delas não o faz uma má pessoa. Despreze o pecado, não o pecador.

Sua, I.
PS – Jake esteve fazendo uma visita na semana passada, e fomos pescar. Ele é oficialmente meu amigo preferido.
Solar Swan, setembro de 1813

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Cara I,
Isso me parece estranhamente um sermão do vigário Compton. Você tem prestado atenção na missa. Estou decepcionado.

E.
PS – Ele NÃO é seu melhor amigo.
Eton College, setembro de 1813

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O som da grande porta de carvalho se fechando atrás de Jacob ainda ecoava na entrada do Solar Swan quando a mãe de Isabella apareceu no patamar do primeiro andar, um andar acima de onde a filha se encontrava.

"Isabella! O que você fez?" Lady Swan desceu a ampla escadaria central da casa, seguida pelas outras filhas, Olivia e Philippa, e três dos cães de caça de seu pai.

Isabella respirou fundo e se virou para encarar a mãe.

"O dia foi bem tranquilo, na verdade", ela disse, casualmente, seguindo para a sala de jantar, sabendo que sua mãe a seguiria. "Escrevi uma carta para a prima Catherine. Sabia que ela continua sofrendo com aquele terrível resfriado que pegou antes do Natal?"

Pippa riu. Lady Swan não achou graça.

"Não estou nem um pouco preocupada com sua prima Catherine!", disse a marquesa, aumentando o tom de voz junto com a ansiedade.

"Que indelicado, mamãe. Ninguém gosta de estar resfriado." Isabella empurrou a porta para a sala de jantar e encontrou o pai já sentado à mesa, ainda vestindo as roupas de caça, lendo silenciosamente o jornal, enquanto aguardava o contingente feminino da residência. "Boa noite, papai. Teve um bom dia?"

"Está terrivelmente frio lá fora", disse o marquês de Swan, sem erguer os olhos do jornal. "Creio que eu já esteja pronto para o jantar. Quero algo quente."

Isabella pensou que talvez seu pai não estivesse pronto para o que viria durante aquela refeição em especial, mas preferiu empurrar um beagle que estava em sua cadeira e assumiu seu lugar, à esquerda do marquês, e à frente das irmãs, ambas de olhos arregalados e curiosas quanto ao que viria a seguir. Ela fingiu inocência, desdobrando o guardanapo.

"ISABELLA!" Lady Swan estava parada logo depois da porta da sala de jantar, absolutamente ereta, com os punhos cerrados, confundindo os lacaios, paralisados de incerteza, imaginando se o jantar deveria ou não ser servido. "Jacob a pediu em casamento!"

"Sim. Eu estava presente nessa parte", Bella disse.

Desta vez, Pippa ergueu a taça com água para esconder o sorriso.

"Charlie!" Lady Renée decidiu que ela precisava de apoio extra. "Jacob pediu Isabella em casamento!"

Lorde Swan abaixou o jornal.

"Foi mesmo? Sempre gostei desse Jacob Black." Voltando a atenção para a filha mais velha, ele disse: "Tudo certo, Bells?".

Isabella respirou fundo.

"Não exatamente, papai."

"Ela não aceitou!" O tom com que a mãe falou era adequado apenas ao mais comovente lamento de um coro grego, embora aparentemente tivesse o objetivo adicional de fazer os cães começarem a latir. Depois que ela e os cachorros encerraram os uivos, Lady Swan aproximou-se da mesa, com a pele terrivelmente manchada, como se tivesse atravessado uma moita de urtiga. "Bella! Pedidos de casamento de jovens ricos e disponíveis não dão em árvores!"

Especialmente não em janeiro, imagino. Bella sabia que não devia dizer o que estava pensando. Quando um lacaio se aproximou para servir a sopa que daria início à refeição noturna, Lady Swan atirou-se em sua cadeira e disse:

"Leve embora! Quem pode comer numa hora dessas?"

"Eu estou com muita fome, na realidade", Olivia observou, e Isabella engoliu um sorriso.

"Charlie!"

O marquês suspirou e virou-se para Bella.

"Você o recusou?"

"Não exatamente", Isabella disse de modo evasivo.

"Ela não o aceitou!", gritou Lady Swan.

"Por que não?"

Era uma pergunta justa. Certamente uma pergunta que todos na mesa gostariam de ter respondida. Inclusive Bella. Só que ela não tinha uma resposta. Não uma boa...

"Eu queria pensar na proposta."

"Não seja tola. Aceite a proposta", disse Lorde Swan, como se fosse simples assim, e chamou o lacaio com um aceno para servir a sopa.

"Talvez Bells não deseje aceitar a proposta de Jake", Pippa observou, e Isabella pensou em beijar a racional irmã mais nova.

"Não tem a ver com desejar ou algo parecido", disse Lady Swan. "Tem a ver com vender quando possível."

"Que sentimento tão encantador", Isabella disse com ironia, tentando ao máximo manter o bom humor.

"Bem, é verdade, Penélope. E Jacob Black é o único homem da sociedade que parece disposto a comprar."

"Gostaria que pudéssemos pensar em uma metáfora melhor do que compra e venda", Bella disse. "E, sinceramente, não acho que ele queira se casar comigo mais do que eu quero me casar com ele. Acredito que esteja apenas sendo gentil."

"Ele não está apenas sendo gentil", disse Lorde Swan, mas antes que Bella pudesse fazer qualquer comentário em relação a isso, Renée estava falando novamente.

"Não tem relação com querer se casar, Bella. Você está muito além disso. Você deve se casar! E Jacob estava disposto a se casar com você! Fazia quatro anos que não recebia uma proposta. Ou se esqueceu disso?"

"Eu havia me esquecido, mamãe. Muito obrigada pela lembrança."

Lady Swan empinou o nariz.

"Suponho que sua intenção seja fazer graça?"

Olivia ergueu as sobrancelhas, como se a simples ideia de a irmã mais velha estar tentando fazer graça fosse inacreditável. Bella resistiu ao impulso de defender o próprio senso de humor, o que ela gostava de pensar que estivesse intacto. Claro que ela não havia esquecido. Na realidade, era um fato difícil de esquecer, levando em consideração a frequência com que sua mãe a lembrava de seu estado civil. Isabella ficava espantada que a marquesa não soubesse o número de dias e horas que haviam se passado desde a proposta em questão. Ela suspirou.

"Não estou tentando fazer humor, mamãe. Eu simplesmente... não estou segura de que queira me casar com Jacob. Ou com qualquer um que não esteja seguro de que quer se casar comigo, sinceramente."

"Isabella!", sua mãe disparou. "O que você quer não tem importância nesta situação!"

Claro que não. Não era assim que os casamentos funcionavam.

"Realmente. Assim como muito ridículo!" Houve uma pausa enquanto a marquesa se recompunha e tentava encontrar suas palavras. "Bella... não há mais ninguém! Nós procuramos. O que será de você?" Ela se atirou elegantemente para trás na cadeira, levando uma das mãos à testa, em um gesto dramático que deixaria qualquer atriz dos palcos de Londres orgulhosa. "Quem aceitará você?"

Era uma pergunta justa e que Isabella provavelmente deveria ter levado mais em consideração antes de revelar sua incerteza sobre seu futuro marital. Mas ela não havia exatamente decidido fazer tal anúncio, pelo menos não até fazê-lo. E agora aquela parecia ser a melhor decisão que havia tomado em muito tempo. Acontecia que Bella teve várias oportunidades de ser "aceita" nos últimos nove anos. Houve um tempo em que ela era o assunto de todas as rodas – razoavelmente atraente, bem-comportada, educada, polida, perfeitamente... perfeita. Havia inclusive ficado noiva, de um equivalente igualmente perfeito.

Sim, era um par perfeito, exceto pelo fato de que ele era perfeitamente apaixonado por outra pessoa.

O escândalo facilitou que Bella pusesse fim ao compromisso, sem ser rejeitada. Bem, pelo menos não precisamente. Ela não descreveria a situação exatamente como uma rejeição, mas mais como uma sacudida, na verdade. E não uma sacudida indesejada. Não que ela fosse dizer isso à mãe.

"Bella!" A marquesa se endireitou novamente, olhando, angustiada, para a filha mais velha. "Responda! Se não Jacob, quem, então? Quem você imagina que a aceitará?"

"Pelo visto, terei de aceitar a mim mesma."

Olivia arfou. Pippa fez uma pausa, parando com a colher a caminho da boca.

"Ah! Ah!" A marquesa atirou-se para trás uma vez mais. "Você não pode estar falando sério! Não seja ridícula!" Pânico e irritação dominaram o tom de voz de Lady Swan. "Você é mais do que uma solteirona! Oh! Não me faça pensar nisso! Uma solteirona!"

Bella pensou que na realidade as solteironas é que eram mais fortes do que a mãe, mas resistiu em dizer tal coisa a ela, que parecia estar prestes a cair da cadeira, em um estado de absoluto desespero. A marquesa prosseguiu.

"E que será de mim? Não nasci para ser mãe de uma solteirona! O que irão pensar? O que irão dizer?"

Isabella tinha uma boa noção do que todos já pensavam, do que já diziam...

"Houve um tempo, Isabella, em que você deveria ser exatamente o oposto do que se tornou, e eu seria a mãe de uma duquesa!"

E ali estava. O espectro que pairava entre Lady Swan e sua filha mais velha. Duquesa. Isabella se perguntava se a mãe algum dia a perdoaria pela dissolução do noivado... Como se de algum modo tivesse sido culpa de Bella.

Ela respirou fundo, tentando usar um tom razoável.

"Mamãe, o duque de Leighton estava apaixonado por outra mulher..."

"Um escândalo ambulante!"

A quem ele amava absurdamente. Mesmo agora, oito anos depois, Isabella sentia uma pontada de inveja... não pelo duque, mas pela emoção. Ela deixou o sentimento de lado.

"Escândalo ou não, a dama é a duquesa de Leighton. Um título, devo acrescentar, que ela detém há oito anos, período durante o qual ela deu à luz o futuro duque de Leighton e mais três filhos para o marido."

"Que deveria ter sido seu marido! Seus filhos!"

Isabella suspirou.

"O que desejava que eu fizesse?"

A marquesa levantou-se uma vez mais.

"Bem, você poderia ter se esforçado um pouco mais... Poderia ter aceitado diversos pedidos de casamento depois do feito pelo duque." Atirou-se novamente para trás. "Foram quatro! Dois condes", ela relembrou, como se os pedidos de casamento pudessem ter sido esquecidos por Isabella, "e Riley Biers... E agora Jacob! Um futuro visconde! Eu poderia aceitar um futuro visconde."

"Que gentil da sua parte, mamãe."

Isabella recostou-se em sua cadeira. Imaginava que fosse verdade. Deus sabia que ela havia sido treinada para fazer muito esforço para conseguir um marido – bem, tanto esforço quanto fosse possível fazer sem parecer estar fazendo esforço demais. Mas, nos últimos anos, ela não esteve envolvida de coração. Não de verdade... Durante o primeiro ano depois do noivado rompido, era fácil dizer a si mesma que ela não queria se casar porque estava abalada pelo escândalo de um noivado rompido, e ninguém demonstrava muito interesse nela como noiva potencial.

Depois disso, houve alguns pedidos, de homens com motivos ocultos, todos ansiosos para se casar com a filha do marquês de Swan, fosse por suas carreiras políticas ou seus futuros financeiros, e o marquês não se importava nem um pouco quando Isabella declinava educadamente dessas propostas. Ele não se importava por que ela dizia não. Não lhe ocorreu que ela pudesse ter recusado por ter tido um vislumbre do que o casamento poderia ser – porque ela viu a forma como o duque de Leighton olhava, amorosamente, nos olhos de sua duquesa. Ela viu que poderia ter algo mais de um casamento, se ao menos tivesse tempo suficiente para encontrá-lo. Mas, de alguma forma, durante aquele período em que dizia a si mesma que estava esperando por algo mais, ela perdeu sua chance. Ela se tornou velha demais, simples demais, maculada demais.

E naquele dia, enquanto via Jake – um amigo querido, mas não muito mais do que isso – se oferecer para passar o resto da vida dele ao seu lado, apesar de seu próprio desinteresse no casamento dos dois... ela simplesmente não conseguiu dizer sim. Não podia estragar as chances dele de algo mais. Não importava o quanto fossem desastrosas essas chances.

"Ah!" A lamúria recomeçou. "Pense nas suas irmãs... O que será delas?"

Isabella olhou para as irmãs, que estavam acompanhando a conversa como se fosse uma partida de badminton. Suas irmãs ficariam ótimas.

"A sociedade terá de se contentar com as Swans mais jovens e mais bonitas. Levando em consideração o fato de que as duas Swans casadas são condessa e baronesa, acho que tudo ficará bem."

"E graças a Deus pelos excelentes casamentos das gêmeas."

Excelentes não seria exatamente a descrição que Isabella usaria para descrever os casamentos de Victoria ou Valerie – realizados pelo título, pelo dote e pouco mais –, mas seus maridos eram relativamente inofensivos e ao menos discretos com suas atividades fora do leito marital, de modo que Isabella não discutiu a questão. Não importava. Sua mãe estava seguindo em frente.

"E o que será do seu pobre pai? Parece que você se esqueceu de que ele foi amaldiçoado com uma casa cheia de meninas. Seria diferente se você tivesse sido um menino, Isabella. Mas ele está definitivamente morrendo de preocupação por você!"

Bella virou-se para olhar o pai, que mergulhava um pedaço de pão na sopa e o deu ao grande cão d'água preto sentado ao lado de sua mão esquerda, encarando-o, com a língua cor-de-rosa comprida pendurada na lateral da boca. Nem o homem nem o animal pareciam especialmente preocupados.

"Mamãe, eu..."

"E Philippa! Lorde Castleton demonstrou interesse nela. O que será de Philippa?"

Agora Isabella estava confusa.

"O que será de Philippa?"

"Exatamente!" Lady Swan agitou um guardanapo de linho branco de forma dramática. "O que será de Philippa?"

Bella suspirou e virou-se para a irmã.

"Pippa, você acredita que minha recusa a Jake afetará a corte de Lorde Castleton?"

Pippa sacudiu a cabeça com os olhos arregalados.

"Não consigo imaginar como. E se afetasse, eu sinceramente não ficaria arrasada. Castleton é um pouco... bem, desinteressante."

Isabella teria usado a palavra estúpido, mas compreendeu a delicadeza de Pippa.

"Não seja tola, Philippa", disse a marquesa. "Lorde Castleton é um conde. Mendigos não podem ser exigentes."

Isabella cerrou os dentes com o ditado, o preferido da mãe durante discussões sobre as perspectivas das filhas descasadas. Pippa voltou os olhos castanhos para a mãe.

"Não tinha noção de que estava mendigando."

"É claro que está! Todas vocês estão! Mesmo Victoria e Valerie tiveram de mendigar. Um escândalo não desaparece simplesmente."

Isabella ouviu o significado das palavras, mesmo que elas não tivessem sido articuladas. Bella estragou tudo para vocês. Foi atravessada por uma pontada de culpa, que tentou ignorar, sabendo que não devia sentir-se culpada. Sabendo que não era sua culpa. Só que poderia ter sido. Ela afastou o pensamento. Não foi. Ele amava outra. Mas por que ele não a amava? Foi uma pergunta que fez a si mesma inúmeras vezes durante aquele inverno longínquo, quando ficou enfurnada ali, no campo, lendo os jornais de escândalos e sabendo que ele havia escolhido alguém mais bonita, mais charmosa e mais excitante do que ela.

Sabendo que ele era feliz, e ela... era indesejada. Ela não o amava e não havia pensado muito nele, na verdade. Mas a situação a feriu mesmo assim.

"Eu não tenho intenção de mendigar", Olivia entrou na conversa. "É a minha segunda temporada, sou bonita e encantadora e tenho um dote bem grande. Maior do que qualquer homem poderia ignorar."

"Ah, sim. Muito encantadora...", Pippa disse, e olhou para o prato, para esconder o sorriso.

Olivia captou o sarcasmo.

"Riam o quanto quiserem, mas eu sei o meu valor. Não vou deixar acontecer comigo o que aconteceu com Bella. Vou conseguir um verdadeiro aristocrata."

"Um belo plano, querida." Lady Swan ficou radiante de orgulho.

Olivia sorriu.

"Felizmente aprendi minha lição com você, Bells."

Isabella não pôde deixar de se defender.

"Eu não o afastei, Olivia. Papai rompeu o noivado por causa do escândalo da irmã de Leighton."

"Tolice. Se Leighton quisesse você, ele teria brigado por você, azar do escândalo", disse a irmã mais nova apertando os lábios, uma verdadeira ingênua. "Mas ele não queria. Você, quero dizer. E ele também não brigou por você. E posso apenas imaginar que ele não fez nem uma coisa nem outra, porque você não se esforçou o suficiente para atrair a atenção dele."

Sendo a mais jovem, Olivia nunca precisou pensar muito sobre como sua forma de falar, sempre um pouco sincera demais, podia ferir. Aquela não era uma exceção. Isabella mordeu a bochecha por dentro, resistindo à vontade de berrar: Ele amava outra! Mas ela reconhecia uma atitude inútil quando se deparava com uma. Noivados rompidos eram sempre culpa da mulher, mesmo quando a mulher em questão era sua irmã mais velha.

"Sim! Ah, Olivia, apenas uma temporada e já está tão esperta, minha querida", Lady Swan piou, antes de gemer: "E não se esqueça dos outros."

Todos pareciam haver se esquecido que ela não quis se casar com os outros. Mas Isabella ainda sentia como se devesse se defender.

"Eu recebi um pedido de casamento esta tarde, não sei se vocês se recordam."

Olivia agitou uma das mãos de forma depreciativa.

"Um pedido de casamento de Jake, e que não é um bom pedido de casamento. Apenas um tolo acreditaria que ele pediu sua mão por querer se casar com você."

Sempre se podia contar com Olivia para dizer a verdade.

"Então por que ele fez o pedido?", Pippa questionou, sem intenção de ser cruel, Bella tinha certeza disso. Afinal, ela havia feito a si mesma, e a Jacob, aquela mesmíssima pergunta uma hora antes. Ela gostaria de responder: Porque ele me ama. Bem, isso não era exatamente a verdade. Ela gostaria de dizer isso, mas não sobre Jacob. E justamente por isso não havia respondido sim. Em todos seus anos de vida, jamais se imaginou casando-se com Jacob. Nunca foi com ele que ela sonhou...

"Não importa por que ele fez o pedido", Lady Swan interferiu. "O importante era que ele estava disposto a aceitar Isabella! Que ele estava disposto a lhe dar um lar e um nome e a cuidar dela da mesma forma como seu pai cuidou por todos esses anos." Ela encarou a filha. "Bella, você precisa pensar, querida... Quando seu pai morrer, como será então?"

Lorde Swan ergueu os olhos de cima de seu faisão.

"Como assim?"

Lady Renée acenou uma das mãos no ar como se não tivesse tempo para pensar nos sentimentos do marido, preferindo continuar:

"Ele não viverá para sempre, Isabella! Como será então?"

Isabella não conseguia entender por que aquilo era de algum modo relevante.

"Bem, isso será muito triste, imagino. Mamãe, eu sinceramente não faço ideia do que a senhora esteja querendo dizer."

"Quem cuidará de você quando seu pai morrer?"

"Papai, está planejando morrer em breve?"

"Não", seu pai respondeu.

"Nunca se sabe..." Os olhos da marquesa estavam se enchendo de lágrimas.

"Ah, pelo amor de...", Lorde Swan estava farto. "Eu não vou morrer. E considero bastante ofensivo o fato de que a ideia simplesmente saiu da sua boca." Ele virou-se para a filha mais velha. "E quanto a você, irá se casar."

Isabeçlla endireitou os ombros.

"Não estamos na Idade Média, papai. O senhor não pode me obrigar a me casar com alguém com quem eu não deseje me casar."

Lorde Swan não tinha muito interesse nos direitos femininos.

"Eu tenho cinco filhas e nenhum filho, e que Deus me livre de deixar uma de vocês solteira e cuidando de si mesma, enquanto aquele meu sobrinho idiota leva minha propriedade à falência." Ele sacudiu a cabeça. "Eu a verei casada, Isabella, e bem-casada. Está na hora de parar de barganhar e aceitar um pretendente."

Bella arregalou os olhos.

"O senhor acha que eu estou barganhando?"

"Olhe o linguajar, Isabella Swan. Por favor."

"Mamãe, papai usou a expressão primeiro", Pippa observou.

"Isso é irrelevante! Não criei minhas meninas para falarem como gente... gente... ah, vocês sabem."

"É claro que está barganhando. Faz oito anos desde o ocorrido com Leighton. Você é filha de um marquês com dois títulos e o dinheiro de Midas."

"Charlie! Que grosseiro!"

Lorde Swan olhou para o teto em busca de paciência.

"Não sei pelo que você está esperando, mas sei que eu a mimei por tempo demais, ignorando o fato de que o ocorrido com Leighton lançou uma sombra sobre todas vocês." Isabella olhou para as irmãs, que estavam ambas olhando fixamente para o próprio colo. Sentiu-se atravessada pela culpa enquanto o pai continuava: "Para mim basta. Você se casará nesta temporada, Bells".

Isabella sentiu a garganta apertada, esforçando-se por engolir, apesar do nó que parecia ter se instalado ali.

"Mas... fazia quatro anos que ninguém além de Jake me pedia em casamento."

"Jacob foi apenas o começo. Você começará a receber pedidos agora."

Ela havia visto a expressão de certeza absoluta nos olhos do pai vezes suficientes na vida para saber que ele tinha razão. Encarou-o nos olhos.

"Por quê?"

"Porque acrescentei Falconwell ao seu dote."

Ele disse isso da mesma forma como qualquer um diria coisas como, Está meio frio, ou, Este peixe está sem sal. Como se todos na mesa simplesmente fossem aceitar as palavras como verdadeiras. Como se quatro cabeças não fossem se virar para ele com os olhos arregalados e boquiabertas.

"Ah! Charlie!" Lady Renée atirou-se novamente.

Isabella não desviou o olhar do pai.

"Perdão?"

Um lampejo de lembrança... Um garoto de cabelos cor cobre dando risada, pendurado em um galho baixo de um imenso salgueiro, estendendo os braços e chamando Bella para se unir a ele em seu esconderijo. O terceiro do trio.

Falconwell era de Edward. Mesmo que não pertencesse a ele havia uma década, ela sempre pensaria na propriedade dessa forma. Não parecia correto que ela de algum modo fosse, estranhamente, sua agora. Toda aquela terra linda e verdejante, tudo exceto pela casa e os arredores – a herança. O direito de nascença de Edward agora era dela.

"Como o senhor conseguiu Falconwell?"

"Como não é relevante", o marquês disse, sem levantar o olhar da refeição. "Não posso mais arriscar os sucessos de suas irmãs no mercado de casamentos. Você precisa se casar. Não será uma solteirona pelo resto de seus dias. Falconwell garantirá isso. Aparentemente, já garantiu. Se não gosta de Jacob, já recebi meia dúzia de cartas de homens de toda a Grã-Bretanha interessados."

Homens interessados em Falconwell. Deixe-me protegê-la. As palavras estranhas de Jake mais cedo faziam sentido agora. Ele a havia pedido em casamento para preservá-la das propostas que se seguiriam por seu dote. Ele a pediu em casamento porque era seu amigo. E a pediu em casamento por Falconwell. Havia um pequeno pedaço de terra pertencente ao visconde de Langford na ponta distante de Falconwell. Algum dia, seria de Jacob, e se eles casassem, ele teria Falconwell para anexar.

"É claro!", Olivia observou. "Isso explica tudo!"

Ele não havia contado a ela. Isabella sabia que ele não estava realmente interessado em casar-se com ela, mas a descoberta disso não era exatamente algo agradável. Ela permaneceu focada no pai.

"O dote... É público?"

"É claro que é público. Qual a vantagem de triplicar o valor do dote da sua filha sem tornar o fato público?" Isabella passou um garfo por seu purê de nabo, desejando estar em qualquer lugar que não naquela mesa, naquele momento, quando seu pai disse: "Não fique parecendo tão infeliz. Agradeça às estrelas que finalmente terá um marido. Com Falconwell em seu dote, você poderá conseguir um príncipe".

"Estou me cansando de príncipes, papai."

"Isabella Swan! Ninguém se cansa de príncipes!", a mãe observou.

"Eu gostaria de conhecer um príncipe", Olivia interrompeu. "Se Bella não quer Falconwell, eu adoraria tê-la como parte do meu dote."

Isabella olhou para a irmã. Imagino que sim, Olivia, mas duvido de que você vá precisar. A irmã mais nova tinha o mesmo cabelo mogno, a mesma pele pálida e os olhos achocolatados de Isabella, que em vez de fazerem Olivia se parecer com Isabella, deixavam-na impressionantemente bonita. O tipo de mulher capaz de estalar os dedos e atrair os homens para seu lado. E o pior? Ela sabia disso.

"Você precisa disso, especialmente agora", disse Lorde Swan, de modo pragmático, antes de se virar novamente para Bella. "Houve um tempo em que você era jovem o bastante para atrair a atenção de um homem decente, mas já passou muito disso."

Isabella desejava que uma de suas irmãs entrasse na conversa para defendê-la, para protestar contra as palavras do pai. Para dizer, talvez, Isabella não precisa disso. Alguém maravilhoso vai aparecer e se apaixonar por ela, à primeira vista. Ela ignorou a pontada de tristeza que sentiu diante da aceitação silenciosa daquelas palavras. Bella via a verdade no olhar do pai. A certeza... E ela sabia, sem dúvida, de que iria se casar conforme seu pai desejava, como se fosse mesmo a Idade Média, e ele estivesse cedendo parte de seu feudo. Só que ele não estava cedendo nada.

"Como é possível que Falconwell agora pertença ao marquês de Swan?"

"Isso não deveria preocupá-la".

"Mas me preocupa. Onde o senhor a conseguiu?", pressionou. "Edward sabe disso?"

"Não sei", o marquês respondeu, erguendo a taça de vinho. "Imagino que seja apenas uma questão de tempo até que ele saiba".

"Quem sabe o que Edward sabe?", zombou a mãe. "Ninguém na sociedade civilizada vê o marquês de Cullen há anos."

Ninguém o vê desde que ele desapareceu no escândalo. Desde que ele perdeu tudo para o pai de Jacob. Isabella sacudiu a cabeça.

"O senhor tentou devolvê-la à ele?"

"Não seja ingrata, Isabella!", a marquesa estremeceu. "O acréscimo de Falconwell ao seu dote é um belo exemplo da generosidade do seu pai!"

Um exemplo do desejo do pai de se livrar da filha problemática.

"Eu não quero isso."

Ela sabia que as palavras eram uma mentira no mesmo instante em que as pronunciou. Claro que ela queria. As terras ligadas a Falconwell eram exuberantes, vibrantes e cheias de lembranças de sua infância. Com lembranças de Edward. Fazia anos que ela não o via. Era uma criança quando ele deixou Falconwell, e mal havia sido apresentada à sociedade quando o escândalo dele se tornou o assunto preferido dos aristocratas de Londres e dos criados de Swan. Agora, se ouvia falar algo sobre ele, eram apenas fofocas de mulheres mais experientes na sociedade. Uma vez, tinha ouvido de um grupo especialmente tagarela de mulheres, em um salão feminino, que ele estava em Londres, administrando um cassino, mas não havia perguntado onde, parecendo saber instintivamente que damas como ela não frequentavam o local em que Edward havia pousado, depois de cair em desgraça.

"Você não tem escolha, Isabella. É tudo meu. E em breve será de seu marido. Homens de toda a Grã-Bretanha virão em busca de uma chance de conquistá-la. Case-se com Jacob agora ou com um deles depois, se desejar. Mas irá se casar nesta temporada." Ele suspirou. "Um dia irá me agradecer."

Irá se casar nesta temporada.

"Por que não devolveu a propriedade a Edward?"

Charlie Swan suspirou, atirando um guardanapo em cima da mesa, encerrando a conversa.

"Ele foi descuidado com ela, antes de mais nada." ele disse simplesmente, antes de deixar a sala, com Renée logo atrás.

Talvez fossem os dezesseis anos desde que ela o tinha visto pela última vez, mas parte dela ainda considerava Edward Masen, o marquês de Cullen, um amigo querido, e não gostava da forma como o pai falava dele, como se ele tivesse pouco valor e importância. Por outro lado, ela não conhecia Edward de verdade, não o homem. Quando permitia a si mesma pensar nele, mais frequentemente do que gostaria de admitir, ele não era um rapaz de 21 anos de idade que havia perdido tudo em um tolo jogo de azar.

Não... Em seus pensamentos, Edward continuava sendo seu amigo de infância, o primeiro que jamais teve, com 12 anos de idade, guiando-a através da paisagem enlameada em uma aventura ou outra, rindo em momentos inoportunos até que ela não conseguisse resistir a rir junto com ele, enlameando os joelhos nos campos molhados que se estendiam entre suas casas e atirando pedrinhas na janela dela nas manhãs de verão antes que seguisse para pescar no lago que se estendia pelas terras de Swan e Cullen.

Imaginava que o lago agora fizesse parte de seu dote. Edward precisaria pedir permissão para pescar ali. Precisaria pedir permissão ao marido dela para pescar ali. A ideia seria cômica se não fosse tão... errada. E ninguém parecia perceber. Isabella levantou a cabeça e encontrou os olhares das irmãs.

"Eu dificultei a situação para vocês?"

Pippa foi evasiva.

"De forma alguma. Castleton mandou dizer a papai na semana passada mesmo, que estava planejando me fazer a corte de verdade.

"Ele deveria se chamar Lorde Simpleton", respondeu Olivia.

"Pare. Ele é bom." Pippa riu. "Gosta de cachorros... Assim como Jacob."

"Foi a esse ponto que chegamos? Escolhendo nossos maridos potenciais por gostarem de cães?", Olivia suspirou.

Pippa levantou um ombro simplesmente.

"É como isso é feito. Gostar de cães é mais do que a maioria dos maridos e esposas da sociedade têm em comum."

Ela tinha razão. Mas não era assim que as coisas deveriam ser. Mulheres jovens, com a aparência e a criação de suas irmãs deveriam estar escolhendo os maridos com base em mais do que companheirismo canino. Elas deveriam ser as preferidas da sociedade, com todos em suas mãos, esperando para serem imitadas. Mas não eram, por causa de Isabella, que, ironicamente, foi considerada a predileta das preferidas da sociedade quando foi apresentada... a noiva escolhida do impecavelmente bem-comportado e de pedigree impecável, duque de Leighton.

Depois que o compromisso dos dois se dissolveu em uma perfeita tempestade de jovens moças arruinadas, filhos ilegítimos e um caso de amor, Isabella - tragicamente para suas irmãs - perdeu o status de preferida. Em vez disso, foi relegada a boa amiga da sociedade, convidada, finalizando com um longo tempo de boas-vindas. Ela não era linda, não era a mais inteligente, não era muito mais do que a filha mais velha de um aristocrata muito rico e nobre. Nascida e criada para ser esposa de um aristocrata igualmente rico e nobre. E quase havia sido exatamente isso. Até que tudo mudou. Inclusive suas expectativas... Infelizmente, expectativas não rendiam bons casamentos. Nem para ela, nem para suas irmãs. E, assim como não era justo que ela sofresse por causa de um noivado rompido quase uma década antes, também não era justo que suas irmãs sofressem por ele.

"Eu nunca tive a intenção de dificultar os casamentos de vocês", ela disse baixinho.

"Então tem sorte de porder corrigir a situação", Olivia opinou, desinteressada pelos sentimentos da irmã mais velha. "Afinal, suas chances podem ser poucas, mas as minhas são realmente boas, ainda melhores se você se casar com um futuro visconde."

A culpa se instalou em Isabella.

"Você concorda, Pippa?"

"Mal não fará, Bella."

A você não, pelo menos, Isabella pensou, tomada por uma onda de melancolia, ao perceber que iria aceitar o pedido de Jake, pelo bem das irmãs. Talvez, com o tempo, ela viesse a amá-lo.

..::..::..::..

Caro E,
Queimaram o sujeito esta noite em Coldharbour, e todo o clã Swan seguiu para a
impressionante demonstração.
Precisei escrever, já que fiquei bastante angustiada ao descobrir que nenhum jovem estava disposto a testar a própria habilidade para subir a pilha de lenha e roubar o chapéu do Sr. Fawkes.
Talvez no Natal você possa lhes ensinar alguma coisa.

Sua amiga leal, I.
Solar Swan, novembro de 1813.

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Cara I,
Eles não precisam que eu lhes ensine nada, não com você aí, perfeitamente capaz de roubar aquele chapeuzinho você mesma. Ou agora é dama demais para isso?
Estarei em casa para o Natal. Se for uma boa menina, levarei um presente.

E.
Eton College, novembro de 1813.

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Naquela noite, com toda a casa dormindo, Isabella vestiu sua capa mais quente, pegou a pele para aquecer as mãos, uma lamparina e foi dar uma caminhada por suas terras. Bem, não exatamente suas terras. Mas as terras que estavam vinculadas ao seu dote de casamento. As terras que Jacob e incontáveis jovens pretendentes aceitaria de bom grado em troca de tirar Isabella do seio familiar e aceitá-la como esposa.

Que romântico. Ela havia passado muitos anos esperando por mais. Acreditando, embora dissesse a si mesma para não fazê-lo, que poderia ter tanta sorte também, que poderia encontrar algo mais, alguém mais. Não. Ela não pensaria nisso. Especialmente não agora que estava justamente na direção do tipo de casamento que sempre esperou evitar. Agora, não tinha dúvidas de que seu pai estava decidido a casar a filha mais velha antes do final daquela temporada, com Jacob ou outro alguém. Pensou nos homens solteiros da sociedade que estivessem desesperados demais para casarem-se com uma mulher de 28 anos e um noivado rompido no passado. Nenhum deles pareceu o tipo de marido de quem ela pudesse gostar, ou at;e mesmo amar. Então, seria Jake.

Protegeu-se contra o frio, abaixando o rosto para dentro da capa e puxando o capuz por cima da testa. Damas bem criadas não davam caminhadas na calada da noite, ela sabia disso, mas toda Surrey estava dormindo, o vizinho mais próximo ficava a quilômetros de distância, e o frio extremo era comparável à sua intensa irritação com os acontecimentos do dia.

Não era justo que um noivado rompido no passado longínquo resultasse em um presente tão desafiador. Seria de imaginar que oito anos teriam feito Londres esquecer o lendário outono de 1823, mas, em vez disso, Isabella era amaldiçoada por sua história. Nos bailes, os sussurros prosseguiam. Nos salões femininos, os leques se agitavam como asas de beija-flor, escondendo as conversas silenciosas das quais, de vez em quando, ela captava trechos e especulações cochichadas sobre o que ela havia feito para que o duque perdesse o interesse, ou sobre por que ela se considerava boa demais para rejeitar as outras propostas. Não porque ela se achasse melhor, mas porque ela esperava por uma promessa maior. Mais. De uma vida com mais do que o marido que ela havia sido treinada a esperar que gostasse dela, mas não a amasse, e do filho ou dois que ela sempre supôs que a amariam, mas não a conheceriam de verdade. Era pedir muito? Aparentemente, sim.

Ela seguiu por uma ladeira coberta de neve, fazendo uma breve pausa no topo, olhando para a escuridão lago abaixo que marcava a divisão entre as terras de Swan e Cullen... Ou as antigas terras de Cullen. E, ali parada, olhando fixamente para a escuridão, pensando em seu futuro, ela se deu conta do quão pouco queria uma vida tranquila em tons pastéis, quadrilhas e limonadas mornas.

Ela queria mais. A palavra passou sussurrando por seus pensamento em uma onda de tristeza. Mais. Mais do que ela teria, no fim. Mais do que ela jamais deveria ter sonhado. Não que se sentisse infeliz com a própria existência, pois era uma vida luxuosa, na verdade. Ela era bem-cuidada, bem-alimentada e faltava-lhe muito pouco. Tinha uma família que era, na maior parte do tempo, tolerável, e amigos com quem podia passar uma tarde vez ou outra. E, sendo bem honesta, seus dias não seriam muito diferentes de agora, caso ela se casasse com Jacob. Então por que ela ficava tão triste ao pensar em se casar com ele? Afinal, ele era gentil, generoso, tinha uma pitada de bom humor e um sorriso carinhoso.

Imaginou-se pegando a mão dele e permitindo que a acompanhasse a um baile, ao teatro, a um jantar. Imaginou-se dançando com ele, sorrindo para ele. Imaginou a sensação da mão dele na sua e era... Pegajosa. Não havia motivo para crer que Jacob tivesse mãos úmidas, é claro. Na realidade, ele provavelmente disse mãos quentes e perfeitamente cuidadas. Maridos não deviam ter mãos fortes e firmes? Especialmente na fantasia? Por que Jake não tinha? Ele era um bom amigo, merecia mais do que isso.

Isabella respirou fundo, aproveitando a pontada de ar gelado, fechou os olhos e tentou de novo... fez o máximo para imaginar-se como Lady Black. Sorriu para o marido, carinhosamente. Ele sorriu de volta: "Vamos fazer uma tentativa, que tal?". Ela abriu os olhos. Droga!

Desceu a ladeira na direção do lago gelado. Iria se casar com Jacob, para seu próprio bem, e pelo bem de suas irmãs. Porém, não parecia nada bem. Fazia o que lhe era dito. Ainda que absolutamente não quisesse fazer. Ainda que quisesse mais. E foi então que viu a luz à distância, no bosque de árvores na beira do lago.

Parou, apertando os olhos na escuridão, ignorando o vento gelado no rosto. Talvez fosse sua imaginação ou tivesse sido a lua cintilando na neve. Uma possibilidade razoável, não fosse a neve caindo, bloqueando a visão da lua no céu. A luz cintilou novamente, e Bella arfou, dando um passo para trás. Apertou os olhos na escuridão, inclinando-se para frente sem mexer os pés, focando no local onde uma fraca luz amarela brilhava no meio do bosque, como se poucos centímetros fossem facilitar a visão da fonte de luz.

"Há alguém..."

Havia alguém lá. Poderia ser um criado, mas parecia improvável. Os criados de Swan não tinham motivos para estar às margens do lago no meio da noite. E os de Cullen partiram de Falconwell há anos, quando os bens da propriedade foram retirados, e a imensa estrutura de pedra foi deixada vazia e descuidada. Ninguém entrava na casa havia anos. Precisava averiguar. Poderia ser um incêndio ou um fantasma.

Bem, provavelmente não era o último, mas e se fosse um invasor? Se fosse, algo precisava ser feito. Afinal, simplesmente não se podia permitir que intrusos passassem a residir na propriedade do marquês de Cullen. Se o próprio homem não ia garantir sua propriedade, a tarefa recaía sobre ela, pois tinha igual investimento em Falconwell àquela altura.

A luz cintilou novamente. Não parecia haver muitos bandidos por lá, a menos que tivessem vindo equipados com poucas fontes de iluminação. Pensando melhor, era improvável que piratas ou bandidos estivessem planejando estabelecer residência em Falconwell, com o oceano estando tão distante.

Ainda assim, havia alguém lá. A questão continuava sendo quem... E por quê.

Mas havia uma coisa de que Penélope tinha certeza: filhas mais velhas de boa criação não inspecionavam luzes estranhas no meio da noite. Definitivamente, isso seria aventureiro demais. Seria mais... E isso foi o que a fez tomar a decisão, na verdade. Havia dito que queria mais, e algo mais estava acontecendo. O universo trabalhava de maneiras maravilhosas, não?

Ela respirou fundo, endireitou os ombros e seguiu em frente, levada pelo entusiasmo, na direção de um aglomerado de arbustos de azevinho na beira do lago, antes de pensar na estupidez de suas ações. Ela estava ao ar livre, no meio da noite, no frio intenso, seguindo na direção de um número desconhecido de criaturas nefastas e questionáveis. E ninguém sabia onde ela estava. Subitamente, casar-se com Jake não pareceu tão mau. Não quando era muito possível que ela estivesse prestes a ser assassinada por piratas do campo. Ouviu o barulho da neve por perto e parou de repente, levantando a lanterna para o alto e espiando na escuridão para além dos arbustos, na direção das árvores onde tinha visto a luz antes. Agora, não via nada. Nada além de neve caindo e uma sombra que poderia facilmente ser a de um urso raivoso.

"Que tolice", sussurrou para si mesma, com o som da própria voz reconfortante no escuro. "Não há ursos em Surrey."

Ela não se convenceu, nem ficou por mais tempo para descobrir se aquela sombra escura era, de fato, um urso. Tinha coisas a fazer em casa. A primeira delas, aceitar o pedido de casamento de Jacob e então, passar algum tempo com seu bordado. Porém, no exato instante em que ela decidiu dar meia-volta e retornar, um homem surgiu através das árvores, com uma lanterna na mão.


UFA! Acabou esse capítulo pequenininho... Então, recapitulando, Edward é sócio de um antro de jogatina (O Anjo Caído) que perdeu tudo quando mais novo para o "amigo" de seu pai, Billy Black. E Bella, a filha mais velha encalhada (claro né kkk) agora possui no seu dote a herança que Edward trabalhou todos esses anos para reconquistar. Será que Edward vai se importar com a Bella no caminho para recuperar Falconwell? Não apostaria nisso, mas vamos ver, né?

ThammyCristina: Espero vê-la nos próximos. Beijos!

Nanny: QUE HORROR, criatura! kkkkkkk Engasguei uma risada aqui.

Duda Makalister: Quanto a cretinice/escrotice do Jacob eu não posso revelar, rs. O problema da Bellinha é que você percebe os sentimentos dela por trás dos trechos de cartas que ela mandava quando o Edward foi mandado para o internato, então... Não sei se ela até que ponto ela vai dificultar lol.

Até a próxima, meninas lindas!