4 – Incondicionalmente.

Oh, no, did I get too close?

Oh, did I almost see

What's really on the inside?

Edward era… Um cara incrível e misterioso. Já fazia duas semanas no qual nos víamos todos os dias. Nosso tempo juntos apesar de curto, sempre era muito bom e apaixonante. Dizer que estou fascinada por cada pedacinho dele era eufemismo. Nós passamos a caminhar todos os dias de manhã no parque com Bob e tomávamos café em uma lanchonete na esquina de casa, que virou um dos meus lugares mais favoritos de todo o mundo. Ele gostava de me fazer corar, porque sempre estava rindo do meu sotaque. Dizia que minhas bochechas vermelhinhas eram muito fofas... Foi engraçada sua surpresa ao descobrir que fui criada no Kansas e moro a pouco tempo na cidade grande.

Hoje era um dia especial. Nós iríamos levar as crianças da ONG para um dia divertido no parque. Montamos barracas para arrecadar fundos e ajudar na filantropia da empresa dos meus irmãos, assim nós poderíamos conseguir criar a organização de maneira fixa e futuramente, dar um lar a todas essas crianças. Convidei Edward para vir comigo, ele não respondeu na hora. Não sei o que faz, toda vez ele mantém o assunto focado em mim, nunca fala muito sobre si e sua família. Apesar de ter ido ao seu apartamento algumas vezes, não consegui encontrar fotos da sua família ou amigos. Já no meu, cada rosto desconhecido pelas paredes ele perguntou o nome e sua história. Como falo muito, acabei contando a vida de quase todas as pessoas da minha família. Seja aqui ou no Kansas. Edward gostava de ouvir, ele sempre ria e fazê-lo sorrir era meu passatempo favorito.

Coloquei um short jeans e uma blusa larguinha, ficaria mais a vontade em servir as coisas nas barracas, ajudar no que fosse preciso. Separei o boné com o logotipo da empresa, minha bolsa pronta para o dia e prendi Bob na varanda, pelo menos iria se distrair olhando as pessoas ou com seus brinquedos. Tranquei meu apartamento e enviei uma mensagem ao meu irmão, Jasper, que estava saindo de casa, que nos veríamos em breve. Já tinha me conformado que hoje foi o primeiro dia em duas semanas que não passei a manhã inteira ao lado de Edward. Talvez esteja ansiosa por bobeira, talvez ele me ache interessante por não ser daqui, por ser jovem, mas não que queira algo comigo. Até porque, um homem bonito como ele e na idade dele pode querer uma mulher mais madura e vivida a uma tão jovem quanto eu.

Depois de tentar um pouco de conversa com um dos meus vizinhos e ser veementemente ignorada, sai do elevador acenando para meu porteiro e deixando um pedaço de bolo de mirtilo em cima do balcão. Ele agradeceu sem nem mesmo saber o que era. Já estava acostumado a receber alguns mimos por minha parte. Ainda não sei cozinhar para uma pessoa só, quando consigo ficar muito tempo na cozinha, acabo fazendo comida para dez pessoas, como era na minha antiga casa no Kansas. Morávamos nós cinco e meus primos, com meus tios e meus avós. Toda comida era feita com muita fartura e por isso não conseguia me acostumar ainda a só comer coisas rápidas. Não que não fosse útil, mas se passasse muito tempo sem comer comida caseira, principalmente da minha mãe, me sentia bem doente.

- Bella? – Edward acenou atravessando a rua – Pensei que tivesse ido, até me dei conta que não tenho seu número de celular.

- É verdade, nós nunca trocamos telefone. – respondi sorridente por vê-lo. – Você vem comigo?

- Eu tive um compromisso, pensei que não fosse dar tempo, mas acho que dá... – gaguejou parecendo extremamente desconfortável em dizer o que estava fazendo, sem realmente querer.

- Então vamos, Edward. Sem explicar muito. – murmurei tirando de minha bolsa um boné para ele. Secretamente ainda tinha esperanças que ele pudesse aparecer a qualquer momento. – Como foi seu dia? – perguntei quando começamos a andar um ao lado do outro em direção ao parque.

- Um pouco estressante. E o seu?

- Tranquilo. Fiz torta de mirtilo, frango assado, purê com queijo e uma salada crua.

- Esperando alguém para o jantar?

- Não... Apenas estava com vontade de cozinhar, não é sempre que consigo ficar muito tempo na cozinha.

- Você gosta de cozinhar? Quer dizer, você aprendeu isso com quem?

- Por que está impressionado? Minha família é grande, sempre tivemos grandes reuniões, muita comida e ao mesmo tempo barulho, risada, gargalhada, essas coisas...

- Isso deve ser interessante. – resmungou olhando pra frente, sem me encarar como antes.

- E você? Não tem grandes encontros com a família? Eu sinto muita falta disso aqui em Nova Iorque.

- Às vezes vou jantar na casa dos meus pais. – respondeu simplesmente e então pegou minha mão, me fazendo desviar de um poste que nem tinha percebido que estava no meu caminho. – Você precisa andar olhando pra frente, Bella. E reparando nas pessoas ao seu redor. Você anda cantarolando sem prestar atenção em nada, as pessoas aqui são maldosas e mal intencionadas na maior parte do tempo. – chamou atenção severamente e dei os ombros. Às vezes ele era exagerado na proteção.

- Tudo bem, vou prestar mais atenção. – respondi automaticamente, com todos meus pensamentos focados na mão dele segurando a minha. Por algum motivo ele não soltou mais até o parque.

As barraquinhas estavam montadas em uma das áreas mais abertas. As crianças estavam uniformizadas assim como todos os professores e funcionários. Edward ficou parado olhando para todos os lados, talvez tivesse mais criança que mencionei a ele, porém, agora era tarde demais para sair correndo. Eu espero.

Edward passou o dia bem. Ele me ajudou a servir suco e entregar os lanches. Nós passamos o dia inteiro conversando sobre a vida de cada um ali. Sua curiosidade não tinha limites e minha boca era um caso sério de controlar. Tentei fazer perguntas pessoais, que envolvesse sua profissão, sua vida e sua família, porém, ele sempre tinha um jeitinho de me distrair.

Quando o sol estava se pondo, nós passamos em uma barraquinha de sorvete e compramos duas casquinhas para matar o tempo enquanto caminhávamos de volta para casa.

- Então, tenho comida de sobra lá em cima…

- Pensei que não fosse me convidar. Faz tempo que não como comida caseira…

Edward e eu subimos para meu apartamento. Bob estava louco de ansiosidade e ficou ainda mais louco quando viu que tínhamos visitas. Depois de brincarmos com ele bastante, até cansar, fui me lavar para esquentar tudo que tinha feito. Montei a mesa para dois.

- Você tem uma coleção de filmes incríveis ali. - disse atrás de mim.

- Isso começou a pouco tempo. - retruquei tentando abrir a garrafa de vinho.

- Posso? - ofereceu-se para me ajudar - Você tem idade para beber? - brincou com uma piscadinha que me fazia derreter por dentro.

- Gosto de relaxar bebendo um bom vinho. Às vezes levo para minha banheira e fico horas dentro da água, ouvindo música e bebendo.

- Que tipo de música?

- Eric Clampton. Norah Jones… Às vezes música clássica. Meu estilo musical é bem variado, também gosto de música country, pop e dependendo um pouco de rock clássico. Depende do meu humor…

- Eric Clampton não é muito da sua idade.

- Edward, você só é dez anos mais velho que eu…

- É mais da minha época do que da sua…

- Tanto faz. É uma boa música, meu pai sempre ouvia no seu radinho na varanda. Ficava horas sentado no balanço conversando com minha mãe e ouvindo. Passei a gostar daí.

- Sua família é unida, não é?

- Bastante. Aqui nem tanto, é muita correria, mas sempre que conseguimos, tiramos um tempinho para ficarmos juntos. Minha mãe faz o prato favorito de cada um, até das minhas cunhadas.

- Seus irmãos são casados a muito tempo? - perguntou quando puxei-o para mesa - Nossa, você exagerou.

- Eu sei, coma o quanto quiser, por favor. - respondi sentando-me em meu lugar. Bob deitou em nossos pés debaixo da mesa. Edward serviu vinho em nossas taças. - E respondendo à sua pergunta. Jasper conheceu Alice pela internet… Ela sempre morou aqui. Uma vez foi nos visitar lá e ajudou muito na fundação da empresa deles aqui. O pai dela é diretor de um banco e financiou tudo. Eles meio que sempre namoraram a distância, quando nos mudamos, eles casaram. Ela é incrível. Minha amiga mesmo. Muito mais amiga que Victória é. Já James conheceu Victória em uma festa. Meu irmão é bissexual, foi um choque na família, meu pai quase infartou. Só que depois ele a conheceu e todo mundo pensou que ele tinha escolhido um lado, mas depois ela nos contou que fez troca de sexo. O nome dela era Riley alguma coisa, esqueci agora. Hoje é Victória.

Edward estava branco feito uma parede. De boca aberta. Com o garfo parado no meio do caminho para boca.

- Você está me dizendo que sua cunhada, na verdade, era um homem e seu irmão casou com ela?

- O que tem? Eles se amam. Amor não tem rosto, Edward. Amor só procura um coração pra ficar.

- Isso é meio bizarro.

- Ah no começo é sim, mas eu acho linda a história de amor deles.

- Continua sendo bizarro, Bella.

Sorri porque ele estava processando as informações ainda. Começamos a comer e ele foi carinhoso e gentil em elogiar minha comida. Como se fosse tão boa assim… Mas gostei de ouvir e agradeci.

- E você? Tem irmãos?

- Sou filho único. - respondeu encolhendo os ombros e bebeu um pouco de vinho, olhando-me atentamente - E órfão. Meus pais morreram quando era criança, fui criado pelos meus tios e tenho uma prima que considero minha irmã. Só isso.

Não o pressionei mais. Já estava claro o motivo dele não gostar muito de falar sobre si e sua família, ele era obviamente, uma pessoa sozinha e parecia que tinha escolhido a solidão para viver. Assim que terminamos de comer, ele me ajudou a lavar e guardar toda louça. Pegamos a sobremesa com o vinho e sentamos na sala.

- Você faz tortas incríveis.

A minha sala não estava cem por cento clara. Deixamos apenas a luz do abajur clareando o ambiente. Ele parecia pensativo. Não queria que fosse embora porque gostava de ficar com ele, mesmo em silêncio completo. O vinho estava me deixando um pouco com calor e por isso desencostei do sofá para tirar meu casaco, ficando muito mais próxima a ele do que o normal. Edward molhou os lábios olhando para o singelo decote da minha blusinha branca. Olhou nos meus olhos e afastou um pouco o meu cabelo do meu rosto, chegando perto, com nossas respirações cruzadas. Ele roçou os lábios nos meus e meu corpo inteiro derreteu com seu toque. Cheguei para frente e toquei seus lábios por completo, mas foi ele quem aprofundou o beijo de uma maneira intensa e deliciosa.

O que começou com um pequeno beijo se transformou em um vulcão em erupção. Em pouco tempo a blusa dele estava completamente aberta, eu estava só de sutiã em seu colo com mãos e bocas para todo lado. Fazia muito tempo que não sentia o toque de um homem no meu corpo. Meu último romance durou semanas de flerte e apenas uma noite de consumo. Desde então não procurei e também não fui encontrada. Isso até Edward aparecer de forma presente na minha vida.

Eu estava planejando levá-lo ao meu quarto, porque seria totalmente desconfortável permanecer na sala e fazer isso na frente do Bob.

- Edward… - suspirei quando sua boca alcançou meu seio.

Ele parou. Do nada. Olhei em seus olhos e vi o completo desespero e um grito de desculpas. Me jogou sentada no sofá e levantou como um foguete.

- Edward? O que houve?

- Não podemos fazer isso. - disse disparado, fechando seus botões - Você me conhece a duas semanas, Bella.

- E dai?

- Não sou um cara bom pra você. Você é jovem, bonita, saudável e inteligente. Merece alguém que pode se doar por inteiro, que possa confiar e ter uma vida. Não sou essa pessoa e não é justo ser só uma noite…

- E se eu quiser? - insisti não gostando nenhum pouco do seu discurso - Não sou uma criança, Edward. Também estou longe de ser uma virgem imaculada.

- Você merece muito mais do que posso te dar. Sinto muito. - disse e então saiu do meu apartamento, completamente bagunçado e apressado.

Fiquei congelada no lugar tentando colocar em ordem tudo que tinha acontecido, minha mente nublada de excitação provavelmente não registrou se fiz algo de errado. Levantei do sofá a tempo de vê-lo entrar correndo em seu prédio, esperei pacientemente até alguma luz do seu apartamento acender, mas isso não aconteceu.

E pelas próximas semanas também não. Era como se ninguém tivesse morando ali. Cheguei a questionar se ele tinha chegado ao ponto de mudar de apartamento ou até mesmo do prédio, mas segundo seu porteiro ele estava saindo muito pouco de casa e encomendando gigantes porções de porcaria. Pediu que não permitisse a entrada nem da sua família e não passar interfones.

Senti falta dele. Mais do que imaginei que sentiria. Muitas noites fiquei horas a fio sentada na varanda esperando um sinal de vida, alguma coisa, uma chance de conversar e entender tudo. A lua e Bob foram minhas únicas companhias. Alice chegou a vir algumas noites, evitei sair de casa porque queria vê-lo.

- Hoje é minha última tentativa, Bob. - suspirei acariciando seus pelos - Mal ganhamos um amigo e já perdemos. Você sente falta dele? Eu sinto.

Passei a viver minha vida como era antes dele. Entrei em mais projetos, passei a trabalhar meio período na biblioteca da faculdade, não era todos os dias, mas matava o tempo e me fazia conhecer novas pessoas. Fui a dois encontros, mas os meninos de repente, eram muito meninos pra mim. Foi somente troca de beijos, algumas conversas e nada foi adiante. Não consegui ficar animada com nenhum deles.

Fizemos mais três eventos para arrecadar fundos para ONG, conseguimos uma licitação popular para a criação do orfanato e agora precisaríamos de votos das pessoas que estavam vendo e acreditando que nosso trabalho daria certo. Quando estava em casa, ainda olhava para seu apartamento com uma pontada de esperança, mas era humilhação demais esperar por um cara que claramente decidiu me colocar fora da sua vida. Tola fui eu que pensei que o que estava acontecendo, todo flerte, jantares, cafés da manhã, conversas e comida era alguma coisa diferente nascendo.

Passei uma semana inteira em Miami curtindo um pouco com Alice e Victória. Chamamos de "A Viagem Das Cunhadas". Não sei ao certo se elas estavam em um complô claro de me animar, porque não paravam de me apresentar garotos bonitos e me deixar um pouco bêbada. Foi divertido. Quando voltei fiquei na casa dos meus pais, curtindo a comida da minha mãe e o mimo excessivo do meu pai. Depois que retornei para casa, quase quinze dias depois, Bob ficou horas reconhecendo novamente seu território. Depois de ficar tanto tempo em uma casa grande com jardim ele quase chorou ao voltar ao minúsculo espaço da varanda com minhas plantinhas.

Prometi a ele que um dia iríamos morar em uma casa com jardim.

Sentada na varanda, penteando meus cabelos e observando a movimentação no Central Park, tive a sensação de estar sendo observada. Inevitavelmente, olhei para varanda do prédio em frente e fiquei surpresa e ao mesmo tempo aborrecida ao ver Edward em pé, com os braços apoiados na grade, com um sorriso e um olhar intenso pra mim.

O que ele queria agora?

Levantei, dei as costas, chamei Bob para dentro, fechei minhas portas e a cortina. Seja lá o que ele quisesse agora, era um pouco tarde. Estava atrasada para um encontro com um professor gatíssimo que já conhecia quando estudava por lá, mas agora que sou formada, não preciso mais temer em paquerá-lo. Meu trabalho na biblioteca só ajudou na aproximação.

Quando desci, com meu vestido preto justo e sapatos altos, olhei para o alto. A lua estava linda. E Edward continuava na varanda. Ele devia estar me olhando. Lá no alto parecia tão pequeno e solitário que meu coração se apertou. Sempre tive o desejo de ajudá-lo, de conhecê-lo melhor e entender os motivos que o fazem ser tão fechado, tão recluso…

Hoje eu entendo, que por mais incrível e apaixonante ele seja, por mais divertidos e maravilhosos nossos encontros tenham sido, não posso fazer absolutamente nada se ele não permitir. Respirei fundo, dei os ombros e entrei no carro esperando que meu encontro pudesse me fazer sair desse feitiço que ele tinha me envolvido.