— Sinto muito, mas não estamos abrindo vagas.

Contudo, a placa do lado de fora da confeitaria dizia outra coisa. E, quando Tonks saiu da loja, a placa não foi retirada, como era de se esperar quando algum candidato era aprovado de última hora.

O seu pescoço não suportava mais as voltas que a sua cabeça toda vez que saía à rua, procurando por qualquer placa que não dissesse o local para onde os carros deveriam dirigir-se ou "aluga-se/vende-se um apartamento". Estava em alguma crise de desemprego e não sabia?

— Quatro anos de faculdade desperdiçados — disse Andrômeda, quando ela voltou para o almoço, desapontada.

Há muito tempo tinha deixado de preocupar-se em qual a área de emprego estava procurando, só precisava encontrar um e logo, pois viver sob o teto dos seus pais não era o que sempre desejou para si depois do colégio.

— Andy, por favor — disse Ted, olhando repreensor para a esposa.

Tonks deu um sorriso leve, ao notar que o pai olhava para a área de quadrinhos e charges do jornal. Ele deu uma piscadela para ela, passando a folha de classificados.

— Talvez hoje seja o seu dia de sorte — ele brincou.

Ela não estava tão segura, mas fingiu animação, comendo um pouco da batata sorridente do prato, enquanto pegava o pilor azul para circular alguns anúncios.

— Ainda digo que ninguém vai te aceitar com esse visual — disse Andrômeda, não parecendo disposta a deixar o assunto morrer — E garçonete não é uma boa opção, ou qualquer coisa que envolve equilibrar bandejas sobre patins.

Tonks teve que concordar com isso.

— Eu não vou mudar a minha aparência — ela disse, contudo.

— Deveria ter um estúdio de tatuagem, talvez — sugeriu Andrômeda, sem maldade na voz — Ou algum cabeleireiro.

— Isso seria interessante! — indicou Ted, mas como ria olhando para o jornal, era difícil de dizer se concordava com elas ou com algo dito na impressão.

— Você não está rindo da própria piada de novo, não é? — perguntou Tonks, sem poder evitar.

Ele fechou o jornal, parecendo constrangido.

— Você sabe que eu poderia te arrumar alguma coisa lá no jornal tranquilamente — ele disse.

— A ideia de trabalhar é adquirir responsabilidades — disse Tonks — Como vou ficar independente com um trabalho arrumado por você?

Andrômeda concordou com a cabeça, olhando diretamente para o marido.

Era difícil definir quem tinha começado com a ideia de emprego naquela casa.

— Olhe, tem esse aqui — disse Andrômeda, apontando para um que Tonks planejava riscar.

— Babá? É sério? — ela perguntou — Eu nem sei cuidar de criança!

— Não é tão difícil assim!

Ted pigarreou, antes de dar um gole d'água, sob o olhar ameaçador da esposa.

— E você sempre pode ligar para mim para tirar as suas dúvidas — ela disse.

— Eu nem sei se vou conseguir — disse Tonks, revirando os olhos.

— Então tente!

Ela nunca tinha sido boa em receber desafios, então fez um grande círculo ao redor do anúncio.

— É do outro lado da cidade, eu vou amanhã, pode ser?

Por algum motivo, ela não estava particularmente interessada naquele emprego.

Cuidar de um bebê parecia a receita para um perfeito desastre.

Assim que terminou de comer e usar o pilor na folha de jornal, ela dobrou-o colocando em sua bolsa, iria nos lugares mais pertos primeiro, como sempre fazia.

— Tente não voltar muito tarde! — disse Andrômeda, antes que ela fechasse a porta.

Estava a apenas algumas quadras de casa, caminhando, quando viu dois mascarados saírem de uma loja. Tentou correr para um beco, mas um deles puxou-a pelo braço, enquanto o outro apontava a arma.

— Anda! Dê as suas coisas!

Com a mão tremendo, ela estendeu a sua bolsa, esperando que fosse suficiente, mas ele apontou o revólver para o seu relógio, que ela também tirou.

— Ande! — ele disse, irritado por sua demora.

Assim que entregou-o, ergueu as mãos, nervosa, mas eles correram para dentro de um ônibus em movimento.

Sentiu o coração quase quebrar os seus ossos de tão forte que batia, o seu dia só estava indo de mal a pior.

— Moça! Está tudo bem contigo?

Uma senhora simpática levou-a até a sua farmácia, onde deu-lhe um copo d'água.

— Esse bairro está um absurdo! — ela reclamou — Mas está tudo bem mesmo? Ele não te machucou?

— Não, eu estou bem — disse Tonks, depois de conseguir normalizar a respiração, ainda nervosa.

— Você deveria fazer um boletim de ocorrência.

Ela começou a negar com a cabeça.

— Não quero ir sozinha.

Entregou-a o copo, quase derrubando-o, antes de sair do estabelecimento, fazendo o caminho contrário ao que seguia. Assim que chegou em casa, tocou a campainha, já que suas chaves tinham sido levadas.

— Filha? — Andrômeda estranhou a sua chegada tão rápida.

— Eu acabei de ser assaltada — disse, sentando-se ao sofá — Levaram a minha bolsa com tudo e o relógio.

— A gente deveria fazer o BO.

— E do que vai adiantar? A polícia nunca recupera.

Passou as mãos pelo rosto, tentando acalmar-se.

— Eu vou tomar um banho agora — ela disse.

— Eu vou te levar para os locais amanhã — disse Andrômeda.

— Mãe, você não pode desmarcar todas as visitas. Essas pessoas estão procurando um lugar pra morar.

— E você está procurando um emprego.

Ela viu a mãe ir para o telefone, decidida, e lamentou a perda do seu celular. Levantou-se, tomando uma chuveirada rápida, antes de decidir sair para se animar.

— Vou para uma balada que tem aqui perto. Posso? — cruzou os dedos atrás das costas, torcendo para ela concordar.

Andrômeda suspirou, antes de concordar.

Sabia que era difícil para ela concordar com aquilo, ainda mais sabendo que não tinha mais o celular para saber onde estava. Tonks decidiu que não poderia ter tanto azar em um só dia. Já tinha sido assaltada, não tinha mais o que roubarem dela.

— Você pega uma cópia do jornal de novo? Eu perdi ele com a bolsa — pediu Tonks, antes de começar a se arrumar.

Sentia falta da sua vida de universitária, era tão diferente de ser jogada completamente àquela realidade. Dividir quarto com outras garotas, ir à festas, viver a vida, era tão bom, mas durou menos do que ela esperava.

Definitivamente o seu dia não podia ficar pior do que já estava.

Assim que chegou à balada que tinha perto de casa, sentiu todas as preocupações irem embora, a música alta quase não a permitia pensar, toda aglomeração de corpos tatuados e cabelos pintados a fazia sentir-se em casa, como se tivesse voltado para os tempos de faculdade.

Sentada ao bar, tomando um gole de cerveja, permitiu-se finalmente relaxar.