Capítulo 3: Renascimento Acidentado

Numa fria noite de chuva torrencial, um intruso irrompeu no Mausoléu Familiar dos Potter. Assegurando-se de desabilitar todos os feitiços protetores e armadilhas, deslizou cuidadosamente o portão da entrada e localizou o seu objetivo com rapidez e precisão. Caminhando com cautela, aproximou-se à urna e realizou um encantamento de deteção, ao constatar que a mesma se encontrava livre de qualquer malefício, agarrou-a e abandonou rapidamente a propriedade.

Apenas o silêncio e a escuridão reinaram…

Como se o intruso nunca tivesse existido… Como se nada tivesse acontecido…

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O loiro encarou o seu interlocutor aborrecidamente.

― Chamam àquilo segurança de ponta? ― exclamou exasperado ― Um fedelho recém-ingressado em Hogwarts teria sido capaz de fazer melhor! Deveriam ter vergonha! Qual foi mesmo a empresa encarregue da segurança? Tenho de assegurar-me de não utilizar os seus serviços e recursos nas minhas empresas, muito menos numa das minhas residências… ― disse atropeladamente, demonstrando toda a sua indignação.

― Já acabaste, Malfoy? ― perguntou Harry, escondendo um sorriso de diversão.

― Achas isto engraçado? Não é por estarem mortos que não merecem a devida proteção! E se o intruso que invadiu o Mausoléu não tivesse sido eu e sim alguém com más intenções?

― Sim, sim… Agora vamos ao que interessa! Conseguiste os ingredientes todos?

― Com as cinzas só ficam a faltar dois. Os mais complicados de adquirir… Sabes que mais? Para quem passava a vida na enfermaria do castelo, não entendo como é que não consigo encontrar uma única amostra do teu sangue.

― Ei! Quatro de cada cinco vezes foi culpa tua! ― defendeu-se o moreno de olhos verdes esmeralda.

― Minha!? ― gritou Draco indignado ― Porquê minha?

― Não sei! Talvez devido a todos os nossos confrontos ou as tuas tão clamadas "vinganças"?! ― concluiu, realizando o gestos das aspas com os dedos.

― Como queiras! Se te faz feliz, pensa o que quiseres.

― Sangue? ― murmurou o espírito pensativamente ― Talvez… Madame Pomfrey ainda guarde uma das minhas amostras. Depois dos inúmeros incidentes que sofri, ela passou a armazenar reservas, para caso eu viesse a necessitar uma transfusão no futuro.

― Não podias ter-te recordado disso antes e poupado-me trabalho desnecessário?

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Uma semana havia passado e o loiro conseguira por fim o último ingrediente, à custa de um grande esforço e custo.

― Ora aqui está algo que não se vê todos os dias! ― exclamou Harry com diversão, cruzando os braços e erguendo uma escura sobrancelha, como vira o seu rival fazer tantas outras vezes ― O grande Draco Malfoy, um Saqueador de Túmulos! Rita Skeeter iria adorar escrever um artigo…

― Cala-te, Potter! E começa a cavar, que não temos a noite toda.

― Não podias simplesmente usar magia? ― questionou com obviedade.

― E arriscar-me a ser apanhado? Nem pensar!

― Tenho mesmo de escavar?

― Não sei… Hmm… Deixa-me pensar… Quem de nós dois vai lucrar mais com a situação? Quem é que deseja voltar a viver? Certo! Tu! Agora cala-te e começa a escavar, imbecil de testa rachada! ― Jogou uma pá na direção da alma errante, acertando-lhe em cheio no meio da cara. ― Hahaha! Espetacular! Sou demais… Consigo fazer-te a "vida"… Ups! ― Levou a mão à frente da boca, fingindo que se arrependia pelo seu deslize, escondendo assim o seu sorriso sardónico. ― Disse vida? Queria dizer morte! Faço-te a "morte" negra sem mesmo tentar! Muito provavelmente não me teria saído tão bem se o tivesse planeado.

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Draco despejou um litro de água da Fonte da Vida num recipiente e adicionou as cinzas, esvaziando o conteúdo da urna, para de seguida proceder a misturar o conteúdo seis vezes no sentido horário e outras seis no anti-horário.

Contendo o náusea, colocou a mão no líquido acinzentado sem poder evitar fazer algumas caretas, para completa diversão de Harry.

― Ainda não posso crer que te estou a tocar… ― O espírito encarou-o interrogativamente. ― Sim! A ti! São as tuas cinzas, tarado! Eca, que nojo! ― Deslizou a mão sobre a superfície lisa do solo de pedra, traçando um círculo de runas ritualísticas. ― Porquê eu!? ― Choramingou o loiro. ― Oh! Vais pagar-me por isto! Ah! Isso é que vais!

― Acredita se eu pudesse ser-te de ajuda, fazia-o, mas… Runas não são o meu forte. Boa sorte! E tenta não vomitar em cima dos meus restos mortais! ― exclamou com um sorriso brincalhão ― Não quero nada teu no meu novo corpo.

― Ainda bem que te sentes tão prestativo, Potter! ― disse Draco, terminando de desenhar o círculo de transmutação alquímica ― Pois a parte seguinte, não tem nada a ver com runas. ― Um sorriso ladino, prometendo séculos de tortura, tomou conta da albina face do loiro.

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Harry flutuava, transportando um cadáver, que prontamente posicionou no centro do círculo.

― Que sorte a minha! ― reclamava o moreno ― Não consigo tocar nos vivos, mas nos mortos sim!

― Chama-se karma, Potter!

― E acaso foi o karma que nos permitiu interagir? Mas afinal de contas, porque é que te posso tocar, e não outra pessoa qualquer? Como a Ginny, por exemplo? Ela era minha esposa e mãe… Esquece! ― disse Harry deprimido.

― Guarda a tristeza para depois! Agora vamos tratar de te arranjar um corpo e depois lidas com os teus problemas futuramente existências, que não interessam a ninguém… Muito menos a mim!

Draco passou por cima das runas, com extremo cuidado de não lhes tocar e arruinar o ritual que tanto lhe havia custado encontrar. Ajoelhou-se ao lado do corpo de proporções semelhantes às de Harry Potter, ignorando o odor nauseabundo, culpa do estado de decomposição, e traçou um pentagrama no centro da testa com o sangue do moreno. Seguidamente, abriu um frasco do qual retirou dois pelos da crina de um unicórnio fêmea adulto e um pelo da cauda de um unicórnio macho adulto, que utilizou para atar os outros dois fortemente, para que não se desamarrassem.

― Potter! É a tua vez! Abre a boca do tipo.

― Eu?

― Quem mais seria? Acaso vês mais algum Potter aqui?

― E porque é que não o fazes tu?

― Olha, Potter, já coloquei a minha delicada e fina mão nas tuas imundas e nojentas cinzas, mas tudo bem, a ti eu conheço. Mas tocar num morto, que sabe-se lá onde é que andou ou que tipo de doenças é que teria, que possam ter ou não causado a sua morte… Isso é que nem a brincar! Agora fecha a boca, que pareces mais estúpido do que o costume, e mete mãos ao trabalho.

― Doenças? ― Harry começava a duvidar se aquela teria sido realmente a melhor escolha. ― Se ele tiver morrido por alguma estranha doença, não vai afetar o ritual ou a mim quando me unir ao corpo?

― Pediste-me um corpo, em lado nenhum constava que tinha de ser saudável! Não compliques as coisas… Eu cumpri a minha parte do acordo! Querias um corpo. Voilá, aí tens o teu corpo! ― Apontou para o defunto prostrado entre eles.

Draco deslizou o nó de pelos de unicórnio no interior da cavidade oral do defunto e verteu a primeira lágrima de uma fénix renascida sobre o seu coração. Abandonou o círculo, juntamente com Harry e passou a recitar três vezes o mantra que o livro indicara.

Cinis erit usque ad animam!

As runas brilharam fortemente numa tonalidade dourada, cegando-os a ambos momentaneamente. Draco, ao ver que o ritual havia sido concluído, aproximou-se para avaliar os resultados.

― Sucesso! ― festejou o loiro.

― Chamas a isso sucesso? ― exclamou Harry completamente indignado.

― Olhes por onde olhares é igualzinho a ti. Tem a tua cara feia! ― respondeu Draco ao sentir-se insultado ― Querias um corpo, pois parabéns! Aí tens o teu novo corpo, pronto a ser estreado e o meu trabalho estará terminado assim que enfiar a tua estúpida alma dentro dessa coisa horrenda que passarás a ter por corpo.

― Vês? Até mesmo tu pensas que é horroroso! ― Apontou o dedo repetidamente do loiro para o corpo e do corpo de volta para o loiro.

― Não aceito queixas ou devoluções! Antes de iniciarmos o ritual foste avisado de que este poderia resultar num falhanço catastrófico, mas não foi. O corpo está anatomicamente correto, nada a mais e nada a menos. Pode que tenha um aspeto doentio, mas temos de dar um desconto… Afinal de contas, até meros minutos atrás, aquilo nem sequer estava vivo e agora podes confirmar que tem um batimento cardíaco. Se eu estiver correto e aquela coisa estiver viva, vais atravessá-la quando a tentares tocar.

Harry tentou a sua sorte e constatou que o homem de olhos prateados tinha razão.

― E agora, génio? Como é que vou entrar dentro do corpo, se nem sequer o consigo tocar?

― Com um ritual de Unificação entre Corpo e Alma, claro! Sua besta, não sabes mesmo nada. Não faço ideia de como é que conseguiste terminar os estudos de Hogwarts e muito menos como foste capaz de te graduar da Academia de Aurores. O nível deve ter descido drásticamente, só para que o "Salvador" ― cuspiu a palavras com extremo desdém ― pudesse cumprir o seu estúpido sonho de ser auror ― disse Draco sem imaginar quão errado estava e que a verdadeira vocação do Menino-que-Não-Sobreviveu estava na carreira de medimagia.

― Vou ignorar a tua falta de educação… Por agora! ― disse Harry, já fazendo planos futuros, envolvendo-o a ele mesmo a dar uma lição de bons modos ao seu loiro tormento. ― Como é que esse ritual funciona mesmo?

― Primeiro de tudo, coloca-te verticalmente sobre o pentagrama que desenhei na testa do mor… Certo, agora está vivo. Bom, tu percebeste.

― E agora? ― perguntou, flutuando sobre o objetivo.

― Agora calas-te e deixas-me fazer o resto. Quam per sacrificium hoc est errans animus existentiae consolabuntur novi!

Harry sentiu como se o seu translucido corpo fosse repentinamente sugado através da boca da sua doentia versão. O próximo que se apercebeu era que não conseguia mexer nem um dedo, por mais que tentasse.

― Malfoy! Seu cabrão! Esta merda não funcionou!

― Pensa bem em quem é que estás a insultar, pois vais precisar da minha ajuda se quiseres recuperar o controlo de todas as tuas funções motoras.

― Então funcionou? ― Draco murmurou um "hmm" em concordância. ― Se funcionou, porque raios não me consigo mexer?

― A alma e o corpo são duas metades de um todo! Por mais de meio ano não tiveste contacto com o teu corpo físico, pelo que a tua alma não recorda como se reconectar com ele. Vais necessitar meses de tratamento à base de poções e exercícios de reabilitação motora. Já que vamos mesmo estar nisso, penso que também deverias colocar algo de carne nesses ossos. Estás esquelético, Potter! Sentiria dó de ti, se tivesse sido criado para demonstrar os meus sentimentos, mas não fui e por isso posso dizer-te na cara que está horroroso… Bom, sempre foste horrendo, mas agora estás ainda pior. Pergunto-me como é que haviam tantas mulheres atrás de ti… Teriam problemas de visão? Desde a primeira vez que te vi, na loja de túnicas, soube que eras um anão… Um saco de pele e ossos… E isso não parece ter mudado… ― divagava Draco, analisando milimetricamente a desnuda anatomia de Harry.

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Um ano havia passado desde a realização do ritual e Harry tinha, por fim, retomado um ritmo de vida minimamente normal.

Recuperara a sua mobilidade e a sua boa forma física. Pelo momento estava a habituar-se ao seu novo corpo, pois este poderia parecer igual ao original, mas não era o mesmo, e como tal, o equilíbrio e a força variavam radicalmente. O seu novo corpo tinha músculos que nem com anos e anos de treino teria conseguido obter no seu corpo anterior. Também estava mais alto, fato que desfrutava enormemente, pois podia esfregá-lo na cara do loiro. Se antes Draco o ultrapassava por uns quantos centímetros, ele havia-lhe ganho por uma cabeça de diferença.

Harry desconhecia o conteúdo das poções que Draco lhe administrara durante o seu período de recuperação, mas estas haviam resultado numa melhoria avassaladora para o seu físico. Era um adeus definitivo ao seu corpo de baixa estatura, fruto da desnutrição a que fora submetido no decorrer da sua infância às mãos dos seus tios muggles.

O Salvador podia afirmar abertamente que era viva imagem do seu pai, pois se antes era parecido a James, agora, que havia atingido uma altura semelhante à deste, era uma cópia a carvão do falecido auror.

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Draco passara um ano entre planos e estratégias.

Estudara a fundo o inimigo e traçara uma jogada para cada um; estes iriam arrepender-se profundamente do dia em que sequer tinham ponderado trair Harry Potter, pois a sua liberdade dependia do sucesso dos seus planos. Uma vez que Potter não o deixaria em paz até que tivesse conseguido a sua ansiada vingança.

Afinal de contas, ele mesmo lhe dissera… E até jogara a carta proibida.

Draco devia-lhe a vida, e como tal, Harry cobraria a dívida com acréscimos, pelo bem dele mesmo e de todas as possíveis, antigas e futuras, vítimas daquele trio de mentirosos sem escrúpulos.


Google Tradutor:

"Cinis erit usque ad animam" ― Das cinzas vem a vida.

"Quam per sacrificium hoc est errans animus existentiae consolabuntur novi" ― Que por meio deste sacrifício esta alma errante encontre conforto numa nova existência.