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III
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Era tarde da noite. Àquela hora, todo mundo lá dentro já estava encharcando o travesseiro, de modo que pegar as chaves do orfanato (elas ficavam dentro de um potinho em cima da geladeira, não realmente escondidas) e sair discretamente pelo portão da frente foi uma tarefa relativamente fácil.
- Não acredito que estamos indo pegar a sessão da meia-noite – disse Itachi.
- E eu não acredito que você tenha realmente topado com isso. Treze anos e já dando escapadas furtivas na calada da noite – Shisui falou num tom fingidamente horrorizado, abrindo o portão. – Jesus, Itachi, o que acontecerá se eu tirar os olhos de você?
- Não brinque com isso – ele disse gravemente. – Isso é sério.
- Não se preocupe, Nan Melda dorme como se estivesse deslizando para um coma.
- Não é só isso.
Shisui percebeu o que ele queria dizer e rolou os olhos.
- Itachi, eu sei dirigir, valeu?
E era verdade. Andara tendo aulas com um homem que conhecera na academia e para quem Shisui já se ofereceu para dar uma geral no carro, mas fora dispensado. Tu pode mexer em qualquer coisa que for minha, ele havia lhe dito. Sinta-se à vontade para arrumar minhas cuecas, usar minha privada e até mesmo bisbilhotar as revistinhas que guardo numa gavetinha no banheiro, mas, no meu carango, ninguém bota a mão, zé mané.
O sujeito era mecânico, porém compunha músicas de rap nas horas vagas. Identificava-se apenas pelo nome artístico "Killer Bee" (Shisui achava que era um nome artístico, mas também era possível que a mãe dele estivesse meio alta quando dera à luz), e era para a casa dele que os dois garotos dirigiam-se naquele momento.
Andaram uns três quarteirões e dobraram à esquerda. Todas as moradias da rua tinham as luzes apagadas e as persianas abaixadas, exceto por uma pequena casa cinza, que estava total e positivamente acesa.
Shisui bateu com a argola embaçada da porta e, como ninguém respondeu, bateu de novo. Dessa vez, a porta abriu-se e um homem nada menos que enorme surgiu diante deles. Vestia um avental florido, muito parecido com o que Bah costumava usar, a pele parda reluzindo de suor. Um cheiro forte de bife sendo frito chegou até eles.
- Ei, nanicos – disse. – O que fazem em minha humilde residência, a essa hora da madruga? Vou logo avisando que só botei a mesa para um.
- Vim pegar o carro – disse Shisui. – Eu havia perguntado se você poderia emprestá-lo a mim para levar meu amigo ao drive-in. Deus, Bee, isso foi hoje à tarde.
- Boa noite – Itachi cumprimentou-o, segurando as próprias as mãos diante de si com recato.
A cabeça do homem se voltou para ele. Era impossível ler seus olhos, uma vez que o maluco estava usando óculos escuros às 11 horas da noite. Parando para pensar, Shisui achava que nunca havia o visto sem eles, nem quando malhavam juntos, nem durante as aulas de direção. Meio bizarro.
- Ah, sim, sim. – O homem retirou o avental e secou as mãos nele. – Venham comigo.
Acompanharam-no até a garagem ao lado. Bee ligou o interruptor e uma lâmpada pendurada por uma corrente lançou seu brilho amarelado sobre o carro. Tinha traços arredondados, imitando o estilo dos anos 50, a pintura de um pálido tom de amarelo. Os pneus eram enormes, de banda branca, com calotas refletindo mais que espelhos.
- Volga dvastast' odin – anunciou com um sotaque forçado, dando tapinhas na lataria. – Ou Volga 21, para os mais chegados. Vou dizer uma coisa para vocês: se os russos alguma vez trouxeram algo de bom para a sociedade, foi esta belezoca aqui.
- Russos? Esse carro é russo?
- Oh yeah, pode apostar seu traseiro que é.
Itachi deu a volta no carro e agachou-se, observando o escudo em seu nariz, onde havia a figura de um cervo sobre os dizeres ГАЗ.
- Caralho – soltou Shisui, passando a mão na cabeça. – Como foi que conseguiu trazê-lo até aqui?
- Só digo que fácil não foi. – Bee tocou o teto possessivamente e o toque se transformou em carícia. – Transportar uma tonelada e meia de engenharia soviética do outro lado do planeta foi dureza, mas a história é comprida e eu estou com o jantar no fogão. Quer entrar?
- Ô, se quero.
Shisui abriu a porta do motorista e deslizou para dentro. Não sabia se Bee tinha o costume de limpar a casa, mas com certeza fazia questão de deixar o interior do carro um brinco. O estofamento onde sentava desprendia um cheiro agradável de vinil... ou talvez fosse couro verdadeiro. Numa fenda do painel imaculadamente branco, a fotografia de um avião. Olhou para o velocímetro, espantosamente calibrado não para 70 ou 80, mas todo o caminho até 120 milhas por hora.
Segurou o volante com as duas mãos, aquele volante amplo e amarelo, o cromado piscando alegremente à claridade noturna do outono, e sentiu-se confiante.
- Vem, Itachi, antes que eu resolva te deixar aqui para fazer companhia ao Bee.
- Você sabe que não faria isso – disse ele do lado de fora, sem se mover.
- Entra logo.
Ele ainda hesitou um pouco, mas acabou por sentar ao lado de Shisui.
- Relaxa, cara. Estar comigo na direção é estar na companhia do próprio anjo da guarda.
- Agora me sinto muito mais seguro – Itachi retrucou, sentado numa postura ereta, os ombros rígidos.
Shisui riu da seriedade dele e despenteou seus cabelos. Itachi afastou sua mão distraidamente.
Bee apoiou um braço na janela e estendeu as chaves do carro.
- Agora, escutem aqui, vocês dois. Se a polícia rodoviária pegá-los, estarei enrascado até as orelhas, portanto, procurem serem discretos. Não ultrapassem 90 quilômetros por hora. Não liguem o rádio ao ponto de estourar as caixas de som, nem coloquem as cabeças para fora das janelas como se fossem cachorros.
- Não precisa nem dizer.
- Porém, mais importante que tudo, quero o carro entregue de volta inteiro como está agora, e isso vale especialmente para você, Shisui. Jamais te entregaria minha máquina se não houvesse visto o quão bem dirige com meus próprios olhos. Contudo, se eu encontrar um amassadinho, um arranhão que seja, não importa se for da grossura de um fio de cabelo, eu vou arrancar as suas tripas e te enforco com elas.
-Que sujeito formidável! – exclamou, agarrando as chaves.
- E você não vai encontrar ninguém melhor – replicou ele, retirando-se.
Shisui girou a chave de ACC para START e o motor pegou imediatamente, funcionando com firmeza. Itachi apressou-se em colocar o cinto de segurança,
Em seguida, a porta da garagem se ergueu, chocalhando, para a fria noite de novembro do exterior. Ele baixou a alavanca de mudança para DRIVE e desceu da garagem, virando o carro num semi-círculo surpreendentemente suave; era como estar num barco a vapor.
Ouviu Bee assoviar e bater palmas.
- Assim que se faz, garoto! Daqui, você desce a Martin Street até Walnut e dobre para a direita, em direção a Basin Drive. Dali você segue para a autoestrada.
Shisui ergueu o polegar para ele virou-se para Itachi.
- Pronto?
Itachi olhou, através do para-brisa, o negro céu estrelado.
- Suponho que agora não tenha mais volta, não?
Shisui assentiu, pisando no acelerador.
- Não tem, mesmo.
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Shisui dirigiu normalmente, dentro do limite de velocidade, ainda que não houvesse vivalma nas ruas, nada ou quem pudesse entregá-los. Contudo, toda vez que paravam num sinal vermelho, a ideia de que surgisse alguém e reconhecesse dois adolescentes sozinhos dentro daquele automóvel incomum ficou assombrando-os durante todo o trajeto até a saída da cidade. Era algo afundava, ora aflorava, como uma coisa ruim submersa e demasiado encharcada para vir totalmente à superfície.
Ela apenas desapareceu quando deixaram a cidade pela faixa de saída e finalmente ganharam a autoestrada, deserta àquela hora da noite. Rodavam a uma velocidade tranquila e legal de 80 quilômetros, os vastos campos de vegetação rasteira passavam velozes sob estrelas que piscavam como diamantes lapidados. Itachi as contemplou em silêncio, depois estendeu a mão para o botão do rádio e sintonizou uma estação de músicas antigas. Sheb Wooley cantava "O Púrpura Comedor de Gente". Aquilo conseguiu finalmente trazer um sorriso ao seu rosto.
- Shisui, você havia me contado que estava tendo aulas de direção com aquele homem – disse, recostando-se mais confortavelmente no assento –, mas se ele nunca havia lhe emprestado o próprio carro até hoje, o que vinha dirigindo até agora?
- Os automóveis que mandam para a oficina dele. Ele faz os reparos e eu os rodo por um quarteirão para dar uma checada. Se não ouço nenhum estouro vindo do cano de descarga nem o barulho da bateria arranhando o fundo do barril, ou se olho para trás e vejo que não deixei uma trilha de óleo por onde passei, então retorno e Bee dá um o.k. para a máquina.
- E se acontecesse de um carro simplesmente quebrar no meio da rua? E se você tivesse perdido o controle sobre ele?
- Bom, digamos apenas que eu não estaria aqui para contar a história.
- Jesus.
- Mas isso nunca aconteceu, nem vai acontecer. Bee pode ser um zero à esquerda como rapper – ele me fez ler uns rascunhos que havia composto em casa, e um macaco com coceira no rabo teria feito coisa melhor –, mas ele entende de máquinas. Realmente entende. Você tinha só que ver o que já mandaram para lá. Pareciam carcaças roubadas de um ferro-velho abandonado.
O aquecedor expelia ar quente, suavemente, em torno de suas pernas, negando a gelidez do exterior.
- Bom, você dirige bem – Itachi disse relutantemente.
Shisui riu.
- Não seja modesto.
- Certo – disse ele, revirando os olhos.
A conversa tomou outros rumos, e eles discutiram sobre coisas leves o resto do caminho. A certa altura, os campos tornaram-se milharais – quilômetros e quilômetros de pés de milho do tamanho de um homem, estendendo-se até onde a vista alcançava. Vez por outra passava por eles um carro ou um caminhão, iluminando momentaneamente o interior do Volga e deixando-os em trevas novamente.
Afinal avistaram, depois de 40 minutos de viagem, a enorme tela branca e a lancheria iluminada, aninhados num pedaço de terra entre aquele mar prateado pelo luar.
- Chegamos, madame – anunciou Shisui.
Ele manobrou para a entrada e procurou por uma vaga entre as fileiras de carros. Nisso, Itachi, retirou cuidadosamente a foto do avião da fenda onde estava preso e leu no verso:
"Querido Mary,
obrigada pela hospedagem, e desculpe comer todo seu estoque de abacaxis cristalizados (estavam realmente deliciosos!). Você planeja vir nos visitar algum dia? Mamãe sente saudades.
L."
- Mary? – Shisui questionou, começando a rir. – O nome dele é Mary?
- Acho que "Mamãe" não está sabendo que a filhinha andou fazendo umas operações meio pancadas ultimamente.
Shisui gargalhava tanto que quase embicou para cima de um Mustang enquanto entrava num espaço desocupado.
- Deus do céu – exclamou Itachi, olhos arregalados, mas sem conseguir parar de rir. – Tome cuidado com esse trambolho, seu cretino!
- Eu não bati o carro, bati?
- Mas chegou perto disso.
As risadas foram diminuindo até cessarem completamente. O Volga dava lentos gastos estalidos, esfriando-se.
Itachi recolocou a fotografia no lugar.
- Que maldade – comentou.
- Ninguém mandou Mary Sue ter esse belo cartão postal tão à vista.
Uma atendente veio até eles e pediram uma pizza caprichada junto com dois copos grandes de Pepsi. Até a comida chegar, ficaram num silêncio confortável, encarando a enorme tela branca que se assomava diante deles e ouvindo a trilha sonora da noite: pessoas conversando e, mais ao fundo, o farfalhar do extenso milharal na brisa noturna.
A atendente voltou com os pedidos quinze minutos após o filme (a grande atração da vez era The Rocky Horror Picture Show) ter começado. O filme era ótimo e eles riram bastante, um dobrando-se no banco e o outro apertando o punho contra a boca, principalmente na entrada triunfal do Dr. Frank-'n'-Furter – a quem Shisui chamou de "louca rainha vândala do espaço sideral".
Ele terminou seu copo de Pepsi e se espreguiçou com vontade no assento.
- Hora de inaugurar a pizza.
Virou-se para a caixa entre os dois, e foi aí que aconteceu.
Ele nunca soube o que teria feito Itachi inclinar-se sobre a pizza no mesmo instante que ele. Talvez quisesse pegar o primeiro pedaço. Talvez estivesse tendo um daqueles surtos de gentileza e fosse ajudar Shisui a abrir a caixa. Realmente, não importava mais, não quando seus lábios se esbarraram suavemente e a pizza – junto com tudo o mais – desapareceu instantaneamente de sua cabeça.
O choque fez com que não se separassem de imediato, mas enquanto permaneceram parados, Shisui
(afaste-se)
sentiu o inocente cheiro de sabonete da pele de Itachi e também
(afaste-se dele agora pelo amor de Deus afaste-se)
a boca dele se abrir de surpresa, e o breve contato com
(por que você não se AFASTA)
o revestimento interno do lábio inferior, um tecido rosa, aveludado e tão íntimo que fez Itachi finalmente quebrar o contato, afastando-o pelo pescoço. Foi educado, mas inequívoco. Quase um empurrão.
Shisui respirava em haustos curtos e trêmulos. Ainda sentia o toque úmido em sua boca.
(diga alguma coisa)
Encarou Itachi e ele o encarou de volta, o rosto branco. As sardas se destacavam como respingos numa vidraça.
Sua garganta movimentou-se, porém não emitiu som algum.
(qualquer coisa faça uma piada sobre isso por favor)
Oh, se eles tivessem meramente se roçado, ele até poderia ter soltado um de seus famosos e infames gracejos e feito o amigo corar até assemelhar-se a um tijolo, mas não fora isso que acontecera. Shisui o havia beijado, sem intenção, mas ainda assim um beijo, em todos os sentidos, e o constrangimento era muito, até mesmo para ele.
Risadas soaram repentinamente, enchendo o ar com sua trovoada, sobressaltando-os. Itachi percebeu que sua mão permanecia pousada na base da garganta de Shisui e a retirou de imediato, como se tivesse sido queimado, virando-se abruptamente para frente. Encarava a tela com intensidade sem, no entanto, vê-la. Shisui podia dizer pelos olhos arregalados, cinzentos, sérios.
Também voltou a olhar o filme. Frank perseguia Janet pelas escadarias do castelo, correndo desequilibradamente sobre os saltos altos. Embora Shisui não conseguisse prestar atenção em nada daquilo, desejou ardentemente que o final estivesse longe e, com ele, o momento em que teria que encarar o amigo calado ao lado.
Infelizmente, quanto menos se deseja o fim, mais rápido ele se aproxima. O filme acabou cedo demais, e logo o som de motores dando a partida sobrepôs a música dos créditos que rolavam pela tela. Os carros passavam por eles numa procissão, a maioria com adesivos nos para-choques, dizendo coisas espirituosas, como: ABAIXO AS USINAS E BOMBAS ATÔMICAS ou U.S., FORA DE EL SALVADOR e LEGALIZEM A ERVA. Alguns permaneceram, aguardando silenciosamente os donos que foram à lanchonete comprar cigarros ou aliviar-se no banheiro.
- Vou comprar outra Pepsi – declarou com repentina, sinistra animação, que aos seus ouvidos pareceu fabricada e não orgânica. – Vai querer uma também?
Itachi mirava impassivelmente o copo entre suas pernas, ainda na metade. O gás todo já devia ter escapado.
- Muita Pepsi me dá espinhas nas costas, você sabe disso.
- Certo – murmurou, sem saber ao certo o que dizer, só querendo sair logo dali, escapar daquele acesso de claustrofobia, nem que fosse por cinco minutos.
Saiu, e a friagem do ar pareceu lhe devolver algum senso. Marchou até a lanchonete, atravessando o pátio. Lá dentro, um senhor já velho pagava seu maço de cigarros, contando laboriosamente as moedas sobre o balcão. Sua mulher parecia quinze anos mais nova, trajava um costume azul bem tradicional, o rosto de alguém que aguentava o peso dos anos com dignidade. Ela notou Shisui observando e sorriu amavelmente. Ele desviou o olhar rapidamente para os pés.
Quando o marido finalmente enfiou bruscamente a carteira no bolso, ela tomou-lhe o braço e o guiou até as portas duplas de vidro. Por alguns momentos, o olhar de Shisui acompanhou-os caminhando devagar e respeitosamente até um calhambeque tão antigo quanto eles. Mais adiante, avistou o formato amarelo do Volga.
Ele tratou de pedir logo uma Pepsi à atendente, sentindo algo dentro de si que não tentou analisar. Agora não havia mais ninguém ali além deles. O único ruído era o zumbido das lâmpadas fluorescentes e da sua respiração.
- Você está bem? – ela perguntou, olhando-o preocupada. – Parece um pouco pálido.
- Estou ótimo – respondeu.
Pagou aquela Pepsi que realmente não queria e voltou para a fria e cortante claridade da noite. Abriu a porta do carro e Itachi estava sentado na mesma posição de quando saíra, não aparentando ter se movido em absoluto. Apenas Itachi, usando seu blusão do ginásio. Itachi, parecendo tão pálido e tão sozinho. Itachi, com um copo de Pepsi pousado na virilha.
- Vamos dar o fora – Shisui disse, dando a partida.
Seus olhos se encontraram, e ele desconfiou que a viagem de volta iria ser longa. Bem longa.
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Haviam levado o Volga de volta à casa de Bee (ele os atendeu de camisolão e touca, porém sem dispensar os óculos escuros), que os manteve presos lá até terminar de inspecionar o carro com uma perícia militar, levando uns bons trinta minutos antes de dar o passe-livre para que saíssem. Os dois refizeram o caminho lado a lado envolvidos em um silêncio espesso, difícil.
De volta ao orfanato. Nada havia mudado e, ao mesmo tempo, tudo estava diferente. Shisui achava que essa sensação se devia ao desconforto entre eles – estava ali, como um caroço em sua garganta. Fazia com que o casarão tomasse um aspecto não exatamente novo (apesar de espantosamente preservado, nada havia de novo por ali), mas inédito, como se houvesse se passado anos desde que partiram e só agora retornassem para conferir se tudo continuava no lugar como na hora em que o deixaram.
Obviamente, as coisas estavam exatamente as mesmas. Os arranhados lambris que revestiam o piso. As paredes descascadas. O sofá antigo e destroçado, uma mola saltando para fora da almofada direita. E, no quarto deles, as duas camas de solteiro unidas.
Shisui engoliu em seco.
- Vou tomar um banho – Itachi murmurou, pegando um pijama no armário e saindo sem fazer barulho. Ambos já haviam se lavado antes de sair, porém Shisui o deixou ir. Aquela era a "ida à lanchonete" dele, o momento de ficar sozinho.
Ele ficou parado em pé, o olhar vazio nas camas. Todas as noites que eles haviam virado, fosse lendo ou conversando aos cochichos. As vezes em que dormiram tão próximos que dava para sentir a respiração quente dele em seu rosto. Tão próximos, que em certas ocasiões acordavam desajeitadamente enroscados um no outro. Nunca houvera nada de paixão ou malícia naquilo, só a necessidade de compartilhar um pouco de calor nas horas escuras da manhã. Contudo, como seria a partir de agora? Como eles sequer dormiriam lado a lado naquelas camas sem se lembrar do que acontecera no drive-in? Deus, era possível que tudo que havia entre eles tivesse ido por ralo abaixo tão rápido e com tão pouco?
A resposta, aterradora, insinuou-se em sua mente: sim. Era perfeitamente possível.
Trocou-se e separou sua cama da de Itachi. Deitou-se de costas para a porta, sem jamais sonhar que uma pessoa podia sentir-se tão total e abissalmente miserável.
Itachi levou um século para voltar do banheiro, porém, quando voltou, empurrou violentamente sua cama de encontro à de Shisui, o choque por pouco não o fazendo cair para o lado.
Shisui voltou-se para ele, o coração ao saltos, encarando-o perplexo. Itachi devolveu o olhar.
- Eu me recuso a deixar que uma coisa dessas se torne uma barreira entre nós – declarou, impassível. – Eu me recuso.
Ele puxou as cobertas e enfiou-se bruscamente debaixo delas.
Shisui ficou paralisado por um momento, olhando as costas dele.
- Escute – tentou –, escute, eu só pensei- pensei que...
- Pois pensou errado – sibilou Itachi.
Shisui aquiesceu. Nunca vira o amigo agir daquele jeito. Era como se um coelho tivesse subitamente ficado carnívoro.
Uma pausa. Então Itachi sentou-se e virou-se para ele.
- Shisui, esquece isso. Não foi nada de mais.
Seus cansados olhos cinzentos pareciam francos e diretos como sempre, mas não havia algo diferente neles? Achava que sim. Só não sabia dizer o quê.
Os braços dele passaram em volta de seu pescoço, e Shisui se retesou. Itachi raramente o abraçava e, quando o fazia, ele nunca sabia direito como reagir – embora sua respiração nunca houvesse ficado presa na garganta, nem seu coração ficara trêmulo dentro do peito.
- Você é o meu melhor amigo – ele lhe disse. – Sem dúvidas, o melhor que eu já tive. Não quero que um... um incidente como esse signifique coisa alguma para nós.
Os cabelos úmidos em seu pescoço. O aroma de xampu que se desprendia deles.
- Shisui?
- Tudo bem – respondeu. Sua voz estava rouca e ele pigarreou para continuar. – Também não quero que signifique.
Os braços desprenderam-se de seu pescoço, e o coração voltou a bater normalmente - tão normalmente quanto era possível numa situação daquelas.
- Vamos dormir, senão vão nos confundir com zumbis amanhã.
- O.k.
Contudo, horas depois de Itachi ter efetivamente apagado, Shisui continuava plenamente desperto para a noite, pensamentos inquietos dentro da cabeça.
Itachi disse que não queria que o beijo tivesse um significado maior do que um mero acidentezinho, algo bobo e não intencional, mas não querer não significava que já não tivesse um significado. Porque, para Shisui, tinha. E ele desconfiava, pelos que vira nos olhos do amigo (agora tinha certeza, havia alguma coisa neles), que também tinha para Itachi.
Na sua mente (onde o passado sempre é presente), o beijo se repetia. Repetia. Repetia.
