Elsa confirmou com um breve aceno de cabeça e retirou-se imediatamente da sala da prefeita a procura das pessoas que a rainha havia lhe solicitado, apesar da pressa pouco tempo lhe foi tomado, Hans residia próximo a prefeitura, se ela era considerada o braço direito da morena nas táticas ofensivas e defensivas da cidade o ruivo possuía a mesma importância no setor político, era o terceiro no comando e tinha plenos poderes para liderar em casos emergenciais. A loira entrou em contato por telefone enquanto seguia caminho em seu carro, assim não perderiam mais tempo, Regina já faria o trabalho de explicar o que fosse necessário, o mesmo fez com os homens da guarda, foi simples e direta, continuou seguindo caminho até os limites de Storybrooke onde faria a sua parada final antes de retornar a prefeitura.

O carro ficou estacionado em um canto qualquer, ninguém se incomodaria, eram poucos os que pegavam aquele caminho, certificou-se de que não teriam pessoas por perto e assumiu a sua forma de lobo branco, adentrando em seguida a floresta densa que cercava os limites da cidade. De forma furtiva o animal fazia o seu caminho já tão bem memorizado, com sorte pode encontrar um cervo sozinho, Elsa foi rápida, não sentia prazer algum em matar animais, então tornava a morte dos mesmos um ritual singelo... O cervo ainda tentou fugir e resistir às investidas, porem sua caçadora era dotada de mais astucia e possuía armas mortais. Quando o animal jazia a sua frente sem vida Elsa retornou a sua forma humana, sem cerimônia ajoelhou-se e cravou as presas afiadas na carne do mesmo, o sabor não se igualava ao sangue quente dos humanos – já se passaram tantos anos que ela poderia até mesmo afirmar que se esquecera daquele gosto excêntrico e porque não dizer excitante – porém mesmo sendo uma "refeição" menos saborosa para a loira lhe bastava.

Sairia com Regina em pouco tempo e isso implicava em cuidados redobrados caso tivessem algum imprevisto durante a viagem, isso significava que teria que se alimentar para manter sua força – ou pelo menos parte dela como a rainha adorava frisar.

–Nossa... Isso é tão nojento. – uma segunda pessoa se fez presente no local, porém Elsa não se assustou com a sua presença. – beber sangue de animais não é nada atraente, sabia disso selvagem?!

A vampira não precisava se virar para saber de quem era a voz, limpou o queixo com as costas da mão e então voltou os olhos perolados na direção do som, uma mulher de cabelos ruivos revoltos e olhos claros tinha um sorrisinho presunçoso nos lábios, Elsa estreitou os olhos para a mesma.

–Não anda muito longe de casa caçadora? – disparou a loira vendo a ruiva pular graciosamente do galho onde estava sentada até o chão. – sabia que é falta de educação interferir a refeição de uma pessoa?

–Eu nunca estou muito longe de casa. – respondeu Merida com o sorrisinho ainda estampado em se rosto, invadindo o espaço pessoal da outra. – afinal eu tenho que fazer as rondas e assegurar que está tudo em ordem. – concluiu dando atenção especial a um detalhe qualquer na jaqueta jeans surrada da outra.

–Alguma anormalidade pelas redondezas? – perguntou a loira sentindo-se incomodada com a proximidade exagerada da mulher. – parece que os dias de calmaria de Storybrooke estão chegando ao fim. – comentou de forma desgostosa.

A ruiva retirou o sorriso do rosto, adotando um semblante mais sério, seus braços rodearam o pescoço de Elsa que se manteve imóvel, apenas sustentava os seus olhos estreitos e vívidos na mulher.

–Até o presente momento tudo me parece em ordem. – afirmou a caçadora dando levemente com os ombros, como se não precisasse de tanta preocupação. – porém ando ocupada treinando Killian e logo será a vez de Ruby, o que bem sabemos que será algo mais difícil de controlar e a vovó, bem... Já não tem a mesma mobilidade de antes para se meter em caçadas ou fazer rondas longas... Então eu espero que os seus amiguinhos andem na linha e não me façam perder a paciência.

–Sabe que temos o mesmo propósito apesar de trabalharmos em lados opostos, o meu clã nunca faria nada que interferisse na paz ou nas regras impostas pela rainha, mesmo que você nos denomine como animais. – comentou a loira de forma obvia, mantendo o olhar firme nos olhos claros da outra. – cuidado com as rondas longas, não estou tendo um bom pressentimento nos últimos dias... Sairei com a rainha a negócios, se avistar os outros membros do clã alerte-os para terem atenção redobrada nas demarcações das fronteiras.

–Preocupada comigo, Elsa? – brincou a ruiva com um sorrisinho malicioso nos lábios.

Merida roçou as presas no pescoço da loira e sorrateiramente deslizou uma das mãos pelo abdômen bem desenhado da mesma, acariciando-o por baixo da camiseta branca; Elsa fechou os olhos sentindo a língua morna da outra passear pelos seus lábios ainda com resquícios de sangue.

–Você é a única caçadora em atividade regular no momento. – respondeu a loira sentindo algo reverberar dentro de si. – se algo acontecer com você teremos sérios problemas.

A caçadora fazia parte de um clã antigo de vampiros nômades e se juntara aos caçadores da floresta que faziam a guarda local; por meio de um juramento a ruiva prometera proteger os humanos e manter a segurança dos outros seres que habitavam não apenas a floresta, mas também a cidade de Storybrooke... As leis eram severas e deveriam ser seguidas a risca para que nada conturbasse a paz que um dia fora instalada, entretanto estava tornando-se recorrente os casos de infrações, principalmente por parte dos estrangeiros.

A mulher deu um sorrisinho sobre os lábios da loira, beijando-os carinhosamente para logo em seguida adentrar a boca da mesma com sua língua, Elsa não reagiu a principio, mas a tentação lhe pegara de maneira forte, Merida gemeu baixo ao sentir seu corpo prensado contra o tronco maciço da árvore, a loira correspondeu ao beijo de forma urgente e selvagem. A caçadora sorria internamente com o seu feito, suas unhas marcavam pela alva por baixo da camisa enquanto Elsa deixava rastros pelo pescoço e colo da ruiva que retribuía forçando sua nuca com os dedos rentes aos fios loiros. Sentia algo crescer dentro de si, se espalhava de forma feroz querendo se livrar a todo o custo, suas presas tocaram o seio da ruiva quando em um lampejo de consciência ela reuniu as forças que tinha para recuar e se desfazer daquele feitiço que lhe arrastava sem piedade.

–De que lhe serve a imortalidade se você sequer cede a sua fera interior? – disse a ruiva de forma frustrada, havia chegado tão perto.

Elsa passava a mão pelo rosto e os cabelos que lhe caíram de forma rebelde, seu corpo ainda estava visivelmente trêmulo e ela se amaldiçoava amargamente por isso.

–Tome cuidado, eu preciso ir... A rainha está a minha espera. – a loira não deu espaço para mais palavras, transformou-se em lobo e fez o caminho até onde havia deixado o carro estacionado.

Quando finalmente retornou a prefeitura Regina já havia começado a reunião com Hans e os componentes da guarda, a morena fez um pequeno gesto com a sobrancelha e ela apenas deu de ombros, como se não tivesse outra escolha. A prefeita deu informações básicas aos seus subordinados, precisava sair da cidade para resolver pendências urgentes, mas que não seria nada preocupante, Regina não queria envolver mais alguém alem de Elsa quando se tratava de assuntos relacionados a Emma.

–Eu não consigo entender apenas uma coisa minha rainha. – disse Hans acomodando-se melhor na poltrona que ocupava, tinha um porte altivo e olhos ardilosos. – se vais tratar de assuntos políticos eu deveria estar em sua companhia e não Elsa. – concluiu voltando os olhos para a recém chegada.

A morena que até então mantinha a sua pose de superioridade curvou-se apoiando os cotovelos sobre o tampo da mesa e pousou o queixo em suas mãos unidas.

–Se tivermos qualquer imprevisto Elsa será de grande valia para a minha proteção. – disse de forma lenta e clara. – de fato você é o mais indicado em assuntos políticos, no entanto seus serviços me são mais valiosos em Storybrooke com a minha ausência.

–Certamente, minha rainha. – concluiu o ruivo dando-se por vencido, nada como uma massagem no ego para convencer o homem.

–Agradeço a presença de todos, obrigada por se deslocarem de seus devidos afazeres para atender ao meu chamado, estão dispensados.

Hans e os outros se despediram no mesmo instante, a prefeita e Elsa também se retiraram de imediato, o céu estava tomado por nuvens pesadas, não teriam que se preocupar com qualquer possibilidade de sol naquele dia. Regina poderia ter feito um interrogatório sobre sua demora, mas agradeceu pela morena não ter tomado este caminho. Ambas foram até o veículo da prefeita, mas Elsa acabou tomando a dianteira, a morena lhe olhou como se não estivesse entendendo a sua atitude.

–Desculpe prefeita Mills, mas hoje eu dirijo. – comentou um tanto séria demais. – não posso deixar que assuma o volante, pode ter alguma recaída no caminho.

Regina revirou os olhos com o comentário, pela seriedade achou que a loira falaria qualquer outra coisa, menos isso... Sem contestar ela entregou-lhe as chaves, estava mais preocupada em ver Emma do que se importar com coisas pequenas.

Não demorou para que Anna e Emma chegassem até a capela, porém antes de chegarem ao local de destino a pequena pediu para que parassem em um belo jardim que ficava no trajeto, a mais velha lhe ajudou a colher algumas minúsculas flores de cores variadas para que a mesma pudesse presentear as duas pessoas que tanto amava.

–Desculpe aparecer sem avisar. – disse Anna com um pequeno sorriso quando foram recebidas pela Irmã Madalene. – mas essa garotinha aqui queria vir a todo custo. – concluiu ampliando o sorriso e bagunçando carinhosamente os fios dourados de Emma.

A Irmã recebeu as duas garotas com um sorriso aberto, mas algo na mulher estava diferente, Anna notou quase que de imediato ao se deparar com a tristeza estampada dos olhos da mesma.

–Para você e o tio Theodor. – disse a garota com as rosinhas coloridas em sua mão ainda com resquícios da terra úmida.

–Obrigada, meu anjinho. – agradeceu Madalene beijando o rosto da Swan. – vamos colocá-las em um vaso e lavar essas mãozinhas.

Ambas seguiram sozinhas e Anna apenas aguardou sentando-se no banco simples de madeira com o celular em mãos, ansiava por ligar ou não, decidiu esperar e ver o que aconteceria.

Emma e Madalene seguiram até o quarto do padre, a garota estranhou, pois o seu amigo não era de se resguardar em seu quarto àquela hora, com a ajuda da mulher deixou o vaso em cima da mesa de cabeceira e sentou-se na cama. Madalene tentou acordar o padre, mas o mesmo já não respondia, a Irmã parecia mais aflita do que antes e agora fora impossível a loirinha não perceber, Emma não conseguia entender o que estava acontecendo.

–Irmã Madalene, porque o padre Theodor não acordar? – perguntou olhando para o corpo imóvel do mais velho.

A mulher respirou profundamente e tentou segurar as lágrimas para não assustar a sua pequenina; parecia que a mesma havia pressentido o que estava para acontecer... Theodor já estava debilitado devido a sua idade avançada e a ausência da garotinha havia lhe afetado de forma profunda, como se sua alegria tivesse lhe deixado no momento em que Emma não mais viveria sobre os cuidados dos dois. Madalene colocou a criança em seu colo e repousou a cabeça da mesma sobre o seu peito, assim como fizera incontáveis vezes antes de lhe contar suas histórias.

–Querida... O nosso amigo está em um sono muito profundo nesse momento, creio que ele esteja fazendo uma longa viagem para conhecer os seus pais. – apesar do sorriso em seus lábios seus olhos estavam a ponto de se desmancharem em lágrimas grossas.

–Mas porque você está chorando? – se Theodor estaria vendo os seus pais isso deveria ser algo bom, porém este foi o momento de Emma ficar verdadeiramente abalada. – Porque ele foi e não me levou com ele?

–Venha querida, vamos sair daqui e deixar que o nosso amigo descanse em paz. – disse pegando na mão da criança e se encaminhando para fora do quarto.