Título: Longitude Devoção
Ficwriter: Kaline Bogard
Classificação: yaoi, angust, crossover com Glühen
Pares: AyaxYohji
Resumo: Quando é preciso enfrentar a dura realidade e se descobre que não existe meio termo.


Longitude Devoção
Kaline Bogard

CAPÍTULO – 03: Desespero sombrio

O teste prosseguiu avaliando Yohji nos mais variados quesitos. Desde orientação, onde se indagava datas importantes, estações do ano, etc. A testes de registro, atenção e cálculo.

A cada resposta, correta ou não, doutor Shiroyama fazia longas anotações na folha de papel, Sua face de granito não deixava transparecer o menor indício de como o Weiss poderia estar se saindo.

Aya se camuflara ao ambiente, apenas acompanhando o desenrolar da avaliação. Sentindo-se exultante a cada acerto, por mais corriqueiro que pudesse parecer, e tendo o coração esmagado a cada erro... principalmente os erros às perguntas mais simples, como soletrar a palavra 'mundo' ao contrário.

O ponto mais crítico da sondagem, foi durante a última pergunta. Doutor Shiroyama pediu que Yohji dissesse quantas pessoas moravam em sua casa e que revelasse seus nomes.

O loiro nem mesmo titubeou.

(Yohji) Três. Aya Fujimiya, Omi Tsukiyono e eu.

Vitorioso, voltou os olhos verdes para Aya, esperando ver novamente a expressão de alivio na face de seu amante. Acabou sendo surpreendido por um par de sobrancelhas franzidas.

(Aya) Ken Hidaka.

(Yohji) Ken...? Ah, claro... o... Ken...

Mas era óbvio que o loiro não fazia a menor idéia de quem poderia ser aquele Ken Hidaka mencionado pelo líder da Weiss.

Parando de escrever, o médico entrelaçou os dedos sobre a escrivaninha de mogno e pensou por um instante. Os olhos azuis indo de Yohji para Aya, e novamente para Yohji.

(Doutor) Vou solicitar exames complementares, para que não sobre qualquer dúvida, no entanto tenho que ser sincero com vocês. Kudou apresenta o quadro completo de Alzheimer, infelizmente, tudo o que vocês disseram e o resultado do MEEM comprovam o prognóstico.

Aya e Yohji permaneceram em silêncio. De certa forma a afirmação do médico já era esperada por ambos. As suspeitas eram fortes demais. Ou talvez o choque fosse tão grande que lhes havia roubado toda e qualquer reação.

Experiente em situações como aquela, Shiroyama compreendia que atenuar sua gravidade seria pior. Era melhor colocar todas as cartas na mesa, e deixar claro que haviam medidas a serem tomadas, precauções e prevenções.

(Doutor) Muito bem. Vou continuar aplicando mais seções de testes, cognitivos e não cognitivos. É importante também descobrirmos que subtipo de DA se relacionam com a evolução nesse caso.

Nem Aya nem Yohji entenderam o que o médico queria dizer com aquilo. Então existiam mais de um tipo de doença de Alzheimer?

Vendo as dúvidas cintilarem nas íris de seus clientes, Shiroyama tratou de esclarecê-las.

(Doutor) São conhecidos atualmente quatro subtipos de DA: o benigno, que se desenvolve lentamente. O mioclônico, que apresenta evolução rápida, mutismo precoce e movimentos involuntários. Extrapiramidal, além do declínio das funções operativas e intelectuais, o paciente é acometido por surtos psicóticos. E finalmente o típico, em que a DA se desenvolve com deterioração gradual sem sinais característicos.

De repente foi como se o médico estivesse falando de outra pessoa, que não Yohji. O loiro pareceu perder todo e qualquer interesse na conversa, deixando pra Aya a responsabilidade de se manter atenção em cada palavra pronunciada.

(Doutor) Cada subtipo é ruim por si, só, pois trata-se evidentemente de uma patologia. Mas eu diria que de todas, a extrapiramidal é a mais agressiva e a que pode ter resultados mais desastrosos, pois a psicose pode atingir diretamente as pessoas que convivem com o paciente.

Tentando não demonstrar o medo que lhe corroia as entranhas, Aya manteve a expressão facial perfeitamente indiferente ao indagar:

(Aya) Está falando de... hospício?

(Doutor) Exatamente.

(Aya)...

(Doutor) Antes de seguir por um caminho tão tortuoso, é preciso diagnosticar que subtipo estaremos enfrentando. Não se desespere antes do tempo.

(Aya) Como é possível fazer o diagnostico?

Ao ouvir a pergunta, o doutor pegou seu bloco de receitas e começou a rabiscar algo. Sua letra era ainda mais ilegível que a do jogador.

(Doutor) Já tenho uma desconfiança, mas é claro, prefiro aplicar alguns testes cognitivos que serão definitivos em meu diagnóstico. Também vamos realizar alguns exames físicos. Estou solicitando hemograma completo, TGO e TGP, EEG, RX do tórax e uma tomografia Axial Computadorizada de Crânio sem contraste.

Aya ficou tonto com tantos exames. Principalmente por que desconhecia completamente alguns deles.

(Aya) Esses testes...

(Doutor) São mais simples do que parecem. Vão verificar fatores básicos. Sou da opinião que expor o paciente a alguns testes complexos que estão sendo desenvolvidos é doloroso demais. Existem alguns que não são comprovados em sua eficiência. Por enquanto nos manteremos em níveis mais simplistas.

De níveis simplistas o ruivo entendia bem. Ouvira muito aquela expressão quando sua irmã entrara em coma.

Então Shiroyama destacou a folha rabiscada de seu bloco, mas antes de entregá-la ao ruivo, pareceu hesitar por um instante.

(Doutor) Fujimiya... eu gostaria de poder documentar esse caso... você daria autorização para...

(Aya) Não.

O ruivo foi taxativo. Sabia o que o médico queria dizer com 'documentar'. Yohji seria submetido a inúmeros testes, acompanhado por uma junta médica, examinado de todas as formas possíveis...

De maneira alguma o ruivo permitiria que seu amante fosse tratado como uma experiência cientifica. Já haveria sofrimento bastante para expô-lo a mais àquilo.

Suspirando, o homem de olhos azuis recostou-se na cadeira.

(Doutor) Entendo. E respeito sua decisão. Aqui está a receita.

Aya pegou o papel e depois de dobrá-lo, enfiou-o no bolso.

O médico ainda lhes deu mais algumas recomendações, principalmente sobre a importância de manter uma vigilância sobre Yohji. Shiroyama deixou claro que a degeneração cerebral dava mostras de não estar no inicio, o que acarretava lapsos de memória cada vez maiores.

Fizeram a viagem de volta a Koneko completamente em silêncio. Yohji, porque parecia desprovido de qualquer interesse ao que acontecia a sua volta, e Aya porque simplesmente não sabia o que dizer naquele momento.

Quando chegaram em casa, foram recepcionados pelos Weiss caçulas, que não se agüentavam mais de ansiedade. E tanto Omi quanto Ken mataram a charada ao ver as expressões dos amantes.

(Omi) Sinto muito, Yohji.

O loiro jogou-se no sofá e fez um gesto de pouco caso com as mãos.

(Ken) Isso tudo é uma merda.

O jogador sentou-se ao lado do playboy, mirando-o com olhos quase suplicantes. Tanta atenção incomodou o loiro que acabou remexendo-se no assento. Agora recordara-se completamente de quem era o tal Ken Hidaka... ficou um tanto sem graça por ter se esquecido dele.

(Yohji) O que foi?

(Ken) Er... Yohji... será que eu posso ver de novo?

(Yohji)...

(Aya)!!

(Omi)...?

(Ken) A... tatuagem que você fez..

(Yohji) Ahhhhhh... isso... claro.

Ergueu a blusa sem pudor algum, expondo o tórax firme, marcado com a grande tatuagem vermelha em forma de cruz diagonal.

(Ken fascinado) Que coragem... mas isso ficou horrível, Yohji!

(Omi) Ken...

(Yohji suspirando) Deixa, Omi. Ele tem razão.

Quase hipnotizado, Ken estendeu a mão com visível intenção de tocar na tatuagem. Estava quase conseguindo seu intento, quando o instinto apurado lhe alertou, fazendo olhar em direção de Aya...

(Ken)...

Diante da expressão feroz do líder da Weiss, o jogador recolheu a mão mais que depressa, fazendo Yohji se divertir um tanto.

(Omi suspirando) É melhor preparar algo para comermos. Me ajuda, Ken Ken?

Com a saída dos caçulas, Aya sentou-se ao lado de Yohji.

(Aya) Você está bem?

(Yohji) Tanto quanto é possível. Que porra, Aya... isso vai ferrar com a gente.

Apesar do tom irritado, Aya gostou de ouvir o desabafo. Gostava mais de ver seu amante irado, do que indiferente, como se a realidade não mais lhe importasse. Aquela faceta mostrada no consultório de Shiroyama sim, era assustadora.

(Aya) Já disse que não está sozinho.

Desviando os olhos, Yohji começou a deslizar a ponta do dedo indicador sobre a linha de costura do sofá.

(Yohji) O que é que eu vou fazer daqui pra frente, Aya?

(Aya)...

(Yohji) Você vai comunicar a Kritiker?

(Aya) Ainda não.

(Yohji) Sei... mas... estou fora das missões, não é? Não sou confiável...

(Aya suspirando) Kudou...

O ex-detetive parou de deslizar o dedo pelo tecido do sofá e moveu a mão até tocar a face do ruivo. Passou a ponta dos dedos pelas sobrancelhas, pelo nariz afilado e pelos lábios finos. Terminou segurando no queixo de Aya.

(Yohji) Não quero esquecer seu rosto, Aya... não quero mesmo.

(Aya)!!

(Yohji) Ele é uma beleza. É perfeito... assim como você.

(Aya) Yohji...

(Yohji) Mesmo que meu cérebro apague cada uma de minhas lembranças, meu coração nunca vai se esquecer de você, Aya. Nunca...

(Aya)...

O ruivo não pôde dizer nada. Um nó se formou em sua garganta, fazendo-o ter a certeza de que choraria caso tentasse pronunciar uma única palavra.

(Yohji sorrindo) Você estará presente em minha alma, até o último segundo. E isso é a única coisa que me tranqüiliza... e... droga, Aya... (1)

O ruivo puxou o amante para um abraço e apertou-o quase com desespero. O que era pior naquela situação, era o fato de não terem nem mesmo o falso consolo de que tudo ficaria bem. Por que sabiam que não ficaria.

Nunca mais ficaria 'tudo bem'...

Tentando não ser arrastado pela emoção, Yohji se desvencilhou do abraço e segurando na mão do amante puxou-o escada acima.

(Yohji) Quero lhe entregar algo.

(Aya) O que foi?

O loiro não respondeu. Guiou Aya ao próprio quarto e avançou para a cômoda, abrindo a primeira gaveta, onde guardava as camisas. Sem qualquer cuidado começou a revirar as peças de roupa até chegar ao fundo.

Vitorioso ergueu a mão e exibiu um cartão para Aya.

(Yohji sorrindo) Veja!

(Aya) Do que se trata?

(Yohji) Um cartão, não está vendo?

(Aya suspirando) Isso eu percebi.

(Yohji) Jura?

Irritado, Aya preparou para lançar um de seus famosos olhares mortais em direção ao amante, mas as palavras do médico vieram a sua mente com força total. Acabou obrigando-se a relaxar.

(Aya) Juro.

(Yohji) Ah, é o cartão de minha conta poupança.

(Aya)!!

(Yohji) Que cara é essa? Você não achou que eu gastava todo o dinheiro da missão com bebidas e roupas, não é?

(Aya)...

(Yohji) Porra, Aya. Que imagem você tem de mim? Pra encher a cara o salário da Koneko era mais que suficiente. O dinheiro das missões fui depositando em uma popança esse tempo todo. Eu ia guardar para que a gente viajasse pelo mundo, um dia...

(Aya surpreso) Yohji!

O loiro deu de ombros e arremessou o pequeno cartão para Aya.

(Yohji) Já não faz diferença. Cuida disso pra mim. E... quando as coisas... piorarem, quero ir para um hospital.

(Aya)!!

(Yohji) Não pretendo fazê-lo bancar minha babá... nem darei nenhuma despesa. Só peço que me prometa uma coisa: quando chegar a hora, quero que você me coloque em um hospital, e me deixe por lá, entendeu? Siga a sua vida.

(Aya) Nunca.

(Yohji) Já basta que tenha que carregar o fardo por sua irmã. Não quero que fique preso a mim nem um segundo.

(Aya) Não seja ridículo. Isso é algo que você não pode decidir. Quer ir para um hospital? Tudo bem, atenderei seu pedido. Mas não pretendo deixá-lo sozinho por lá.

(Yohji)...

(Aya) Eu nunca faria isso, Yohji. Nem se fosse seu último e mais desesperado pedido.

(Yohji) Aya...

(Aya) Eu decido o que fazer. O que me agrada e o que não agrada. O que é um fardo e o que não é. Minha irmã nunca foi um peso a ser carregado. E tão pouco você será.

Mais uma vez Aya aproximou-se e abraçou Yohji, contagiando-o com seu calor e determinação.

(Aya) E... quando chegar o dia... o dia em que você não se lembrar mais de mim... eu me lembrarei. E será o suficiente por nós dois, Yohji. Prometo que será...

O mais alto estremeceu entre os braços de Aya, sem coragem de dizer que se sentia mais que feliz com a promessa que Aya lhe fazia.

Foi nesse instante que a campainha tocou. Só podia ser Manx, e tal conclusão deixou os amantes tensos.

(Yohji) Vai lá.

(Aya) Não saia daqui.

(Yohji) Não se preocupe. Não sairei.

Enquanto Aya ia para o andar de baixo, Yohji sentou-se sobre a cama e cruzou a mão a frente da face, apoiando os cotovelos sobre os joelhos. Deu um longo suspiro.

A vida era mesmo uma merda.

oOo

A missão parecia um tanto complicada, mas os três Weiss a aceitaram. Com a saída de Manx, Omi e Ken foram se preparar e organizar as coisas, enquanto Aya se dirigia para o banheiro.

Yohji tinha razão quando dizia que Aya precisava aceitar as missões.

Porém o ruivo não poderia executar a missão com tranqüilidade sabendo que seu amante estava sozinho em casa, e que poderia ser vítima de um lapso de memória... estaria vulnerável e corria mais riscos do que se estivesse em uma tarefa perigosa.

Foi então que o ruivo lembrou-se de uma época em que andava nervoso com o agravamento do coma de Aya chan, antes de se acertar definitivamente com o amante...

O estresse foi tão grande que Aya achou que ia surtar. Não conseguia dormir a noite, e quando conseguia tinha pesadelos terríveis. Por esse motivo começou a tomar um calmante feito de ervas naturais, e que não era forte a ponto de causar dependência.

Graças a esse calmante conseguira recuperar suas noites de sono. Até que finalmente sua vida retomou o rumo, quando o coma da irmã se estabilizou, e Aya conseguiu definir seu envolvimento com o playboy.

Depois disso o remédio ficara esquecido numa das prateleiras do banheiro.

Sem dificuldade alguma encontrou o que procurava. Daria um daqueles para Yohji. Assim o loiro dormiria como um anjo durante toda a noite, e Aya teria a certeza de que tudo estaria bem com o amante,

Foi até a cozinha e ponderou por um instante. Deveria ser sincero e dizer suas intenções a Yohji, ou devia dissolver o calmante em um copo de leite e entregá-lo ao playboy com uma desculpa inocente?

Resolveu-se pela primeira opção. Não seria bom começar com mentiras a essa altura dos acontecimentos. E sabia que Yohji entenderia perfeitamente suas intenções.

Decidido, rumou para o quarto do amante.

O Weiss mais alto acabara de tomar um banho rápido, e vestia um roupão felpudo de tecido azul escuro que colocava em destaque a cútis pálida. Secava os cabelos com toalha também em tom de azul.

(Yohji)...

Os olhos verdes notaram o copo que Aya segurava.

(Aya) Quero que beba isso.

(Yohji) O que é?

(Aya) Um calmante. Não é forte.

(Yohji)!!

(Aya) É para seu próprio bem.

(Yohji) Não pode me encher de remédios a cada vez que sair para uma missão...

(Aya) Posso sim.

(Yohji) Mas...

(Aya) O que não posso é imaginar você saindo por aí, sozinho... enquanto estamos realizando uma missão. Se eu voltar para casa e não encontrá-lo aqui...

Não completou a frase, desviando os olhos de maneira a fitar o chão. Yohji respirou fundo. Aquilo estava mesmo mexendo com eles. Estava definitivamente ferrando com ambos.

Desistindo de argumentar, fez o que julgou melhor para todos: avançou e pegou o copo da mão de Aya. Virou seu conteúdo de um único gole, mal percebendo o leve gosto de maracujá do calmante.

(Yohji) Você tem razão. Me desculpa.

(Aya) Não precisa se...

(Yohji) Não tem que ir agora? Vai se atrasar para a missão.

(Aya)...

O mais novo lançou um último olhar para o amante e saiu do quarto. Yohji passou a mão pelos cabelos ainda bem molhados. Deixou a toalha cair no chão e rumou para a cama, deitando-se sobre o edredom.

Não se importou de molhá-lo com os fios loiros. Aquilo não importava mais...

Nem aquilo, nem as lágrimas quentes que lhe rolavam pela face e iam pingar suavemente sobre o colchão...

oOo

Depois de realizados todos os exames, a DA deixou de ser uma sombra ameaçadora, para tornar-se o mau presságio.

Doutor Shiroyama desconfiara, pelo quadro apresentado, que se tratava do segundo subtipo. Seu desenvolvimento era mais rápido, e a memória era mais seriamente afetada, porém não haveriam surtos psicóticos, e a segurança dos mais chegados a Yohji não estava ameaçada.

Pouco a pouco a rotina dos justiceiros foi mudando e se adaptando: o playboy nunca estava sozinho. Tinha sempre a presença reconfortante de Ken, Omi e Aya, é claro.

Um dos três estava sempre a vigiar-lhe cada um de seus passos... mesmo não se mostrando necessário.

A medida que os dias avançavam, e Alzheimer progredia, as falhas na memória de Yohji deixavam bem claro o quão grande era sua degeneração cerebral. Esquecia fatos, pessoas e datas. Nomes, cidades e palavras. Às vezes frases inteiras.

Dificilmente saia de casa, já não ajudava mais na Koneko... e o golpe definitivo: diante de tantas recusas às missões, Aya foi obrigado a relatar a verdade a Kritiker...

O desligamento da equipe fora conseqüência inevitável que prejudicara seriamente o ânimo do loiro.

Yohji passava horas e horas apenas sentado em algum lugar... na sala, 'assistindo' a TV desligada, porque não podia lembrar-se como usar o controle remoto... no quarto, olhando a janela fechada, porque não se recordava como abri-la...

As frases antes tão alegres, provocativas e irreverentes tornaram-se curtas, secas e geralmente incompletas...

Os magníficos olhos de jade não brilhavam mais... sorriso contagiante estava extinto, a despeito das gracinhas irritantes e despreocupadas...

Como conseqüência de Alzheimer, os movimentos motores pioraram, degenerando-se pouco a pouco, sem que ninguém pudesse impedir... por maior que fosse o desespero.

Omi e Ken assistiam aquilo com uma imensa tristeza a pesar sobre eles. Não podiam aceitar que Yohji estava se tornando aquela sombra apática e trêmula, desprovida de vontade própria e que muitas vezes dormia o dia todo, passando as noites a perambular pela casa, perdido e sem direção.

O chibi mostrava em seu semblante toda a tristeza: sentia falta das discussões acaloradas com o loiro, quando este pegava em seu pé e lhe torrava a paciência, passando dos limites em todas as ocasiões.

Ken, apesar de mais duro, estava igualmente abalado. A floricultura não era a mesma sem Yohji. A casa se tornara um lugar grande e silencioso... faltava alguma coisa... alguma coisa que apenas o loiro podia lhes trazer.

Só então se davam conta de que o playboy era o grande responsável pelo ânimo que existia em suas vidas. Ele e suas piadinhas infames, seus gracejos e alegria de viver.

Características que se apagavam pouco a pouco... e que muito em breve deixariam de existir.

Aya era de longe o mais abalado dos três. Ele estava mudando, e isso era perceptível em seus olhos, que não exibiam mais a frieza de antes, e sim um apático conformismo. Seus ombros pareciam carregar algo mais pesado que a derrota... sim, levava o fardo de ter desistido de lutar. Abandonara o campo de batalha porque o inimigo era invencível. E estava lhe tirando seu tesouro mais precioso...

Ken e Omi sentiam que aquele não era o Aya de antes. Claro, ainda liderava a equipe com precisão impar, e mantinha a Weiss como uma equipe de justiceiros que sempre levava a cabo todas as missões aceitas... executando-as com perfeição inabalável, até se surgissem imprevistos e os mais diversos obstáculos.

Mas mesmo que por fora fosse como Aya... não era Aya. Nem Ran...

Parecia que a dor fundira uma parte de Ran com uma parte de Aya, e criara aquele novo homem. Alguém que era ainda mais calado e introspectivo, mas não frio. Apenas indiferente... uma sombra que existia ao lado dos Weiss caçulas, e que cercava o ex-playboy de todas as maneiras.

De certa forma Aya estava se degenerando com o amante. Se conformara em apenas existir, levando a situação do jeito que podia... protelando ao máximo o inevitável.

Tinha medo de encarar o fato de que muito em breve teria de internar o amante em um hospital... confiná-lo entre as quatro paredes de um quarto frio e vazio. Onde um leito imaculadamente branco e uma grande janela com paisagem imutável seriam seus únicos companheiros.

Cada vez que pensava nisso, o coração de Aya se apertava e sua garganta ardia em um nó que ameaçava sufocá-lo. Então prometia a si mesmo: "Amanhã... amanhã procurarei um hospital."

E esse 'amanhã' nunca chegava.

Foi num domingo que tudo ruiu como o frágil castelo de cartas que era. Aya saiu muito cedo, planejando visitar a irmã e voltar para o lado de Yohji o mais rápido possível. Confiara em Ken para tomar conta do amante.

Mal Aya saíra, o telefone tocou. Era Manx, querendo falar com Omi.

O chibi franziu as sobrancelhas, já percebera que ultimamente vinha recebendo mais atenção da Kritiker do que nunca.

(Omi) Manx, o que houve?

(Manx) Omi, estamos estudando alguns jovens, para que um deles possa tomar o lugar de Yohji...

(Omi) Oh...!

Tão rápido assim?

(Manx) É importante que venha aqui o mais breve possível. Ainda hoje de preferência. A Kritiker quer saber sua opinião sobre eles...

(Omi surpreso) Porque?!

(Manx) Não sei. Mas sinto que têm planos pra você, Omi. Planos grandes...

Confuso, o loirinho depositou o fone no gancho e respirou fundo. Planos grandes? O que poderia ser? Não tinha idéia...

De qualquer maneira se encontraria com Manx aquela manhã mesmo, e daria uma olhada nos rapazes selecionados.

(Omi) Ken Ken...

(Ken) Hum?

(Omi) Preciso sair. Não sei se voltarei logo ou não. Encomende alguma coisa para vocês comerem. Dei uma olhada em Yotan, e ele está dormindo.

(Ken sorrindo) Está bem. Deixe tudo comigo!

O loirinho sorriu e balançou a cabeça. Logo ia embora, deixando Ken sozinho com o Weiss loiro.

Sem ter o que fazer naquela manhã de domingo, Ken esticou-se no sofá e ligou a TV no canal de esportes. A única coisa interessante do momento era uma partida de tênis...

(Ken) Merda!

Mas antes isso do que nada. Suspirando entediado, o jogador começou a assistir ao jogo... mas os vai-e-vem deram-lhe um sono danado, e sem perceber, Ken acabou cochilando.

oOo

O líder da Weiss colocou o carro na garagem e desligando o motor respirou fundo. Pra variar não tivera nenhuma novidade com sua irmã. Simplesmente nada acontecia, a não ser aquele estado vegetativo, onde a consciência da garota permanecia inalcançável.

Cansado, Aya passou a mão pela face, massageando a pele macia. Nunca sua vida fora tão corrida antes. Tinha que se desdobrar em dois para dar conta de cuidar de sua irmã, dando a atenção que os médicos exigiam, e apoiar e vigiar Yohji, que a cada dia se tornava ainda mais inalcançável que Aya chan.

A dependência que vitimava Yohji crescia a medida que Alzheimer avançava. Se não fosse os cuidados constantes de Aya, o Weiss mais velho se esquecia das coisas mais corriqueiras, até mesmo de alimentar-se...

Tal fragilidade tocava o coração do ruivo, que se sentia responsável pelo bem estar do amante. E precisava vigiá-lo durante cada segundo do dia. Quando isso se mostrava impossível, tinha de confiar em Ken e Omi para ajudá-lo.

Sem a menor sombra de dúvidas, a situação com o amante era a mais desgastante... a que mais minava as forças do espadachim...

Como era doloroso ver a pessoa amada sendo envolvida pelas trevas do esquecimento, perdendo lembranças importantes, memórias valiosas...

Yohji caminhava lentamente para o fim, atraído pela nevoa que já lhe roubara quase todos os traços que antes faziam sua personalidade tão marcante... esmaecera as características singulares e únicas.

Perdia-se a cada dia um pedaço significativo do jeito sedutor, levemente irreverente e aparentemente despreocupado, que tanto agradavam ao líder da Weiss.

Por que a vida tinha de ser tão ingrata? Porque Aya tinha de assistir aquilo? Ver, sem ter o poder de mudar o destino, a ruína das pessoas que amava? Nunca teria um fim? Aquela era recompensa por abrir o coração? Por se entregar?

Amava Yohji com todo o seu coração. Se pudesse, trocaria de lugar com ele... ou faria uma loucura, para impedir que o amante se consumisse por completo...

Que esquecesse de tudo, de todos... até mesmo de viver...

Mas Aya não podia fazer nada. Era um mero espectador, e como se fosse uma reprise distorcida, o palco da sua vida exibia mais uma tragédia. Para sempre tragédia...

Por um segundo, o ruivo desejou ardentemente poder fugir de tudo, e ficar ali sentando no carro, apenas sentado, livre de qualquer sentimento bom ou ruim. Livre da dor, do medo do futuro e da certeza de que a cada amanhecer reduzia suas chances em porcentagens injustas e ilusórias.

Não poderia driblar o inevitável por muito mais tempo.

Reunindo toda a coragem que tinha, abriu a porta do automóvel e colocou um pé para fora. Antes mesmo de registrar a ameaça, seu instinto lhe avisou para o fato de que algo estava errado. Os olhos violeta vasculharam a garagem, e foi impossível impedir que um gosto amargo lhe tomasse os lábios.

O carro de Yohji não estava ali...

Tentando não deixar o pânico dominá-lo, Aya entrou em casa e subiu em direção aos quartos com uma urgência esmagadora. Muito levemente percebeu Ken despertando de um cochilo e a TV exibindo uma corrida de F1.

(Ken confuso) Aya...? Já chegou...?

O espadachim não respondeu. Assim que galgou os degraus, precipitou a vasculhar os cômodos do andar superior. Não encontrou Yohji em lugar algum. A essa altura já tinha certeza de que o ex-detetive não estava em casa.

(Ken) Aya, o que houve? Cadê o Yohji?

O moreninho acabara seguindo o líder da Weiss, encucado com a atitude quase desesperada. Deu com Aya parado embaixo do batente do quarto de Yohji, observando algo no chão.

(Aya) É o que quero saber!

Avançando, Aya adentrou o quarto e abaixou-se.

(Aya baixinho) Céus...

O jogador também entrou no quarto. Surpreso, percebeu que Aya segurava em suas mãos algo que parecia um tufo de cabelo. Cabelo loiro...

(Ken) Isso...?

Cada vez mais surpreso notou que o carpete estava cheio daqueles tufos loiros... como se Yohji houvesse cortado o próprio cabelo...

Por sua vez, Aya estendeu a mão esquerda e recolheu a tesoura. Provavelmente fora aquela que o amante usara para cortar os fios macios do cabelo que tanto gostava. Aliviado, percebeu que não tinha sangue na lâmina. Pelo menos o amante não se ferira na execução da absurda tarefa.

(Aya baixinho) Yohji...

(Ken) Aya... eu...

(Aya) Sabe o que isso significa?

(Ken)...

Vendo-se vítima de um olhar feroz, quase assassino, Ken encolheu-se e deu um passo para trás.

(Aya) Hidaka... como pôde se descuidar assim?

(Ken)!!

O moreninho arregalou os olhos compreendendo o que acabara de escutar.

(Ken) Merda! O Omi disse que ele estava dormindo e eu... sinto muito, Aya.

O ruivo respirou de maneira brusca e deu as costas ao companheiro. Não tinha intenção de perder tempo ouvindo aquelas desculpas esfarrapadas. Sairia no mesmo instante atrás do loiro. Talvez ele não tivesse escapado há muito tempo...

(Ken) Vou ajudar a procurá-lo. A moto é...

(Aya) Fique aqui. Tente ligar no celular dele.

Cortando a frase de forma fria, Aya voltou a sair.

Ken mordeu os lábios e abaixou a cabeça. Dera uma bela mancada... se acontecesse algo com Yohji, ele jamais se perdoaria...

oOo

A primeira providência do líder da Weiss foi dirigir até Shinjuko. Afinal, o amante já havia se perdido por lá uma vez, talvez desse sorte e Yohji voltasse para lá.

Apesar de ser um distrito grande, era domingo, horário de almoço e as ruas se encontravam praticamente vazias, o que de certa forma facilitava a missão do ruivo.

Os olhos violeta iam de um lado para outro procurando desesperadamente enxergar um indicio que o levasse ao paradeiro do amante.

Porém todas as chances estavam contra ele. Quais as probabilidades de ser bem sucedido na busca? O que garantia que Yohji estava por ali? Nada. Absolutamente nada.

O mais velho poderia ter pego a rodovia, e talvez nem estivesse mais em Tokyo...

Com a mente tão seriamente danificada, poderia se esquecer até mesmo de como dirigir... poderia sofrer um acidente grave... fatal...

Tentando conter a onda de pânico que ameaçava sufocá-lo, Aya mudou a marcha do carro e encostou. Precisava de um segundo para reorganizar suas idéias. Enquanto tentava evitar o desgaste emocional, tentaria comer alguma coisa.

Seria difícil, mas precisava de forças para continuar a busca.

Sentou-se em uma mesa próxima a grande vidraça, de onde podia vigiar atentamente a rua, e apesar de não ter apetite, forçou-se a engolir um pouco de missoshiru e depois uma sopa Niji. A comida pesou em seu estomago num reflexo da tensão que sentia.

(Aya) Yohji... onde você está?

Suspirando, fechou os olhos. Tentou se decidir para onde deveria ir? Qual o próximo local a vasculhar?

Pagou a conta e saiu do pequeno restaurante. Já havia decidido sua forma de atuação: achou melhor começar a delinear perímetros de busca. Iniciaria pelo bairro central de Tokyo. Depois descreveria grandes círculos ampliando a área de busca aos bairros próximos.

Assim resolvido, Aya foi direto para Ginza. Vasculhou todo o centro, detalhadamente, sem obter resultado positivo.

A tarde avançava, e ele dirigia rumo ao bairro de Tsukiji, quando ouviu seu celular tocando. Cheio de esperanças atendeu o aparelho, enquanto manipulava o volante apenas com a mão direita.

(Aya) Pronto.

(Ken) Aya?

(Aya irritado) O que quer, Hidaka? Yohji apareceu por aí?

(Ken) Não, mas...

Aquele 'mas' seguido de reticências fez o sangue do ruivo gelar nas veias. Só podia ser uma notícia ruim.

(Aya) Mas...?

(Ken) Liguei várias vezes no celular de Yohji, e finalmente ele atendeu...

(Aya) Ele atendeu? E o que disse? Onde ele está?

O líder da Weiss estava se impacientando com as frases incompletas. Ken parecia querer brincar com fogo!

(Ken) Na verdade não sei. Ele apenas atendeu o celular e disse...

Enquanto ouvia o moreninho fazer aquelas revelações, Aya ia arregalando os olhos. Yohji havia dito MESMO aquilo?!

(Aya) Entendo. Já sei onde ele está.

Sem nem agradecer a informação, o espadachim desligou o celular e pisou fundo no freio, fazendo os pneus cantarem. Mudou a direção dobrando a esquerda. Ia em sentido Ueno, um dos bairros suburbanos de Tokyo.

Assim que reconheceu o caminho, diminuiu a velocidade.

Foi guiando até uma parte do bairro onde as casas já não eram tão bonitas e nem tão bem construídas. Muitas haviam ruído, e se encontravam em grande estado de abandono. Era um cenário entristecedor.

Tendo de puxar pela memória, Aya lembrou-se de qual era a casa certa. Estacionou o carro em frente, sentindo o coração bater aos saltos. Sem dúvida alguma era ali. E a prova era o carro do amante parado alguns metros a frente.

Cheio de receio, Aya desceu do carro e colocou a mão no que restara da fechadura, abrindo a porta.

(Aya)...

Lá estava Yohji... uma visão que alegrou e feriu Aya profundamente. O loiro estava sentado no chão, todo displicente, apoiando as costas numa parede.

Os cabelos estavam extremamente curtos e mal cortados. Pela camisa de botões entreaberta, Aya visualizou uma parte da horrível tatuagem de cruz.

Arrepiado, o ruivo deu um passo a frente. Aquele era mesmo seu amante? Havia uma expressão indizível em suas belas feições, um traço de insanidade e periculosidade impar, como Aya nunca poderia imaginar.

(Aya) Yohji...?

O loiro olhou para ele, mas não deu mostras de reconhecê-lo.

(Aya) Posso me sentar?

(Yohji) Senta.

A voz saiu desinteressada e desanimada.

O líder da Weiss lembrou-se do que Ken lhe dissera pelo telefone. "Na verdade não sei. Ele apenas atendeu o celular e disse'Detetive Kudou, em que posso ajudar?'"

Imediatamente Aya lembrou-se de que antigamente seu amante era detetive particular, e seu escritório ficava em Ueno. Arriscou indo lá e descobrindo ter acertado em cheio. Com certeza Yohji estava com uma grave recaída, sua memória agora acreditava que ainda era um detetive...

(Aya) O que houve?

O loiro olhou longamente para a sala destruída e despida de móveis. Entendeu erradamente a pergunta de Aya.

(Yohji) Vândalos.

(Aya)...

Ruivo abaixou a cabeça e deixou seus ombros caírem. Estava perdendo Yohji. Aquela assustadora constatação roubou-lhe todas as forças. Duas palavras... isso fora o que conseguira arrancar dele, depois de quase um dia de busca desesperada.

E agora que o encontrara, descobria que seu adorado amante era vítima de sua impiedosa doença... estava preso nas garras destruidoras que lhe tomavam cada uma das lembranças... não havia cura.

Primeiro os fatos recentes haviam sido influenciados. No decorrer daqueles longos meses, Aya vira a pessoa que mais amava esquecer de detalhes importantes, fatos simbólicos... pessoas e acontecimentos consagrados.

Agora Alzheimer alcançara até mesmo as lembranças mais antigas, mostrando que continuava agindo... que trazia o fim consigo.

(Yohji suspirando) Quando Asuka souber...

A frase reticente foi uma punhalada lenta e certeira no coração de Aya. O nó em sua garganta ameaçou sufocá-lo, e seus olhos arderam em lágrimas que não queria deixar cair.

Nunca mais haveriam os sorrisos sedutores... nem a pose de playboy conquistador... não existiria mais a conversa mole de quem gosta de contar vantagem... ou o brilho inigualável das íris de jade.

Céus... o espadachim preferia enfrentar seus piores inimigos a ter de ver o sofrimento das pessoas que amava.

Foi então que uma descarga de adrenalina correu nas veias do líder da Weiss. Ele lembrou-se que entre os terríveis inimigos, havia o alemão telepata... aquele que podia controlar a mente de maneira inigualável.

Schuldig.

Talvez ainda houvesse uma chance! Uma única e pequenina chance... mas forte o suficiente para encher Aya de renovada esperança. Faria de tudo para encontrá-lo. Se fosse preciso pediria ajuda a Omi!

Cada vez mais animado, o ruivo fixou as íris ametista na figura de seu amante. Prometeu a si mesmo que faria de tudo para entrar em contato com o Schwarz e convencê-lo a ajudar Yohji.

Se seu último recurso falhasse...

Se falhasse, Aya não tinha alternativa além de internar o amante. Era a única forma de garantir a segurança da pessoa que mais amava no mundo... mesmo que doesse de forma insuportável, não havia outra opção.

Aya não suportaria a uma terceira fuga daquelas... e temia que nem Yohji...

O fim daquela guerra se aproximava, mas Aya se recusava a declarar a derrota... ainda...

Continua...


(1) Escrever essa cena ouvindo "Tears in Heaven" é com certeza o auge do sado masoquismo... T.T