Título: Sangue do meu sangue
Classificação: K+
Fandon: Bonanza
Autora: Crica ( Sem Beta, todos os erros são meus)
Categoria/Gênero: Western/aventura/família/drama
Sinopse: Não importa o quão grave seja a situação, o quanto custe, o que seja necessário fazer porque os laços de sangue são muito mais fortes.
Nota: Todos os personagens de Bonanza pertencem à CBN e à Bonanza Ventures. Aqui nada é meu. Este é mais um trabalho, sem fins lucrativos, de uma fã.
SANGUE DO MEU SANGUE
CAPÍTULO 4
Dentro do túnel escuro, Hoss e Tomás cavavam incansavelmente. A escuridão da noite não ajudava nem um pouco, mas os dois homens não se detiveram apesar das dificuldades e do cansaço.
_ Pare, Hoss! – Tomás segurou o braço do outro.
_ O que houve? – Hoss perguntou intrigado.
_ Acho que conseguimos – fincou a picareta na terra que desabou com o solavanco, abrindo uma pequena passagem _ E não sinto cheiro de gás. Acho que todo o gás queimou-se com a explosão.
_ Isso é muito bom! – Eric estava animado _ Assim poderemos trazer os lampiões e trabalhar mais depressa.
_ Creio que sim – Tomás concluiu _ Trarei o lampião e você sairá com todos os homens para que eu possa acendê-lo. Não quero ninguém por perto se ainda houver algum risco de incêndio.
_ Quanto aos homens eu concordo, mas eu ficarei com você – Hoss foi categórico _ São meus irmãos lá dentro e ninguém vai colocar sua vida em risco se eu vou estar em segurança. Você sai e eu acendo o lampião.
Tomás ia iniciar uma discussão, mas foi impedido pelo patrão. O mineiro saiu apressado, sendo seguido pelo pelotão que trabalhava na retirada da terra. Voltou em seguida com o lampião abastecido e uns fósforos que entregou ao homem corpulento e saiu como haviam combinado.
Hoss fez uma breve e silenciosa oração e riscou o fósforo na sola de sua bota. Um primeiro suspiro de alívio por não haver uma combustão imediata. Bom sinal. Ergueu o vidro e acendeu o pavio grosso que estava dentro, regulando a força da chama. A luz tremeluzente no final do túnel trouxe alegria ao coração de todos que, imediatamente retomaram o trabalho agora iluminados pelas chamas amarelas.
Não levou mais de uma hora para que o pequeno buraco na parede crescesse do tamanho suficiente para um homem passar através dele.
Tomás passou pela abertura e iluminou o outro lado com dois lampiões. Hoss seguiu atrás dele e ambos verificaram que o túnel estava ainda em bom estado no sentido do interior da mina. Seus corações se encheram de esperança.
Os dois homens, o mineiro e o patrão, seguiram pelo caminho traçado por Tomás mais cedo, no mapa, em direção ao local onde Joe e Adam estariam com Frank. Mais adiante talvez também pudessem encontrar os outros mineiros. Andaram cerca de duzentos metros e se depararam com uma parede de escombros fechando seu caminho.
_ E agora? – Eric estava ficando desesperado.
_ Tenha calma, meu amigo – Tomás tinha experiência nessas situações _ O pior já passou. Vamos bater nas pedras e rezar para que nos ouçam do outro lado. Assim, teremos a certeza da direção em que devemos cavar a partir daqui.
O mineiro tomou uma pesada pedra em suas mãos e passou a chocá-la contra uma outra, bem grande, que estava presa no meio do entulho. Usou um ritmo compassado, como um código, para que qualquer um que pudesse ouvi-lo do outro lado fosse capaz de perceber que o resgate estava a caminho.
Ben Cartwright, ao saber do sucesso da escavação, juntou-se a seu filho no resgate dos outros dois. Não era de seu feitio estar apartado da ação e muito menos esperar sentado que outros fizessem o seu trabalho. Na cartilha do Cartwright, o trabalho de um pai é manter seus filhos em segurança e era exatamente isso que o homem pretendia fazer.
_Pai...
_ Nem tente fazer-me mudar de ideia, Hoss – Ben tomou uma pá em suas mãos _ Vou cavar com vocês e só sairei daqui quando encontrarmos seus irmãos, de um jeito ou de outro.
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Joseph sentia-se esgotado. Sabia que suas forças estavam chegando ao fim. Já não conseguia manter o corpo de Adam elevado e procurava não pensar na sede ou na dor. O pior de tudo era evitar os acessos de tosse. Lutava para evitar os movimentos bruscos que sua tosse provocava, arrancando gemidos de seu irmão mais velho.
Por um momento, o mais jovem dos filhos de Benjamin pensou ter ouvido batidas através da parede diante de seu rosto. Silenciou sua conversa solitária e focou toda sua atenção no som que vinha de trás das pedras. Nada. Provavelmente tinha imaginado. Sua mente o estava enganando, dando-lhe esperanças de um resgate que talvez jamais ocorresse. Soltou o ar que estava preso dentro dos pulmões, decepcionado.
_ É, mano, acho que não foi dessa vez – girou lentamente o pescoço, buscando uma posição mais confortável que favorecesse a respiração _ Já estou ouvindo coisas e muito em breve, talvez...
Novamente seu cérebro entrou em estado de alerta. Ele tinha realmente ouvido algo por trás da parede. Sim, agora tinha certeza. Eram batidas. Batidas repetidas e cadenciadas. Alguém estava do outro lado e quem quer que fosse, poderia significar a diferença entre a vida e a morte para eles.
Joseph depositou cuidadosamente seu irmão no chão e tateou no escuro em busca de uma rocha grande o suficiente para produzir uma resposta. Seus braços lutaram para erguer o pedregulho alcançado pelas mãos e chocá-lo, com força, contra a parede produzindo um barulho alto e oco.
Bateu algumas vezes e esperou. Em instantes, novas batidas num ritmo diferente, ao que o rapaz respondeu com batidas semelhantes. Esperou mais um pouco e novas batidas foram ouvidas.
_ Ouviu isso, Adam? – Seus olhos encheram-se de lágrimas _ Eles estão vindo, Adam! Estão vindo! – bateu novamente em resposta _ Aguenta firme, meu irmão. Nós vamos sair daqui. Eu disse a você que nós íamos conseguir, lembra? – Joe continuava a reproduzir o ritmo das batidas que vinham do outro lado _ Nós vamos conseguir, Adam!
o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o
_ Pai, eles estão vivos! – Hoss não se continha de felicidade.
_ Eu estou ouvindo, meu filho – Benjamin emocionou-se _Estou ouvindo! Nós vamos conseguir!
_ Hoss, continue cavando – Tomás ordenou _ E o senhor, não deixe de bater. Eles precisam saber que estamos aqui e nós precisamos de orientação para cavar na direção certa _ o mineiro dirigiu-se à abertura por onde tinham entrado _ Trarei os trabalhadores e o equipamento.
_ Vamos lá, pai – Hoss bateu no ombro do pai _ Vamos trazer Adam e Joe para casa!
Tomás retornou depois de minutos com um grupo de mineiros equipados com suas ferramentas. O doutor Martin vinha logo atrás deles com sua maleta de instrumentos nas mãos.
A abertura na lateral do túnel cresceu e logo era possível passar por ela, um homem de pé. Os trabalhadores se empenharam mais, animados pela novidade e cheios de esperança de encontrar os companheiros com vida.
Assim que alcançaram a continuação do túnel Tomás depositou vários lampiões em posições estratégicas. A luz tremeluzente dava um tom dourado às paredes rochosas.
Os Cartwright lideraram a procissão de mineiros para dentro do corredor frio na montanha. Mal conseguiam ver a distância percorrida pelo túnel embaixo da terra.
Hoss tomou um dos lampiões em suas mãos e seguiu atrás de seu pai, caminhando vagarosa e atentamente. Não conseguiam mais ouvir as batidas nas paredes. Quem quer que estivesse respondendo aos sons produzidos por Tomás, tinha parado.
_ Tomás – Benjamin chamou pelo empregado _ Há algo errado. Nós já deveríamos ter avistado alguém. O som parecia tão próximo!
_ É estranho, senhor – Tomás coçou o alto da cabeça _ Também pensei que estivessem logo atrás do monte de entulho que cavamos, mas...
O olhar perdido do mineiro doeu dentro do peito do patriarca.
_ Ei, pai, vou seguir com um grupo de homens mais para dentro e verificar. Pode ter sido um eco que ouvimos.
_ Não, senhor Hoss – Tomás foi contrário _ Seria melhor deixar o Kellerman seguir com mineiros experientes para dentro do túnel. Se encontrarem mais alguma obstrução, voltarão para chamar-nos e aí, seguiremos para o trabalho.
_Ele está certo, Hoss – Ben concordou com o outro, forçando as rugas que se formaram em sua testa _ Vamos olhar por aqui novamente. Podemos ter deixado passar alguma coisa.
_ Senhor Cartwright, poderia usar aquela pedra ali e voltar a bater num ponto firme da parede? – Tomás solicitou _ Enquanto isso, eu e o senhor Hoss andaremos junto à rocha para tentar localizar o som de resposta novamente.
_ Claro, rapaz – Benjamin tomou uma pedra pesada em suas mãos e retomou os movimentos que produziam um som forte com o choque entre as rochas.
Eric e seu companheiro de escavação, empunhando seus lampiões, caminhavam lentamente rente às paredes do túnel na esperança de ouvir as batidas que os levariam até Joe e Adam.
o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o
_ Adam... – a voz de Joe estava fraca e trêmula _ Meus braços doem e não ouço mais as batidas. Acho que me enganei, irmão... Não posso mais ouvir as batidas – As lágrimas se debruçaram na pálpebras do jovem e escorreram por sua face _Oh, meu Deus... Por favor, Deus... Nós precisamos de alguma ajuda aqui...
Depois da agitação provocada pela perspectiva de um resgate, Joseph sentia-se incrivelmente cansado. Todo seu corpo reclamava por um pouco de paz. Cada músculo e célula de seu organismo gritava por ar fresco e um fio de luz que pudesse animar seus olhos.
Adam continuava quieto, silencioso e imóvel. Há alguns minutos não proferia qualquer som. Sentia a respiração delicada do irmão apenas quando tocava seu peito. As forças se esvaíam e não havia muito o que pudesse fazer agora por qualquer um dos dois. Só conseguia pensar na dor de seu pai e de Hoss se eles acabassem por perder suas vidas naquela escuridão subterrânea.
O mais moço dos filhos de Ben juntou seu irmão em seus braços mais uma vez. Se iam morrer, Adam não sentiria frio. Pelo menos um pouco de conforto daria ao mais velho e sentou-se junto à parede novamente, apoiando o peso do outro sobre seu peito.
As horas voaram e a mente de Joseph se deixou levar pelo desgaste. Viajou para um tempo em que não era mais que uma criança.
"Little Joe, acorda"
"Deixe-me em paz, Adam. Estou com sono."
"O pai está mandando você descer e tomar logo seu café da manhã ou chegará atrasado na escola."
"Não quero ir à escola hoje. Não estou me sentindo bem"
"Deixe de conversa mole, moleque! Pule já dessa cama ou terá que se ver comigo."
"Não enche Adam. Você não é o pai e não manda em mim."
"Sou seu irmão mais velho. Tenha mais respeito!"
"Estou com dor na barriga. Não vou a lugar nenhum e pronto."
" Bem, se é assim que você quer..."
"Pare, Adam! Solte o meu cobertor! Isso não é justo! Não estou me sentindo bem..."
"Olhe aqui, Joe, você é um garotinho muito mimado. Trate de levantar-se logo e não invente desculpas."
"É sério, Adam. Não estou inventando. Não me sinto bem e..."
"Little Joe? Garoto? Joseph Cartwright, essa brincadeira não tem graça. Joe? Oh, meu Deus... Pai!"
"O que está acontecendo aqui? Adam, o que há com o menino?"
"Não sei pai, ele reclamou que estava com dor na barriga e de repente, apagou. Joe está muito quente, pai, muito quente mesmo."
"Vá buscar água fria e mande Hoss à cidade buscar o Paul."
"Sim, senhor."
"Filho, fale comigo. Joseph, está me ouvindo, filho? Preciso que diga o que sente para podermos ajudá-lo."
"Aqui, pai. Trouxe uma toalha limpa também."
"Dê-me a toalha molhada, Adam. Temos que baixar a temperatura até que Hoss retorne com o médico."
"Mas que diabos esse menino tem, pai? "
"Não sei, filho. Quem dera eu soubesse..."
"Pai, isso é minha culpa."
"Não diga bobagens, Adam! Você não poderia adivinhar que seu irmão menor ficaria doente."
"Eu poderia sim. Ontem à noite, Little Joe reclamou que estava sentindo pontadas na virilha e que sua perna direita o incomodava, mas como sempre, pensei que o garoto estava inventando desculpas para não ir à escola hoje e, mais cedo, quando vim acordá-lo, ele reclamou novamente que não estava se sentindo bem. Eu deveria ter percebido, pai, deveria ter percebido..."
"Não se culpe, Adam. Vai ficar tudo bem. Paul chegará logo e tratará Little Joe. Seu irmão estará novo em folha em algumas horas."
"Eu não sei não, pai. O garoto está suando e quente como uma chaleira no fogão."
"Preste atenção, Adam: Preciso que se acalme e mantenha o foco. Vamos colocar as compressas na testa de Joe para baixar-lhe a temperatura. É só o que podemos fazer até que o socorro chegue."
"Está certo, pai. Me perdoe."
"Muito bem, filho. Olhe seu irmão enquanto vou buscar uma banheira e mais água fria caso precisemos dar-lhe um banho para baixar a febre."
"Eu cuidarei dele, pai."
"Adam..."
"Shiii... Fique quietinho, Joe."
"Dói muito, Adam..."
"Não se mexa, maninho. Fique parado que a dor melhora, certo?"
"Não melhora não, Adam. Minha perna está presa, está doendo muito aqui..."
"Eu sei, Joe, eu sei, mas se você ficar forçando, vai doer mais. Então, confie em mim e faça o que eu digo, está bem?"
"Você tem certeza de que vai passar?"
"Claro que tenho. Se você se concentrar e não se mover, pode vencer a dor e nem vai perceber que ela está aí."
"Jura?"
"Eu já menti para você antes?"
"Eu... Eu acho que não..."
"Segure a minha mão e aperte com força se doer muito, está bem? Pode apertar pra valer."
"Adam... Você não vai me deixar sozinho, vai?
"É claro que não, irmãozinho. Eu nunca deixaria meu pequeno irmãozinho, de jeito nenhum. Agora tente relaxar, certo?"
"Certo...Eu vou tentar... Já não dói tanto... Você estava certo, Adam...Estava certo..."
Em sua mente confusa, Joe sabia que Adam estava sempre certo, mesmo quando discordavam de algo, o que era muito comum. Adam disse que seu pai e Hoss viriam para resgatá-los e, como Adam está sempre certo, o salvamento viria.
_Joe... – Um fio de voz trouxe o mais moço de volta à realidade.
_ Estou aqui,irmão – Joseph suspendeu mais o corpo do outro _ Como se sente?
_ Estranho...
_ Você vai ficar bem,Adam – Joe repetia para convencer a si mesmo _ O pai está chegando com ajuda.
_ Joe ?
_ Não se esforce demais. Precisa poupar a energia,mano – o silêncio do mais velho fez o rapaz tremer _ Só aguente mais um pouco, está bem? Não desista. Por favor... Só não desista agora – Joseph sentiu o nó apertar em sua garganta _Pai, o senhor precisa se apressar... Estamos precisando de alguma ajuda aqui, sabe? Estamos encrencados de verdade e uma forcinha viria bem a calhar agora.
Um acesso de tosse atravessou as palavras balbuciadas. O corpo do jovem Cartwright sacudiu violentamente, trazendo o gosto do cobre à boca. Algo estava muito errado dentro de seu peito e Joe sabia disso, mas o que mais o assustava era a incapacidade de salvar Adam. Ia falhar com seu irmão mais velho. Podia sentir em seus ossos que a morte os rondava. Não queria morrer e não poderia admitir levar Adam consigo.
o-o-o-o-o-o-o
CONTINUA
