CAPÍTULO TRÊS
Andar era melhor que ficar sentada na carroça, Isabella concluiu antes que a tarde terminasse. Mas o calor era debilitante, e ela começou a ficar para trás enquanto o sol iniciava seu Caminho de descida.
— Que tal descansar um pouco antes de pararmos para a noite? — Edward perguntou, o olhar aguçado obviamente notando sua falta de energia.
— Sinto como se tivesse dormido o dia inteiro —. Isabella disse. — Achei que uma boa Edwardinhada me ajudaria a ficar cansada o suficiente para não ficar acordada durante a noite.
— Você está cansada — Edward disse —, e sinto que devia estar cuidando melhor de você. Quero que se alimente melhor esta noite, Isabella. E se não conseguir dormir, basta bater no fundo da carroça que eu a ouvirei.
— E o que fará então? —- ela perguntou, saJamesdo agora que Edward não estaria longe dela durante a noite.
— Sairei debaixo da carroça para lhe fazer companhia. Não quero que fique sozinha enquanto tem pesadelos. E provavelmente os terá, você sabe.
— Se eu conseguisse descobrir algo sobre mim mesma em meus sonhos, bons ou ruins, eu os apreciaria. Mas não estou contando com isso. — Isabella penava para seguir os passos dele, uma das mãos sobre a lateral da carroça, apoiando-se para que as pernas não cedessem ao cansaço.
Edward reduziu o passo até ficar ao lado de Isabella e, com surpreendente demonstração de força, ele a ergueu e a acomodou no assento da carroça em movimento.
— Tem sorte por não ficar com dor nas costas por fazer isso — ela o repreendeu. — Sou muito pesada para ser carregada para lá e para cá.
— Você é uma coisinha pequena e minhas costas são fortes. Se tivesse parado quando começou a sentir cansaço, eu não teria sido tão incisivo.
Os olhares de ambos se encontraram, e Isabella buscava alguma mensagem no longo e minucioso exame a que foi submetida. A escuridão da noite habitava o olhar dele, fazendo com que um calor estranho dominasse seu corpo.
Penetrante, o olhar dele a aquecia, e por um momento Isabella imaginou que Edward lhe avaliava o próprio ser, coisa que não a agradava. Não era uma sensação confortável, ela concluiu, saber que aquele homem a sondava, buscando seus segredos.
Ela se remexeu no assento e então passou as pernas para o interior da carroça.
— Acho melhor me deitar — ela disse, não querendo continuar naquele confronto silencioso que sentia estar acontecendo entre eles. O coração começara a agir por conta própria, assumindo um ritmo acelerado que ressoava por todo o corpo. Isabella sabia que suas faces estavam vermelhas, o que fazia com que refletisse bastante em sua delicada situação, pois viajava na carroça de Edward, dependia dele para comer e ter um lugar onde dormir. Não era um pensamento reconfortante, concluiu, saber que aquele homem a aprisionara com os olhos escuros, atingindo fundo seu coração, deixando-a ciente do domínio que exercia sobre ela.
Contudo, Isabella não queria que as coisas tivessem acontecido de outra forma. Edward fora amável, tocando-a com gentileza durante todo o dia, mesmo quando a erguera de volta à carroça. Agia de maneira muito protetora e zelava por seu bem-estar, e ela não podia reclamar da aura de possessividade que notava em seu semblante. Os cabelos de Edward se agitavam ao sabor da brisa, os braços bronzeados e musculosos estavam desnudos. Ele aparentava ser um homem que tinha a vida em ordem.
Exceto pela mulher pela qual assumira responsabilidade e que talvez tivesse encontrado lugar em sua mente. Pois, a não ser que estivesse enganada, Edward estava determinado a reclamá-la para si.
— Está com medo de mim? — ele perguntou. Isabella meneou a cabeça.
— Não fez nada que pudesse me alarmar até agora — ela disse baixinho. — É que você me olha de maneira estranha, como se estivesse tramando algo que envolvesse meu futuro.
— E estou. — Ele pronunciou as palavras com firmeza, estreitando os lábios enquanto olhava para a frente, mirando a carroça que seguiam.
— Não permitirei que planeje minha vida por mim. Sei que me salvou e sou mais do que agradecida por sua gentileza. Mas sou uma mulher crescida, Edward, não serei tratada feito criança.
— Confie em mim — ele disse, olhando-a com ar divertido. — Tratá-la feito criança é a última coisa que tenho em mente. Sei muito bem que é uma mulher, Isabella. Se estou fazendo planos que incluem você, é pensando no seu bem, pode acreditar.
Isabella estremeceu ao ouvir essas palavras, e um calafrio a fez puxar a colcha.
— Não pode estar com frio — ele disse, franzindo a testa quando ela colocou a colcha sobre os ombros. — Deve estar mais quente que no inferno aí dentro, com o sol batendo sobre a cobertura. — Ele torceu os lábios, quase sorrindo. — Está a salvo por enquanto, doçura. É plena luz do dia e não estou a ponto de atacá-la. Sinto-me quase honrado pelo destino tê-la colocado em minha vida. Espero que não fique assustada pelo que direi, mas parece que meu anjo da guarda a trouxe até mim. Você preencheu um espaço em minha vida que esteve vazio por muito tempo.
— Não entendo — Isabella admitiu, aconchegando-se dentro da carroça, olhando para o homem que andava ao lado dos bois, a poucos passos de onde ela estava. — Você nem me conhece, Edward. Nem sei meu sobrenome, de onde vim ou para onde estou indo.
— Sei para onde está indo — ele disse em tom decidido. — Está indo para onde eu for. Onde eu decidir me assentar, você ficará comigo.
— Não pode simplesmente decidir viver comigo — ela protestou. — Eu não faria uma coisa dessas.
— Quero casar com você, Isabella. E será seu dever obedecer a mim — ele disse. Um sorriso traía as palavras ríspidas. — Mas nunca fui de dar muitas ordens a uma mulher. Descobri maneiras mais eficientes de persuasão.
— Casar com você? — Isabella empalideceu, o rosto lívido de choque ao ouvir as palavras que selavam seu futuro.
Num piscar de olhos ele estava no assento da carroça, então virou, os pés dentro da parte coberta. Isabella se afastou quando Edward fez menção de tocá-la, fazendo com que ele apoiasse a mão na própria coxa.
— Não tinha a intenção de deixá-la assustada — ele disse em voz baixa. — Por enquanto, vamos esquecer esse assunto e nos concentrar em sua recuperação. Teremos muito tempo para pensar sobre o futuro.
Da lateral da carroça, a voz de Carlisle Smith anunciou que fariam a parada da noite, surpreendendo Edward enquanto falava da existência de um riacho mais adiante. Carlisle cavalgava para o início da caravana, anunciando a todos que iriam parar em um pequeno arvoredo um pouco mais para o sul, onde o riacho permitia a sobrevivência de árvores e arbustos.
Edward se afastou dela e segurou as rédeas, guiando sua parelha com cuidado. Em poucos minutos, a primeira carroça virou para a esquerda e as que seguiam começaram o processo de formar um círculo fechado.
Quando pressentiu que elas ficariam expostas a ataque, Carlisle instruiu várias famílias a guiarem suas carroças para dentro do perímetro formado para o acampamento.
— É uma caravana muito grande — Edward disse, seguindo a carroça que ia adiante. — As famílias com crianças sentem-se mais seguras dentro do círculo do que alinhadas na margem externa.
— Compreendo — Isabella disse, agora aGarrettlhada, observando a carroça de Edward parar bem próxima à da frente. — Acho que a caravana onde eu estava era bem menor.
— Amarrarei meus bois debaixo das árvores e voltarei num instante para puxar a carroça mais para perto da outra. Não queremos deixar espaços que permitam que alguém entre sorrateiramente. Ela ainda estava de Garrettlhos, olhando para a pradaria onde o sol rapidamente desaparecia de vista.
— Aquelas montanhas estão próximas? — ela perguntou, notando que o sol desaparecia. — Já estamos perto de Denver?
— Ainda temos que andar muito. As montanhas estão mais distantes do que parece. Ainda a veremos por vários dias antes de alcançá-las.
— E para onde iremos então? Seguiremos para oeste até o Oregon?
— A caravana fará isso, mas não viajaremos até o Oregon com eles. Tenho um pedaço de terra em meu nome a nordeste de Fort Collins. Se gostar do lugar, poderemos ficar por lá.
— Não tenho nada a decidir sobre o lugar onde pretende morar, Edward. Eu estava indo para o Oeste, e é o que farei.
— Até onde seu pai pretendia ir? — ele perguntou, ciente de que Isabella não lembrava de seu destino final.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Não sei. Havia mais alguém conosco, eu lembro, mas não sei quem ele era.
— Ele? — Edward virou a cabeça, dirigindo-lhe um rápido olhar. — Estava viajando com dois homens?
Isabella parecia hesitante, vasculhando os espaços em branco de sua memória em busca de uma resposta.
— Não tenho certeza. Só sei que havia mais alguém conosco.
— Seu marido, talvez? Pode ser que essa aliança de casamento em seu cordão seja sua, afinal. Foi uma das primeiras coisas que notei. Mas não consegui imaginar a razão para não estar em seu dedo.
Ela tocou o anel de ouro com o dedo indicador e o ergueu.
— Eu deveria verificar se cabe em meu dedo, não é? Só assim saberia se é meu.
— Não quero que seja seu. Não pretendo ficar esperando que termine o luto por um marido de que talvez nunca mais se lembre. Um homem cujo rosto é um verdadeiro mistério para você.
— Você é impaciente — ela comentou calmamente.
— Tem razão. — As palavras foram pronunciadas com rispidez, o queixo cerrado como se ele estivesse determinado a tomar certa atitude e nada pudesse impedi-lo de seguir adiante.
Dallas se aproximou da carroça, batendo na lateral e chamando por Edward.
— A ceia está pronta no acampamento da srta. Alice — ele disse. — Ela fez comida suficiente para todos nós.
— Edward foi cuidar dos bois — Isabella disse, aparecendo na traseira da carroça, onde Dallas estava parado. — Não deve demorar. Ele encheu os baldes no riacho e levou água para a parelha já faz alguns minutos.
— Bem, quando ele voltar, diga para levá-la consigo. A srta. Alice é ótima cozinheira. Gostará da companhia dela e da comida.
— Ela nos trouxe o almoço hoje. Adoraria conversar mais com ela. É uma mulher adorável.
— Tem toda razão. Deve ser a garota mais bonita da caravana.
— Não mesmo. A mais bonita está em minha carroça... — Edward se aproximava de Dallas e olhou para onde Isabella estava aGarrettlhada. — Está pronta para comer, senhorita? — ele perguntou.
Isabella estava corada, embaraçada pelo que Edward dissera, incapaz de pensar com clareza.
— Dallas estava dizendo que vamos comer com a srta. Alice esta noite.
— Ela é muito bondosa conosco, pobres homens solitários — Carlisle disse com um sorriso. — E apreciar a srta. Alice enquanto comemos não é sofrimento algum.
— Deveria cortejá-la — Edward disse, parecendo sério. — Antes que outro resolva reivindicá-la. Ela lhe seria uma excelente esposa.
— E o que eu faria depois? Levá-la comigo na próxima vez que eu for contratado para atravessar o país? Ser líder de caravana é tudo o que sei fazer, Edward. Estou nesse ofício há mais tempo do que consigo lembrar.
— Oras, você não é tão velho assim — Edward disse, abrindo um largo sorriso.
— Às vezes parece que sim. Já estou quase decidido a nunca arranjar uma esposa. Teria que me acomodar em um lugar e, de qualquer forma, não sei se minha sede de correr o mundo permitiria que eu fizesse isso.
— Bem, se mudar de ideia, não deixe de considerar a srta. Alice. Acho que ela gosta de você, chefe! — Edward sorriu para Isabella, convidando-a a participar do gracejo.
Mas Carlisle tinha outras ideias em mente e, com um rápido gesto, tirou o chapéu da cabeça, curvou-se para Isabella e fez um convite.
— Gostaria de me acompanhar na ceia, senhora? Deixemos que Edward se arranje sozinho já que é tão atrevido.
Os olhos dela se arregalaram com aquela súbita mudança de atitude. Isabella olhou para Edward, que exibia uma expressão nada agradável.
— Acho que Edward pode me ajudar a sair da carroça, então nós três poderemos ir para o acampamento da srta. Alice juntos.
Assim, Edward gesticulou para que ela se erguesse, segurou-a pela cintura e colocou-a no chão. Um pouco tonta por ter sido retirada da carroça com tanta rapidez, Isabella Edwardbaleou ligeiramente, e só a presença das mãos firmes ainda em sua cintura a mantiveram de pé.
— Sente-se bem, doçura? — A pergunta foi feita em tom baixo, os olhos cheios de preocupação; as mãos continuavam firmes sobre sua cintura.
— Só fiquei tonta por um instante — ela disse. — Já descansei muito hoje. Preciso de uma boa Edwardinhada, mas a carroça da srta. Alice é próxima demais para se fazer algum exercício, não é?
— Depois que comermos, eu a levarei para dar um passeio pelas carroças — Edward disse. — Poderá conhecer algumas das pessoas da caravana.
— Já que se sente um pouco fraca, por que não faz dois cavalheiros felizes e se apoia em meu braço também, senhorita? Sendo amparada por nós dois, creio que será mais fácil andar — Carlisle ofereceu o braço e, com um olhar carregado na direção dele, Edward fez o mesmo. Evitando discussões, Isabella apoiou as mãos nos ombros de seus acompanhantes e, juntos, atravessaram o imenso agrupamento de carroças.
Isabella logo identificou Alice pelos cabelos negros e quase riu. Se Carlisle decidisse desposar a jovem, teria que rechaçar um bando de pretendentes. Quatro rapazes estavam ao redor da fogueira, todos se esforçando para impressioná-la e ganhar seu interesse.
Alice viu quando o trio se aproximava e um sorriso iluminou seu rosto.
— Estava esperando por vocês. Fiz comida para todos.
— Não sei agradecer o suficiente por sua gentileza — Isabella disse, começando a sentir-se cansada novamente. E o trajeto nem fora tão grande assim. Não sabia se seria capaz de Caminhar pelo acampamento mais tarde. Segurava-se nos dois homens com mais força a cada passo, e o barrilete de ponta-cabeça foi uma verdadeira resposta às suas preces. Provavelmente fora colocado ali para ela, Isabella pensou, e Alice não a desapontou.
— Sente-se, Isabella — ela convidou, indicando a cadeira improvisada. — Os homens podem se sentar no chão para comer, mas as damas merecem algo melhor quando são convidadas para a ceia.
Edward amparou Isabella, que soltou o braço de Carlisle, virando-se para o barrilete. Com uma reverência graciosa, Edward deixou que Isabella se acomodasse e sentou-se ao lado dela.
— O que foi que você disse sobre cortejar alguém? — Carlisle perguntou em voz baixa, acomodando-se do outro lado de Isabella. Olhou para Edward com um sorriso extremamente sarcástico. — Parece que já entrou em ação, Edward. Tome cuidado caso não queira que as mulheres da caravana se intrometam. Você sabe o que farão se acharem que está arruinando a reputação da srta. Isabella ao permitir que ela durma em sua carroça.
— Acha que eu me importaria? — Edward perguntou com um sorriso convencido. — Ficaria muito feliz se as senhoras viessem exigir que eu acertasse as coisas com a srta. Isabella.
Edward falou o que pensava, e mesmo saJamesdo que era necessário para manter seu auto-respeito no momento, Isabella se sentiu desconfortável.
— A srta. Isabella não pretende ser coagida ao casamento, cavalheiros. Mal faz um dia que perdi meu passado. Não tenho família, futuro ou sobrenome. Acha que estaria interessada em arranjar um marido quando tenho tantas coisas com as quais me preocupar?
Carlisle parecia desapontado.
— Sinto muito, senhorita. Falei o que não devia. Se alguém fizer a menor crítica quanto ao lugar onde está dormindo, será repreendido pessoalmente.
— Contudo — Edward disse —, casar com a srta. Isabella não seria nenhum sacrifício de minha parte. Estou procurando por uma esposa e sei que muitos casamentos arranjados, até mesmo forçados, funcionam melhor do que aqueles que começam com um longo período de namoro.
— Pois eu não estou procurando por um marido — Isabella disse, resoluta. — Aprecio o que os cavalheiros têm feito por mim, mas já estou cansada de ser submetida a situações que fogem de meu controle. Acho que perdi o apetite. Com licença, por favor.
Isabella levantou e rumou para a carroça de Edward, que a seguiu bem de perto. Pressentiu a presença dele, mas recusou-se a virar para demonstrar que sabia que ele a acompanhava; simplesmente continuou seu Caminho sem pressa.
— Isabella. — Sua voz a deteve quando ela fez menção de subir na carroça. O coração estava disparado e as mãos tremiam, impedindo-a de segurar com firmeza a tampa traseira da carroça. Sentiu as lágrimas arderem em seus olhos e apoiou a cabeça na tampa traseira antes que elas a deixassem embaraçada na presença do homem que estava tão próximo.
— Eu a magoei e não sei dizer o quanto lamento — Edward falou em tom suave, as palavras alcançando apenas seus ouvidos, as mãos pousando delicadamente sobre seus ombros. — Eu a ajudarei a subir na carroça se quiser. Mas preferiria que voltasse para comer alguma coisa. Alice está zangada comigo e Carlisle por aborrecê-la. Acho que as outras damas também ficarão zangadas comigo caso não aceite meu pedido de desculpas.
Isabella sentia o calor das mãos grandes, sabia que ele falava com sinceridade e, mais uma vez, percebeu que estava sozinha no mundo e não tinha outra escolha senão perdoar o homem que já lhe oferecera tanto. Além de um lugar para dormir, uma Cama onde repousar e a promessa de transporte até Denver, também oferecia a força de sua honra para protegê-la.
As lágrimas caíam, apesar de Isabella piscar furiosamente e trincar os dentes na tentativa de contê-las para aparentar um pouco de dignidade. Mas isso foi impossível, pois Edward a virou de frente, as mãos gentis apoiadas em seus braços. Se ele tivesse aplicado qualquer força naquele gesto, Isabella teria lutado contra ele, mas saber que aqueles ombros largos a protegeriam era uma tentação impossível de resistir.
A cabeça encontrou repouso no peito de Edward. Isabella ouvia as batidas do coração dele, um ritmo regular e tranquilizador que a incitou a acertar a respiração no mesmo compasso. A vontade de chorar foi subjugada quando ela estremeceu e colocou as mãos sobre os braços dele. Os músculos se retesaram contra as mãos de Isabella, mas logo relaxaram, como se Edward não quisesse amedrontá-la com a força contida em seu corpo.
Ele tinha um lenço na mão e, mais uma vez, usou-o com cuidado, secando-lhe os olhos e faces antes de entregá-lo a Isabella. Assoar o nariz lhe parecia um gesto íntimo demais para se fazer pela segunda vez na frente de um homem, mas a necessidade era cada vez mais urgente. Ela se virou e enxugou as últimas lágrimas para finalmente dizer as palavras que a importunavam há vários minutos.
— Sinto muito, Edward. Lamento ter saído assim e insultado Alice, que tem sido tão boa comigo. E Carlisle também. Ele foi muito gentil, sinto-me muito agradecida, mas naquela hora me senti acuada, como se estivesse sendo forçada a tomar uma decisão que ainda não tenho condições de analisar.
— As coisas são diferentes aqui, Isabella. Não sei de onde você veio, mas não duvido que tenha sido de uma das cidades do Leste. Os homens têm o privilégio de cortejar uma dama por lá, perder meses preparando-se para o momento de pedi-la em casamento. Mas isso não se aplica em uma caravana. As regras aqui são completamente diferentes, e a maioria delas foi feita principalmente para proteger as mulheres. — As mãos dele a viraram de frente novamente.
— Acho que não entendo isso — ela sussurrou, ciente do perfume masculino de quem a segurava. O tecido da Edwardisa tinha um cheiro fresco e limpo. Por mais amarrotada que estivesse, sendo preciso forçar os botões para alcançarem suas casas, o tecido se assentava com maciez sobre o peito de Edward. O cheiro de couro e cavalos a atormentava, fazendo com que escondesse o rosto no peito dele.
— Antes de tudo, uma mulher não está a salvo nessa região sem um homem que a proteja — ele disse com firmeza. —- Uma mulher só fica fora de alcance para os outros homens da caravana se tiver um marido. Só assim a deixarão em paz, por assim dizer. Eles sabem que ela lhes é proibida.
— E quanto à minha situação?
— No momento, você está livre para ser agarrada por qualquer um — Edward disse com certa irritação.
Isabella sentiu as palavras reverberando no peito dele, pressentindo que Edward lutava para controlar a raiva.
— Está zangado comigo? — ela perguntou, erguendo a cabeça para fitá-lo.
— Não. Nem um pouco. Só quero que fique segura, mas não posso mantê-la em minha carroça, onde poderia cuidar de você, sendo uma mulher disponível. Se não tivermos cuidado, sua reputação será arruinada. Especialmente se continuar em minha companhia. Mas não pretendo mudar meus planos.
Isabella pressionou as mãos no peito de Edward e se libertou do abraço.
— Para onde mais eu poderia ir? Existe uma carroça só com mulheres onde eu pudesse seguir viagem até a próxima cidade?
— A cidade mais próxima é Denver. E respondendo sua pergunta, não há qualquer outro lugar onde possa ficar, a não ser que escolha outro homem para cuidar de você.
— Não quero outro homem — ela protestou.
— Temos um outro problema. Você talvez já seja casada. Se esse anel em seu pescoço for sua aliança, é possível que tenha um marido esperando por você.
— Talvez eu seja viúva — ela disse.
Isabella não tinha recordações de outro homem em seu passado. Certamente se lembraria de algo tão importante. Sabia que tinha um pai; era quase capaz de escutar a voz dele. Se tivesse um marido, a lembrança dele seria mais forte que a do pai. O anel de ouro parecia queimar contra o peito, escondido por dentro do corpete, longe da vista de outros. Era como se o tivesse usado durante a vida inteira, mas não lembrava de nenhum homem a abraçá-la e tocá-la.
— Terá que tomar uma decisão, Isabella. Mais cedo do que pensa. Terá apenas uns poucos dias antes de as mulheres da caravana começarem a comentar sobre o assunto. Elas insistirão para que você aceite um marido.
— Prefere que eu arranje outro lugar para dormir?
— Já deixei isso bem claro. Ficarei debaixo da carroça porque assim estarei por perto caso precise de mim. Não quero que procure outro lugar para dormir.
Ele a segurou pela cintura e a ergueu do chão, o suficiente para que Isabella pudesse entrar na carroça.
— Não prefere Caminhar um pouco, antes? — ele perguntou, escolhendo as palavras para não deixá-la embaraçada.
— Mais tarde, quando escurecer. Prefiro descansar agora. — Ela entrou na carroça, procurando o acolchoado de plumas que usava como Cama. Sacudindo-o para afofar o enchimento, recolocou-o no chão e pegou o travesseiro. Não tinha Edwardisola, teria de dormir apenas de combinação. Decidiu ficar vestida até ser hora de buscar certa privacidade entre os arbustos.
— Voltarei logo — Edward disse. — Trarei sua comida.
Isabella não tinha disposição para discutir com ele; por isso, apenas assentiu. Tinha perdido a fome completamente, mas não insultaria Alice ainda mais recusando a comida que fizera.
