IV. CAIR PARAVEL

Uma semana passou-se dentro do navio até que aportaram em Nárnia. Elizabeth corria os olhos por toda extensão do porto, tentando absorver o máximo daquele lugar. Ficou impressionada com a presença dominante da natureza ali. Flores de todas as cores se sobrepunham à grama muito verde e macia. Espíritos florais, que mais tarde ela descobriu se chamarem Dríades, se movimentavam junto com o vento, animais de todos os tipos agiam civilizadamente ajudando a descarregar o navio.

Assim que desceu pela rampa do navio, um enorme centauro fez uma reverência.

- Srta. Gray - ele disse - Sou Oreius.

- Como sabe meu nome? - a garota perguntou, desejando não ter soado rude.

- As estrelas têm me avisado de sua vinda há muitos anos, Srta. Gray.

Elizabeth não teve chance de pedir uma explicação mais detalhada a respeito das estrelas saberem de sua vinda quando nem ela mesma sabia o porquê de estar ali, pois uma juba de cabelos castanho-avermelhados caiu sobre seu rosto e dois braços se fecharam em seus ombros.

- Então é verdade! - a garota que a abraçara exclamou rindo - graças a Aslam agora tenho alguma amiga humana além de Susan!

- Calma, Lucy - Edmund advertiu, rindo, atrás de Elizabeth - vai sufocá-la desse jeito. Elizabeth, essa é minha irmã Lucy, a Rainha Valente, que eu nomearia de Rainha Louca ou Rainha Desvairada.

A garota deu-lhe um beliscão no braço, mas o rapaz apenas riu. Ela tinha enormes olhos azuis, quase tão azuis quanto o do irmão mais velho, e cabelos pouca coisa mais claros do que os de Lizzie. Era muito bonita, e aparentava regular de idade com ela.

- Peter! - a garota gritou, e correu de encontro ao High King, que correspondeu ao seu abraço com um sorriso genuíno no rosto. A estrangeira não conseguiu refrear o sorriso que brotou em seu rosto ao ver o Rei sorrir.

- Onde está Susan? - o mais velho perguntou ao desvencilhar-se da mais nova, mas mantendo uma mão em seu ombro.

- Está no castelo organizando o jantar - a rainha respondeu - sabe como ela é perfeccionista.

- É, sabemos - pontuou Edmund.

- Venha, Elizabeth! - Lucy chamou, pegando a garota pelo pulso e a arrastando para longe dos dois reis.

A Rainha a levou até onde quatro cavalos estavam pastando. Não estavam amarrados, Elizabeth percebeu, e a encararam com curiosidade quando se aproximou. Um cavalo negro se aproximou das duas garotas e fez uma reverência.

- Esse é o seu - disse Lucy.

- Me... meu? - Elizabeth perguntou surpresa.

- Sim, milady - o cavalo respondeu. Espere, o cavalo? Elizabeth piscou várias vezes e encarou o enorme cavalo negro com os olhos arregalados.

- Você falou?

- Sim, milady - o cavalo respondeu - aqui em Nárnia todos os animais falam. E, perdoe minha falta de educação, sou Phillip, seu cavalo.

Elizabeth não pôde evitar sorrir.

- Você é um verdadeiro Sir, Phillip - respondeu a garota, levantando uma das mãos para acariciar o focinho do animal - posso?

Phillip assentiu positivamente com a cabeça e a garota se aproximou, acariciando-lhe o pelo negro e macio. Não percebera que os dois reis haviam se aproximado, até a voz do High King penetrar-lhe os ouvidos.

- Gostou do presente?

Elizabeth virou-se para o rei e sorriu.

- Se gostei? Eu amei - o rei sorriu com a resposta animada da garota - mas não posso aceitá-lo.

- Por que não pode? - ele perguntou.

- Porque isso é tão... muito, entende? - ela não conseguia explicar - não acho que eu mereça, além do fato de um cavalo falante não poder ter um dono. Eles são tão livres.

O rei se aproximou da garota, que havia voltado seus olhos para o grande cavalo negro, escovando-lhe a crina com os dedos. Elizabeth quase podia sentir a respiração tranquila de Peter em seus cabelos, de tão próximos que estavam.

- Se engana quanto ao fato de não merecer - ele disse - mas tem razão quanto ao fato de serem animais livres. O aceitaria como amigo, então?

A garota sorriu e olhou do rei ao animal, que se curvou.

- Adoraria ser sua amiga, Phillip, o que acha?

- Acho que seria uma honra, milady.

O cavalo então se ajoelhou para que a garota conseguisse montá-lo, e os três reis e Elizabeth cavalgaram até Cair Paravel juntos. A garota percebeu que o rei mais velho estava de ótimo humor, coisa que não via desde o dia em que se conheceram. A verdade era que o rei estava feliz em voltar para casa, em estar perto de sua família e seu povo.

Quando chegaram ao castelo, Elizabeth ficou maravilhada com a beleza de tudo o que via. Nem em seus sonhos imaginou castelo mais majestoso, claro, alegre e bonito quanto aquele. Sentiu em seu peito aflorar uma sensação estranha de que havia achado seu lugar. O castelo ficava às margens do mar muito azul, era dourado e bandeiras e tapetes vermelhos eram vistos por todo lugar. As cores de Nárnia coloriam o lugar, assim como as flores e árvores que quase invadiam o castelo. O canto dos pássaros e das dríades podia ser ouvido há metros e mais metros de distância, e tudo era lindo e transpirava vida.

- Bem vinda a Cair Paravel - Edmund disse a Elizabeth, que sorriu.

Os quatro desmontaram de seus cavalos e adentraram o castelo. O salão principal conseguia ser ainda mais lindo do que o lado de fora de Cair. Elizabeth viu uma enorme mesa dourada com uma toalha vermelha posta com pratos, taças e talheres dourados, frutas coloridas organizadas com graça pela mesa, guardanapos muito brancos bordados em dourado, velas brancas acesas e pães e carnes de todos os tipos prontos para a refeição. Um barulho foi ouvido do lado oposto da mesa, e os quatro viraram-se em direção à ele. A porta havia sido aberta e uma mulher muito bonita, de cabelos escuros, corria em direção a eles de braços abertos.

- Até que enfim chegaram! - a mulher disse, abraçando Edmund e, logo depois, Peter. Ela parou, então, e encarou Elizabeth com um sorriso.

A mulher era sem dúvidas a mais linda que já havia visto. Tinha longos cabelos negros caindo em ondas até a cintura, uma pele branca perfeita, que mais parecia ser feita de porcelana, lábios grandes e rosados e olhos azuis, meio esverdeados, com cílios longos e pretos.

- Você deve ser Elizabeth - ela disse, abraçando a garota - é tão bonita!

- Digo o mesmo da senhorita, Majestade - Elizabeth respondeu.

- Por favor, me chame de Susan, tenho quase a sua idade para que me chame de senhorita ou Majestade. Ficaria mais a vontade se pudesse me chamar pelo nome.

- Claro - a garota respondeu - Susan.

A Rainha Gentil sorriu e apontou para a mesa, dizendo para se sentarem e comerem antes que a comida esfriasse. Elizabeth nunca havia visto tanta comida em toda a sua vida, e comeu com vontade. Após o jantar a Rainha Valente mostrou à garota os seus aposentos. O quarto era enorme, todo decorado nas cores de Nárnia, e a cama era tão grande que poderiam dormir três de Elizabeth. Mas o que impressionou mesmo a garota foi o closet, um aposento separado dentro do quarto, com vestidos de todas as cores, mas predominantemente azuis. A garota achou engraçado ter tantos vestidos de sua cor favorita.

Edmund se ofereceu para mostrar o castelo à Elizabeth. Os dois já haviam percorrido uma vasta extensão do palácio durante uma hora, e estavam caminhando por um amplo corredor no segundo andar de Cair.

- Peter queria fazer isso, sabe - Edmund disse.

- Isso o que? - a garota perguntou.

- Mostrar-lhe o castelo.

A garota sentiu as bochechas ficarem quentes.

- Então por que ele não o fez? - ela perguntou, desviando o olhar para os quadros na parede. Um em especial lhe chamou a atenção e ela parou. Era um quadro muito bem pintado do High King segurando a espada e lutando contra uma mulher muito bonita vestida de gelo, que ela imaginou ser a Feiticeira Branca.

- Ele foi convocado para uma reunião com os conselheiros - Edmund respondeu, parando ao lado de Elizabeth. Ela virou-se para ele.

- E você não deveria estar lá junto?

- Minha presença sempre é dispensada nessas primeiras reuniões, eles costumam me procurar quando precisam de estratégia - ele sorriu - sou a cabeça pensante desse reino.

Os dois riram.

- E onde iremos agora, cabeça pensante?

- Iremos jantar.

O jantar foi servido com mais capricho ainda do que o almoço, se é que isso era possível. Susan era realmente perfeccionista, e Elizabeth se perguntava como ela conseguia parecer mais bonita a cada vez que a via. O lugar arranjado para a garota era na ponta da mesa, exatamente à frente do assento do Rei. Ela o pegava constantemente dirigindo seu olhar a ela, e tentava disfarçar o rubor que tomava suas bochechas encarando o prato de comida.

- Você tem algum namorado na Inglaterra, Elizabeth? - Susan perguntou animada, fazendo com que Elizabeth se engasgasse com a comida. Lucy ofereu-lhe um copo d'água. A garota recuperou o fôlego e notou com desconcerto que o High King parecia realmente interessado e um tanto impaciente em saber a resposta.

- Não, não tenho.

- Mas uma garota da sua idade já devia ter pelo menos um pretendente - a Rainha Gentil afirmou - quantos anos tem mesmo?

- Dezenove - Elizabeth respondeu, tomando outro gole de água - vinte em novembro.

- Vinte! - a Rainha exclamou - Com toda certeza podemos arranjar um ótimo pretendente para você aqui, temos um bom relacionamento com os reinos vizinhos, com exceção de Telmar, é claro.

- Não é necessário - a garota desesperou-se - eu agradeço, mas não me interesso em arranjar um pretendente.

- Por que não? - dessa vez uma voz grave perguntou, a garota olhou em direção a voz e encontrou olhos muito azuis a encarando com curiosidade.

- Eu só - ela quase gaguejou - gosto de liberdade, e além disso não sei se ficarei aqui tempo o suficiente para isso.

- Acha que irá embora logo? Não gostou daqui? - o Rei perguntou, e Elizabeth podia jurar que ele estava preocupado.

- Eu não sei. E eu amei este lugar, não me entenda mal - ela tentou se explicar - mas tenho minha família, meu próprio mundo, não pertenço à Nárnia.

- Aslam decide quem pertence a Nárnia ou não - o Rei pontuou.

- Aslam não decide aonde eu pertenço, ou aonde devo ficar - Elizabeth rebateu.

- Como se atreve? - Peter levantou-se e bateu com o punho na mesa. A garota arregalou os olhos.

- Peter! - Edmund levantou, lançando ao irmão mais velho um olhar mortal.

- Se me dão licença, vou me retirar - Elizabeth levantou-se, colocou o guardanapo de pano sobre a mesa e dirigiu-se à porta.

- Não lhe concedi licença para sair - Peter disse, irritado. Porém a irritação de Elizabeth era maior.

- Então me retirarei sem ela, Majestade.

A garota bateu a porta e correu até seu quarto, trancando-se e jogando-se na cama. Não entendia o porquê, mas lágrimas brotaram em seus olhos.

Por que ele está tão bravo? Por que eu me sinto mal por ele estar bravo comigo?

E, para sua surpresa, pegou-se rezando à Aslam que a ajudasse a encontrar uma resposta.