Parte IV - Harry Potter
Eu já sabia que aquele dia seria difícil. Por causa disso, eu havia me preparado para ele.
Essa cerimônia iria simplesmente iniciar uma nova época tanto para mim, quanto para os outros bruxos. O Ministério (coordenado por Kingsley, obviamente) havia preparado uma homenagem para todas as pessoas que ajudaram, de uma forma ou outra, a derrotar Voldemort. Ele pediu a minha opinião e eu o aconselhei a dar uma maior atenção às pessoas que não sobreviveram. Eu ainda sentia um peso todas as vezes que pensava nelas. Tantas pessoas haviam me apoiado nos momentos mais necessários. Pessoas que queriam também um mundo novo e livre de medos, um mundo mais justo. Esses bruxos e bruxas (e, porque não, coruja e elfo), infelizmente, não estariam ali para aproveitar essas mudanças.
Eu fiz questão de estar ali na primeira fila. Se eu ainda estava vivo e se o Mundo Bruxo poderia tentar se reconstruir, era por causa deles também. Eu não conseguiria ter feito nada disso sozinho. O amor nos moveu durante toda a guerra, dando esperanças nos momentos mais difíceis, sendo o conforto quando tudo não parecia ter mais solução.
Apesar de um novo tempo estar começando, a tristeza ainda pairava. Era difícil dizer adeus e aceitar todos os entes queridos perdidos. Só pelos Weasleys já dava para se ter uma idéia do que estava acontecendo nas outras famílias. George era quem estava sofrendo mais. Se já não é fácil perder um irmão, imagine o seu irmão gêmeo.
Foi pensando nisso e analisando a multidão que o meu olhar recaiu em uma pessoa: na Senhora Tonks. Ela estava com o pequeno Teddy. Foi neste momento que eu percebi uma coisa: ela estava sozinha. Ela já havia perdido o marido e agora havia perdido a filha e o genro. O neto era a única família que lhe restara.
Ainda era difícil acreditar na morte de Remus. Remus, que eu encontrara pela primeira vez no trem indo para Hogwarts. Um professor em um trem. Já começou de uma forma incomum. Remus, que foi o meu melhor professor de Defesa Contra as Artes das Trevas e me ensinou a Conjurar um Patrono. O Patrono salvou tanto a minha vida, quanto a vida de Hermione e Sirius. Remus, que era amigo do meu pai. Quantas histórias sobre eles que vocês não dividiram?
E Tonks, então? Tonks, que quando eu a conheci parecia tão colorida e descolada. Ela ria, era espontânea e sempre iluminava o local quando entrava. É claro, a não ser no meu sexto ano, quando ela estava com problemas para se metamorfosear.
E Teddy estava órfão. Órfão assim como eu fiquei depois da Primeira Guerra.
Mas agora seria diferente. Eu fui tratado com descaso pelos meus tios, mas eu iria fazer de tudo para ser um ótimo padrinho, assim como Sirius teria sido se ele tivesse a oportunidade. Teddy também tem a avó dele que com certeza o criará com um enorme carinho. Também sei que os Weasleys irão recebê-lo de braços abertos, afinal, eles conheciam bastante o Remus e a Tonks. O meu afilhado vai com certeza desde pequeno conhecer a palavra família.
O pequeno Teddy irá saber tudo sobre os pais, o que infelizmente não aconteceu no meu caso. A Senhora Tonks certamente tem várias histórias sobre a filha dela e sobre o nascimento do neto, e eu posso contar sobre quando o pai dele lecionou em Hogwarts e algumas histórias dos Marotos que eu conheço.
Eu nunca senti tanta certeza de que naquele dia, no Largo Grimmauld, eu tomei a atitude correta confrontando Remus. A felicidade com que ele anunciou o nascimento do filho e a foto que ele carregava no bolso demonstrou isso. Por mais que Teddy não vá se lembrar do pouco tempo que ele ficou com os pais, ele foi amado por eles. E vou lembrá-lo sempre disso.
Sem dúvida, ter conhecimento sobre os pais é importante. Pelo menos para mim, foi. Quando eu li aquela carta que estava no quarto do Sirius, os meus pais pareceram estar mais perto de mim. E quando alguém mostrar a foto do bebê de cabelo turquesa com os pais para o Teddy, ele vai ter a prova da existência de Remus e Tonks. Pessoas que queriam a felicidade dele. Pessoas que o amavam, acima de tudo.
Eu estava tentando criar um mundo onde ele pudesse ter uma vida mais feliz, Remus havia dito pra mim na floresta.
Por mais que os motivos de Remus fossem bons, eu sabia que, no futuro, eles não bastariam para Teddy. Nos momentos cruciais, Teddy não vai querer nada mais do que um abraço do pai ou um beijo de sua mãe. Quando Teddy for pela primeira vez para Hogwarts, ele vai sentir a falta dos pais ali com ele. E nada, nem ninguém vai poder compensar completamente a ausência deles.
Mas nós tentaremos amenizar esse sentimento. A falta e a saudade irão existir, é claro, mas nós não deixaremos ele se sentir sozinho. Ele não precisaria caminhar sem ajuda, como eu precisei no começo. Teddy não precisará dormir em armários embaixo de escadas. Ele vai ter pessoas para guiarem-no e o ajudá-lo. Pessoas que se preocupam com ele.
Voltei a prestar atenção na homenagem. Ginny estava ao meu lado segurando a minha mão durante todo o tempo. Ela realmente me dava o conforto que eu precisava, assim como eu fazia o mesmo por ela.
Eu sabia o que deveria fazer quando a homenagem acabasse.
Quando as primeiras pessoas começaram a levantar, eu fiz o mesmo. Ginny queria ir também, mas eu precisava ir sozinho.
A Senhora Tonks ainda estava sentada quando eu me aproximei dela. Teddy estava com o cabelo laranja (o que chamava bastante atenção) e ela estava limpando o rosto com um lenço – claramente, estava chorando. Mas também, por que não estaria?
Eu me aproximei com um "Boa tarde" e sentei ao lado dela. A Senhora Tonks sorriu educadamente. Justo quando eu cheguei ali, não sabia mais como começar a conversa. Na verdade, as semelhanças físicas dela com Bellatrix Lestrange ainda me assustavam um pouco.
- Vim conhecer o meu afilhado – eu resolvi começar falando. – Bem, a Senhora sabe que os dois haviam me escolhido como padrinho, não?
- Sim, os dois me avisaram logo que tomaram essa decisão. Eu achava que seria difícil de te encontrar naquela época.
Passei a observar Teddy com mais atenção.
- Remus mostrou uma foto dele...
- E com certeza na foto ele não estava igual agora. Ele muda a cor do cabelo mais vezes do que a Nymphadora na mesma idade.
- Sorte que pelo menos por enquanto, ele só consegue mudar a cor do cabelo...
A Senhora Tonks repreendeu uma risada.
- Eu só queria que você soubesse, Senhora Tonks, que eu vou ajudar a senhora a cuidar do Teddy. Bem, para ser sincero, eu não sei nada sobre bebês. Mas, com a sua ajuda, eu prometo que vou conseguir apreender rápido. Ou pelo menos tentar.
- Então a sua primeira lição vai ser como segurar um bebê.
E ela colocou o pequeno Teddy nos meus braços, na posição correta para que ele ficasse confortável. Confesso ter ficado um pouco assustado. Ele não chorou e eu fiquei surpreso. Normalmente, bebês estranham pessoas diferentes.
Ainda mais pessoas com medo de deixarem-no cair no chão.
- E outra coisa: não precisa me chamar de Senhora Tonks, Harry. Pode me chamar apenas de Andromeda. Eu não tenho problemas com o meu primeiro nome como Nymphadora tinha.
- Certo, Andromeda.
Eu apenas fiquei observando o meu afilhado nos meus braços. Pensando, pensando, pensando...
Parecia que a história dos Marotos era destinada a ser trágica. Meu pai foi morto por Voldemort. Sirius Black ficou preso por longos doze anos em Azkaban por um crime que não cometeu. Quando conseguiu fugir, ficou preso na casa onde morava quando adolescente, sendo que ele odiava a família. Acabou sendo morto por sua prima Bellatrix, sem antes ser reconhecida sua inocência em relação ao crime que o havia levado para a prisão. Remus foi mordido por um lobisomem na infância, e quando finalmente conseguiu amigos, acabou se separando de todos eles de uma vez só. Pouco tempo depois de descobrir toda a verdade e se reunir a um deles, o amigo foi morto. No momento em que tudo parece estar dando certo, quando ele conseguiu encontrar uma pessoa que o amasse de verdade e teve um filho com ela, ele também morreu. Isso sem contar o preconceito sofrido durante toda a sua vida pelo fato de ele ser um lobisomem.
Claro que também tem o Pedro. Mas, para mim, Pedro não era um Maroto. Ele deixou de ser no dia em que se uniu a Voldemort e contou o paradeiro da minha família. Ele tinha uma grande parcela de culpa na história toda, para falar a verdade.
Eu não sabia onde eles estavam agora, mas se isso era um conforto, eu sabia que estavam todos juntos. Os três verdadeiros Marotos, com Lily e Tonks. Eles estariam plenamente felizes agora. Sirius provavelmente não teria mais os anos em Azkaban pesando nos seus ombros e Remus não teria mais nenhum problema com a lua cheia. Com certeza, eles estariam aprontando tanto quanto aprontaram em Hogwarts, para o desespero de Lily e Tonks. Apesar de que, pensando bem, eu não me surpreenderia se Tonks ajudasse na brincadeira.
Teddy e eu somos agora os únicos descendentes dos Marotos. Eu prometo lutar para a vida dele ser o mais normal possível, mas, é claro, com um pouco de travessura. Filho de Maroto, Maroto é.
Juro solenemente não fazer nada de bom.
E assim como Lily e James sempre estiveram comigo, eu sei que Remus e Tonks estarão sempre com Teddy.
Devolvi meu afilhado para a Andromeda, já que ele começou a fazer uma cara chorosa. Logo marcarei um dia para visitá-los, e Andromeda comentou que a minha segunda aula vai ser de como trocar fraldas.
Bem... Quando eu aceitei o pedido, sabia que tinha de ser padrinho na alegria e na tristeza, não é mesmo?
Continua...
Notas da Autora: Gostaria de agradecer novamente a Nikari Potter, por betar a fic e chamar a minha atenção pela demora dos capítulos!
