Altruísmo
- Atende a doze para mim por favor, pequena? - Jack, um dos garçons do restaurante pediu, enquanto equilibrava uma bandeja cheia de louça em uma mão, e com a outra segurava a máquina do cartão de crédito e algumas contas. Alice sorriu timidamente, ao passo que acenava positivamente a cabeça e se encaminhava para a mesa em questão.
O dia, como de costume, fora exaustivo e cheio. Já passara vinte minutos do seu horário no restaurante, mas Alice não encontrava coragem para lembrar esse fato à sua chefe. Ela podia imaginar o que estava passando pela cabeça do seu irmão, dado o atraso, mas tampouco conseguia ser suficientemente discreta para esconder-se no banheiro, cozinha ou fundos do restaurante para fazer a ligação.
Ela só silenciosa e apreensivamente esperava que ele pudesse compreendê-la, afinal de contas, quem melhor do que Edward para entender as limitações da sua irmã?
Ela estava ansiosa para cantar. Passaram-se mais de três meses desde aquele último encontro com o rapaz desconhecido e, portanto, o mesmo tempo sem que ela sentisse fagulhas geladas pinicando a sua barriga.
Hoje, entretanto, a cantora acordou com a gostosa sensação de que algo aconteceria; e junto da sensação veio a ansiedade. Caminhando ao lado desta veio o nervosismo que foi o responsável pelo seu péssimo serviço no restaurante.
Ela foi chamada atenção pela gerente, majoritariamente, mas chegou a acontecer pela sua chefe. Alice então estava no limite do estresse. Sua paciência, que normalmente era extensa, estava tão curta quanto uma cantiga de ninar. Mas ela manteve-se centrada até onde pode e com Jack, em especial, se viu incapaz de negar o pedido de auxílio.
Assim que terminou de anotar o pedido e passar para a cozinha, ela avisou para Jack e sua gerente que estava indo embora, não antes de perguntar se eles ainda precisavam dela. Lauren, a gerente, sorriu com a educação da sua funcionária, mas dispensou os serviços para o dia. Ela sabia que Alice ficou mais tempo do que o combinado e que era simplesmente gentil demais para reclamar.
No caminho para a casa da Bella – onde encontraria seu irmão para ensaiarem para o show do dia seguinte – ela foi pensando nas possíveis músicas, já que conversaram mais cedo, durante a semana, em mudar o repertório. Ela sabia que seu irmão era mais chegado ao estilo de R&B e Soul, mas Alice era resoluta que aquele bar era feito para ressonar rock. Não que ela se incomodasse com a melodia dos ritmos preferidos do seu irmão, mas era simplesmente o que ela sentia.
Quanto ao bar, antes ocupado por bêbados e moscas, começou a ficar pouco melhor e mais frequentado. Ela não sabia ao certo como aconteceu, mas desconfiava que Isabella era a responsável pelos jovens que noite após noite iam prestigiar o trabalho dos irmãos.
No caminho ela notou o sol, que raramente aparecia em Nova Iorque, iluminar um trecho da rua poucos minutos antes de voltar a se esconder atrás das nuvens. A cantora então sorriu com o feixe amarelado e seguiu com o olhar toda a sua extensão. Ele terminava em um prédio antigo, sua fachada era de tijolo e completamente sujo.
A rua não era muito segura, visto os pedintes que deitavam nas calçadas, mas Alice não costumava preocupar-se com os arredores, e isso era um ponto que incomodava demais Edward, porque ele se sentia na obrigação de cuidar dela o tempo inteiro, mesmo que esta fosse legalmente autorizada a ingerir bebidas alcoólicas.
Ao contrário do que o senso comum pregava, Alice costumava sentar e passar minutos conversando com estranhos. Era quase como se a menina que passou metade da sua vida sem pronunciar uma palavra, se sentisse suficientemente segura para conversar com indivíduos que, aos olhos de outros, não seriam a sua melhor opção.
De alguma maneira estranha a mulher nunca foi assaltada ou violentada. Muito pelo contrário, por diversas vezes foi melhor acolhida pelas palavras dos habitantes da rua do que por qualquer conversa com pessoas ricas e influentes que frequentavam a casa dos seus pais.
E foi por isso que a artista passou algum tempo naquela rua observando o feche de luz até que ele sumisse por completo. Na mente das poucas pessoas que passaram pela rua naquele momento, um pensamento era padrão, que a garota de cabelos espetados parecia ser maluca. E ela sabia que, numa certa extensão, de fato era, mas isso não a impedia de viver e, tampouco, aproveitar os momentos simples, mas mágicos, como esse do pequeno raio de sol iluminando talvez um dos prédios mais precários que ela já vira.
Quanto chegou ao metrô cheio sua apreensão só escalou para um nível alto, porque a garota tinha fobia de lugares muito cheios, e era por isso que possuía o costume de fazer tudo a pé ou de taxi, mas como saiu tarde do trabalho, mas sem estar tão atrasada que precisasse gastar vinte dólares em um taxi, optou pelo metrô. Mal sabia que o horário que entrou no vagão foi o mesmo que muitos trabalhadores o fizeram, porque essa era a hora do rush.
Alice foi cantarolando até chegar na quinta estação, onde Bella morava, e então saiu do veículo em um átimo. Seu coração desesperado trazia uma injeção de adrenalina no corpo miúdo quase como se estivesse acabado de passar por uma experiência de 'quase morte'.
Ela sabia que precisava de ajuda, que não era normal ficar tão aflita com esse tipo tão simples de evento, mas depois de passar anos na clínica psiquiátrica ela não achava que aguentaria mais daquele método de tratamento.
Seus medos, portanto, ficavam guardados no fundo da sua alma, e tão escondidos de forma que nem Edward – a pessoa mais próxima que ela tinha – conseguia sequer desconfiar.
O ensaio passou de forma tranquila e, sem muita discussão, foi aceito colocar um par de músicas de Louis Jordan, Jerry Wexler e Amy Winehouse. A única insistência que a pequena cantora teve foi que a música de Jordan fosse Caldonia. Edward nem pensou em discordar de colocar em seu repertório a música que inaugurou o seu estilo favorito.
O problema que eles encontraram quando tocaram o estilo de música que Edward tanto admirava, entretanto, foi que quando tocavam rock era fácil o fazer com apenas dois musicistas, a música saia de certa forma pobre, mas fluía. Ao tocar R&B, Jazz e Soul eles precisariam de mais pessoas na 'banda'. Bella, como a melhor apoiadora dos dois e por já ter ouvido o namorado dar a voz a preocuação, já tinha duas pessoas para participar. Um era percursionista e baterista, e a outra era uma instrumentista de sopro. Emmett e Rosalie, especificamente.
Como eles precisariam de um pouco mais de entrosamento e prática antes de tocarem juntos, Edward achou melhor que eles entrassem apenas na semana seguinte e que nesta apenas fossem assistir o show para conhecerem a localização e observarem o ambiente.
A noite seguinte chegou e, com ela, o maior frio na barriga possível. Alice sabia que algo muito, muito grande estava para acontecer e simplesmente não podia ignorar a excitação do desconhecido, mas a apreensão do escuro. Era um nervosismo gostoso, uma ansiedade irritante, mas viciante.
- Pronta? – Edward perguntou, enquanto ajeitava os pratos da bateria e posicionava meticulosamente correto o contrabaixo elétrico.
Alice acenou timidamente a cabeça e arrumou a regulagem da alça da guitarra. Ela se sentia um pouco despida com a bermuda jeans rasgada e curta, mas a meia calça bastante escura e grossa a faziam sentir-se pouco mais a vontade. A blusa colada vermelha, entretanto, a fazia urrar por um sobretudo. Alice sabia que Bella costumava ser exagerada com escolhas de roupa, mas compreendia que a quase-cunhada entendia mais de moda do que ela.
- Você está linda, Alice. Para de surtar – Edward exasperou em um assopro enquanto observava a sua irmã subir a blusa para diminuir o decote e descer o short para deixar menos da sua perna fina aparecer.
- Eu não estou a vontade... – Alice murmurou, sentindo o rosto corar. Edward rolou os olhos e retirou sua camisa de botões, vestindo-a por cima da roupa que "encobria" a sua irmã e ficando apenas de jeans e sua regata branca.
- E agora?
Alice apenas sorriu e gesticulou para o palco.
Como era de costume o lugar não estava lotado, tinham bêbados e o grupo de universitários que pareciam ter adquirido carteirinha de sócio. Bella estava sentada no balcão conversando com James e Aro, enquanto Alice e Edward faziam os últimos ajustes no equipamento para começar o show.
A primeira hora foi tocada com rocks clássicos, especialmente Beatles, The Who, Rolling Stones, Led Zeppelin e Creedence Clearwater.
Edward sabia que ele poderia cantar, mas ouvir a sua irmã, normalmente tão quieta e acuada, se soltar naqueles breves momentos em cima de um palco era todo o incentivo que ele buscava para continuar apenas produzindo a musicalidade que acompanharia a suave voz que entra em constante contradição com as fortes batidas do rock.
Ele não se importava com o fato que hora ou outra uma pessoa pedia para ele cantar. Não se incomodava com o fato que as vezes sua boca coçava para comunicar-se com o microfone porque, afinal de contas, ele era o músico; mas o garoto extasiava-se demais com a visão da sua irmã feliz, satisfeita e vivendo. Era tudo o que ele buscava, tudo o que ele esperava.
Quando teve o intervalo Edward preocupou-se em dar atenção à sua namorada sorridente e um tanto quanto bêbada. Se tivesse um pouco de atenção aos arredores, saberia que Alice não só fora tragada para o fundo da casa, como estava passando por um grande momento de aflição.
- O que é agora? – Ela rugiu entre os dentes, tentando soltar seu braço fino do firme aperto que as mãos calejadas do pintor nele exerciam.
Alice tentava disfarçar, mas por mais que sentisse segura ao lado do estranho, ela não podia evitar a onda de temor que passava por seu corpo quando ele a arrastava para algum lugar escuro e, provavelmente, vazio.
- Não fala. Não ainda. – ele sussurrou para a escuridão e apertou o passo até que passassem pela saída de emergência, nos fundos da casa.
- Eles virão me procurar. – Alice insistiu, temerosa.
- Você acha que eu quero fazer mal a você? – Jasper respondeu com escárnio na voz. – meu deus, ela não faz ideia... – e Alice não sabia se ele falou isso para ela ou para si.
- O que você quer, moço? Por que me persegue?
- Você me persegue. – ele urrou por entre os dentes e a imprensou contra a parede. – Há meses você me persegue. Seu rosto. Sua boca. Seus olhos. Inferno, até a sua silhueta! E eu quero que você pare.
- O-o que? – Alice sussurrou, sentindo sua garganta constringir e o olho arder por conta das lágrimas que ameaçavam sair.
- Eu não aguento mais isso. Preciso de um pouco de paz, por Deus, eu preciso dormir! – ele exasperou, puxando os cabelos desgrenhados e sujos de tinta. – Eu preciso pintar. – ofegou batendo a cabeça na parede de chapisco.
- Para! Você vai se machucar! – Alice arfou, tentando puxar o corpo grande e pesado demais para longe da parede. – Para!
- Eu estou machucado. – ele murmurou, endireitando seu corpo. A agonia que habitava dentro do artista era tamanha que ele estava apelando para qualquer forma de alívio. O cigarro de maconha semifumado em seu bolso esquerdo era o primeiro indício que ele, de fato, estava perdendo a lucidez frente ao bloqueio artístico que Alice exercia nele. Jasper precisava de alguma coisa, qualquer coisa para conseguir se livrar disso. Ele precisava que ela saísse do seu sistema, da sua cabeça, da sua vida, mas ao mesmo tempo necessitava dela para poder concluir, recomeçar ou iniciar seu quadro.
- O que houve? – Alice acariciou os dedos longos que ainda seguravam seu pulso em um aperto firme. – Me conta o que te aflige.
E a voz dela era tão suave, tímida e convidativa que ele nada pode fazer exceto sucumbir aos pedidos dela.
Então Jasper deixou-se falar naquele momento como não fazia por vários meses. Ele contou o que sentiu na primeira vez que a viu, e como a imagem dela o perseguia desde então. Ele explicou que ficava nas sombras apenas observando, esperando que algum tipo de inspiração o atingisse e ele enfim pudesse dar seguimento a sua vida. Relatou das noites em claro, dos dias sem dormir, das semanas de insônia e do medo de continuar assim.
- Por favor, Alice. Por favor, faz parar. – ele suplicava continuamente.
A cantora ainda tinha seu corpo pressionado contra a parede, mas por contra própria. Jasper estava ao seu lado. Os dois braços cruzados na altura da cabeça e encostados ao paredão, enquanto a cabeça repousava ali. Se os olhos estivessem abertos ele provavelmente observaria o chão ou como as pequenas mãos da Alice se remexiam desconfortavelmente na frente do corpo.
Ela não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas de alguma maneira sentia-se culpada pelo sofrimento dele. Seu coração apertava-se com cada ofego, arfada e palavra agoniada. Seus olhos lacrimejavam e despejavam uma lágrima para cada palavra exausta, que deixava os lábios carnudos e ressecados do homem. Suas pernas tremiam com a incerteza do que estava acontecendo, e seu corpo inteiro se retesava com a possibilidade do desconhecido. Mas ela queria ajudá-lo de alguma forma, de qualquer forma.
- O que eu posso fazer por você, pintor?
- Qualquer coisa, cantora. Só faça alguma coisa.
- O que?
- Vem comigo?
Muitas coisas passaram pela cabeça da mulher naquele instante. "Para onde?", "Por quê?", "Agora?", "Eu nem te conheço..." foram as primeiras, mas não as últimas. Entretanto, surpreendendo-se até si mesmo Alice balbuciou.
- Depois do show. Não posso deixar Edward sozinho.
Jasper encarou os olhos que hoje pareciam mais com mel. Ela o encarava em resposta. A aflição e medo claramente visíveis em sua fisionomia. O pintor sorriu e respirou aliviado.
Alice acompanhou o gesto e não conseguiu evitar sua mão subir de encontro ao rosto que espetava por conta da barba, para ali tecer um suave carinho com as costas dos seus dedos. Os olhos cansados do pintor fecharam em uma agradecida sensação de conforto e alívio. Ele não tinha palavras para expressar o quão agradecido por Alice estava. Ela ainda não o libertara dos seus males e fantasmas, mas certamente estava agindo em prol disso.
- Obrigado. – ele sussurrou sentindo o vento bater em seu corpo e o barulho da porta de metal fechar-se atrás da musicista que já tinha voltado para dentro do bar para não decepcionar seu irmão. Para tocar, terminar o show e não decepcionar Jasper. Para não decepcionar ninguém.
Era claro o quão altruísta a pequena cantora era; e ele faria de tudo para que ela não se arrependesse do dia de hoje; nem que para isso ele gastasse o resto dos seus.
N.a.: [twilight não me pertence] Pra quem não viu, esses dias postei um capítulo em La Mia Bella Donna. O que falei para a beta de lá (Cella E.S) é o mesmo que falo pro Rodrigo aqui. Sem ele essa fic nem teria um propósito ou existido. Ele me fez escrever Alisper e me faz querer continuar escrevendo. Gordo faz mais do que correções, faz construções. Obrigada, querido.
Mesmo que eu quase não receba reviews dizendo o que vocês acharam, sei que algumas pessoas gostam dessa doidera que cria vida pouco a pouco.
Jasper não é um psicopata nem vai matar Alice. Prometo.
Comentem e vejo vocês no próximo - espero não demorar muito.
