Capítulo Quatro
Atleta.
Enquanto o táxi se misturava com o
tráfico, Gina sentiu que seus sentimentos estavam completamente
revolucionados. Harry Potter era um homem incrivelmente atraente que
poderia distraí-la muito facilmente. Além disso, havia algo nele
que a turvava. A idéia de ter um contato profissional com ele a
intranqüilizava profundamente.
«Eu não gosto», decidiu com uma
firme inclinação de cabeça. «É muito seguro de si mesmo, muito
arrogante, muito...».Tratou de procurar desesperadamente uma
palavra. Físico. Embora a contra gosto, admitiu que Harry Potter era
um homem muito sensual e que esse fato a deixava nervosa. Não sentia
desejo algum de que ele a incomodasse. Havia algo no modo como a
olhava, algo no modo como seu corpo reagia quando estava perto
dele.
Encolheu os ombros e começou a olhar pela janela. Não
queria pensar nele. Melhor dizendo, pensaria em Harry Potter só como
a pessoa que a tinha contratado, não como um homem. Ainda sentia na
mão o calor dele e, depois de olhar-se suspirou. Era necessário,
para sua tranqüilidade mental, realizar seu trabalho evitando mais
contatos pessoais com ele. A relação que teria com ele seria
exclusivamente profissional. Isso era, exclusivamente profissional.
A
menina se transformou em uma tenista muito na moda. Um curto vestido
branco de tênis acentuava as longas e esbeltas pernas e deixava
descoberto os braços. Enquanto esperava na quadra de tênis, os
cobriu com uma jaqueta leve, dado que aquela tarde de outubro estava
agradável embora um pouco fria. Levava o cabelo preso com um lenço
azul, o que deixava seu delicado pescoço completamente descoberto.
Maquiou os olhos, acentuando-os com lápis de olhos negro, e os
lábios, com um profundo carmim rosado. Impecáveis sapatilhas de
tênis completavam seu traje, junto com a raquete leve que tinha
entre as mãos. O branco imaculado do vestido contrastava muito bem
com a pele dourada e o cabelo ruivo de Gina e lhe dava um aspecto
muito feminino e profissional ao mesmo tempo.
Atrás da rede,
começou a esquentar um pouco e a jogar bolas a um companheiro
inexistente enquanto Neville se ocupava de encontrar os ângulos e as
medidas corretas.
—Acredito que seria melhor que alguém lhe
devolvesse a bola.
Quando Gina se voltou, viu que Harry a estava
observando com um brilho jocoso nos olhos. Ele também estava vestido
de branco, com a jaqueta de seu traje de aquecimento arregaçada até
os cotovelos.
Acostumada a vê-lo de terno, Gina se surpreendeu ao
ver a atlética aparência de seu corpo, esbelto, ombros largos, com
braços firmes e musculosos... Naquele momento, sua masculinidade era
muito dominante.
— Não estou bem? —perguntou com um sorriso.
Ao escutar aquelas palavras Gina se ruborizou ao dar-se conta de que
o tinha estado olhando fixamente.
—Surpreende-me vê-lo vestido
desse modo.
—É mais adequado para o tênis, não acha?
—
Acaso vamos jogar? —perguntou ela, atônita.
—Eu gosto
bastante da idéia da fotografia de ação. Prometo que não serei
muito duro com você. Meus golpes serão suaves e fáceis.
Gina
precisou de toda sua força de vontade para não lhe mostrar a
língua. Jogava tênis freqüentemente e o fazia bem. O senhor Potter
ia ter uma boa surpresa.
—Tentarei lhe devolver a bola
—prometeu, com o rosto tão ingênuo como o de uma menina—, para
assim poder dar realismo às fotografias.
—Muito bem —respondeu
Harry. Então, dirigiu-se ao outro lado da pista enquanto Gina pegava
uma bola—. Sabe jogar?
—Vou tentar —respondeu ela. Depois de
olhar para Neville para ver se estava preparado, lançou a bola
brandamente no ar. Ao ver que o rosto de Neville já estava oculto
pela câmera, colocou-se ao outro lado da linha e lançou a bola uma
vez mais. Daquela vez, golpeou-a com a raquete e lançou um bom
serviço. Harry o devolveu com suavidade, mas ela golpeou a bola com
força e a mandou à esquina oposta da pista—. Acredito que também
me lembro como se ganha —acrescentou, franzindo o cenho—. Quinze
a zero, senhor Potter.
—Bom golpe, Gina. Joga
freqüentemente?
-De vez em quando -replicou ela-.
Preparado?
Harry assentiu. A bola viajou com rapidez de um lado ao
outro do campo. Gina se deu conta de que ele estava se contendo para
que Neville tirasse as fotografias, mas ela também o estava fazendo.
Golpeava a bola com rapidez e sem nenhum estilo. Permitiu alguns
golpes mais antes de lançar a bola muito longe dele, quase do outro
lado da pista.
—Oh —sussurrou ela. Colocou um dedo sobre os
lábios, fingindo inocência-. Isso é trinta a zero, verdade?
Harry
entreabriu os olhos enquanto se aproximava da rede.
— Por que
está me dando a sensação de que está tirando sarro de
mim?
-Sarro? -repetiu ela, com os olhos muito abertos—. Sinto
muito, senhor Potter, não me pude resistir —acrescentou. Então,
pôs-se a rir – Estava se comportando de um modo tão
condescendente...
-Muito bem -replicou ele, também com um sorriso
para alívio de Gina—. Já não há condescendência que valha.
Agora, quero sangue.
—Começaremos desde do início—disse ela
enquanto retornava à linha—. Não quero que diga que eu tinha uma
vantagem injusta.
Harry lhe devolveu o serviço com força. Os
dois se moviam com rapidez pela pista. Batalhavam com esforço pelos
pontos. Gina se esqueceu por completo da câmera, dado que o clique
da mesma ficava completamente mascarado pelos golpes das bolas e os
sussurros das raquetes contra o ar.
Gina se amaldiçoou quando não
pôde devolver uma bola limpa. Rapidamente pegou outra e se preparou
para jogar.
—Isso foi muito bom —disse Neville, rompendo assim
a concentração da jovem—Tenho fotos fantásticas. Parece uma
verdadeira profissional, Gina. Já podemos deixar por hoje.
—
Deixar? —replicou ela olhando-o com incredulidade—. Perdeu a
cabeça? Estamos jogando.
Depois de olhá-lo durante uns instantes
como se estivesse louco, retomou o jogo rapidamente. Durante os
seguintes minutos, os dois jogaram para recuperar a vantagem até que
Harry a conseguiu e lançou a última bola muito longe para que ela
pudesse devolvê-la.
Gina colocou as mãos nos quadris e respirou
profundamente.
—Bom, essa é a agonia da derrota -disse com um
sorriso. Então, aproximou-se da rede—. Parabéns —acrescentou
enquanto estendia a mão—. Joga de um modo muito competitivo.
Harry
aceitou a mão que lhe oferecia, mas, em vez de estreitar-lhe
limitou-se a agarrá-la.
—Asseguro que me obrigou a ganhar,
Gina. Acredito que eu gostaria de provar sorte em dobro, mas com você
a meu lado -disse. Olhou-a durante um instante antes de olhar a mão
que ainda tinha cativa entre as suas—. Que mão tão pequena!
—acrescentou enquanto as levantava para examiná-las
cuidadosamente-. Surpreende-me que possa manipular uma raquete desse
modo...
Então, a girou e depois de colocar a palma para cima, a
levou aos lábios. Ao sentir aquele beijo, Gina experimentou
sensações estranhas correndo pelas costas. Olhou a mão como
hipnotizada, incapaz de falar ou de retirá-la.
—Vamos —disse
Harry, consciente da reação que ela tinha tido-. Vamos comer algo.
Você também, Neville.
—Obrigado, Harry —respondeu Neville
enquanto recolhia seu equipamento—, mas quero ir para meu estúdio
revelar este filme. Comerei um sanduíche.
—Bem, Gina —murmurou
Harry voltando-se para ela—. Sozinhos você e eu...
—O
agradeço muito, senhor Potter— replicou ela. Sentia-se em pânico
ante a perspectiva de almoçar com ele—, mas não é necessário
que me convide para almoçar.
—Gina, Gina... É tão difícil
você aceitar um convite ou só quando eu a convido?
—Não seja
ridículo —respondeu ela. Tentou manter um tom casual, mas cada vez
mais notava a calidez da mão dele sobre a sua. Olhou fixamente as
mãos unidas e se sentiu completamente indefesa—. Senhor Potter,
pode me devolver a mão, por favor?
—Harry, Gina —lhe pediu
ele sem prestar atenção alguma à petição que lhe tinha feito—.
É muito fácil. Tem somente duas sílabas. Vamos.
—Está bem
—disse ela. Sabia que, quanto antes aceitasse, antes se veria
livre—. Harry, poderia me devolver a minha mão, por favor?
—Agora
sim. Superamos o primeiro obstáculo. Não foi tão difícil,
verdade? —repôs ele, com um ligeiro sorriso nos lábios. Assim que
a soltou, Gina se sentiu imediatamente mais segura.
—Não
muito.
—Agora, ao almoço —afirmou. Ao ver que Gina abria a
boca para protestar, levantou uma mão para impedir - Você come ,
não?
—Claro, mas...
—Não há Mas. Quase nunca presto
atenção alguma a mas ou a porém.
Em pouco tempo, Gina se
encontrava sentada frente a Harry em uma pequena mesa do clube. As
coisas não foram tal e como ela tinha planejado. Era muito difícil
manter uma relação profissional e impessoal quando estava tão
freqüentemente em sua companhia. Era inútil negar que o achava
muito interessante, que sua vitalidade a estimulava e que Harry era
um homem tremendamente atraente. Entretanto, recordou-se que ele não
era seu tipo. Além disso, não tinha tempo para relações
sentimentais naquele momento de sua vida. Não obstante, os sinais de
alerta que recebia seu cérebro lhe diziam que tomasse cuidado, que
aquele homem era capaz de mudar seus cuidadosos planos.
— Alguém
já lhe disse que tem uma ótima conversa?
Gina levantou os olhos
para encontrar-se com o olhar zombador de Harry.
—Sinto muito.
Estava pensando em outras coisas —se desculpou. Uma vez mais, o
rubor tinha lhe tingido as bochechas.
—Já me dei conta. O que
vai beber?
-Chá.
-Só?
—Sim —afirmou. Então, disse-se
que devia relaxar-se—. Não bebo muito. Temo-me que não me sinta
muito bem. Com mais de duas taças me transformo. Deve ser o
metabolismo...
—Eu adoraria ser testemunha dessa transformação
—comentou ele, depois de soltar uma gargalhada—.Teremos que
combinar isso mais tarde.
Para surpresa de Gina, o almoço foi uma
experiência muito agradável, apesar de Harry reagir com certo
desgosto e puro desdém masculino pelo fato de que ela escolhesse uma
salada. Assegurou-lhe que era uma comida mais que adequada e fez um
comentário sobre a brevidade da carreira das modelos com
sobrepeso.
Quando relaxou por completo, a jovem se divertiu muito
e se esqueceu de manter distância entre Harry e ela. Enquanto
comiam, lhe falou dos planos que tinha para a sessão do dia
seguinte. Tinha escolhido o Central Park para mais fotos externas em
que se ressaltasse uma imagem atlética.
—Amanhã tenho reuniões
durante todo o dia e não poderei ir supervisionar a sessão. Como
pode sobreviver com isso? —perguntou-lhe mudando abruptamente de
conversa. Estava indicando a salada de Gina—. Não quer um pouco de
comida de verdade? Vai sumir!
Ela negou com a cabeça e sorriu
enquanto tomava um gole de chá. Harry, por sua parte, murmurou algo
sobre as modelos meio mortas de fome antes de retomar o fio da
conversação.
-Se tudo der certo, começaremos o próximo
segmento na segunda-feira. Neville quer começar cedo amanhã.
—Como
sempre —afirmou ela, com um suspiro—. Se o tempo o permitir.
—O
sol vai brilhar -comentou Harry, com absoluta segurança em si
mesmo—. Já me ocupei disso.
Gina se recostou no assento e
contemplou ao Harry com uma desinibida curiosidade.
—Sim
—afirmou—. Acredito que poderia tê-lo feito. A chuva não se
atreveria a cair.
Sorriram e, enquanto se olhavam nos olhos, Gina
experimentou uma estranha sensação correndo por suas veias, algo
rápido, vital e inominável.
— Sobremesa?
—Está decidido
a me fazer engordar, não é? —comentou ela, com um sorriso—. É
uma má influência para mim, mas mostrarei uma determinação de
ferro.
— Bolo de queijo, bolo de maçã, mousse de chocolate?
—perguntou, com um malicioso sorriso. Entretanto, ela negou com a
cabeça e levantou o queixo.
—Não adianta, não me
rendo.
—Tenho certeza que tem uma fraqueza. Com um pouco mais de
tempo, eu a encontro.
—Harry, querido, que surpresa vê-lo
aqui!
Gina deu a volta e observou à mulher que acabava de saudar
o Harry com tanto entusiasmo.
—Olá, Cho -disse ele,
referindo-se a elegante oriental com um encantador sorriso—. Cho
Chang, Gina Weasley.
-Senhorita Weasley —repôs Cho com uma
inclinação de cabeça como saudação. Então, entreabriu os olhos
apertados—. Nos conhecemos?
—Não acredito —respondeu
Gina.
—O rosto do Gina aparece na capa de muitas revistas
—explicou Harry—. É uma das melhores modelos de Nova Iorque.
—É
obvio —comentou Cho. Gina observou como a mulher entreabria ainda
mais os olhos, examinava-a e a catalogava como mercadoria inferior—.
Harry, devia ter dito que estaria aqui hoje. Poderíamos ter passado
algum tempo juntos...
—Sinto muito —respondeu ele—. De todos
os modos, não vou estar aqui muito tempo. Além disso, vim por
negócios.
Sem que pudesse evitar, Gina se sentiu um pouco
desiludida por aquela afirmação. Apesar de saber que era uma reação
ridícula, ergueu imediatamente as costas e disse a si mesma «Não
lhe adverti isso? Eu tinha razão, só estamos aqui por negócios».
Então, recolheu suas coisas e ficou de pé.
-Por favor, senhorita
Chang, tome meu assento. Eu já estava de saída.
Voltou-se para
olhar ao Harry e sentiu uma ligeira alegria ao ver que ele se
mostrava um pouco zangado por sua apressada saída.
—Obrigado
pelo almoço, senhor Potter —lhe disse. Ao ver que ele franzia o
cenho ao escutar seu sobrenome, sorriu—. Foi um prazer conhecê-la,
senhorita Chang.
Depois de dedicar à oriental um cortês sorriso,
Gina se dispôs a partir.
—Não sabia que convidar a suas
empregadas para almoçar era algo tão corrente, Harry...
Enquanto
se afastava da mesa, Gina escutou o comentário de Cho. Sentiu o
desejo de dar a volta e lhe dizer que se ocupasse de seus assuntos,
mas se controlou e partiu sem escutar a resposta de Harry.
