Capítulo 04: Ilusão

Música: Close to the Flame, HIM

Desejo. Nossa relação sempre se resumia a isso. Era puro desejo de estar ao lado um do outro. Sentindo. Tocando. Provando. Deitar-se com alguém não te prende verdadeiramente a essa pessoa e nós não queríamos ficar presos um ao outro. Nós só queríamos aproveitar ao máximo. E, sem perceber, o nosso desejo se transformou em dependência. Éramos dependentes!

Nossos encontros se tornaram excessivos. E minha obsessão parecia aumentar a cada dia, dado ao fato de que quanto mais nos aproximávamos, mais misteriosa ela ficava. Eu via pregado em seus olhos a faixa dizendo que eu não a conhecia. Não tinha controle da situação - na verdade, nunca tive. - Se eu pensar nas conversas estranhas que tínhamos, eu vou notar que ela conseguia ser de um jeito em cada momento. Chegou a um ponto em que eu só queria descobrir qual daquelas era a verdadeira Ginny Weasley.

The kiss sweetest

(O beijo, o mais doce sabor)
And touch so warm
(E o toque, tão quente)

The smile kindest

(O sorriso, o mais amável)
In this world so cold and strong

(Neste mundo tão frio e forte)


- Você alguma vez já se perguntou qual o motivo de estar aqui? – ela fez uma daquelas perguntas filosóficas. Aquilo me irritava, mas os braços dela estavam ao redor do meu pescoço e me encarava de maneira séria.

- Não! – respondi, perdido em seus olhos.

- Eu sempre penso nisso.

- E já obteve resposta?

- Cada um deve vir com uma função. Nem que seja a aparentemente função de limpar a neve da sua porta.

- Limpar neve de uma porta não parece algo importante – ela ficou me observando durante alguns instantes até responder:

- Mas se você não consegue abrir a sua porta por que há um monte de neve te impedindo, alguém do lado de fora tem que fazer isso.


- No que está pensando?

- Em nada.

- Vamos, Draco, eu sei que está. Quando você passa o dedo pelo seu pulso a cada cinco segundos é porque está pensando em algo.

Eu nunca reparei nisso.

- Estava pensando onde nós iremos poder ficar mais à vontade, já que a sala precisa foi estranhamente interditada.

- Ora, seu safado, você só pensa nisso? – ela corou. Beijei seu pescoço.

- Você acha que alguém vai aparecer nesse jardim há essa hora?

- Nem pense nisso! – ela cortou. Naquele dia, ela estava puritana.


- Hum... sabe, alguém pode flagrar a gente aqui nesse corredor.

- Não estamos fazendo nada demais – ela falou entre meus lábios.

- É, considerando que a minha capa está no chão e você com metade dos botões desabotoados, isso definitivamente não é nada de mais – ironizei.

Ela riu perto da minha orelha.

- Por Merlin! Será que não podem se conter? – a sangue ruim da Granger se materializou sem que notássemos. Estava vermelha e chocada com a cena.

Ginny ficou séria e me soltou, antes de dizer:

- Ok, nós vamos para um quarto – pegou minha capa no chão e com a outra mão me arrastou para longe dali.

É impressão minha ou a Granger parece estar ficando roxa de vergonha feito uma beterraba?


- Você pode dizer de uma vez o que aquele imbecil do Corner falava de tão engraçado para você estar rindo daquele jeito?

- Não seja estúpido. Eu nem me lembro mais o que ele disse, alguma piada provavelmente... – ela estava sentada em cima da mesa da sala de Feitiços, habitada apenas por nos dois àquela hora.

- Não se faça de besta! Vocês estavam flertando – afirmei, passando a mão pelo cabelo.

- Deixe desse seu ciúme ridículo...

Avancei para cima dela, a assustando momentaneamente.

- Não estou com ciúmes de você. Você não merece isso, sabe muito bem – meus braços envolviam sua cintura e minha voz saia cortante. – Mas eu tenho um orgulho a zelar... Não vou admitir que você se insinue para alguém como fez comigo. Eu conheço muito bem aquele seu sorriso.

A reação dela foi dar um daqueles irritantes sorrisos e falar no mesmo tom que eu.

- Acontece que o seu orgulho já caiu a partir do momento que você passou a andar comigo. Você poderia ter escondido de todos, nós podíamos ter escondido, mas fizemos questão de mostrar e exibir quem estava com quem. Seu orgulho te deixou a partir do momento que você me manteve fixa em sua mente.

E assim que ela terminou de falar, nós estávamos nos beijando de maneira violenta. Nossas peles se incendiando.


- Você tem certeza que está se sentindo bem? – perguntei, tentando não parecer preocupado.

- Tenho – ela me abraçou com força.

- Está tremendo!

- Não é nada, vai passar.

Afaguei seu cabelo e olhei em seu rosto.

- O que há?

- Apenas estou um pouco cansada.

Havia medo em seus olhos.

We're so close to the flame
(Estamos tão perto da chama)

Burning brightly

(Queimando ardentemente)
It won't fade away and leave us lonely

(Ela não vai enfraquecer e nos deixar sozinhos)


- Conseguiu esses malditos cigarros de novo?

Ela me olhou antes de dar uma tragada.

- E dessa vez tenho um bom estoque – sua voz saiu divertida.

- Você só fuma quando está nervosa Não consegue pensar nos próprios problemas sem ser envolta dessa fumaça? – tentei tirar o cigarro da mão dela.

- Vai pro inferno!


– Nós não temos o menor sentido – não contive a frustração na minha voz. Aquilo ia nos consumindo de maneira desgastante. - Eu só me pergunto por que nós não terminamos com isso de uma vez.

- Porque não conseguimos nos largar – foi a resposta calma dela, afagando meu cabelo, mas parecendo tão ou mais frustrada do que eu.


- Você sabia que quando os hipogrifos encontram seu par, eles não conseguem passar mais do que algumas horas longe?

- Hum...

- Agora imagine só se por acaso eles se separam. Poucas horas depois, morrem de saudades literalmente.

- Não gosto de hipogrifos.


- Intensidade é a chave de tudo.

- Sobre o que você está falando, Ginny?

- Você e eu.


- Sejamos francos, nós não somos um casal.

- E...? – lá vinha mais um dos questionamentos dela.

- E aí que eu não entendo o porque de toda essa implicância. Já disse milhares de vezes ao Rony que não tenho nada sério com você e mesmo assim ele fica insistindo para eu acabar meu namoro. Aí eu falo: "mas ele nem é meu namorado", então ele se mostra mais revoltado ainda.

- Por que você não experimenta dizer: "ele apenas satisfaz os meus prazeres carnais"?

Ela jogou uma almofada em meu rosto.

- Se eu dissesse isso você pode ter certeza que não amanheceríamos vivos.


- Draco, você já descobriu qual a sua função aqui?

- Não e você? – perguntei, sem muito interesse.

- Acho que eu sou a pessoa inútil que tira a neve da porta.

The arms safest
(Os braços, os mais seguros)

And words all good
(E as palavras, todas boas)

The faith deepest
(A fé, a mais profunda)

In this world so cold and cruel

(Neste mundo tão frio e cruel)


Ela me fazia parar e pensar quando falava uma daquelas coisas sem sentido. E eu não dizia nada ou dizia o mínimo possível, mas ela lia meus olhos, minha expressão, meus gestos. Ela sabia me interpretar. E eu não conseguia decifrar suas palavras. Mas se eu juntasse todos aqueles diálogos de diferentes Ginnys, eu notaria que ela estava, entre todas aquelas frases, mostrando o que queria dizer.

Só agora entendo aquele papo de neve na porta.

E relembrar tudo isso machuca, mesmo sendo apenas uma questão de pele. Penso em quando eu comecei a me envolver sem perceber? Quando Ginny se tornou uma necessidade em minha vida? Quando eu me entreguei? E se for pensar mais um pouco, nada disso importa. Minha questão agora é descobrir como me livrar disso. Já pensei em um feitiço de memória... mas acho que feitiços de memórias não apagam sensações.

Uma hora eu sei que chegará ao fim. Essa é a única certeza que tenho. E quando isso acabar, eu voltarei a respirar, voltarei a viver do meu jeito. Esquecerei cheiro, toque, gosto. E ela não vai ter mais importância.

We're so close to the flame
(Estamos tão perto da chama)

Burning brightly
(Queimando ardentemente)

It won't fade away and leave us lonely

(Ela não vai enfraquecer e nos deixar sozinhos)

Continua...


N.A: Meio sem nexo esse capítulo. Mas ele ficou do jeitinho que eu queria no final. Desculpem a demora absurda. Eu me mudei, tive problemas com o pc. De qualquer forma acho que daqui pro final desse mês essa fic já tá toda publicada, afinal só são mais dois capítulos. Espero que tenha apreciado, mesmo com essa demora e com o tamanho do capítulo.

E não esquecem das reviews. Quem sabe vocês não acabem vendo o penúltimo cap. daqui pra Páscoa.

P.S: Aquele lance do hipogrifo é mentira!

Bjus!