Capítulo IV – Não se aproxime demais.
O quarto de paredes pastel estava escuro e silencioso, mas a garota deitada na cama não dormia, os olhos brancos como os de um cego sequer estavam pregados, apesar de não fazer diferença. Ela pouco se importava com esse detalhe.
Era só terça-feira, seu décimo dia em Konoha, e parecia que estava ali fazia uma eternidade. Pensando em todos os prós e contras, não havia muita distinção entre estar ali ou no antigo colégio ou mesmo em casa.
Que sorte a dela! Antes mesmo de chegar na cidade fora assaltada, e quando chegou, ficou perdida por horas até ser encontrada por Neji, na barraquinha de ramen, no nível extremo do mau-humor. Ela realmente pulava de um buraco a outro como uma toupeira sem lar, era deprimente.
Fazia mais de uma hora que subira para o quarto afirmando a Neji que se precisasse dela era só chamar, isto depois de servir a ele e a garota, Tenten, com chá e biscoitos.
Será que Neji ia se resolver? Talvez o humor dele melhorasse... Mas a quem ela queria enganar? Mesmo que os ânimos dele melhorassem, o tratamento dele em relação a ela provavelmente pioraria. Ele não a tratava muito bem desde que eram crianças, não seria porque fez as pazes com a 'namorada' que ele passaria a tratá-la bem. Seu pai a enviou para um verdadeiro inferno! Por que com Neji...?
Suspirou pesadamente, colocando o braço sobre os olhos. Quando tinha uns seis ou sete anos, não era assim que seu primo a tratava... Ele era gentil e educado, agia como se ela fosse uma boneca de porcelana facilmente quebrável. Foi apenas entrar na pré-adolescência que seu comportamento mudou completamente, tornando-se o verdadeiro avesso do que era. Até hoje ela não entendia o porquê.
Neji era um poço de contradição, tentar entendê-lo era como entrar num labirinto cheio de curvas, subidas e encostas íngremes. Ela nunca sabia o que esperar dele, que tipo de reação ele teria, pois quando ela pensava que ele explodiria, Neji apenas a ignorava, e quando ela pensava que ele não a via, ele incomodava-se com o simples fato dela existir.
Agora ele metia-se em brigas e se envolvia em algum tipo de relacionamento turbulento. Que tipo de pessoa agiria assim e por quê? Claro que ele tinha problemas, mas quais problemas seriam motivos fortes o bastante para causar uma disfunção em sua personalidade? A mente humana era algo complicado demais para Hinata compreender, ela pensava que talvez fosse a morte traumática da mãe... No entanto ela também não tinha mãe, e o pai dele o tratava incomparavelmente melhor do que o pai dela jamais a tratou... Mas ela também era problemática ao seu modo. Não tinha acessos de cólera e mau-humor, porém sua timidez e retração eram elevadas demais para serem consideradas normais. Ora essa, ela não queria fazer-se de coitada, era a simples e contundente verdade.
Ah, ela sempre dizia a si mesma que nada a respeito do primo era de sua conta, mas acabava, inevitavelmente, preocupando-se, ou quem sabe xeretando. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Que palavra horrível... Já não bastava a vergonha que passou quando desconfiou das intenções de Naruto, agora essa...
Sentando-se na cama, agitou a cabeça freneticamente, tentando afastar os pensamentos, tudo que conseguiu, no entanto, foi ficar zonza. Deitou novamente com um baque macio.
"Preciso parar de pensar... Onde fica o botão de liga/desliga?", disse sorrindo ligeiramente ante a própria piada boba.
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"Eu não tenho a tarde toda, Tenten." Neji disse austeramente, o que pareceu assustar a garota por alguns instantes, pois ela arregalou os olhos ligeiramente.
"Pois eu também não. E se ainda não percebeu, já passou das seis, portanto é noite. N-O-I-T-E."
"Eu entendi, não precisava soletrar." Havia uma lasca de irritação no tom de voz do rapaz, fato que deixou Tenten visivelmente satisfeita.
"Ok." A garota sorriu de forma aprazível.
"O que quer?"
"Seu pai não te ensinou a não ser grosso com as pessoas? Francamente..."
"Se você veio aqui apenas para me arreliar, é melhor ir embora, não estou com paciência." Falou com os olhos fechados, e Tenten remexeu-se nervosamente no sofá.
"Tudo bem!", a adolescente jogou os braços para o alto após um longo período de silêncio. "Não vê que estou nervosa? Antigamente você costumava perceber isso quando eu começava a falar um monte de coisas que não tem nada a ver!"
"Sim, antigamente."
"Argh, Neji, você me tira do sério! Como pode ser tão cabeça dura?" Ela praticamente cuspiu as palavras. Era provável que, do quarto, Hinata pudesse ouvir.
"Você traiu minha confiança." Falou Neji com a voz controlada e baixa. "Como esperava que eu reagisse? Que a parabenizasse?"
Tenten franziu o cenho, os olhos ficando perigosamente estreitos: "Tá dizendo que tá com ciúmes, Neji?"
"E por que eu estaria?" Replicou estóico.
"E por que não estaria?" Rebateu a garota.
"Você sabe melhor do que eu que não damos certo juntos."
"Ah sim, por causa da outra pessoa, não?"
"Não, por incompatibilidade mesmo."
"Então por que você não aceita o meu namoro?"
"Por que você o escondeu de mim?"
"É por que é com o Lee? Você nunca aceitou perder pra ele, em nada."
"Mas ele nunca me venceu em nada."
"Ahá! Está vendo. A questão não é eu não ter contado a você e sim o fato do meu namoro ser com o Lee." Tenten concluiu e abriu um sorriso enorme. "Você vai ter que engolir!"
Neji respirou fundo, quase fungando de raiva.
"Eu ia contar pra você, Neji, na hora certa. Mas você descobriu por terceiros..." Resignou-se Tenten e logo em seguida levantou-se do sofá.
O garoto a seguiu com os olhos até a porta.
"Apenas se lembre que escondemos, e continuamos a esconder, do Lee e de todos o nosso quase namoro." Falou ao tocar a maçaneta. "Agradeça a sua prima pelo chá e biscoitos. Estavam ótimos."
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A noite se foi e outro dia amanheceu... E era apenas segunda-feira...
O que seria pior: mais um dia na escola ou aturar o péssimo humor matinal de Neji?
Respirando fundo, Hinata abriu a porta do quarto e desceu as escadas, já vestida para o colégio e com a pasta debaixo do braço.
"B-bom dia." Falou ao chegar na cozinha.
"Bom dia, Hinata." Cumprimentou Hizashi. Apenas ele estava na cozinha. Neji ainda não havia acordado? Notando a indagação muda de Hinata, o tio emendou: "Ele já foi pra escola. Havia reunião do grêmio."
"Ah sim." Ufa, menos mal.
Após tomar o café, a garota saiu de casa, como de costume, mas pela primeira vez desde que se mudou para Konoha, percebeu uma movimentação fora do normal na calçada da casa vizinha.
Aqueles eram seus vizinhos? Nunca em sua vida vira um cabelo tão absurdamente vermelho... Era natural?... E o uniforme do garoto era o mesmo do seu colégio. O outro que o acompanhava também usava o uniforme conhecido. Era curioso que ela ainda não tivesse visto nenhum dos dois pelos corredores... Bem, ela também não era de ficar olhando para os lados e reparando nos outros. Esta foi apenas uma coincidência.
"Tá olhando o quê, sua sonsa?"
Hinata tomou um susto. Em meio ao devaneio esquecera-se completamente que ainda olhava para os estranhos vizinhos. Os olhos claros, perceptíveis mesmo a certa distância, e exageradamente delineados em negro encaravam-na com um brilho quase assassino. Imediatamente ela baixou a cabeça e apertou o passo. Era até mais medonho que o olhar de Neji.
"Eu falei com você, pirralha!"
Pirralha? Ele não parecia ser mais velho que ela, e nem mais alto. Mas quem se importava? Ela estava tremendo de medo... Talvez fosse melhor correr.
"Ai meu Deus..." Hinata sussurrou. Só pela expressão intimidadora, ela sabia que ele era perigoso, e muito!
"Gaara, pare de implicar com os vizinhos." Falou uma voz feminina vinda de longe. O garoto resmungou, mas deixou Hinata ir, esta nem sequer olhou para trás para saber de quem era a voz temerosa. A menina ouviu o outro garoto começar a gargalhar até a risada morrer com a distância. Finalmente respirou aliviada. De preferência, nunca mais olharia naquela direção.
Ao chegar na escola foi correndo ao banheiro, pois precisava lavar o rosto, sentia-se gelada e pálida como um defunto, e não era por causa do friozinho da manhã.
"Se não é a priminha do Neji..." Uma voz aguda e nasalada vinda de um box assoviou. Hinata, que pensava começar a se sentir melhor, gelou novamente. Ela conhecia essa voz...
"Kin..." Murmurou olhando pelo espelho a garota de longuíssimos cabelos castanhos e lisos.
Kin era uma garota particularmente inconveniente aos olhos de Hinata. Estava no terceiro ano, mais precisamente na classe de Neji, e todos na escola pareciam conhecê-la. Andava sempre com dois rapazes a tiracolo, além de suas amigas puxa-saco.
"Que cara é essa? Viu um fantasma por acaso? Ou essa cara de mosca morta é o seu normal, sua sem graça?"
"É-é..." Começou a gaguejar. Hoje não era o seu dia...
"Siiim?" Indagou ironicamente e começou a rir. "Pelo visto o gato comeu sua língua, como sempre!"
Droga, se não era Neji eram essas garotas populares que adoravam persegui-la. Por que não conseguia responder? Por que diabos não se mexia? Queria pelo menos apagar a expressão de medo em sua cara, mas logo pensou que sua expressão havia piorado quando Kin olhou para os lados, provavelmente certificando-se de que o banheiro estava vazio, e sorriu maquiavélica.
"Que tal brincarmos um pouquinho?" Falou pegando um balde cheio d'água que amparava uma goteira.
Hinata arregalou os olhos, retrocedendo a passos lentos. Sua boca abria e fechava, mas som nenhum saia, até que um grunhido baixo escapou de seus lábios, ao notar que era fim de linha: estava encostada na parede.
"Um banho de manhã não faz mal nenhum, principalmente se for pra acordar garotas sem sal como você..." Sorriu e em seguida despejou a água fria do balde sobre Hinata.
Sem reação alguma, a garota escorregou até o chão, ficando completamente imóvel e de cabeça baixa, a respiração tão tensa que fazia um barulho chiado.
"Sinceramente, queria saber como alguém com você pode ser parente de alguém como o Neji-kun..." Kin disse antes de sair, jogando os cabelos para trás, num gesto desdenhoso. A porta se fechou em seguida.
Ainda respirando pesadamente, Hinata ergueu os olhos, fulminando a porta com o olhar.
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"Meu Deus, Hinata! O que aconteceu?" A voz assustada de Sakura se fez ouvir.
"E-eu me molhei." Falou simplesmente. Naquele instante, Hinata torcia sua saia enquanto tentava secar o cabelo no ar quente do secador de mãos. Ela tremia de frio.
"Quem fez isso, Hinata?" Indagou Sakura.
Claro que Sakura não havia acreditado... Era melhor inventar uma desculpa melhor.
"E-escorreguei n-no piso molhado e d-derrubei o balde, e-então me m-molhei." Falou, havia gaguejado mais que o normal, talvez fosse o frio ou o nervoso ao mentir.
"Oh, como você é desastrada...", Sakura disse, mas não parecia ter acreditado. Hinata julgou que não importava, desde que ela parasse de fazer perguntas. "Vem, precisamos ir pra enfermaria."
"N-não!" Falou rápido, mas logo se corrigiu. "Tudo bem, não precisa."
"Mas você não vai conseguir se secar aí... Vamos, ou vai pegar um resfriado."
Hinata não viu outra alternativa a não ser seguir Sakura. Mas como ela sairia do banheiro? Todos a veriam molhada...
Percebendo o dilema de Hinata, Sakura tirou o próprio terno e cobriu os ombros da colega.
Ao saírem do banheiro, Hinata mal deu meia dúzia de passos para virar o corredor e deu de cara com quem ela mais queria ver longe, bem longe...
"Neji-nii-san?"
A surpresa era evidente na face de ambos, mas Neji foi o primeiro a se recuperar, a expressão mudando para uma de... Raiva?
"Eu não vou perguntar o que aconteceu." Ele falou e mordeu o lábio inferior, provavelmente tentando se controlar. Hinata se encolheu de medo.
Pressentindo o perigo, Sakura interveio.
"Neji-san, Hinata precisa ir para a enfermaria."
Neji fitou Sakura, de repente parecendo notá-la.
"Deixe que eu a levo." E puxando Hinata pelo ombro, praticamente arrastou-a dali.
Olhando para trás, Hinata pedia com os olhos, desesperada, ajuda da colega de classe, mas o que Sakura podia fazer? E ela também não entendia o motivo de Hinata parecer tão assustada em relação a Neji... Só por que ele era um abutre, como Kiba havia dito? Que exagero, eles eram primos!
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"E-eu escorreguei no piso e esbarrei no balde e-e...", começou Hinata, estava realmente nervosa e trêmula.
"Eu disse que não perguntaria o que aconteceu. Não quero explicações." Neji cortou-a friamente.
Ora essa, como ela podia ser tão estúpida? Querer enganá-lo com uma mentira tão mal contada! Ela nem sabia mentir...
Enquanto seguia para sua própria classe, Neji havia cruzado com Kin que fizera questão de dirigir-lhe um sorriso dissimulado e dizer sem demonstrar o mínimo remorso que Hinata estava no banheiro, totalmente ensopada.
"Coitadinha, tão desajeitada! Escorregou e caiu. Seria bom você dar uma olhada, querido."
Imediatamente Neji captou o que acontecera e quando viu Hinata não teve dúvidas. Kin fizera o serviço. Maldita, como podia ser tão falsa? Seus sapatos estavam chapiscados de água. E por que diabos Hinata tentava esconder? Estúpida... Estúpida.
"Como pode ser tão estúpida? Por acaso tenho cara de idiota?" Indagou Neji de repente, parando no meio do corredor enquanto virava Hinata de frente para si bruscamente.
A garota baixou a cabeça, totalmente envergonhada.
"Droga...", murmurou o garoto, passando a mão pelo cabelo, a franja comprida caiu em mechas pelo rosto pálido. "Não minta pra mim, Hinata, ou vai se arrepender. Eu sei o que aconteceu."
Hinata arregalou os olhos, mas não encarou Neji. Sua respiração se alterou visivelmente.
Com um suspiro Neji se recompôs, talvez tivesse se excedido, afinal, Hinata não tinha culpa.
Vendo que não tinha jeito, logo voltou a puxar a garota em direção a enfermaria.
O sinal da primeira aula já havia batido e o corredor estava vazio.
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Aquela com toda certeza havia sido a pior segunda-feira de sua vida. E como todo dia ruim parece demorar mais a passar, ainda era de tarde, o Sol insistia em manter-se no céu, mas felizmente já estava para anoitecer.
Hinata ainda não sabia o que faria a respeito de seu problema na escola, não queria pedir, e não podia, ajuda de ninguém. Mal conhecia Naruto e Kiba, as únicas pessoas que lhe vinham à mente para pedir socorro. No entanto eles já a ajudavam demais mantendo delinqüentes longe enquanto estavam por perto. E eles mesmos costumavam dizer: "ora essa, nós somos delinqüentes! A grande diferença com os outros é que simpatizamos com você.".
Bem, eles podiam se achar como os outros, mas para ela eram completamente diferentes.
Estava sozinha afinal, e precisava se virar sozinha. Era para isso que seu pai a havia mandado para Konoha, não era?
Mas Kin não estava só. Ela tinha seu próprio grupo que a acobertava... O que faria para se livrar dela? Céus...
Mesmo que por um instante mínimo, a palavra 'livrar' fez brotar em sua mente como pragas de ervas daninhas cenas de filmes de assassinato. Precisava parar de assistir TV...
Na verdade, precisava parar de pensar em coisas estúpidas.
Estúpida... Estúpida. Estúpida!
De repente lembrou-se de Neji. Ele sabia! Mas... Será que ele sabia mesmo ou estava blefando quando disse que sabia o que tinha acontecido? O que ela faria a respeito disso também?
"O que eu faço?"
E se ele contasse para tio Hizashi? E se tio Hizashi contasse para seu pai?
"Céus..."
E agora?
Bem, pensando melhor, Neji não era do tipo fofoqueiro. Ele não falaria nada para ninguém... Não é? Não, ele não falaria. Ora essa, precisava dar um voto de confiança para ele, ou estaria perdida. Ele não havia falado nada para a enfermeira, afinal de contas.
Certo, um problema a menos.
Toc, toc.
"Hinata?"
Ou talvez não...
(continua...)
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N/A: não sei se fiz certo colocando o ponto de vista do Neji... Será que não ficou estranho só naquele trechinho? Eu só achei que seria importante mostrar que as reações estranhas dele nem sempre (ou quem sabe nunca, sejamos otimistas) são o que a Hinata pensa.
E não teve Sasu x Naru neste capítulo, mas o próximo será praticamente deles, promessa xD.
E por favor, pessoal, digam-me sinceramente o que estão achando... Tenho a forte impressão de que estou sacrificando a qualidade pela quantidade...
Peço desculpas pelo atraso e desculpas especiais à Nandinha Shinomori, pois ainda não lhe respondi o review... Desculpa, moça! Até o próximo fim de semana sai, andei meio enrolada com a escola... (amanhã tem ENEM, e eu aqui, morgando...)
