DOCE DEZEMBRO
Capítulo 4
Finalmente chegou ao seu prédio. Olhou no relógio. 22:00. Shun já deveria estar chegando. Precisava se apressar...
Início do Flashback
Depois daquele encontro turbulento com Seiya, Ikki deixou o trabalho – enviando sua carta de demissão conforme anunciado – e ficou sem saber o que fazer. Num primeiro instante, pensou em ir direto para seu apartamento. Mas logo em seguida, se deu conta de que não tinha nada para fazer por lá. Aliás, a verdade é que ele não tinha nada para fazer em lugar algum. Assim, começou a andar sem rumo, sem direção. Como havia tempo que não fazia algo assim... há quanto tempo ele não ficava simplesmente andando à toa! Sempre tinha tantos compromissos a cumprir que agora sentia-se até... estranho.
Sem perceber, seus passos foram levando Ikki para um parque bastante agradável. Era impressionante: esse parque ficava a poucos metros do local onde trabalhava e ele nunca tinha parado para apreciar a beleza desse lugar!
- Bem, vamos corrigir isso agora. – pensou Ikki, que resolveu aproveitar esse agradável ambiente para uma caminhada relaxante – Afinal, estou precisando me acalmar mesmo, para colocar as idéias em ordem.
Ikki então começou a caminhar mais devagar, buscando apreciar cada pequeno detalhe que encontrasse pelo caminho. Não podia negar que esse passeio estava sendo bastante prazeroso, até que resolveu parar um pouco para apreciar o belíssimo dia que fazia.
Realmente, era uma bela manhã, de um tipo raro de se ver no mês de dezembro. Fazia frio, mas a manhã era clara, pois o sol brilhava intensamente no céu límpido e muito azul...
Foi então que Ikki começou a ver de novo a imagem daquele escritor em sua mente... Seus olhos azuis... Puxa, o que eram aqueles olhos azuis? Tão azuis quanto aquele céu magnífico, tão envolventes quanto misteriosos... Olhar para eles era como mergulhar em um rio de águas límpidas, porém profundas. Sim, aqueles olhos poderiam tragá-lo por completo. E, sem perceber, Ikki se perguntava se não gostaria de saber o que aconteceria se ele permitisse que isso acontecesse...
Era estranho ter tais pensamentos em mente. Na verdade, Ikki nunca pensava em mais nada que não fosse trabalho – até por falta de tempo. Mas agora não havia horários a serem cumpridos, nem uma agenda a ser seguida. É claro que ele tinha muitas coisas em que pensar, como o que fazer de sua vida profissional agora que estava "desempregado". Contudo, pensar em Hyoga estava sendo algo bastante agradável e Ikki o fazia sem ao menos se dar conta disso; ele simplesmente pensava nele... Foram poucos os minutos em que estivera na presença daquele rapaz loiro, mas foi o suficiente para que Ikki já pudesse guardar um retrato mental dele. Aliás, um perfeito retrato mental... O homem de cabelos azuis escuros surpreendia-se ao perceber que lembrava-se de cada detalhe da fisionomia do jovem escritor. Seu rosto, suas expressões, seu cabelo balançando ao sabor da brisa fria daquela manhã... Normalmente, Ikki ficaria encucado com esse fato e tentaria entender como foi capaz de prestar tanta atenção em alguém que acabava de conhecer. Porém, ele estava tão envolvido e interessado em apreciar cada detalhe de suas lembranças acerca desse rapaz, que não fez a menor questão de pensar em qualquer outra coisa o dia inteiro. Não se questionou ou tentou buscar explicações para essa situação, apenas deixou-se levar por aquela agradável sensação que o fez inclusive perder a noção do tempo. Quando, finalmente, deu por si, já era noite. Havia andado por quase toda a cidade – apesar de nem ter percebido – e só à noite começou a sentir fome. Foi aí que se lembrou de Shun e, ao olhar no relógio, viu que já era quase hora de se encontrar com ele. Correu em direção ao seu apartamento, na esperança de chegar a tempo.
Fim do Flashback
Felizmente, quando se viu diante de seu prédio, ainda não havia nem sinal do seu irmão. "Que bom, acho que ele se atrasou um pouco". E, pensando assim, subiu o mais rápido possível ao seu apartamento.
Lá chegando, tratou logo de ligar para uma pizzaria a fim de fazer o pedido para o jantar. Assim que desligou o telefone, ouviu o interfone tocar. Olhou no relógio. 22:10. "Ufa!", pensou Ikki. "Bem na hora".
Apertou o botão do interfone e destrancou a porta. Em seguida, sentou-se no sofá com o intuito de fazer aquela afobação estampada em seu rosto desaparecer, pois estava muito agitado e não queria deixar seu irmão alarmado – ele sabia bem como Shun preocupava-se demais com essas coisas. Então, pegou uma revista que estava ali por perto e começou a folheá-la, de modo que quando Shun adentrou o apartamento, Ikki já estava aparentemente calmo.
- Boa noite, irmão! – disse Shun, muito alegre, ao entrar.
- Boa noite. – respondeu Ikki, sem tirar os olhos da revista.
- A comida já chegou? – perguntou Shun enquanto depositava no chão umas sacolas abarrotadas.
- O que é isso? – disse Ikki, esquivando-se da pergunta de Shun.
- Ah! Isso aqui? São coisas da escola. Hoje fomos atrás de uma costureira para fazer as roupas dos meninos. No coral desse ano, estamos querendo inovar em tudo! Consegui conversar com várias costureiras da cidade e acho que encontrei a que pode fazer um excelente trabalho pelo menor preço possível. Peguei com ela uns modelos, amanhã eu vou levar para os meninos experimentarem e ver se preciso de... – Shun interrompeu sua fala ao perceber que seu irmão não o estava mais escutando. Ikki mantinha o olhar fixo às sacolas, mas não estava olhando para elas. Seu olhar estava perdido em algum lugar, provavelmente bem distante dali.
- Ikki? – disse Shun, enquanto agitava uma mão bem em frente ao rosto do seu irmão, buscando chamar sua atenção.
- Ahn? – disse Ikki, sacudindo a cabeça, como quem desperta de um sonho – Desculpe, Shun. O que disse?
- Nada. – respondeu o irmão, tristemente.
Ikki percebeu que havia chateado Shun e sabia que o tinha feito por estar novamente com a cabeça perdida naqueles olhos azuis celestiais. Era incrível: pensara naquele escritor o dia todo e ainda assim, não conseguia deixar de pensar nesse jovem. Chegou à conclusão de que não houvera problema em pensar nele durante toda a tarde, pois já que estava andando à toa, podia ficar pensando em qualquer besteira – não que Hyoga fosse, propriamente, uma besteira. Mas o fato era que agora Ikki precisava regressar à sua realidade. Tivera uma tarde inteira para descansar e recuperar o fôlego depois daquela manhã desastrosa. E tudo bem fazer isso, ele estava em seu direito; mas agora era hora de se concentrar em coisas mais importantes. Resolveu então compartilhar esses pensamentos com Shun.
- Shun, eu tenho uma... ahn... novidade, por assim dizer.
- Sério? – sorriu Shun – Que legal, Ikki! Normalmente, você sempre chega em casa dizendo que teve um dia difícil, como sempre! É bom haver novidades para animar um pouco a sua vida!
- Pois é, Shun... Eu não diria que esse é o tipo de novidade que anima... Enfim... – respirou fundo antes de começar a falar – Eu me demiti hoje.
Shun não esboçou qualquer reação. Parecia não ter acreditado no que ouvira. Estava em estado de choque. Ikki, seu irmão que vivia para trabalhar se... demitindo? Algo estava muito errado aí...
- Shun, eu sei que parece meio repentino, mas não se preocupe. – Ikki continuava falando, sem se dar conta do estado em que se encontrava seu irmão – Eles precisavam mais de mim que o contrário. Vou encontrar fácil outro emprego... talvez até melhor que esse.
Nesse momento, Ikki fez uma pausa. Apesar de estar certo de que arranjaria outro emprego tranqüilamente, ele sabia que encontrar um cargo de posição tão elevada como a que ele tinha nas empresas Kido não seria nada fácil. Além disso, conseguir um cargo melhor era ainda mais difícil. Afinal, acima do cargo em que trabalhava estavam apenas aqueles de muita confiança, que só se consegue depois de muito tempo de casa. Ikki estava próximo de conseguir um cargo desse tipo nas empresas Kido, mas agora... teria de começar tudo de novo. Até ganhar a confiança da diretoria de uma nova empresa, levaria algum tempo e Ikki já começava a se impacientar com isso. Esse era seu grande objetivo e estava quase atingindo-o, até a chegada do novo diretor-geral... como Ikki o odiava agora...
Percebendo que o irmão havia se calado, Shun, que já havia se recuperado do susto, disse:
- Claro... claro que sim, irmão. – falou, sentando ao lado dele – Não há nada que você não possa conseguir. Afinal, você é Ikki Amamiya.
- É verdade... – Ikki deu um sorriso – Eu sou Ikki Amamiya. Só de escutar o meu nome, muita gente poderosa já estremece...
- Exatamente. É como você disse, não há necessidade de se preocupar. Quando você quiser um novo emprego, vão chover boas ofertas!
- Sem dúvidas! – falou Ikki, abrindo um sorriso maior.
- Inclusive, já que temos tanta certeza disso... você poderia até, quem sabe, tirar umas férias!
- O quê? – disse Ikki, surpreso.
- Ora, irmão... é a oportunidade perfeita! Há anos que você não tira férias por conta desse seu emprego. Sempre havia algo a fazer... mas não agora! Agora, você está livre! Esse é um momento importante, pois será uma espécie de intervalo que marcará sua vida! Dependendo do modo como você se preparar, poderá iniciar um novo momento da sua vida da melhor forma possível... ou não.
- E você acha que a melhor forma de me preparar para essa nova fase da minha vida é tirando férias?
- Claro, Ikki! É o momento ideal para você dar uma parada, descansar, recuperar o fôlego! Se você tirar uns dias para você, quando for contratado em uma nova empresa, não vai ter quem te segure, porque você vai chegar com força total!
- Hum... É, Shun... O que você fala faz sentido...
- Claro que faz, Ikki! – dizia Shun, empolgado em ver que estava conseguindo convencer o irmão.
- Aquele diretorzinho me deixou bastante estressado mesmo... – falava Ikki, passando a mão pelo queixo em ar pensativo.
- Pois não vamos deixar que ele atrapalhe quem você vai ser daqui para frente! – continuava falando Shun, induzindo o irmão a gostar cada vez mais da idéia.
- Tem razão, Shun. Vou tirar umas férias. Acho que eu mereço mesmo!
- Viva! – Shun batia palmas de alegria – Ikki, irmão... você tomou a decisão certa! Aliás, a decisão certa e no momento certo! Afinal, estamos na época de festas... e ninguém trabalha de verdade nessa época do ano.
- Eu trabalhava. – disse Ikki.
- Tá, mas era só você... – brincou Shun – E o que eu quero dizer é que o melhor será procurar emprego no começo do ano. Agora, as pessoas não estão com cabeça para analisar currículos e tudo o mais.
- Sim, você está certo de novo. – Ikki sorria da alegria do irmão ao vê-lo dando-lhe razão tantas vezes seguidas. – E já que hoje você está assim tão sábio, diga-me... quanto tempo acha que seria ideal para eu descansar o suficiente?
- Bem... como eu sei que você não iria gostar de ficar muito tempo parado... eu diria... 1 mês.
- 1 mês inteiro? – perguntou Ikki.
- No mínimo, irmão. – respondeu Shun, seriamente.
Ikki olhou sério para Shun. Percebeu que o irmão não estava brincando. E decidiu que 1 mês não seria tão terrível assim. Na verdade, poderia ser uma boa idéia. E após 1 mês de férias, começaria o ano novo descansado, novo em folha e pronto para recomeçar.
- Pois bem... Está decidido. – disse Ikki, levantando-se do sofá para dar um ar mais importante à informação a ser anunciada – Estou, oficialmente, em férias. E por 1 mês!
- Muito bom, irmão! – disse Shun, levantando-se também para abraçar o irmão.
Ikki aceitou o abraço de bom grado. Realmente, estar descansado era bom... Era visível a diferença de seu comportamento por ter relaxado à tarde. Era capaz de ver o irmão com menos impaciência e aproveitar mais o carinho com que era tratado por ele. Sentiu-se tão feliz naquele breve momento que, impulsivamente, disse:
- Shun, você tem sido um ótimo irmão para mim e agora quero retribuir de algum modo. Vamos lá, aproveite que estou de férias e peça-me algo.
Shun não pensou duas vezes e disse logo, antes que Ikki pudesse mudar de idéia:
- Eu quero que você me ajude com o concerto de Natal que estou montando.
No mesmo instante, Ikki fez uma careta demonstrando que não tinha gostado muito do pedido de seu irmão. Mas era um homem de palavra e resolveu aceder.
- Está bem, Shun, está bem... O que quer que eu faça? – disse Ikki, resignado.
- Quero que amanhã você fale novamente com aquele escritor.
- Com o Hyoga? – disse Ikki, surpreendendo-se ao falar dele já com tanta familiaridade.
- Sim. Preciso que apresente meu projeto para ele amanhã.
- Mas, Shun... – falou Ikki, um pouco confuso – Eu não te disse que já falei com ele? E que não deu em nada?
- Sim, falou. Mas acontece que eu sou muito persistente. Daí, resolvi que não perderia essa batalha sem lutar com todas as forças. Então, resolvi dar uma passada na casa do escritor...
- Espera um pouco! – falou Ikki, um pouco nervoso – Você foi até lá... Hoje? Mas você não tinha me dito que não poderia ir porque estava cheio de coisas para fazer?
- E eu estava cheio de coisas para fazer! – respondeu Shun, angelicalmente, ignorando o nervosismo do irmão – Mas, depois do que você me disse hoje de manhã pelo telefone, eu decidi que precisaria mudar minha agenda do dia. Precisava tentar falar com ele para convencê-lo. E consegui, mas isso me atrapalhou bastante! Não tive tempo de visitar todas as costureiras que eu queria, mas deu tudo certo no final. De todo modo, foi por causa desse contratempo que me atrasei para vir aqui.
- Você só se atrasou 10 minutos, Shun... – falou Ikki, passando a mão pela cabeça.
- É, mas eu sei que você não tolera atrasos. Por isso, sempre cuido para nunca perder a hora e me atrasar para jantar. Mas hoje não teve jeito; isso era importante e valeu o atraso.
- Mas Shun... se eu soubesse que você poderia ter ido até a casa desse escritor por conta própria e que isso faria com que você se atrasasse só 10 minutos para chegar aqui, eu não me importaria!
- Ikki, você não me entendeu... eu só perdi 10 minutos porque dei apenas uma passada por lá. Não cheguei a falar do projeto propriamente. Foi só o tempo de, literalmente, pedir que ele conversasse novamente com você amanhã.
- Espera um pouco. Por que eu? Por que não vai você mesmo lá de novo?
- Porque, como eu já disse, estou cheio de coisas para fazer, Ikki! Esqueceu que sou o coordenador do projeto? Já estou com muitas coisas nas mãos.
- E isso dá a você o direito de me envolver em coisas das quais eu nem estou ciente.
- Ah, Ikki... eu só falei que você ia porque você é meu irmão... e eu sei que sempre posso contar com você.
Sempre que Shun fazia aquela cara de desconsolado, Ikki não conseguia negar nada ao irmão caçula.
- Ai, Shun... Está bem. Mas vou fazer só isso e pronto. Não me envolvo em mais nada desse seu projeto, ok?
Shun sorriu. Ikki já voltara a ser ele mesmo, ranzinza e reclamão. Mas não havia problema. Já tinha conseguido o que queria.
- Sem problemas, Ikki! Então, amanhã, já que você está de férias, vá à casa dele no horário que achar melhor! Apresente o projeto e não aceite um "não" como resposta! Aliás, nem precisa se preocupar muito, conversei com ele e já o deixei mais maleável e receptivo. Amanhã, você só precisa chegar e fechar o negócio! – disse Shun, com um sorriso muito alegre no rosto.
- Ahn... vocês conversaram sobre o quê? – perguntou Ikki, um pouco apreensivo, pois havia mentido a Shun sobre como fora sua conversa com Hyoga naquele dia.
- Ah, basicamente... sobre ele aceitar falar com você de novo. – respondeu Shun, tentando não se alongar na resposta. – Escuta, essa pizza ainda vai demorar muito? – perguntou para desviar o enfoque da conversa.
- Não, já deve estar chegando... – disse Ikki, suspirando de alívio por achar que a conversa entre o jovem loiro e seu irmão havia sido superficial. Por um instante, sentiu medo de se mostrar vulnerável ao irmão e temia que Shun pudesse ter percebido, na breve conversa que tivera com aquele rapaz, o que havia acontecido entre Ikki e ele. Mas então, Ikki pensou: "Ora, mas não aconteceu nada entre a gente!"
A campainha tocou e Ikki, rapidamente, dirigiu-se à porta, como se esse gesto espantasse aqueles pensamentos que tanto o incomodavam. Aproveitando que Ikki se afastara, Shun retirou um papel de seu bolso e leu as seguintes palavras.
Hyoga Yukida – Serviço de Acompanhamento Afetivo.
Satisfação do cliente garantida ou seu dinheiro de volta.
Tempo de duração – 1 mês.
Valor: 10.000 dólares.
Tratava-se de uma espécie de contrato. Shun lia e relia esse papel, como que tentando vislumbrar se havia feito o que era certo. Havia fechado o contrato essa tarde. Ainda podia voltar atrás, se quisesse... mas teria de ser logo, pois assim que Ikki começasse o tratamento, não haveria mais volta. Leu mais uma vez o contrato e viu ali sua assinatura, e logo abaixo, a assinatura de Hyoga Yukida. Céus, isso parecia tão errado... mas, pelo que tinha ouvido, era tão certo...
Ouviu seu irmão chamá-lo da cozinha, anunciando que o jantar já estava na mesa. Isso o fez acordar de seus pensamentos. Dobrou o papel cuidadosamente e o colocou de volta no bolso da calça, enquanto se dirigia à cozinha. "A sorte está lançada", pensou. Assim, decidiu que, agora, o melhor era deixar tudo a cargo do destino... e de Hyoga Yukida.
Continua...
