N/A: Para você que reclamava dos meus capítulos curtos... Enjoy!

Desculpe a quebra excessiva deste capítulo, mas, ele tem (creio eu) muitos "momentos isolados", que não poderiam ser deixados completamente juntos, mas, também, são curtos demais para terem um capítulo cada um.


In & Out

Marcus Flint era quem estava lá. Estava pondo suas coisas numa das gavetas quando se deu conta de quem era o dono das malas que encontrara no quarto.

- Não me diga que você vai ser o meu colega de quarto. Sério... – Oliver olhava-o incrédulo, porém exausto – Diga que está arrombando meu quarto por prazer.

- É, como se eu tivesse algum prazer em ficar no seu quarto!

Os dois se entreolharam, ira e cansaço mesclando-se nos orbes castanhos e azuis dos garotos, que mais pareciam velhos, acabados depois de um longo dia de trabalho.

-... E o que significa isto? – perguntou, por fim, o garoto de cabelos castanhos, apontando para a porta.

- Ah... – Marcus pareceu, curiosamente, sem jeito – Você é idiota de levar a chave com você?

- Você... Você arrombou mesmo o seu próprio quarto? – Wood pousou a mão na testa.

"Só pode ser uma piada de mau gosto...", lamentou-se, tentando imaginar se aquilo não seria uma ilusão. Apertou bem os olhos, abrindo-os lentamente em seguida. A porta – e Marcus – continuavam lá.

- E você pretende...

- Eu já falei com a monitora do corredor, então não me trate como criança!

- O que ela te disse?

- E isso te interessa? É problema meu! – disse o moreno, trombando com o ombro de Oliver – Agh, vou almoçar...

"Claro que me interessa... Quando o quarto era só meu, ele tinha tranca e dobradiças funcionando!", pensou o outro, encarando a porta caída.

- Ah! – Flint exclamou, já fora do quarto – Escolhe sua cama. Você chegou primeiro e venceu hoje, então... Se não escolher logo, vou dormir na que quiser!

Oliver franziu o cenho, vendo o musculoso troglodita caminhar pelo corredor. Suas formas eram harmoniosas para alguém que não tinha o mínimo senso de como se comunicar em sociedade. Além disso, sua última fala deixou a entender que, por mais infantil e orgulhoso que fosse, no fundo, ele possuía algum princípio. Qual era, Oliver não estava muito interessado em saber. Encarou uma última vez a porta tombada e optou por não se estressar, ainda mais que seu intervalo de almoço estava acabando e ele não havia comido nada até então.

Seguiu, então, para o refeitório.


Aquela tarde foi lenta e cansativa para Oliver, que só pensava em dormir. Tivera mais duas aulas antes de ser liberado para aproveitar o tempo como bem entendesse – isto é, fazendo deveres já que, ao término do primeiro dia, estava cheio deles. Pensou em dar uma olhada no mural de atividades, ver se encontrava algum clube ou qualquer coisa extracurricular que lhe parecesse interessante. Aparentemente, tudo o que poderia encantar-lhe os olhos era a seleção para decidir quais seriam os garotos que representariam o colégio no torneio de futebol interestadual. O anúncio dizia que o time titular havia se formado, e Oliver deduziu que os veteranos ali presentes não pareciam muito interessados.

"Tratar com Hagrid", dizia o anúncio, "Secretário substituto".

Lá se foi Oliver Wood ter com Hagrid.

O garoto gostaria muito de ser do tipo intelectual, que participava de grupos de debate, ou mesmo de leitura, mas nunca conseguira parar quieto nesse tipo de atividade desde que descobrira o gramado. Era de pequeno que corria sem parar, brincava de chutar coisas e observava atentamente os movimentos alheios. Não era calculista como pessoa, mas dava um ótimo técnico.

- Eu gostaria de me inscrever para a seleção de...

- Olá! – respondeu simpático o homem barbudo do outro lado do balcão. Aquele era, provavelmente, Hagrid – Como vai, meu jovem? Vai tentar a sorte também?

"Nem o cumprimentei... Será que estou ficando mal humorado?", Oliver coçou a cabeça, constrangido.

- Boa tarde, senhor...

- Hagrid! – o homem sorriu – Pode me chamar só de Hagrid, filho.

-... Hagrid. Então... Que tipo de cargo estão oferecendo?

- Como assim? – o barbudo parecia confuso.

- Ahm... Gostaria de saber se tenho chances como técnico ativo do time.

- Ah, bem... Não exatamente – ele abaixou o tom de voz e, instintivamente, a cabeça, como se quisesse se esconder atrás de seu balcão – Sabe, não comente com ninguém que te disse isso, mas, nunca tivemos grandes jogadores nesta escola. Você pode tentar entrar como jogador e acabar opinando nos treinos! O que acha? É uma opção...

Oliver sorriu. Depois de ver um troglodita todo engomado como Flint, alegrava-se em saber que ainda existiam boas almas no mundo – ironicamente, mal barbeadas.

- É, não custa tentar. Meu nome é Oliver Wood, prazer! – o garoto estendeu a mão.

Hagrid retribuiu o gesto, apertando com certa força a mão do mais novo, que sentiu esta adormecer por um momento. Tentou disfarçar com um sorriso amarelo e, em seguida, voltou-se para uma grande porta que estava a seu lado. Estava com uma vontade imensa de conhecer todo o terreno da escola, e achou que aquela hora era a mais apropriada. Afinal, não faltaria tempo para os deveres.

Assim que cruzou a porta, Oliver deu de cara com um extenso corredor, que ele sabia levar até os telefones e, em seguida, à ala externa da escola. Caminhando paciente, começou a ouvir uma voz conhecida esbravejar. Era Marcus.

- Não, mãe! Eu não estava com... – seu tom de voz era furioso, impaciente - Mãe, eu já te disse que eu não fiz nada com ele! Ah... Você quer me ouvir? Mãe... QUE MERDA, MÃE!

Oliver estava certo de que Flint havia partido o telefone em milhares de partículas, mas surpreendeu-se ao constatar que o objeto continuava intacto. Foi caminhando na direção do outro, distraído, como se não tivesse ouvido nada daquilo. O moreno demorou a perceber a presença dele ali, e se espantou com esta.

- Você...

- Eu vou dormir na cama de cima – disse Oliver, seco. Os problemas familiares de Marcus não lhe eram pertinentes, e ele não tinha a mínima intenção de mudar isso. Seguiu, então, até sair dali.

O moreno, por outro lado, ficou parado um tempo, torcendo para que a fala de Wood significasse um "Não, eu não ouvi sua conversa. Eu não sei sobre você".

Chegara atrasado justamente por ter sido interrogado por sua mãe naquele dia, e sua cabeça estava a milhão. Como ela podia ser tão severa depois de meses do ocorrido? Bom, não importava mais... Escola nova, vida nova, pensou. Dirigiu-se, depois de uma última olhada em direção à saída, para seu quarto, imaginando se a porta já estaria consertada.


Naquela noite, depois do jantar, os dois foram forçados a se encarar.

Vestindo somente uma toalha, Oliver acabara de voltar de seu banho. Despediu-se dos Weasley no corredor e tratou de entrar em seu quarto – agora com a porta consertada. Marcus estava recostado na escrivaninha, furioso com a quantidade de deveres que tinha para fazer. Parou por um momento para observar o garoto de cabelos castanhos – agora molhados – e acabou por ser perder em seu corpo: não que fosse deslumbrante nem nada de destaque. Era magro, mas ainda assim, com os músculos do tórax levemente definidos. Um jovem esguio, concluiu.

- Não vai tomar banho? – perguntou Oliver, chacoalhando a cabeça para se esquivar da franja que caia em seus olhos.

Não aconselhavam levar roupas ou pertences para o banheiro além dos trajados, por conta de reclamações passadas sobre acidentes e roubos. Assim, ele começou a mexer em sua mala até encontrar o pijama. Foi para detrás do beliche e pôs-se a tirar a toalha de si, apoiando-a na cama.

- Eu... – Marcus virou-se para encarar Oliver, o semblante mal humorado. Ao ver uma pequena parte das costas bem delineadas do outro, sentiu-se um tanto desconcertado e tratou de voltar o olhar para seus deveres – Eu não te devo satisfações! Acha que sou porco? Idiota...

"Malditos beliches...", pensou.

- Bom – agora já vestido, Oliver trepou até o topo do beliche, ajeitando-se nas cobertas – Boa noite, Marcus.

O outro mordeu os lábios, irado. Quantas vezes aquele impertinente ainda o chamaria pelo primeiro nome, naquele tom de voz que mesclava ameaça e desdém, indiferença e soberania? Maldito. Maldito seja, Oliver Wood!


Durante aquela semana, os dois ainda se desentenderam algumas vezes, principalmente à noite, quando eram obrigados a se aturarem. Mesmo assim, domingo chegou e, com ele, a seleção para os jogadores do time da escola. Ambos se inscreveram e, por isso, acordaram super agitados.

- Onde você enfiou minhas chuteiras, Flint? Não as encontro em lugar nenhum!

- E eu vou lá saber do seu pé de moça? – Flint sorriu, malicioso – Calço bem mais do que você.

- Não preciso do meu pé para compensar o tamanho de nada...

- HÁHÁHÁ! Boa piada! Não sei porque perco meu tempo com você, Oliver. Sempre tão sagaz... Veremos hoje como vai se sair.

"Melhor do que você", praguejava o mais magro dos dois, ao passo que suas chuteiras apareceram em meio à zona que eram suas roupas jogadas.

Saíram do quarto rápidos, percebendo que vários jogadores também corriam apressados pelos corredores dos dormitórios, amontoando-se à medida que estes se estreitavam. Todos tinham o mesmo destino: o grande gramado, o aclamado teste. Oliver chegou a estranhar, considerando-se que Hagrid havia dito que não havia muitos jogadores bons ali. Ele imaginou que haveria poucos para o teste, mas, pelo contrário, todos os estudantes pareciam confiantes.

"Talvez seja mais interessante assim... Quero liderar um time vencedor".

Chegando no campo, porém, começou o dilema.

O instrutor que havia lhe dado aula no começo daquela semana estava organizando os candidatos por seu interesse: os que queriam ser laterais estavam num canto da arquibancada, os atacantes em outro... Oliver não sabia exatamente qual deveria tentar, já que todos pareciam cheios de alunos mais talentosos que ele. Foi quando notou um pequeno grupo, de apenas cinco alunos, parado no centro do campo.

De começo, pensou serem indecisos como ele, mas, aparentemente, todos estavam gesticulando como se fossem goleiros. Oliver nunca havia tentado ficar no gol justamente por achar uma péssima posição coordenativa: não seria capaz de direcionar o time, dar conselhos nem ajudar na hora de armar jogadas... Nada. Estaria completamente isolado dos demais e, não obstante, impossibilitado de agir. Mesmo assim, era a posição com menos interessados, e ele não poderia qualquer oportunidade que lhe surgisse. Decidiu por juntar-se ao grupo, o olhar distante, procurando para onde Flint teria ido. Do jeito que era bruto, só poderia estar junto dos atacantes.

- E aí, Oliver, como vai? – perguntou um garoto.

- Ah, olá, Harry! Bem, bem... Não sabia que era chegado em ficar no gol.

- Na verdade... Eu sempre fui goleiro titular nas minhas antigas escolas. Não que eles tivessem alguma opção melhor, mas...

"Se soubesse, não teria posto Neville no gol", pensou Oliver, um tanto quanto espantado. Teria sido uma boa arriscar-se como goleiro? Os outros garotos ali não eram seus conhecidos, mas e se ele fosse o único que nunca jogou no gol? Ou pior: e se todos ali já tivessem sido titulares de suas antigas escolas? Não havia tempo para maiores questionamentos.

O inspetor gesticulou para que os goleiros se dividissem em dois grupos de três, indo cada um para um gol. Por fim, enfileirou os atacantes – além dos que se disseram capazes de não errar pênaltis, e ordenou que estes começassem a testar os goleiros. Oliver preferiu ficar por último, observando cautelosamente o desempenho dos demais, o medo de ter feito besteira ainda latejando – mesmo que suprimido.

Assim que acabaram, eis que chegou sua vez. Não vira os saldos do outro gol, mas, do que estava, Harry e o outro garoto haviam se saído normal - nada excepcional. Era a sua vez de mostrar que conseguiria sair da média e se mostrar alguém significativo para o time. Não só por uma questão de querer comandar, mas acima de tudo para fazer sua parte, para cumprir com sua função – para se destacar.

Começou muito bem, defendendo os cinco primeiros chutes com facilidade. Até mesmo o chute de Marcus, que fora forte e cruel, direto no ângulo, ele conseguiu defender sem muita dificuldade.

E foi assim, surpreendendo-se com sua própria destreza e rapidez em captar a linguagem corporal do garoto que estava para chutar e reagindo – certo – a ela, que Oliver Wood acabou por ser escalado como goleiro – para a surpresa de todos que o viram jogar de meio-campo no começo da semana.

Junto a ele, Marcus Flint foi escalado como reserva. Mesmo mostrando-se ágil durante a aula no começo da semana, Marcus não foi capaz de marcar tantos gols, errando muito a mira. Os Weasley, Harry, Lino e alguns outros conhecidos de vista completaram o time, e o instrutor os alertou que todos os seus domingos seriam dedicados ao futebol.

Com isso, todos foram para seus dormitórios, cansados não só por conta da atividade exaustiva que fora o teste, mas também pelo calor que fazia naquele dia.


Já era passada a hora do almoço quando Oliver e Marcus chegaram em seu quarto e começaram a separar suas coisas para banharem-se, o moreno encarando seu colega de forma assustadora.

"Maldito. Defendeu meu chute e ainda é titular...".

- Acho que devemos esperar um pouco, não? O banheiro deve estar lotado agora.

- E daí? Quem disse que eu vou tomar banho com você?! – esbravejou Marcus, saindo do quarto sem maiores justificativas.

"Criança...".

Oliver passou um simples desodorante e foi comer, decidido a fazer seus deveres na biblioteca logo em seguida. Não era muito fã de tarefas escolares – e já havia adiado estas por demais. Agora que havia sido escalado como goleiro titular, queria usar o máximo de tempo livre para treinar e, como já estava cansado, optou por adiantar algumas coisas para poder se dedicar ao físico depois.

Assim, acabou por voltar para seu dormitório já no fim da tarde, crente de que poderia separar suas coisas e ir tomar banho tranqüilamente – o alvoroço já deveria ter passado.

Quando se aproximou do quarto, porém, começou a ouvir sons estranhos. Primeiro, pensou que Marcus estivesse esbravejando com alguém, contudo, ouvindo mais atentamente, parecia estar chorando – ou algo próximo disso. Teria sua defesa abalado tanto o brutamontes? Não era possível.

Oliver abriu a porta sem pensar duas vezes, a curiosidade abafando qualquer sentimento de preocupação que pudesse florescer ali.

O que viu foi... É, uma experiência e tanto.